{"id":382244,"date":"2026-02-10T00:15:54","date_gmt":"2026-02-10T03:15:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=382244"},"modified":"2026-02-07T10:15:13","modified_gmt":"2026-02-07T13:15:13","slug":"ganhava-pouco-mas-dava-pro-gasto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ganhava-pouco-mas-dava-pro-gasto\/","title":{"rendered":"Ganhava pouco, mas dava pro gasto"},"content":{"rendered":"<p>Vin\u00edcius era funcion\u00e1rio p\u00fablico aposentado. Ganhava pouco, mas para um divorciado de 64 anos, que morava sozinho, dava pro gasto. E era poeta, j\u00e1 publicara dois livros, insucessos de cr\u00edtica e de p\u00fablico. Ele n\u00e3o ligava, escrevia basicamente para si mesmo. Quando n\u00e3o estava cometendo poemas, gostava de navegar pelo Facebook. Foi o seu mal.<\/p>\n<p>A nova amiga usava o nome de Acza. Ele achou estranho mas lindo, combinava com a foto de uma mulher jovem e sedutora, de longos cabelos negros. Ela informou que estudava filosofia, ele contou que era poeta.<\/p>\n<p>-Adoro poesia \u2013 teclou ela. \u2013 \u00c9 praticamente tudo o que leio. Voc\u00ea tem livros publicados?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho dois, mas voc\u00ea s\u00f3 vai encontrar em sebos \u2013 escreveu Vin\u00edcius. \u2013 E, de vez em quando, posto poemas no Face.<\/p>\n<p>&#8211; Posso te adicionar no zap? Assim voc\u00ea me manda seus poemas, \u00e9 melhor. E eu mando umas coisinhas&#8230;<\/p>\n<p>Vin\u00edcius podia sentir um leve tom de mal\u00edcia e erotismo na mensagem. Digitou o n\u00famero do celular e esperou. Em menos de dez minutos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 Acza. T\u00f4 com desejo de ler poesia. Me faz feliz!<\/p>\n<p>Ela j\u00e1 havia selecionado dois de seus melhores poemas e mandou para a mo\u00e7a. Ela respondeu pouco tempo depois<\/p>\n<p>-Adorei. Vou te mandar uns v\u00eddeos.<\/p>\n<p>No v\u00eddeo, Acza cantava, com um sorriso sedutor, um trechinho de uma can\u00e7\u00e3o. Ele estava escrevendo que achou lindo, mas gostaria de ouvir at\u00e9 o fim, quando chegou o segundo. Ela dan\u00e7ava, os seios pequeninos \u00e0 mostra. Acariciava-os, tocava os cabelos, o rosto, a boca, a barriguinha, contorcia-se toda. S\u00f3 aparecia a metade superior de seu corpo, mas era uma vis\u00e3o inesquec\u00edvel.<\/p>\n<p>\u201cUma sacerdotisa de Afrodite\u201d, pensou o poeta. \u201cUma dan\u00e7a er\u00f3tica sagrada, sem um pingo de vulgaridade, a ser assistida com desejo e rever\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>Nesse dia n\u00e3o houve mais poemas nem v\u00eddeos. Vin\u00edcius passou horas assistindo-os, gravando cada detalhe em sua mente e sonhando com Acza.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, ele inundou-a de poemas \u2013 primeiro de seus livros, depois os mais recentes, postados nas redes. E quase se afogou em v\u00eddeos, cada vez mais sensuais por\u00e9m jamais vulgares. E, deuses, as mensagens tecladas entre um v\u00eddeo e outro, entre um poema e outro!<\/p>\n<p>Uma semana depois, esgotado o repert\u00f3rio de poemas, ele passou a escrever exclusivamente para a nova musa. Sucediam-se imagens como \u201cseios comoventes\u201d (Acza adorou) e \u201csacerdotisa do pecado\u201d. Ela tamb\u00e9m escrevia. Em algumas postagens, moldava frases inspiradoras de novos poemas, como \u201cAmo a sedu\u00e7\u00e3o. Como um poema desenhando meu corpo. Meu corpo \u00e9 arte\u201d. Ou enviava mensagens bem mais diretas: \u201cAo ler seu poema, eu me toquei\u201d. Isso permitiu a Vin\u00edcius fazer o mesmo, liberando uma tens\u00e3o h\u00e1 muito acumulada \u2013 um pequeno favor dos deuses.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, ela parecia brincar com ele como um gato brinca com um rato \u2013 uma gatinha de 23 anos e um rat\u00e3o de 64. Ela escreveu certa vez: \u201cS\u00f3 me relaciono com homens acima de 45\u201d. Foi como se ela colocasse a bola na marca do p\u00eanalti e implorasse, \u201cChuta, faz o gol, nem vou tentar defender\u201d. Mas ele n\u00e3o ousou, s\u00f3 d\u00e1 pra encarar uma sacerdotisa do pecado quando se tem certeza de um desempenho dionis\u00edaco ou, v\u00e1 l\u00e1, apol\u00edneo.<\/p>\n<p>Vinte dias depois do primeiro contato, Vin\u00edcius estava um baga\u00e7o. Pensava na mo\u00e7a o tempo todo, escrevia sem parar, mas seus neur\u00f4nios amea\u00e7avam entrar em greve, sua poesia piorou visivelmente. Ent\u00e3o, exigiu\/implorou que a mo\u00e7a viesse ao Rio de Janeiro encontr\u00e1-lo.<\/p>\n<p>-Mas eu moro em Manaus! \u2013 respondeu ela.<\/p>\n<p>-Mando passagem de avi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela enviou o nome completo, o RG e o CPFs, toda a parafern\u00e1lia para emitir a passagem. E ent\u00e3o ele esperou.<\/p>\n<p>Quatro dias depois, ela tocou a campainha de seu apartamento. Ele abriu a porta, e engoliu em seco em ver aquela mulher linda, de fei\u00e7\u00f5es delicadas e olhos luminosos.<\/p>\n<p>-Entre \u2013 murmurou com voz rouca.<\/p>\n<p>Ainda sem ousar beij\u00e1-la, temia perder a cabe\u00e7a e ofender aquela deusa da sedu\u00e7\u00e3o, pediu que sentasse. Mas n\u00e3o aguentou, levantou-se e falou.<\/p>\n<p>-Mo\u00e7a, estou enlouquecendo. N\u00e3o como, n\u00e3o durmo, s\u00f3 penso em voc\u00ea. Que que eu fa\u00e7o pra ter voc\u00ea em meus bra\u00e7os?<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7o tudo por 100 reais.<\/p>\n<p>Sem dizer uma palavra, Vin\u00edcius foi at\u00e9 a janela e se jogou do 8\u00ba andar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vin\u00edcius era funcion\u00e1rio p\u00fablico aposentado. Ganhava pouco, mas para um divorciado de 64 anos, que morava sozinho, dava pro gasto. E era poeta, j\u00e1 publicara dois livros, insucessos de cr\u00edtica e de p\u00fablico. Ele n\u00e3o ligava, escrevia basicamente para si mesmo. 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