{"id":382119,"date":"2026-02-06T12:58:25","date_gmt":"2026-02-06T15:58:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=382119"},"modified":"2026-02-06T12:58:25","modified_gmt":"2026-02-06T15:58:25","slug":"o-coracao-das-trevas-de-criancas-inocentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-coracao-das-trevas-de-criancas-inocentes\/","title":{"rendered":"O cora\u00e7\u00e3o das trevas de crian\u00e7as inocentes"},"content":{"rendered":"<p>O cora\u00e7\u00e3o das trevas, obra-prima de Joseph Conrad, \u00e9 um pequeno romance, de pouco mais de 150 p\u00e1ginas, \u201co mais intenso de todos os relatos que a imagina\u00e7\u00e3o humana jamais concebeu\u201d, disse o labir\u00edntico Jorge Lu\u00eds Borges. A a\u00e7\u00e3o se passa no Congo, \u00c1frica, no s\u00e9culo 19. Francis Ford Coppola o transp\u00f4s para os revolucion\u00e1rios meados do s\u00e9culo 20, para a guerra do Vietn\u00e3, no cl\u00e1ssico dos cl\u00e1ssicos dos filmes de guerra, Apocaypse Now. O Cora\u00e7\u00e3o das Trevas cai, como luva, \u00e0 Amaz\u00f4nia. Como golpe de navalha seccionando tecido humano, obsceno como ataque de hienas, a face obscura da Amaz\u00f4nia, o Inferno Verde, o latejar da escurid\u00e3o, espasmos da alma amaz\u00f4nida, a loucura e o malogro da civiliza\u00e7\u00e3o colonialista.<\/p>\n<p>De repente, o mundo se volta, raivoso, para a Amaz\u00f4nia, como lobo em pele de cordeiro, pele surrada, a l\u00e3 bastante suja, repetindo que quer o bem da Amaz\u00f4nia, mas, que, na verdade, quer seus bens. A Amaz\u00f4nia, o mais belo realismo fant\u00e1stico da Terra, a mais rica prov\u00edncia mineral do mundo, a maior diversidade biol\u00f3gica do planeta, \u00e9 saqueada desde o s\u00e9culo XVI. Pot\u00eancias europeias, americanos, o Foro de S\u00e3o Paulo, todos t\u00eam repasto garantido na Amaz\u00f4nia. \u00c9 assim que o subcontinente vem sendo assaltado, estuprado, currado, desde sempre.<\/p>\n<p>Mas, verdade seja dita, o inc\u00eandio mais infame que ocorre na floresta dissemina-se na mente dos pr\u00f3prios amaz\u00f4nidas: a mentalidade de colonizado, o curvar-se a pol\u00edticos e empres\u00e1rios corruptos. Essa \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o mais cr\u00f4nica na col\u00f4nia, causa e perpetua\u00e7\u00e3o de uma das n\u00f3doas mais negras da humanidade: a escravid\u00e3o sexual de crian\u00e7as. Nos dias de hoje, leva-se, de l\u00e1, a floresta, energia hidrel\u00e9trica, min\u00e9rios, pedras preciosas, animais, mulheres e crian\u00e7as. A Amaz\u00f4nia \u00e9 um dos locais onde mais se escraviza hoje no mundo. A Interpol francesa calcula que a rede internacional de tr\u00e1fico de pessoas movimenta cerca de US$ 9 bilh\u00f5es por ano.<\/p>\n<p>Um caso que aconteceu em novembro de 2007, em Abaetetuba, cidade no quintal de Bel\u00e9m, constitui-se uma met\u00e1fora da Amaz\u00f4nia. Delegados da Pol\u00edcia Civil do Par\u00e1, com a coniv\u00eancia de gente do Judici\u00e1rio, atiraram uma menina a dezenas de criminosos na cadeia da cidade. Essa crian\u00e7a foi currada, dia ap\u00f3s dia, durante um m\u00eas. Assassinos, estupradores, espancadores de mulheres e crian\u00e7as, ladr\u00f5es, arrombadores, batedores de bolsa de velhinhas, psicopatas, drogados, ca\u00edram em cima da garotinha como hienas, e os policiais, ali perto, ouvindo e vendo tudo.<\/p>\n<p>Os berros de terror eram ouvidos pelos delegados e pelos moradores da cidade, j\u00e1 que a delegacia era um pr\u00e9dio velho praticamente aberto para a rua, e ningu\u00e9m moveu uma palha pela menina. \u201cMinha filha tinha cabelos lindos e encaracolados que iam at\u00e9 o meio das costas\u201d \u2013 disse a m\u00e3e da jovem. \u201cCortaram o cabelo dela com um ter\u00e7ado (fac\u00e3o) para disfar\u00e7ar que se tratava de uma menina. Cortaram \u00e9 modo de dizer, escalpelaram a minha filha.\u201d O tempo todo, L ficou com as roupas que usava ao ser presa, uma saia curta e blusinha, cobrindo seios adolescentes. Ela media 1,40 metro. \u201cAqui, no Par\u00e1, colocar homem e mulher na mesma cela \u00e9 mais comum do que se imagina\u201d \u2013 disse, na \u00e9poca, frei Fl\u00e1vio Giovenale, bispo de Abaetetuba. H\u00e1 caso de atirarem uma mulher a 70 presos.<\/p>\n<p>\u201cEra um show isso daqui. Todo mundo sabia que a menina estava l\u00e1 no meio daqueles homens todos, mas ningu\u00e9m falava nada\u201d \u2013 disse uma mulher na delegacia a jornalistas. \u201cAntes de comer, os presos se serviam dela\u201d \u2013 afirmou outra mulher, explicando que a menina s\u00f3 comia se n\u00e3o dificultasse a curra. \u201cEla gritava e pedia comida para quem passava, chamava a aten\u00e7\u00e3o para si, e, como ela era conhecida por aqui, n\u00e3o dava para ignorar\u201d \u2013 afirmou outra mulher, explicando que era poss\u00edvel ver e ouvir da rua muito do que se passava na delegacia.<\/p>\n<p>Seis delegados estiveram na delegacia durante o supl\u00edcio da jovem. A delegada plantonista respons\u00e1vel pelo flagrante foi Fl\u00e1via Ver\u00f4nica Monteiro e o delegado titular de Pol\u00edcia de Abaetetuba, Celso Viana. \u201cEmbora ela estivesse misturada com os homens, o setor onde ela estava \u00e9 aberto e permite uma ampla vis\u00e3o de qualquer policial\u201d \u2013 declarou o delegado Celso Viana. Fl\u00e1via Ver\u00f4nica Pereira e tr\u00eas policiais tinham conhecimento dos estupros. Nada fizeram. E policiais amea\u00e7aram a menina de morte se n\u00e3o participasse de fraude em cart\u00f3rio para lhe alterar a idade na certid\u00e3o de nascimento.<\/p>\n<p>O delegado Celso Viana alegou em depoimento que a adolescente disse ser maior de idade e afirmou que a responsabilidade da pris\u00e3o da menor seria do sistema penal, e a delegada Fl\u00e1via Ver\u00f4nica Monteiro afirmou que foi enganada ao ver o documento falso da jovem, indicando que ela tinha 20 anos. Fl\u00e1via disse ainda que n\u00e3o transferiu a adolescente da delegacia para outra institui\u00e7\u00e3o porque esse procedimento s\u00f3 poderia ser feito com ordem judicial.<\/p>\n<p>Em 27 de novembro de 2007, durante audi\u00eancia p\u00fablica na Comiss\u00e3o de Direitos Humanos do Senado Federal, o ent\u00e3o delegado-geral do estado do Par\u00e1, Raimundo Benassuly Mau\u00e9s J\u00fanior, insinuou que a jovem \u00e9 que foi respons\u00e1vel pelo epis\u00f3dio e que devia ter \u201calguma debilidade mental\u201d por n\u00e3o ter dito que era menor de idade. \u201cN\u00e3o sou m\u00e9dico legista nem tenho forma\u00e7\u00e3o na \u00e1rea, mas essa mo\u00e7a tem certamente algum problema, alguma debilidade mental. Ela, em nenhum momento, declarou sua menoridade penal\u201d \u2013 afirmou o g\u00eanio.<\/p>\n<p>No dia 3 de outubro de 2013, leio na m\u00eddia que a ju\u00edza Clarice Maria de Andrade Rocha, que atuava em Abaetetuba quando a adolescente esteve presa, fora promovida, um dia antes, pelo Tribunal de Justi\u00e7a do Par\u00e1, a titular da Vara de Crimes contra Crian\u00e7as e Adolescentes de Bel\u00e9m. Segundo portaria da desembargadora Luzia Nadja Guimar\u00e3es Nascimento, o crit\u00e9rio para a promo\u00e7\u00e3o de Clarice foi por merecimento.<\/p>\n<p>Clarice Maria de Andrade foi considerada omissa pelo Conselho Nacional de Justi\u00e7a (CNJ) durante o per\u00edodo em que a jovem paraense foi supliciada, e recebeu a puni\u00e7\u00e3o de aposentadoria compuls\u00f3ria, em 2010. Mas a Associa\u00e7\u00e3o dos Magistrados do Par\u00e1 (Amepa) recorreu da decis\u00e3o e a aposentadoria foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que entendeu que a puni\u00e7\u00e3o foi exagerada, j\u00e1 que a magistrada n\u00e3o teria como saber da situa\u00e7\u00e3o da carceragem da delegacia de Abaetetuba.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que quando o caso estourou na m\u00eddia, em novembro de 2007, a ent\u00e3o governadora do Par\u00e1, a petista Ana J\u00falia Carepa, tratou-o com habitual aliena\u00e7\u00e3o, e tudo mergulhou no esquecimento. Ali\u00e1s, crian\u00e7as s\u00e3o emblem\u00e1ticas na trag\u00e9dia da Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>Em 1979, fiz, para o antigo mens\u00e1rio Varadouro, em Rio Branco, extremo oeste da Hileia, reportagem sobre o tr\u00e1fico de meninas pela BR-364, espinha dorsal do Acre, ligando o estado ao resto do pa\u00eds. Frequentei boates e bares, pontos de encontro de caminhoneiros, entrevistei prostitutas e rodovi\u00e1rios, e pesquisei em registros policiais, concluindo que parte dessas meninas que sumiam em Rio Branco era atirada em prost\u00edbulos de Porto Velho, Manaus e Goi\u00e2nia. Outras, simplesmente fugiam da mis\u00e9ria. Quarenta anos depois a situa\u00e7\u00e3o piorou, e muito. A trag\u00e9dia, que afeta toda a Amaz\u00f4nia, foi ampliado em escala assustadora.<\/p>\n<p>Foram identificadas 76 rotas de tr\u00e1fico de mulheres, crian\u00e7as e adolescentes na Amaz\u00f4nia, segundo a Pesquisa sobre Tr\u00e1fico de Mulheres, Crian\u00e7as e Adolescentes para Fins Sexuais, coordenada pelo Centro de Refer\u00eancia, Estudos e A\u00e7\u00f5es sobre Crian\u00e7as e Adolescentes (Cecria) e pela Comiss\u00e3o Parlamentar Mista de Inqu\u00e9rito da Explora\u00e7\u00e3o Sexual, do Congresso Nacional.<\/p>\n<p>Nesse com\u00e9rcio negro, assim como ocorre com pol\u00edticos corruptos, a imunidade, digo, impunidade, \u00e9 garantida. O holand\u00eas Kunathi, um dos maiores traficantes de pessoas, em atividade na Amaz\u00f4nia, j\u00e1 foi preso em flagrante no Par\u00e1, mas a Justi\u00e7a o soltou para responder ao processo em liberdade. N\u00e3o deu outra, Kunathi fugiu para o Suriname, antiga Guiana Holandesa, onde \u00e9 dono de boate na qual s\u00f3 trabalham brasileiras, muitas delas do Par\u00e1 e do Amap\u00e1.<\/p>\n<p>Em 2006, adolescentes de Altamira, no Par\u00e1, que ca\u00edram nas garras de uma quadrilha de explora\u00e7\u00e3o sexual e a denunciaram, foram amea\u00e7adas de morte se falassem na Justi\u00e7a. A pol\u00edcia paraense, despreparada, n\u00e3o p\u00f4de dar seguran\u00e7a \u00e0s v\u00edtimas e s\u00f3 conseguiu provas contra tr\u00eas dos 15 acusados. A a\u00e7\u00e3o da quadrilha envolvia inclusive um pol\u00edtico e empres\u00e1rios. \u201c\u00c9 uma rede complexa de explora\u00e7\u00e3o sexual, com v\u00e1rias v\u00edtimas e v\u00e1rios adultos envolvidos; \u00e9 preciso que haja vontade pol\u00edtica para que se chegue aos outros envolvidos\u201d \u2013 disse, \u00e0 \u00e9poca, Ana Lins, advogada da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH).<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o daquele ano, a pol\u00edcia de Altamira localizou v\u00e1rias adolescentes, algumas dadas como desaparecidas por suas fam\u00edlias, em uma ch\u00e1cara, onde eram embebedadas e servidas em banquetes sexuais fotografados. As fotos eram divulgadas na internet. As orgias ocorriam tamb\u00e9m em mot\u00e9is da cidade e em im\u00f3veis de um dos acusados, al\u00e9m de ch\u00e1caras e balne\u00e1rios no munic\u00edpio, onde as bacanais duravam dias.<\/p>\n<p>Amea\u00e7adas de morte, v\u00edtimas, suas fam\u00edlias e testemunhas, desdisseram nos depoimentos \u00e0 Justi\u00e7a as declara\u00e7\u00f5es prestadas no inqu\u00e9rito policial. Uma das v\u00edtimas contou que foi amea\u00e7ada na porta da escola onde estuda, e sua fam\u00edlia recebeu bilhetes com amea\u00e7as de morte. A jornalista Iolanda Lopes, que denunciou a quadrilha em v\u00e1rias reportagens, disse que recebeu tr\u00eas telefonemas amea\u00e7adores.<\/p>\n<p>As adolescentes foram, ainda, humilhadas na C\u00e2mara de Altamira, onde tiveram seus nomes divulgados durante sess\u00e3o plen\u00e1ria. \u201cA vergonha, a humilha\u00e7\u00e3o, o sentimento de desesperan\u00e7a e a depress\u00e3o s\u00e3o alguns sintomas encontrados em v\u00e1rias das v\u00edtimas desse tipo de crime\u201d \u2013 comentou a advogada Ana Lins. \u201cA revitimiza\u00e7\u00e3o \u00e9 o calv\u00e1rio de ter que reviver os momentos do crime ao ter que relat\u00e1-los v\u00e1rias vezes. Esse calv\u00e1rio vai desde n\u00e3o ser atendida dignamente na delegacia, \u00e0s vezes esperando horas e horas, at\u00e9 conseguir registrar a ocorr\u00eancia policial, a realiza\u00e7\u00e3o de exames periciais sem a devida humaniza\u00e7\u00e3o do servidor respons\u00e1vel, at\u00e9 ver os algozes soltos livremente e voltando a delinquir em alguns casos.\u201d<\/p>\n<p>Em janeiro de 2005, o Jornal Nacional, da TV Globo, publicou uma s\u00e9rie de reportagens intitulada Povos das \u00c1guas, na qual focalizou o tr\u00e2nsito de balsas em Breves, na ilha do Maraj\u00f3, Par\u00e1. Nessas balsas, na cabine de carros, crian\u00e7as marajoaras serviam de repasto sexual durante o cruzamento do rio. De um modo geral, os munic\u00edpios marajoaras s\u00e3o miser\u00e1veis, apesar da natureza pujante da maior ilha fl\u00favio-mar\u00edtima do mundo. O Maraj\u00f3, uma das mais belas regi\u00f5es do planeta, \u00e9 do tamanho da Su\u00ed\u00e7a. A ilha \u00e9 banhada pelos rios Amazonas e Par\u00e1 e pelo Oceano Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>O com\u00e9rcio de crian\u00e7as amapaenses e paraenses \u00e9 intenso na Guiana Francesa e no Suriname, ao norte do Amap\u00e1, principalmente em cidades como Kourou, onde fica a base francesa de lan\u00e7amento de sat\u00e9lites; o balne\u00e1rio de Montjoly e Saint Laurent. Meninas e meninos amapaenses e paraenses s\u00e3o bastante apreciados para bacanais, corrompidos por promessas de casamento com franceses ou pela possibilidade de ir para a Europa, onde imaginam que possam ganhar at\u00e9 100 euros, cerca de R$ 500, por programa, escapando, assim, da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Dos 200 mil habitantes da Guiana Francesa, 50 mil s\u00e3o brasileiros ilegais, amapaenses em sua maioria, que fogem do Amap\u00e1, estado assolado pela mis\u00e9ria social, roubalheira de colarinho branco, nepotismo, corrup\u00e7\u00e3o end\u00eamica e imigra\u00e7\u00e3o insuport\u00e1vel. A capital, Macap\u00e1, \u00e9 reflexo do desleixo administrativo. Cidade sem esgoto, cheia de ruas esburacadas, com fornecimento prec\u00e1rio de energia el\u00e9trica e \u00e1gua encanada, apesar de se situar na margem do maior rio do mundo, o Amazonas, a cada dia fica mais inchada e violenta.<\/p>\n<p>Pr\u00f3ximo de Caiena, a capital da col\u00f4nia francesa na Amaz\u00f4nia, localiza-se a cidade amapaense de Oiapoque. Antes de as meninas seguirem para as tr\u00eas Guianas, passam, geralmente, por um est\u00e1gio em Oiapoque. Boates locais s\u00e3o internatos de meninas e meninos para o abate.<\/p>\n<p>Assim, guianenses que atravessam o rio Oiapoque atra\u00eddos por sexo s\u00e3o recebidos na cidade de bra\u00e7os abertos \u2013 in\u00fameros bares nos quais o lenoc\u00ednio prospera, de manh\u00e3 \u00e0 noite, a\u00e7ougues onde \u00e9 poss\u00edvel comprar crian\u00e7as de, em m\u00e9dia, 13 anos. No Amap\u00e1, cidades como Laranjal do Jari, Tartarugalzinho, Cal\u00e7oene e Santana, esta, na zona metropolitana de Macap\u00e1, s\u00e3o, como Oiapoque, vitrines de carne infantil. O jornal O Liberal, de Bel\u00e9m, o mais influente da Amaz\u00f4nia, cont\u00e9m, no seu banco de dados, v\u00e1rias reportagens que confirmam o que eu estou dizendo, com nomes, lugares e datas.<\/p>\n<p><strong>Sereias<\/strong><br \/>\nMadrugada de 16 de setembro de 2004, marina da Ponta Negra, Manaus, Amazonas. A bordo do iate Amazonian, de 25 metros de comprimento, 15 pol\u00edticos e empres\u00e1rios de Bras\u00edlia e de S\u00e3o Paulo aguardam um carregamento para zarpar rio Negro acima, aparentemente para uma pescaria em Barcelos, a 450 quil\u00f4metros da capital amazonense, em passeio organizado pelo dentista paulista Fl\u00e1vio Talmelli. Era o terceiro ano que o alegre grupo de pol\u00edticos e empres\u00e1rios candango-paulistas se reunia.<\/p>\n<p>Finalmente o carregamento chega. S\u00e3o sereias servidas antes mesmo da pescaria: 17 meninas, a maioria delas menor, aliciadas em casas noturnas de Manaus. O programa de dois dias e duas noites renderia R$ 400 a cada uma, fora gorjetas. As garotas foram conduzidas ao iate pela cafetina Dilcilane de Albuquerque Amorim, conhecida como Dil, ent\u00e3o com 33 anos, e que ganharia R$ 100 por garota.<\/p>\n<p>Domingo 19. As meninas se dividiram em dois grupos para o retorno a Manaus. O Amazonian, com os pol\u00edticos e empres\u00e1rios, seguiu rio Negro acima, com destino a um hotel na selva. Doze meninas retornaram a Manaus. No fim do dia, as cinco meninas restantes retornaram tamb\u00e9m, no barco Princesa Laura. O barco naufragou naquele mesmo domingo, entre Manaus e Barcelos, com 100 passageiros. Morreram 13 pessoas, entre as quais as cinco garotas que participaram da orgia: Amanda Ferreira Silva, 20 anos; Marlene Cristina dos Santos Reis, 19; Suzie Nogueira Ara\u00fajo, 18; Taiane Barros, 17; Hingridy Flor\u00eancio Viana, 16.<\/p>\n<p>Dois dias antes do acidente, alguns pais queixaram-se \u00e0 pol\u00edcia sobre o desaparecimento de suas filhas. Agentes da Delegacia Especializada de Assist\u00eancia e Prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Crian\u00e7a e ao Adolescente de Manaus (Deapca) descobriram que as meninas mortas haviam participado de uma bacanal e eram as mesmas que estavam sendo procuradas pelos pais. Depois, localizaram algumas meninas que retornaram a Manaus, do Amazonian. Descobriu-se, ent\u00e3o, que tr\u00eas homens que estavam no Amazonian deixaram a embarca\u00e7\u00e3o em Barcelos e, dia 23 de setembro, retornaram a Manaus, em avi\u00e3o da Apu\u00ed T\u00e1xi A\u00e9reo.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que identificaram o ent\u00e3o presidente da C\u00e2mara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital Ben\u00edcio Tavares da Cunha Melo, do PMDB, que adotou o nome Ben\u00edcio Mello (prenome e \u00faltimo sobrenome); Randal Mendes (S\u00e9rgio Randal), cunhado de Ben\u00edcio Tavares e ent\u00e3o chefe de gabinete da presid\u00eancia da C\u00e2mara Legislativa do DF; e o advogado brasiliense Marco Ant\u00f4nio Atti\u00e9.<\/p>\n<p>Uma das menores ouvidas pela pol\u00edcia disse que Ben\u00edcio Tavares manteve rela\u00e7\u00f5es sexuais com pelo menos duas menores, uma das quais Taiane Barros, 17 anos, m\u00e3e de um beb\u00ea de sete meses, e que morreu afogada no Princesa Laura. Outra garota afirmou, em depoimento \u00e0 pol\u00edcia, que manteve rela\u00e7\u00f5es sexuais com Ben\u00edcio, que teria pago R$ 500 a ela. Uma menor disse que Ben\u00edcio lhe ofereceu R$ 500 para manterem rela\u00e7\u00f5es sexuais, mas ela recusou. Seis das mo\u00e7as que estiveram a bordo do Amazonian garantem que Ben\u00edcio chegou a pagar valores entre R$ 200 e R$ 1 mil para manterem rela\u00e7\u00f5es sexuais com ele, inclusive com as menores de idade.<\/p>\n<p>Das 17 meninas contratadas para a bacanal seis afirmaram, em depoimento \u00e0 delegada Maria das Gra\u00e7as Silva, titular da Delegacia Especializada de Assist\u00eancia e Prote\u00e7\u00e3o \u00e0 Crian\u00e7a e ao Adolescente, que Ben\u00edcio Tavares esteve no iate nos dias 17, 18 e 19 de setembro, e que manteve rela\u00e7\u00f5es sexuais com v\u00e1rias garotas, entre as quais pelo menos duas menores. A delegada garante que coletou elementos suficientes para provar a participa\u00e7\u00e3o de Ben\u00edcio Tavares em turismo sexual. Maria das Gra\u00e7as Silva mostrou, dia 27 de setembro, fotografias de Ben\u00edcio Tavares a tr\u00eas meninas que participaram da orgia. Elas identificaram imediatamente o parlamentar, parapl\u00e9gico.<\/p>\n<p>Tr\u00eas meninas ouvidas pela pol\u00edcia garantem que no iate Amazonian havia bebida alco\u00f3lica e drogas, e que foram realizados desfiles de garotas nuas e sorteio de brindes aos participantes. Em depoimento \u00e0 pol\u00edcia, a cafetina Dil declarou que a bacanal foi contratada pelo dentista paulista Fl\u00e1vio Talmelli. \u201cEle disse que o passeio seria muito divertido e que todas as despesas, desde hospedagem a alimenta\u00e7\u00e3o, seriam pagas por seus amigos. Somente convidei algumas amigas\u201d \u2013 defendeu-se Dil. As garotas disseram \u00e0 pol\u00edcia que foram enganadas por Dil. O combinado \u00e9 que receberiam R$ 400, mais gorjetas, mas, a bordo, receberam somente R$ 200.<\/p>\n<p>Em nota oficial, divulgada no dia 27 de setembro de 2004, Ben\u00edcio Tavares confirmou a viagem a Manaus, de 16 a 22 de setembro, para pescar no rio Negro, hobby at\u00e9 ent\u00e3o insuspeito. Confirmou tamb\u00e9m o voo Barcelos-Manaus. Negou relacionamentos sexuais com garotas menores de idade. Para fazer a viagem tur\u00edstica, Ben\u00edcio se licenciou da presid\u00eancia da C\u00e2mara por 10 dias, embora a casa estivesse votando uma pilha de mat\u00e9rias e sua presen\u00e7a fosse importante. Foi confirmada tamb\u00e9m a presen\u00e7a, no iate, do chefe de gabinete da presid\u00eancia da C\u00e2mara, Randal Mendes, cunhado de Ben\u00edcio Tavares, e do advogado brasiliense Marco Ant\u00f4nio Atti\u00e9.<\/p>\n<p>Em 2004, em Bras\u00edlia, o plen\u00e1rio da C\u00e2mara Legislativa do Distrito Federal fechou os olhos e arquivou processo contra o ent\u00e3o deputado Ben\u00edcio Tavares (MDB), que respondia na Justi\u00e7a por turismo sexual no estado do Amazonas. Ben\u00edcio foi liberado por 14 votos favor\u00e1veis e 10 absten\u00e7\u00f5es. Em 2007, o ent\u00e3o governador de Bras\u00edlia, Jos\u00e9 Roberto Arruda, deu a Ben\u00edcio Tavares a Administra\u00e7\u00e3o Regional de Ceil\u00e2ndia, o maior col\u00e9gio eleitoral da cidade-estado. O povo se revoltou, pois, al\u00e9m da acusa\u00e7\u00e3o de corruptor de menor, Ben\u00edcio Tavares era acusado de desvio de dinheiro. Arruda teve de tir\u00e1-lo do cargo. Em 2009, o Conselho Especial do Tribunal de Justi\u00e7a do DF (TJDF) instaurou processo penal contra Ben\u00edcio, em a\u00e7\u00e3o movida pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico, e o absolveu. Ben\u00edcio Tavares foi reeleito deputado distrital.<\/p>\n<p>Em 2010, o governador Jos\u00e9 Roberto Arruda foi preso, acusado de comandar um esquema de corrup\u00e7\u00e3o. Em novembro de 2011, Ben\u00edcio Tavares perdeu o mandato de distrital no exerc\u00edcio da sexta legislatura, por decis\u00e3o do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que considerou, por unanimidade, que o deputado coagiu eleitores e praticou abuso de poder econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Como se v\u00ea, n\u00e3o se vai \u00e0 Amaz\u00f4nia apenas por energia hidrel\u00e9trica, minerais e madeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cora\u00e7\u00e3o das trevas, obra-prima de Joseph Conrad, \u00e9 um pequeno romance, de pouco mais de 150 p\u00e1ginas, \u201co mais intenso de todos os relatos que a imagina\u00e7\u00e3o humana jamais concebeu\u201d, disse o labir\u00edntico Jorge Lu\u00eds Borges. A a\u00e7\u00e3o se passa no Congo, \u00c1frica, no s\u00e9culo 19. 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