{"id":382009,"date":"2026-02-06T00:45:11","date_gmt":"2026-02-06T03:45:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=382009"},"modified":"2026-02-05T20:57:57","modified_gmt":"2026-02-05T23:57:57","slug":"seu-cico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/seu-cico\/","title":{"rendered":"Seu Ci\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>\u201cFilho de Raimundo Nonato n\u00e3o leva desaforo pra casa\u201d. Esse era o bord\u00e3o repetido por Seu Ci\u00e7o quando contava uma das hist\u00f3rias sobre seus atos de valentia l\u00e1 em sua terra natal. Muitos diziam que eram bravatas, mas ele sempre as contava com toda a riqueza de detalhes e, se n\u00e3o fossem verdadeiras, eram fic\u00e7\u00f5es muito bem constru\u00eddas, pois jamais algu\u00e9m, por mais que tentasse, conseguia peg\u00e1-lo em contradi\u00e7\u00e3o. De todo modo, como tinha fama de poucos amigos, por precau\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m ousava desafi\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Cicero de Souza Arruda, oriundo de uma pequena cidade no interior do Cear\u00e1, chegou sozinho a S\u00e3o Paulo, j\u00e1 adulto, mas ainda jovem, em meados dos anos 1950, em um pau-de-arara, em busca de uma vida melhor. Conheceu a esposa por aqui, mas pouco mais de dez anos depois do casamento ela veio a falecer de uma doen\u00e7a n\u00e3o diagnosticada. A viuvez o tornou uma pessoa totalmente amarga e isolada, pois n\u00e3o tinha filhos e nem parentes por aqui.<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o de sua fisionomia sisuda, os moleques da rua tinham muito medo dele, a ponto de ao passarem em frente \u00e0 casa e o virem no port\u00e3o, apressavam o passo e baixavam a cabe\u00e7a. Mas quando n\u00e3o o avistavam, n\u00e3o resistiam \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de o provocar, fazendo algazarra na frente da casa, ou tocando a campainha para depois correrem; e, claro, uma bola, invariavelmente, acabava caindo no quintal e, ocasionalmente, acertando alguma janela.<\/p>\n<p>Em uma das vezes em que jogavam pelada bem em frente \u00e0 resid\u00eancia do temido vizinho, o melhor lugar da rua, pois era a parte mais plana, aconteceu mais uma vez de a bola parar dentro do quintal. Um garoto franzino, mas muito ladino, cujo pai era o Peixe, outra figura folcl\u00f3rica do Bairro, por isso era conhecido pela alcunha de Peixinho, liderava o grupo, apesar de haver entre eles, meninos mais velhos e mais fortes, era tamb\u00e9m quem sempre assumia a arriscada miss\u00e3o e dessa vez n\u00e3o foi diferente, sem titubear, pulou o port\u00e3o da casa, mas, por azar, antes que pudesse resgatar o objeto, o propriet\u00e1rio apareceu e o pegou em flagrante. Nesse momento, todos correram, deixando Peixinho sozinho para tentar contornar a situa\u00e7\u00e3o constrangedora e perigosa.<\/p>\n<p>Para sua surpresa, no entanto, Seu Ci\u00e7o consentiu reaver a bola e ainda abriu o port\u00e3o para ele n\u00e3o precisar pular de volta. Antes de sair, por\u00e9m, o homem o deteve e puxou conversa, dizendo lembrar de sua inf\u00e2ncia no sert\u00e3o, onde tamb\u00e9m gostava de jogar bola com os amigos. Peixinho n\u00e3o tinha maturidade para verbalizar o sentimento provocado por aquela situa\u00e7\u00e3o, mas intuiu que, no fundo, o nordestino mal-encarado, n\u00e3o era mau sujeito, mas muito solit\u00e1rio, isso sim, e at\u00e9 sentiu pena dele.<\/p>\n<p>Ainda admirado com aquela experi\u00eancia inusitada, ao reencontrar seus amigos, contou o sucedido e apesar da incredulidade de todos, consideraram a possibilidade de mudar seu comportamento em rela\u00e7\u00e3o ao vizinho carrancudo. E assim o fizeram, passando a cumpriment\u00e1-lo e at\u00e9 puxavam assunto. Com o tempo, os contatos entre ambos os lados foram ficando cada vez mais descontra\u00eddos e frequentes. Se reuniam em frente ao port\u00e3o da casa para ouvir suas hist\u00f3rias e ele at\u00e9 chegava a sorrir, um leve sorriso nost\u00e1lgico, ao lembrar do passado feliz.<\/p>\n<p>A maior parte dos casos era sobre as reminisc\u00eancias da inf\u00e2ncia no interior do Cear\u00e1 e a interessada plateia ouvia com aten\u00e7\u00e3o; de como enfrentou um carcar\u00e1 para salvar uma cabrita quase capturara pela \u00e1guia do sert\u00e3o, de como subiu para apanhar caju em um p\u00e9 onde havia uma caixa de marimbondos, de sua t\u00e9cnica para apanhar curimat\u00e3 sem anzol no a\u00e7ude da regi\u00e3o onde morava, entre centenas de outras fa\u00e7anhas.<\/p>\n<p>Certo dia, no entanto, deixou a molecada de cabelos em p\u00e9 ao narrar a hist\u00f3ria de um vaqueiro metido a valent\u00e3o que andava por l\u00e1, de bar em bar, arrumando confus\u00e3o com todo mundo, seu nome era Ladislau e ao encontrar o moleque Ci\u00e7o sozinho no caminho do armaz\u00e9m, indo fazer compras para a m\u00e3e, n\u00e3o perdeu a oportunidade de lhe dar uns cascudos em repres\u00e1lia \u00e0s in\u00fameras traquinagens aprontadas a ele pela turma da qual o menino Ci\u00e7o fazia parte.<\/p>\n<p>Ao voltar para a casa, vendo a m\u00e3e ocupada com os afazeres na cozinha, furtivamente entrou no quarto dos pais e sobre o guarda-roupas, em uma caixa empoeirada, em meio a um monte de pap\u00e9is, fotos e outros objetos de pouca utilidade, apanhou a arma. Correu para uma trilha nas proximidades, caminho obrigat\u00f3rio de Ladislau, atocaiou-se no mato e esperou pacientemente. \u01eauando avistou o baderneiro, sem vacilar, apontou a arma e com um tiro certeiro atingiu a testa de seu agressor que caiu se esvaindo em sangue.<\/p>\n<p>Muito assustado, mas, ao mesmo tempo, orgulhoso e feliz por sua vingan\u00e7a, correu de volta \u00e0 casa, recolocou a arma no lugar, deitou-se na cama, chamou a m\u00e3e se dizendo doente. Durante v\u00e1rios dias, enquanto o assassinato do brig\u00e3o repercutia no lugarejo, Ci\u00e7o n\u00e3o saiu debaixo das cobertas. Passado esse tempo, na aus\u00eancia de testemunhas, nenhum suspeito foi identificado e o caso esfriou, ele, ent\u00e3o, pode respirar aliviado, sem qualquer resqu\u00edcio de remorso, ao contr\u00e1rio, considerava-se um benfeitor da comunidade. Foi nesse dia que cunhou seu lema: \u201cfilho de Raimundo Nonato n\u00e3o leva desaforo pra casa!\u201d<\/p>\n<p>Peixinho e seus colegas de aventuras, ainda chocados com a hist\u00f3ria que acabavam de ouvir, n\u00e3o podiam suspeitar do que ainda lhes reservava aquele mesmo dia. No in\u00edcio da noite, como sempre, o, agora, amigo da turma, foi at\u00e9 a padaria pr\u00f3xima para comprar p\u00e3o e leite, pois n\u00e3o tinha o costume de jantar, em vez disso preparava um caf\u00e9 refor\u00e7ado antes de se recolher para uma noite de sono.<\/p>\n<p>Normalmente se demorava um pouco por l\u00e1 ao encontrar alguns parceiros de copo os acompanhando em uma cachacinha e conversando sobre futilidades e assuntos s\u00e9rios, como futebol, torcedor fan\u00e1tico do Fortaleza que era. Naquele dia, contudo, voltou rapidamente, apagou todas as luzes, normalmente acesas at\u00e9 bem mais tarde, e, aparentemente, foi dormir.<\/p>\n<p>Aproximadamente uns 30 a 40 minutos ap\u00f3s isso, ouve-se na rua um grande rumor e luzes freneticamente piscantes. Uma, duas, tr\u00eas e logo quatro viaturas de pol\u00edcia com suas sirenes ligadas, estacionam \u00e0 frente da casa; de dentro saltam uns dez ou mais policiais, pulam o muro e, esmurrando a porta, come\u00e7am a chamar em voz alta:<\/p>\n<p>&#8211; Senhor C\u00edcero! \u00c9 a pol\u00edcia! A casa est\u00e1 cercada! O senhor \u00e9 suspeito de um assassinato! Vamos conduzi-lo at\u00e9 a delegacia para prestar depoimento.<\/p>\n<p>Um m\u00eas depois o vizinho ainda n\u00e3o havia retornado. Dizem pelo bairro, ter assumido o crime. Segundo consta, naquele dia ocorreu um desentendimento na padaria entre ele e um dos homens bebendo ao redor do balc\u00e3o. N\u00e3o era a primeira vez que se estranhavam. A discuss\u00e3o escalou e apanhando uma grande faca por sobre o balc\u00e3o do estabelecimento, golpeou o sujeito no abdome. Ainda de acordo com os relatos, ao ouvir a confiss\u00e3o, o delegado perguntou a ele porque havia feito aquilo. Ao que Seu Ci\u00e7o respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Filho de Raimundo Nonato nunca levou desaforo para casa!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cFilho de Raimundo Nonato n\u00e3o leva desaforo pra casa\u201d. Esse era o bord\u00e3o repetido por Seu Ci\u00e7o quando contava uma das hist\u00f3rias sobre seus atos de valentia l\u00e1 em sua terra natal. 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