{"id":382041,"date":"2026-02-07T01:00:03","date_gmt":"2026-02-07T04:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=382041"},"modified":"2026-02-05T23:07:00","modified_gmt":"2026-02-06T02:07:00","slug":"sob-o-ceu-carregado-fios-prateados-sao-testemunho-da-vida-bem-vivida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sob-o-ceu-carregado-fios-prateados-sao-testemunho-da-vida-bem-vivida\/","title":{"rendered":"Sob o c\u00e9u carregado, fios prateados s\u00e3o testemunho da vida bem vivida"},"content":{"rendered":"<p>Sa\u00ed de casa ainda cedo, quando a cidade mal decide se desperta ou se apenas muda de lado no travesseiro e dorme mais cinco minutinhos. O carro, esse pequeno universo de vidro e metal, seguia pela rotina de sempre: sem\u00e1foros, cruzamentos, buzinas nervosas, \u00f4nibus pesados, a pressa alheia atravessando faixas como se cada minuto fosse a partida de uma maratona. Eu conduzia sem qualquer hero\u00edsmo, com o pensamento meio fora de mim, ouvindo uma \u00e1spera voz no r\u00e1dio, e foi ao levantar os olhos para o retrovisor, um gesto prosaico, autom\u00e1tico, quase defensivo, que me vi por um instante, como quem se surpreende numa fotografia antiga que n\u00e3o lembrava ter tirado.<\/p>\n<p>O c\u00e9u era cinzento, um cinza sem drama, de manh\u00e3 \u00fatil em que uma chuva amea\u00e7a desabar. No mesmo cinza descobri, com uma nitidez quase cruel, os cabelos que j\u00e1 n\u00e3o eram meus como eu os imaginava: nas t\u00eamporas, na borda do que um dia foi uma linha firme, havia fios brancos, alguns j\u00e1 decididos, outros vacilantes, como se ainda pedissem permiss\u00e3o para existir. N\u00e3o era apenas \u201cbranco\u201d; era um tom de prata cansada, de fuma\u00e7a, de nuvem baixa. Foi ent\u00e3o que o cinza do alto e o cinza do rosto se reconheceram, como duas coisas parentes que enfim se encontram e n\u00e3o precisam se apresentar uma \u00e0 outra.<\/p>\n<p>A gente passa a vida acreditando que o tempo \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o, um conceito, um assunto para fil\u00f3sofos e anivers\u00e1rios. Mas ele se denuncia nos detalhes, com a discri\u00e7\u00e3o dos fatos irrecorr\u00edveis. Lembrei-me de coisas que n\u00e3o testemunhei, mas que vi em velhas casas, em rumos de estradas abandonadas, sinuosas demais para o mundo de agora. Entendi que a mem\u00f3ria tamb\u00e9m embranquece: ela simplifica, encurta, depura, rompe grilh\u00f5es como se o tempo fosse reduzindo a realidade ao essencial. E, no entanto, eu estava ali, com o volante nas m\u00e3os, umas m\u00e3os experientes, e aquele retrovisor, esse pequeno delator da vida, me devolvia a prova material de que muita \u00e1gua j\u00e1 correra por baixo da ponte do meu nome.<\/p>\n<p>Pensei, ent\u00e3o, no que foi preciso viver para chegar \u00e0queles fios. Revi-me nas alegrias que n\u00e3o fazem barulho e nos sustos que fazem. Nas perdas que silenciam a casa inteira. Nos encontros que reorganizam o mundo. Nos trabalhos que consomem as horas como um bico de g\u00e1s mi\u00fado e insistente. Nas noites em que o corpo n\u00e3o descansa porque a mente insiste em reescrever, em refazer, em imaginar. Cada cabelo branco, percebi, n\u00e3o \u00e9 um defeito, mas um pequeno registro, sem carimbo nem autentica\u00e7\u00e3o, mas com f\u00e9 p\u00fablica de que eu atravessei dias e n\u00e3o desisti de permanecer.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem os combata como se fossem uma afronta est\u00e9tica, como se a vida tivesse o dever de manter-se jovem por decoro. Mas, olhando de novo, com um certo respeito que n\u00e3o tive na primeira vista, compreendi que aqueles fios s\u00e3o privil\u00e9gio, sim \u2014 e privil\u00e9gio no sentido mais s\u00e9rio da palavra: sinal de que n\u00e3o fui interrompido cedo demais, de que cheguei at\u00e9 aqui inteiro o suficiente para notar. O branco \u00e9 um trof\u00e9u discreto. N\u00e3o se exibe numa prateleira, n\u00e3o d\u00e1 foto bonita, mas diz, com sobriedade, que houve batalha, houve estrada, houve continuidade.<\/p>\n<p>Quando estacionei e o motor se calou, o c\u00e9u continuava cinzento e a chuva se aproximava ainda mais. N\u00e3o obstante, em um pequeno trecho, uma claridade t\u00edmida, como se o dia concedesse, por fim, uma tr\u00e9gua. Antes de abrir a porta, toquei de leve as t\u00eamporas, n\u00e3o para conferir se era verdade, mas como quem cumprimenta um velho conhecido, desses que chegam sem alarde e ficam. Desci para trabalhar com uma esp\u00e9cie de serenidade nova, aceitando que a vida, quando nos permite envelhecer, n\u00e3o est\u00e1 nos punindo: est\u00e1 nos condecorando, ainda que a medalha seja feita de fios finos, silenciosos, e de um cinza que combina com o c\u00e9u prestes a desabar.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi, poeta e advogado carioca, \u00e9 editor de Notibras ao lado de Eduardo Mart\u00ednez e Cecilia Baumann. Leciona na Universidade Candido Mendes. Escreveu os livros &#8220;A Verdade nos Seres&#8221; e &#8220;Territ\u00f3rio do Sonho&#8221;.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sa\u00ed de casa ainda cedo, quando a cidade mal decide se desperta ou se apenas muda de lado no travesseiro e dorme mais cinco minutinhos. 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