{"id":381272,"date":"2026-02-06T00:15:26","date_gmt":"2026-02-06T03:15:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=381272"},"modified":"2026-01-31T00:25:00","modified_gmt":"2026-01-31T03:25:00","slug":"jose-augusto-ganhou-o-apelido-de-pavimentador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jose-augusto-ganhou-o-apelido-de-pavimentador\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 Augusto ganhou o apelido de pavimentador"},"content":{"rendered":"<p>Ao chegar em S\u00e3o Paulo, aos 23 anos, Jos\u00e9 Augusto ganhou o apelido de \u201cpavimentador\u201d.<\/p>\n<p>N\u00e3o pegou, claro. Z\u00e9 Augusto ou Z\u00e9 s\u00e3o as designa\u00e7\u00f5es obrigat\u00f3rias de todo Jos\u00e9 Augusto que se preze. Mas o importante \u00e9 que o ensaio de apelido n\u00e3o o abalou, n\u00e3o o fez modificar seu comportamento; seguiu em frente, fazendo novos amigos e perdendo outros com igual rapidez, devido a suas pavimentadas. Pelo menos compreendeu que o termo era uma refer\u00eancia a sua falta de sensibilidade, ou antes, \u00e0 indiferen\u00e7a pelas dores alheias. Isso, quando n\u00e3o eram explicitadas; se fossem, comovia-se, tentava ajudar, mostrava-se solid\u00e1rio. Afinal, era uma boa pessoa; apenas, parecia incapaz de apreender sentimentos, ou mesmo situa\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o fossem declaradas. Vivia pela palavra, em fun\u00e7\u00e3o da palavra. Em raros momentos de autoconsci\u00eancia, pensava na obra de Magritte, Ceci n\u2019est pas une pipe, dava um sorriso, e admitia: \u201cSe n\u00e3o tivesse essa frase, eu n\u00e3o ia achar que era um cachimbo, n\u00e3o ia achar nada, ia passar batido\u201d.<\/p>\n<p>Vocabulocentrado, enveredou pelo jornalismo e se deu bem, gostava de brincar com palavras, de organiz\u00e1-las, para expressar situa\u00e7\u00f5es complexas. E simplesmente n\u00e3o lhe passou pela cabe\u00e7a que um pavimentador de carteirinha jamais teria essa sensibilidade. Vivia num nicho jornal\u00edstico palavroso, onde as coisas eram ditas, de modo que mais ou menos sabia como reagir, o que se esperava dele. E ali ficava, feliz como um pinto no lixo.<\/p>\n<p>O tempo passou, Z\u00e9 Augusto aposentou-se, e desandou a escrever contos. Ele, que jamais escrevera uma linha sem ser pago, que dizia sempre, brincando, n\u00e3o ter escrito a tese de doutorado \u2013 fora inscrito para um doutorado, na Fran\u00e7a, mil\u00eanios atr\u00e1s \u2013 \u201cpor n\u00e3o ter combinado o pre\u00e7o\u201d, passou a escrever por prazer. Com isso, as emo\u00e7\u00f5es em seu peito ganharam um canal de escoamento. Nos textos, vieram \u00e0 tona suas defici\u00eancias de sensibilidade. Em um conto, por exemplo, ele faz o personagem (ele mesmo, naturalmente) admitir que \u201cera um homem de sentimentos simples, por vezes superficiais. Isso (&#8230;) levava-o a n\u00e3o perceber bem emo\u00e7\u00f5es complexas que se manifestavam debaixo de seu nariz. Com as mulheres, ent\u00e3o, era uma calamidade. Se ele fosse ao cinema com uma mo\u00e7a, e ela levasse a m\u00e3o dele ao seio e murmurasse \u2018Segura aqui pra mim\u2019, ele seria capaz de perguntar \u2018Por qu\u00ea? Voc\u00ea vai aonde?\u2019<\/p>\n<p>Se, ao falar, ele era simplificador e por vezes brusco, quando escrevia era outra coisa. Talvez porque isso o obrigasse a pensar duas vezes, a reler, a corrigir, a editar \u2013 n\u00e3o por acaso, trabalhara a vida inteira no ramo editorial e, depois de aposentado, escrevia contos\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, por tr\u00e1s de seus textos, n\u00e3o estava tanto a necessidade de expressar emo\u00e7\u00f5es mais ou menos complexas quanto a de prosseguir com as brincadeiras com as palavras. Carlos Drummond de Andrade escreveu, \u201cLutar com palavras \u00e9 a coisa mais v\u00e3\u201d; Jos\u00e9 Augusto de Almeida parafraseou, \u201cBrincar com palavras \u00e9 coisa lou\u00e7\u00e3\u201d. Era isso, escrever, para ele, era algo divertido, at\u00e9 belo.<\/p>\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o d\u00e1 para andar com um laptop a tiracolo para redigir cada frase, expressar nuances de emo\u00e7\u00e3o e de significado, encontrar le mot juste, a palavra mais adequada, a cada resposta de uma conversa\u00e7\u00e3o. O Z\u00e9 Augusto contista percebeu que o pavimentador continuava por ali, que nem um encosto, atropelando os sentimentos alheios, quando percebeu (aleluia!!!) que lidava cada vez pior com a velhice, a sua e, em especial, a dos amigos. A menos que dissessem:<\/p>\n<p>&#8211; Porra, meu, t\u00f4 ferrado, sem grana, fiquei doente, passei uma semana na cama, achei que ia morrer&#8230;<\/p>\n<p>Ele enviava-lhes contos e implorava-lhes por curtidas.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o ela rompeu com ele. Ela, um antigo amor, a inspiradora de um romance que escreveu, apaixonado, sobre o reencontro dos dois na velhice; ela, um dos poucos remanescentes de sua juventude, que a grande maioria dos amigos ou morrera ou fora arrastada pelo destino para plagas desconhecidas. Rompeu por sua insensibilidade, pois sabia que ela estava doente mas nem se preocupava em perguntar pela seriedade da coisa. Foi como se o contista pavimentador pensasse, \u201cse est\u00e1 viva, pode ler e curtir meus contos\u201d. Foi uma pavimentada a mais. Uma demais.<\/p>\n<p>N\u00e3o terminou com ele, os dois n\u00e3o estavam juntos h\u00e1 quatro anos. N\u00e3o cortou rela\u00e7\u00f5es, seria demasiado, depois de 57 anos de presen\u00e7a na vida um do outro. Mas tornou-se uma amizade desesperada, quer dizer. sem esperan\u00e7a, um fio que vai se esgar\u00e7ando at\u00e9 finalmente romper-se, triste e silenciosamente.<\/p>\n<p>Quando a ficha finalmente caiu, e percebeu que ela iria cort\u00e1-lo de sua vida, Z\u00e9 Augusto pensou em n\u00e3o reagir. Haviam passado por uma s\u00e9rie de rupturas anteriores, mas os sentimentos compartilhados e um sem-n\u00famero de cumplicidades sempre haviam levado a uma reaproxima\u00e7\u00e3o. (O conto cuja passagem foi citada acima fora justamente escrito em uma dessas rupturas.) Mas, na \u00faltima conversa que tiveram, surgiu uma ideia nova: talvez sua incapacidade de perceber e respeitar sentimentos n\u00e3o ostensivamente declarados fosse n\u00e3o um tra\u00e7o de comportamento mas algo mais profundo, uma manifesta\u00e7\u00e3o de autismo. E talvez sua peritagem (magia \u00e9 forte demais) com as palavras fizesse dele um idiot savant, excelente em um pedacinho bem limitado do real.<\/p>\n<p>Mas velhos h\u00e1bitos custam a morrer, e Z\u00e9 Augusto escreveu um conto. Que foi imediatamente enviado a ela. N\u00e3o para reatar, os dois achavam melhor n\u00e3o; como um \u00faltimo boi de reisado, depois de haver-lhe escrito dezenas de textos e um romance de amor. Mais um boizinho, a derradeira v\u00eania, oferecido por um pavimentador involunt\u00e1rio, idiot savant da pesada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao chegar em S\u00e3o Paulo, aos 23 anos, Jos\u00e9 Augusto ganhou o apelido de \u201cpavimentador\u201d. N\u00e3o pegou, claro. Z\u00e9 Augusto ou Z\u00e9 s\u00e3o as designa\u00e7\u00f5es obrigat\u00f3rias de todo Jos\u00e9 Augusto que se preze. 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