{"id":382231,"date":"2026-02-08T00:00:25","date_gmt":"2026-02-08T03:00:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=382231"},"modified":"2026-02-07T08:52:28","modified_gmt":"2026-02-07T11:52:28","slug":"um-conto-classico-de-machado-de-assis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-conto-classico-de-machado-de-assis\/","title":{"rendered":"Um conto cl\u00e1ssico de Machado de Assis"},"content":{"rendered":"<p>Hamlet observa a Hor\u00e1cio1 que h\u00e1 mais coisas no c\u00e9u e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explica\u00e7\u00e3o que dava a bela Rita ao mo\u00e7o Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na v\u00e9spera consultar uma cartomante; a diferen\u00e7a \u00e9 que o fazia por outras palavras.<br \/>\n\u2013 Ria, ria. Os homens s\u00e3o assim; n\u00e3o acreditam em nada.<br \/>\nPois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas come\u00e7ou a botar as cartas, disse-me: \u201cA senhora gosta de uma pessoa&#8230;\u201d Confessei que sim, e ent\u00e3o ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que voc\u00ea me esquecesse, mas que n\u00e3o era verdade&#8230;<br \/>\n\u2013 Errou! interrompeu Camilo, rindo.<br \/>\n\u2013 N\u00e3o diga isso, Camilo. Se voc\u00ea soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Voc\u00ea sabe; j\u00e1 lhe disse. N\u00e3o ria de mim, n\u00e3o ria&#8230;<br \/>\nCamilo pegou-lhe nas m\u00e3os, e olhou para ela s\u00e9rio e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de crian\u00e7a; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sab\u00ea-lo, e depois&#8230;<br \/>\n\u2013 Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.<br \/>\n\u2013 Onde \u00e9 a casa?<br \/>\n\u2013 Aqui perto, na rua da Guarda Velha; n\u00e3o passava ningu\u00e9m nessa ocasi\u00e3o. Descansa; eu n\u00e3o sou maluca. Camilo riu outra vez:<br \/>\n\u2013 Tu cr\u00eas deveras nessas coisas? perguntou-lhe.<br \/>\nFoi ent\u00e3o que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele n\u00e3o acreditava, paci\u00eancia; mas o certo \u00e9 que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova \u00e9 que ela agora estava tranquila e satisfeita.<br \/>\nCuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. N\u00e3o queria arrancar-lhe as ilus\u00f5es. Tamb\u00e9m ele, em crian\u00e7a, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a m\u00e3e lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegeta\u00e7\u00e3o parasita, e ficou s\u00f3 o tronco da religi\u00e3o, ele, como tivesse recebido da m\u00e3e ambos os ensinos, envolveu-os na mesma d\u00favida, e logo depois em uma s\u00f3 nega\u00e7\u00e3o total. Camilo n\u00e3o acreditava em nada. Por qu\u00ea? N\u00e3o poderia diz\u00ea-lo, n\u00e3o possu\u00eda um s\u00f3 argumento; limitava-se a negar tudo.<br \/>\nE digo mal, porque negar \u00e9 ainda afirmar, e ele n\u00e3o formulava a incredulidade; diante do mist\u00e9rio, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.<br \/>\nSepararam-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, n\u00e3o s\u00f3 o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr \u00e0s cartomantes, e, por mais que a repreendesse, n\u00e3o podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na dire\u00e7\u00e3o de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.<br \/>\nVilela, Camilo e Rita, tr\u00eas nomes, uma aventura, e nenhuma explica\u00e7\u00e3o das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de inf\u00e2ncia. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria v\u00ea-lo m\u00e9dico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu n\u00e3o ser nada, at\u00e9 que a m\u00e3e lhe arranjou um emprego p\u00fablico. No princ\u00edpio de 1869, voltou Vilela da prov\u00edncia, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo receb\u00ea-lo.<br \/>\n\u2013 \u00c9 o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a m\u00e3o. N\u00e3o imagina como meu marido \u00e9 seu amigo; falava sempre do senhor.<br \/>\nCamilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela n\u00e3o desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos c\u00e1lidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ing\u00eanuo na vida moral e pr\u00e1tica. Faltava-lhe tanto a a\u00e7\u00e3o do tempo, como os \u00f3culos de cristal, que a natureza p\u00f5e no ber\u00e7o de alguns para adiantar os anos. Nem experi\u00eancia, nem intui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nUniram-se os tr\u00eas. Conviv\u00eancia trouxe intimidade. Pouco depois morreu a m\u00e3e de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufr\u00e1gios e do invent\u00e1rio; Rita tratou especialmente do cora\u00e7\u00e3o, e ningu\u00e9m o faria melhor.<br \/>\nComo da\u00ed chegaram ao amor, n\u00e3o o soube ele nunca. A verdade \u00e9 que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irm\u00e3, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorpor\u00e1-lo em si pr\u00f3prio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam \u00e0s noites; \u2013 ela mal, \u2013 ele, para lhe ser agrad\u00e1vel, pouco menos mal. At\u00e9 a\u00ed as coisas. Agora a a\u00e7\u00e3o da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as m\u00e3os frias, as atitudes ins\u00f3litas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cart\u00e3o com um vulgar cumprimento a l\u00e1pis, e foi ent\u00e3o que ele p\u00f4de ler no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o; n\u00e3o conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas h\u00e1 vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha cale\u00e7a de pra\u00e7a, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim \u00e9 o homem, assim s\u00e3o as coisas que o cercam.<br \/>\nCamilo quis sinceramente fugir, mas j\u00e1 n\u00e3o p\u00f4de. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vit\u00f3ria delirante. Adeus, escr\u00fapulos! N\u00e3o tardou que o sapato se acomodasse ao p\u00e9, e a\u00ed foram ambos, estrada fora, bra\u00e7os dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confian\u00e7a e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.<br \/>\nUm dia, por\u00e9m, recebeu Camilo uma carta an\u00f4nima, que lhe chamava imoral e p\u00e9rfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, come\u00e7ou a rarear as visitas \u00e0 casa de Vilela. Este notou-lhe as aus\u00eancias. Camilo respondeu que o motivo era uma paix\u00e3o fr\u00edvola de rapaz. Candura gerou ast\u00facia. As aus\u00eancias prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse tamb\u00e9m nisso um pouco de amor-pr\u00f3prio, uma inten\u00e7\u00e3o de diminuir os obs\u00e9quios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.<br \/>\nFoi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu \u00e0 cartomante para consult\u00e1-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confian\u00e7a, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou tr\u00eas cartas an\u00f4nimas, t\u00e3o apaixonadas, que n\u00e3o podiam ser advert\u00eancia da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opini\u00e3o de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: \u2013 a virtude \u00e9 pregui\u00e7osa e avara, n\u00e3o gasta tempo nem papel; s\u00f3 o interesse \u00e9 ativo e pr\u00f3digo.<br \/>\nNem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o an\u00f4nimo fosse ter com Vilela, e a cat\u00e1strofe viria ent\u00e3o sem rem\u00e9dio. Rita concordou que era poss\u00edvel.<br \/>\n\u2013 Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que l\u00e1 aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a&#8230;<br \/>\nNenhuma apareceu; mas da\u00ed a algum tempo Vilela come\u00e7ou<br \/>\na mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em diz\u00ea-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opini\u00e3o dela \u00e9 que Camilo devia tornar \u00e0 casa deles, tatear o marido, e pode ser at\u00e9 que lhe ouvisse a confid\u00eancia de algum neg\u00f3cio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou den\u00fancia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com l\u00e1grimas.<br \/>\nNo dia seguinte, estando na reparti\u00e7\u00e3o, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: \u201cVem j\u00e1, j\u00e1, \u00e0 nossa casa; preciso falar-te sem demora.\u201d Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural cham\u00e1-lo ao escrit\u00f3rio; por que em casa? Tudo indicava mat\u00e9ria especial, e a letra, fosse realidade ou ilus\u00e3o, afigurou-se-lhe tr\u00eamula. Ele combinou todas essas coisas com a not\u00edcia da v\u00e9spera.<br \/>\n\u2013 Vem j\u00e1, j\u00e1, \u00e0 nossa casa; preciso falar-te sem demora, \u2013 repetia ele com os olhos no papel.<br \/>\nImaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando para mat\u00e1-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois, sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. N\u00e3o achou nada, nem ningu\u00e9m. Voltou \u00e0 rua, e a ideia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais veross\u00edmil; era natural uma den\u00fancia an\u00f4nima, at\u00e9 da pr\u00f3pria pessoa que o amea\u00e7ara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspens\u00e3o das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto f\u00fatil, viria confirmar o resto.<br \/>\nCamilo ia andando inquieto e nervoso. N\u00e3o relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou ent\u00e3o, \u2013 o que era ainda pior, \u2013 eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a pr\u00f3pria voz de Vilela. \u201cVem j\u00e1, j\u00e1, \u00e0 nossa casa; preciso falar-te sem demora.\u201d Ditas assim, pela voz do outro, tinham um tom de mist\u00e9rio e amea\u00e7a. Vem, j\u00e1, j\u00e1, para qu\u00ea? Era perto de uma hora da tarde. A como\u00e7\u00e3o crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a cr\u00ea-lo e v\u00ea-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precau\u00e7\u00e3o era \u00fatil. Logo depois rejeitava a ideia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na dire\u00e7\u00e3o do Largo da Carioca, para entrar num t\u00edlburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.<br \/>\n\u2013 Quanto antes, melhor, pensou ele; n\u00e3o posso estar assim&#8230; Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a como\u00e7\u00e3o. O tempo voava, e ele n\u00e3o tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o t\u00edlburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carro\u00e7a, que ca\u00edra. Camilo, em si mesmo, estimou o obst\u00e1culo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, \u00e0 esquerda, ao p\u00e9 do t\u00edlburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na li\u00e7\u00e3o das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.<br \/>\nCamilo reclinou-se no t\u00edlburi, para n\u00e3o ver nada. A agita\u00e7\u00e3o dele era grande, extraordin\u00e1ria, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas cren\u00e7as, as supersti\u00e7\u00f5es antigas. O cocheiro prop\u00f4s-lhe voltar \u00e0 primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que n\u00e3o, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa&#8230; Depois fez um gesto incr\u00e9dulo: era a ideia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no c\u00e9rebro; mas da\u00ed a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros conc\u00eantricos&#8230; Na rua, gritavam os homens, safando a carro\u00e7a:<br \/>\n\u2013 Anda! agora! empurra! v\u00e1! v\u00e1!<br \/>\nDa\u00ed a pouco estaria removido o obst\u00e1culo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras coisas; mas a voz do marido sussurrava-lhe \u00e0s orelhas as palavras da carta: \u201cVem j\u00e1, j\u00e1&#8230;\u201d E ele via as contor\u00e7\u00f5es do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar&#8230; Camilo achou-se diante de um longo v\u00e9u opaco&#8230; pensou rapidamente no inexplic\u00e1vel de tantas coisas. A voz da m\u00e3e repetia-lhe uma por\u00e7\u00e3o de casos extraordin\u00e1rios; e a mesma frase do pr\u00edncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: \u201cH\u00e1 mais coisas no c\u00e9u e na terra do que sonha a filosofia&#8230; \u201d Que perdia ele, se&#8230;?<br \/>\nDeu por si na cal\u00e7ada, ao p\u00e9 da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e r\u00e1pido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos p\u00e9s, o corrim\u00e3o pegajoso; mas ele n\u00e3o viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. N\u00e3o aparecendo ningu\u00e9m, teve ideia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigavalhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, tr\u00eas pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consult\u00e1-la, ela f\u00ea-lo entrar. Dali subiram ao s\u00f3t\u00e3o, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destru\u00eda o prest\u00edgio.<br \/>\nA cartomante f\u00ea-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, n\u00e3o de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou tr\u00eas cartas sobre a mesa, e disse-lhe:<br \/>\n\u2013 Vejamos primeiro o que \u00e9 que o traz aqui. O senhor tem um grande susto&#8230;<br \/>\nCamilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.<br \/>\n\u2013 E quer saber, continuou ela, se lhe acontecer\u00e1 alguma<br \/>\ncoisa ou n\u00e3o&#8230;<br \/>\n\u2013 A mim e a ela, explicou vivamente ele.<br \/>\nA cartomante n\u00e3o sorriu; disse-lhe s\u00f3 que esperasse. R\u00e1pido pegou outra vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transp\u00f4s os ma\u00e7os, uma, duas, tr\u00eas vezes; depois come\u00e7ou a estend\u00ea-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.<br \/>\n\u2013 As cartas dizem-me&#8230;<br \/>\nCamilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Ent\u00e3o ela declarou-lhe que n\u00e3o tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. N\u00e3o obstante, era indispens\u00e1vel muita cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita&#8230; Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.<br \/>\n\u2013 A senhora restituiu-me a paz ao esp\u00edrito, disse ele estendendo a m\u00e3o por cima da mesa e apertando a da cartomante. Esta levantou-se, rindo.<br \/>\n\u2013 V\u00e1, disse ela; v\u00e1, ragazzo innamorato&#8230;<br \/>\nE de p\u00e9, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse a m\u00e3o da pr\u00f3pria sibila, e levantou-se tamb\u00e9m.<br \/>\nA cartomante foi \u00e0 c\u00f4moda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, come\u00e7ou a despenc\u00e1-las e com\u00ea-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma a\u00e7\u00e3o comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, n\u00e3o sabia como pagasse; ignorava o pre\u00e7o.<br \/>\n\u2013 Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?<br \/>\n\u2013 Pergunte ao seu cora\u00e7\u00e3o, respondeu ela.<br \/>\nCamilo tirou uma nota de dez mil-r\u00e9is, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O pre\u00e7o usual era dois mil-r\u00e9is.<br \/>\n\u2013 Vejo bem que o senhor gosta muito dela&#8230; E faz bem; ela gosta muito do senhor. V\u00e1, v\u00e1 tranquilo. Olhe a escada, \u00e9 escura; ponha o chap\u00e9u&#8230;<br \/>\nA cartomante tinha j\u00e1 guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava \u00e0 rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o t\u00edlburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo. Tudo lhe parecia agora melhor, as outras coisas traziam outro aspecto, o c\u00e9u estava l\u00edmpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram \u00edntimos e familiares. Onde \u00e9 que ele lhe descobrira a amea\u00e7a? Advertiu tamb\u00e9m que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum neg\u00f3cio grave e grav\u00edssimo.<br \/>\n\u2013 Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.<br \/>\nE consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer coisa; parece que formou tamb\u00e9m o plano de aproveitar o incidente para tornar \u00e0 antiga assiduidade&#8230; De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a exist\u00eancia de um terceiro; por que n\u00e3o adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e cont\u00ednuas, que as velhas cren\u00e7as do rapaz iam tornando ao de cima, e o mist\u00e9rio empolgava-o com as unhas de ferro. \u00c0s vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exorta\u00e7\u00e3o:<br \/>\n\u2013 V\u00e1, v\u00e1, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma f\u00e9 nova e vivaz.<br \/>\nA verdade \u00e9 que o cora\u00e7\u00e3o ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Gl\u00f3ria, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, at\u00e9 onde a \u00e1gua e o c\u00e9u d\u00e3o um abra\u00e7o infinito, e teve assim uma sensa\u00e7\u00e3o do futuro, longo, longo, intermin\u00e1vel.<br \/>\nDa\u00ed a pouco chegou \u00e0 casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela. \u2013 Desculpa, n\u00e3o pude vir mais cedo; que h\u00e1?<br \/>\nVilela n\u00e3o lhe respondeu; tinha as fei\u00e7\u00f5es decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo n\u00e3o p\u00f4de sufocar um grito de terror: \u2013 ao fundo sobre o canap\u00e9, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de rev\u00f3lver, estirou-o morto no ch\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hamlet observa a Hor\u00e1cio1 que h\u00e1 mais coisas no c\u00e9u e na terra do que sonha a nossa filosofia. 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