{"id":382240,"date":"2026-02-09T00:30:23","date_gmt":"2026-02-09T03:30:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=382240"},"modified":"2026-02-07T10:02:53","modified_gmt":"2026-02-07T13:02:53","slug":"aos-30-anos-nunca-havia-trabalhado-um-so-dia-em-sua-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/aos-30-anos-nunca-havia-trabalhado-um-so-dia-em-sua-vida\/","title":{"rendered":"Aos 30 anos, nunca havia trabalhado um s\u00f3 dia em sua vida"},"content":{"rendered":"<p>Wanderlei era poeta. Quer dizer, n\u00e3o era, mas imaginava ser. Cometia versos lastim\u00e1veis, quadrinhas em que rimava amor e flor, mas se julgava um Drummond. Ou, antes, um Cacaso: nascera em 1993, estava convencido de que era a reencarna\u00e7\u00e3o do expoente da poesia marginal brasileira, falecido em 1987.<\/p>\n<p>Cacaso, seu suposto eu reencarnado, pertencera ao grupo de poetas da gera\u00e7\u00e3o mime\u00f3grafo, dos anos 1970. Esse era o \u00fanico tra\u00e7o em comum entre o poeta e Wanderlei: o soi disant vate tamb\u00e9m recorria ao mime\u00f3grafo para reproduzir seus poemas. Gra\u00e7as a ele, havia produzido nove livros de poesia, mal pensados, mal escritos, mal impressos, cheios de erros de concord\u00e2ncia e gralhas tipogr\u00e1ficas. E os assinava n\u00e3o como Wanderlei Leite, seu nome na certid\u00e3o de nascimento, e sim como Maximilien van der Leyte, que julgava ter uma sonoridade mais rom\u00e2ntica, mais po\u00e9tica, mais condizente com um devotado cultor de \u00c9rato, \u201ca am\u00e1vel, a que desperta desejos\u201d, musa da poesia l\u00edrica e er\u00f3tica. \u201cUm livro para cada uma das musas da Gr\u00e9cia antiga\u201d, pensava sempre.<\/p>\n<p>Aos 30 anos, Wanderlei-Maximilien nunca havia trabalhado um s\u00f3 dia em sua vida. Tamb\u00e9m, n\u00e3o precisava de muita grana, s\u00f3 para as raras ocasi\u00f5es em que tinha companhia feminina. Morava com a m\u00e3e vi\u00fava, que n\u00e3o aguentava mais, suplicando-lhe que pelamordedeus arranjasse um emprego, encontrasse uma uma boa mo\u00e7a, nem precisava ser boa, qualquer uma servia, e se casasse. Ele repetia, sem perder a calma:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, m\u00e3e, \u00c9rato \u00e9 uma musa ciumenta, preciso ser fiel a ela \u2013 e ria da express\u00e3o aparvalhada e furiosa da pobre senhora, que nunca ouvira falar em musas, muito menos em \u00c9rato, e s\u00f3 queria que o filho, homem feito, voasse do ninho.<\/p>\n<p>Para sobreviver, Wanderlei-Maximilien se virava com o Bolsa-Fam\u00edlia e com os recursos de um programa similar, de seu estado. E por \u00faltimo, mas n\u00e3o menos importante, com a venda de seus livrecos. Ele os oferecia nos saraus \u2013 nos poucos que conseguia frequentar, sempre renovados, pois usualmente era logo convidado a retirar-se, devido ao n\u00edvel deplor\u00e1vel de seus poemas \u2013 e nos bares. Neles, havia sempre um b\u00eabado de cora\u00e7\u00e3o generoso que adquiria um, pagando o que quisesse \u2013 20 reais, 10 reais, uma dose de cacha\u00e7a. O poeta aceitava, agradecido, a liba\u00e7\u00e3o \u00e0s musas, como dizia a si mesmo, e reservava o dinheiro dos bebuns para o mesmo fim. E, como modernizar-se era preciso, descolara um PIX \u2013 em nome de Wanderlei Leite, n\u00e3o do poeta Maximilien \u2013 para receber pagamentos.<\/p>\n<p>Foi isso que fez chover na sua horta.<\/p>\n<p>Certo dia, Wanderlei-Maximilien estava em casa, visitando pregui\u00e7osamente p\u00e1ginas do Facebook, quando recebeu uma mensagem pelo Private.<\/p>\n<p>&#8211; Bom dia, seu nome \u00e9 Wanderlei Leite?<\/p>\n<p>Reconheceu o nome, era de uma mulher que, tr\u00eas semanas antes, havia adquirido em um bar um livro seu. Os leitores-compradores eram infelizmente poucos, dava para se lembrar de cada um deles.<\/p>\n<p>&#8211; Sou o poeta Maximilien van der Leyte \u2013 digitou, orgulhoso. \u2013 Mas sim, pode me chamar de Wanderlei.<\/p>\n<p>&#8211; Seu Wanderlei (Maximilien tremeu de ultraje ao ler o \u201cseu\u201d), mandei errado 2900 reais para sua conta. Pode devolver, por favor, pelo PIX xxxxxxxxx?<\/p>\n<p>Wanderlei-Maximilien teve uma ideia luminosa. Desligou o celular antes mesmo de terminar a leitura do n\u00famero do PIX. A ideia era fazer crer que n\u00e3o havia lido a mensagem. N\u00e3o ia colar, mas n\u00e3o custava uma tentativa. Depois ligou o celular, viu sua conta banc\u00e1ria e, maravilha, o saldo era de 2920 reais. Jamais havia tido tanto dinheiro em sua vida.<\/p>\n<p>Ficou um longo tempo babando, olhando a quantia. Por fim, triste por ter de devolver a fortuna (pelo menos a maior parte dela), foi para o MSG e digitou:<\/p>\n<p>&#8211; Obrigado por ter investido 290 reais na compra de meus livros de poesia! Mas voc\u00ea se enganou, p\u00f4s um zero a mais, eles custam 290, n\u00e3o 2900 reais. Periga eu ficar com tudo kkk&#8230; N\u00e3o se preocupe, \u00e9 brincadeirinha.<\/p>\n<p>Antes que a mulher explicasse que ele precisava devolver os 2900 paus, que ela n\u00e3o queria porra de livro algum, o poeta-aprendiz-de-chantagista prosseguiu:<\/p>\n<p>&#8211; Ali\u00e1s, vou tomar a liberdade de ficar com mais 30 reais, para meu pr\u00f3ximo livro, que ser\u00e1 publicado logo. Sei que voc\u00ea s\u00f3 queria comprar os nove, mas vou dedic\u00e1-lo a voc\u00ea!<\/p>\n<p>Era mentira, n\u00e3o tinha livro nenhum a caminho. Mas nunca mais teria uma oportunidade igual a essa.<\/p>\n<p>Percebeu que, do outro lado do \u00e9ter, algu\u00e9m digitava furiosamente. Teclou ainda mais r\u00e1pido:<\/p>\n<p>&#8211; Sabe, o poema de abertura se baseia em uma historinha divertida. Os bichos faziam uma festa na fazenda e acabou a cerveja. Procuraram um volunt\u00e1rio para comprar mais, a lesma se apresentou. Passaram duas horas, nada do bicho voltar. Furioso, o le\u00e3o come\u00e7ou a xing\u00e1-la: \u201cLesma pilantra! Deve estar ca\u00edda no caminho, de porre, depois de beber toda a nossa cerveja&#8230; Filha de uma \u00e9gua!\u201d<\/p>\n<p>Ouviu-se ent\u00e3o, da porteira da fazenda, uma voz bem fraquinha, que disse:<\/p>\n<p>\u201cLe\u00e3o, se voc\u00ea continuar me xingando, eu n\u00e3o vou\u201d.<\/p>\n<p>A digita\u00e7\u00e3o parou do outro lado do \u00e9ter. A pessoa havia entendido a amea\u00e7a velada.<\/p>\n<p>Meia hora depois, depois de contemplar longa e amorosamente o saldo de sua conta banc\u00e1ria, Wanderlei-Maximilien, poeta e chantagista, enviou, com um suspiro de resigna\u00e7\u00e3o, 2580 reais para o PIX indicado. Para a pessoa do outro lado do \u00e9ter, era melhor que nada; para ele, o suficiente para uns tr\u00eas meses de liba\u00e7\u00f5es \u00e0s musas. Pois fez tudo isso em louvor delas, seu canto de meliante \u2013 chantagem vem do franc\u00eas chanter, cantar \u2013 mesclava-se ao doce gorjear das nove filhas de Zeus e Mnem\u00f3sine, deusa da mem\u00f3ria, entidades associadas \u00e0 cria\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e art\u00edstica. E, em especial, \u00e0 voz maviosa de \u00c9rato, sua musa, inspiradora dos versos de bons e maus poetas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Wanderlei era poeta. Quer dizer, n\u00e3o era, mas imaginava ser. Cometia versos lastim\u00e1veis, quadrinhas em que rimava amor e flor, mas se julgava um Drummond. Ou, antes, um Cacaso: nascera em 1993, estava convencido de que era a reencarna\u00e7\u00e3o do expoente da poesia marginal brasileira, falecido em 1987. Cacaso, seu suposto eu reencarnado, pertencera ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":382241,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-382240","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/382240","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=382240"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/382240\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":382243,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/382240\/revisions\/382243"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/382241"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=382240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=382240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=382240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}