{"id":381585,"date":"2026-02-05T01:15:27","date_gmt":"2026-02-05T04:15:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=381585"},"modified":"2026-02-02T03:40:05","modified_gmt":"2026-02-02T06:40:05","slug":"craque-improvavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/craque-improvavel\/","title":{"rendered":"Craque improv\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>\u2014 Anat\u00f3lio.<\/p>\n<p>\u2014 Quem?<\/p>\n<p>\u2014 A-na-t\u00f3-lio!<\/p>\n<p>\u2014 Conhe\u00e7o n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tem certeza?<\/p>\n<p>\u2014 Absoluta!<\/p>\n<p>\u2014 Hum&#8230; Estranho.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 estranho?<\/p>\n<p>\u2014 O senhor j\u00e1 \u00e9 a quarta pessoa para quem pergunto.<\/p>\n<p>\u2014 E pode perguntar pra mais cem, que ningu\u00e9m vai saber quem \u00e9 esse Anaf\u00f3bio.<\/p>\n<p>\u2014 Anat\u00f3lio!<\/p>\n<p>\u2014 Que seja!<\/p>\n<p>\u2014 Hum&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sabe dizer o que ele faz?<\/p>\n<p>\u2014 Joga bola.<\/p>\n<p>\u2014 Ih, assim fica dif\u00edcil, mo\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 que metade daqui joga bola, e a outra metade assiste.<\/p>\n<p>\u2014 Mas s\u00e3o todos bons de bola?<\/p>\n<p>\u2014 Bom, tem um tant\u00e3o. Mas se o senhor t\u00e1 falando de craque, a\u00ed s\u00f3 tem mesmo o Macarr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Macarr\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que o senhor n\u00e3o conhe\u00e7a o Macarr\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Pois deveria.<\/p>\n<p>\u2014 E onde posso encontrar esse Macarr\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 E por que o senhor quer saber onde o Macarr\u00e3o est\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 U\u00e9, voc\u00ea que disse que eu deveria conhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>\u2014 Hum&#8230; \u00c9 da pol\u00edcia?<\/p>\n<p>\u2014 Da pol\u00edcia? Eu?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. E quem mais poderia de ser?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sou da pol\u00edcia, meu senhor.<\/p>\n<p>\u2014 E quem agarante que n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Sou jornalista.<\/p>\n<p>\u2014 Jornalista?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Trabalho no Notibras.<\/p>\n<p>\u2014 Hum&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Meu nome \u00e9 Mathuzal\u00e9m J\u00fanior.<\/p>\n<p>\u2014 Mathu o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Ma-thu-za-l\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Que nome mais engra\u00e7ado da piula!<\/p>\n<p>\u2014 E ent\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Como posso conhecer esse Macarr\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Venha no domingo que vem. Se o nosso time estiver em apuros, o Macarr\u00e3o vai aparecer.<\/p>\n<p>Sem ter mais o que dizer, o velho me dispensou com certo olhar de desconfian\u00e7a. Mesmo assim, n\u00e3o tinha mais o que fazer ali no Sol Nascente e voltei para reda\u00e7\u00e3o do jornal, onde conversei com o Wenceslau Ara\u00fajo e o Armando Cardoso, meus companheiros de Notibras. Sem alternativa melhor, eles falaram para eu retornar ao local no domingo seguinte para, ent\u00e3o, tentar uma entrevista com o suposto maior craque do futebol de v\u00e1rzea do Distrito Federal.<\/p>\n<p>S\u00e1bado, quase onze horas da noite, estava t\u00e3o ansioso, que meus olhos continuvam vidrados. Precisei recorrer a um son\u00edfero, devidamente prescrito por meu psiquiatra. Digo isso para evitar coment\u00e1rios maldosos por parte de algum leitor mais atrevido. Seja como for, no domingo, acordei com o irritante alarme do celular.<\/p>\n<p>Depois de tomar duas x\u00edcaras de caf\u00e9 sol\u00favel, peguei as chaves do meu Corcel 73 e fui ouvindo &#8220;Ouro de tolo&#8221;, do saudoso Raul Seixas, at\u00e9 o Sol Nascente, onde os atletas de fim de semana j\u00e1 se preparavam para a t\u00e3o aguardada partida de futebol. Uma pequena e animada plateia fazia a maior quizumba. N\u00e3o tardou, avistei o sujeito que havia conversado comigo na semana anterior.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor veio mesmo!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o falei que vinha?<\/p>\n<p>\u2014 Falou, mas pensei que n\u00e3o fosse aparecer.<\/p>\n<p>\u2014 Pois aqui estou, meu amigo.<\/p>\n<p>Soube que o time visitante era do Itapo\u00e3. Os atletas pareciam estivadores, tamanha a quantidade de m\u00fasculos que ostentavam. J\u00e1 o escrete da casa n\u00e3o ficava atr\u00e1s. Cada galalau de fazer medo ao pr\u00f3prio Bicho-Pap\u00e3o.<\/p>\n<p>O juiz, n\u00e3o mais de um metro e meio, empertigado igual \u00e0 camisa engomada, com um sonoro apito, finalmente anunciou o in\u00edcio da peleja. N\u00e3o tardou, o suor escorria pelas faces e corpos rudes, enquanto, vez ou outra, o sangue esguichava, seja por consequ\u00eancia de um pontap\u00e9, seja por uma cotovelada mal-intensionada.<\/p>\n<p>Apesar dos esfor\u00e7os dos dois times, o placar do primeiro tempo permaneceu em branco. Entretanto, logo que iniciou a etapa final, eis que Juca Sarrafo marcou para o Itapo\u00e3. Sem perder tempo, o t\u00e9cnico da equipe da casa cochichou algo no ouvido de um moleque magricela, que saiu desembestado do local. Observei aquilo e tive certeza de que, finalmente, iria conhecer o afamado Macarr\u00e3o.<\/p>\n<p>Os minutos seguintes foram da mais pura expectativa. Meu pesco\u00e7o j\u00e1 come\u00e7ava a doer, de tanto virar para c\u00e1 e para l\u00e1 em busca do craque. Mas nada! Ali\u00e1s, durante a espera, o Itapo\u00e3 aumentou o placar, para desespero da torcida, que come\u00e7ava a dar sinais de que algo pior poderia acontecer, caso a peleja terminasse com uma derrota para o time da casa.<\/p>\n<p>Mais alguns instantes, eis que o moleque retornou acompanhado de um sujeito franzino, cujos cambitos pareciam fr\u00e1geis gravetos. Seria aquele o tal Macarr\u00e3o? N\u00e3o demorou, meu questionamento foi respondido com dribles que poderiam ser assinados pelo pr\u00f3prio Garrincha.<\/p>\n<p>Gingada pra c\u00e1, gingada pra l\u00e1, Macarr\u00e3o invadiu a \u00e1rea e pimba na chulipa, diminuiu a diferen\u00e7a. Mal o juiz apitou o rein\u00edcio do jogo, a bola chegou aos p\u00e9s do g\u00eanio, que, apesar de n\u00e3o ter as famosas pernas tortas, entortou quantos marcadores quis e, impetuosamente, chutou entre as pernas do arqueiro, empatando a partida.<\/p>\n<p>O t\u00e9cnico do Itapo\u00e3 esbravejou com seus atletas. Pediu marca\u00e7\u00e3o firme sobre o Macarr\u00e3o. Pobre escrete visitante. Mas como marcar o imarc\u00e1vel? Imposs\u00edvel que estava naquela bela e ensolarada manh\u00e3 de domingo, o craque improv\u00e1vel marcou mais um e, antes do apito final, o placar anotava 6 a 2.<\/p>\n<p>Embasbacado, boquiaberto, estupefato que fiquei, corri para o campo a fim de tentar arrancar algumas palavras do dono da bola. Que nada, a pol\u00edcia estava no local e correu no encal\u00e7o do Macarr\u00e3o, que driblou a todos com a desenvoltura que lhe \u00e9 t\u00e3o pr\u00f3pria. Sumiu no meio da multid\u00e3o, enquanto eu, ao lado do meu velho companheiro da semana passada, apenas tive tempo de dizer:<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, meu amigo, voc\u00ea tinha raz\u00e3o. Esse Macarr\u00e3o \u00e9 o maior! Nunca vi t\u00e3o liso assim.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014 Anat\u00f3lio. \u2014 Quem? \u2014 A-na-t\u00f3-lio! \u2014 Conhe\u00e7o n\u00e3o. \u2014 Tem certeza? \u2014 Absoluta! \u2014 Hum&#8230; Estranho. \u2014 O que \u00e9 estranho? \u2014 O senhor j\u00e1 \u00e9 a quarta pessoa para quem pergunto. \u2014 E pode perguntar pra mais cem, que ningu\u00e9m vai saber quem \u00e9 esse Anaf\u00f3bio. \u2014 Anat\u00f3lio! \u2014 Que seja! \u2014 Hum&#8230; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":381586,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-381585","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/381585","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=381585"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/381585\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":381588,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/381585\/revisions\/381588"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/381586"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=381585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=381585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=381585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}