{"id":381254,"date":"2026-02-02T00:45:44","date_gmt":"2026-02-02T03:45:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=381254"},"modified":"2026-01-30T23:47:33","modified_gmt":"2026-01-31T02:47:33","slug":"um-conto-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-conto-da-pandemia\/","title":{"rendered":"Um conto da pandemia"},"content":{"rendered":"<p>Na verdade, ele n\u00e3o podia jurar que as cenas vistas, em seus sonhos, eram mesmo do futuro, ou simplesmente fruto de sua imagina\u00e7\u00e3o. Do presente n\u00e3o eram, com certeza: crian\u00e7as lourinhas fazendo bonecos de neve remetiam a inverno europeu, e o Velho Continente estava na primavera. Mas as imagens podiam ser do passado, elas estavam de m\u00e1scara. Com isso, j\u00e1 dava para datar. Em mar\u00e7o de 2020, in\u00edcio da pandemia, ainda estava bastante frio na Europa, mas, com os lockdowns, havia poucas probabilidades de crian\u00e7as brincarem na neve. Mais seguro pensar no frio seguinte, a partir, digamos, de novembro. Ent\u00e3o, de novembro-dezembro de 2020 at\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Este era o problema: at\u00e9 quando? Ele n\u00e3o sabia, ningu\u00e9m sabia. Ent\u00e3o resignou-se a ignorar, enquanto sonhava com um futuro em que as crian\u00e7as brincassem e rissem, apesar do rosto semiescondido por um peda\u00e7o de pano.<\/p>\n<p>Certo dia, teve um sonho empolgante: milhares e milhares de pessoas, sem m\u00e1scaras, se abra\u00e7avam e se beijavam na rua, enquanto o luminoso de Times Square (ele o vira numa viagem a Nova York e, depois, em dezenas de filmes) proclamava, It\u2019s over!!! Acabou!!!<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 pode ser o fim da pandemia\u201d, pensou, feliz da vida. Mas quando? Por mais encorajadora que fosse a imagem, dava frustra\u00e7\u00e3o n\u00e3o saber. Por outro lado, era a confirma\u00e7\u00e3o de que via mesmo cenas do futuro, n\u00e3o se tratava de um surto psic\u00f3tico como tantas vezes temera.<\/p>\n<p>Suas esperan\u00e7as se reacenderam meses depois, quando viu, pela TV, a transmiss\u00e3o ao vivo de um concerto que presenciara, em sonho, sete meses antes. Isso lhe permitiu quantificar o fen\u00f4meno: ele sonhava com coisas que iriam ocorrer sete meses depois. Passou ent\u00e3o a anotar cuidadosamente as datas de seus sonhos, mapeando o futuro. Ainda mais importante, como conhecia o tempo decorrido entre o sonho do concerto e o sonho de Times Square, tinha uma boa ideia de quando a pandemia iria terminar. Teve uma vontade imensa de avisar os parentes e amigos, de postar a not\u00edcia em suas redes sociais, mas resistiu, todos iriam consider\u00e1-lo um louco.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meses depois, de estalo, ele parou de sonhar com o futuro. Num dia, viu pessoas circulando nas ruas, sem m\u00e1scara, como faziam at\u00e9 fevereiro de 2020; no dia seguinte, nada. Nem um fragmento de sonho. Era como se tivesse perdido essa dimens\u00e3o de seu psiquismo. Ou ent\u00e3o&#8230; reprimiu a outra possibilidade, era terr\u00edvel demais para imaginar e ainda mais para dizer em voz alta.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que S\u00e9rgio continua a sonhar, mas agora tem os sonhos normais de um brasileiro maduro, de classe m\u00e9dia. Ent\u00e3o, h\u00e1 poucas chances de que seja um problema com seu universo on\u00edrico. A cada dia ele espera que as cenas vistas em Times Square apare\u00e7am na m\u00eddia. Quando aparecerem, ele sabe: tr\u00eas meses depois do fim da pandemia, tudo vai (pode?) acabar. Ou ent\u00e3o n\u00e3o, simplesmente seus sonhos com o futuro pararam por algum motivo, vai saber.<\/p>\n<p>Hoje, ele se esfor\u00e7a para aproveitar cada momento do tempo presente. E morre de saudades do passado, apesar das m\u00e1scaras inc\u00f4modas, do isolamento, das mortes em penca. E espera, tremendo de medo, que algo ainda mais terr\u00edvel aconte\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na verdade, ele n\u00e3o podia jurar que as cenas vistas, em seus sonhos, eram mesmo do futuro, ou simplesmente fruto de sua imagina\u00e7\u00e3o. Do presente n\u00e3o eram, com certeza: crian\u00e7as lourinhas fazendo bonecos de neve remetiam a inverno europeu, e o Velho Continente estava na primavera. 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