{"id":382597,"date":"2026-02-11T00:15:39","date_gmt":"2026-02-11T03:15:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=382597"},"modified":"2026-02-09T23:59:28","modified_gmt":"2026-02-10T02:59:28","slug":"um-amor-que-silencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-amor-que-silencia\/","title":{"rendered":"Um amor que silencia"},"content":{"rendered":"<p>O jantar entre amigos marcava o retorno de um deles \u00e0 Bras\u00edlia ap\u00f3s muitos anos morando longe. Tudo corria bem, at\u00e9 a fat\u00eddica pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 O beb\u00ea nasce quando?<\/p>\n<p>O casal e todos na mesa encararam Carlos, surpresos. Luc\u00e9lia rompeu o sil\u00eancio primeiro:<\/p>\n<p>Voc\u00eas est\u00e3o esperando um beb\u00ea? Que \u00f3tima not\u00edcia!<\/p>\n<p>As palmas e vivas dos demais amigos n\u00e3o haviam cessado quando Melina, que s\u00f3 agora se recuperava do choque, quase aos berros interpelou Cl\u00e9ber:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea contou para ele? N\u00e3o hav\u00edamos combinado de que nossos pais seriam os primeiros a saber do nen\u00e9m?<\/p>\n<p>A balb\u00fardia cessou, substitu\u00edda pelo sil\u00eancio absoluto e olhares de expectativa para Cl\u00e9ber.<\/p>\n<p>\u2014 Mas eu n\u00e3o&#8230; \u2014N\u00e3o concluiu a frase, pois Melina j\u00e1 se retirava em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta, mal contendo \u00e0s l\u00e1grimas diante da decep\u00e7\u00e3o com o marido, que se levantou em seguida, mal ouvindo o pedido de desculpas do amigo inconveniente.<\/p>\n<p>Carlos sentia-se p\u00e9ssimo por ter estragado o jantar. H\u00e1 instantes, estava feliz por seu melhor amigo, mas agora desejava apenas desaparecer. Desculpou-se com os colegas e saiu. Em casa, ligou para Cl\u00e9ber, receoso de que o amigo n\u00e3o atendesse, mas logo ouviu sua voz nada amistosa:<\/p>\n<p>\u2014 O que diabos foi isso?<\/p>\n<p>\u2014 Olha, Cl\u00e9ber, eu sinto muito, n\u00e3o era minha inten\u00e7\u00e3o, \u00e9 que eu estava t\u00e3o feliz por voc\u00eas e&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei, Carlos, somos amigos h\u00e1 muito tempo e sei que n\u00e3o queria fazer mal \u2014 Carlos sentiu um al\u00edvio enorme diante daquela rea\u00e7\u00e3o mais am\u00e1vel do que esperava, mas s\u00f3 at\u00e9 ouvir a pergunta:<\/p>\n<p>\u2014 O que n\u00e3o entendo \u00e9: como voc\u00ea sabia que estamos esperando um beb\u00ea? Tenho plena convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o contei para ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>Carlos tamb\u00e9m estava confuso, tentou se recordar de como ficar\u00e1 sabendo da novidade, de fato n\u00e3o se lembrava de Cl\u00e9ber ter lhe contado.<\/p>\n<p>\u2014 Carlos, preciso desligar, depois nos falamos.<\/p>\n<p>Deitou-se, mas custou a adormecer, esfor\u00e7ando-se por recordar exatamente como recebeu aquela not\u00edcia que tanto o constrangera. Considerava aquela ocasi\u00e3o o epis\u00f3dio mais vergonhoso de sua exist\u00eancia&#8230; ao menos at\u00e9 os acontecimentos posteriores.<\/p>\n<p>No dia seguinte transformou-se no piv\u00f4 de todo tipo de confus\u00f5es no trabalho. Bastava abrir a boca para inadvertidamente expor fatos alheios que seus colegas de forma alguma queriam tornar p\u00fablico. Foi assim que, por exemplo, deixou a colega do RH em prantos ao question\u00e1-la se j\u00e1 se recuperara da decep\u00e7\u00e3o por descobrir que seu namorado dormia com sua prima, do mesmo modo por pouco n\u00e3o levou um soco do respons\u00e1vel pelo estoque ao alegremente comentar em p\u00fablico que havia sido uma demonstra\u00e7\u00e3o de bondade enorme o Diretor permitir que aquele levasse equipamentos de inform\u00e1tica para casa para seu uso pessoal \u2014 O que obviamente n\u00e3o era de conhecimento de ningu\u00e9m, muito menos do tal diretor.<\/p>\n<p>Naquele dia chegou em casa com os nervos em frangalhos. Ele que sempre fora uma pessoal gentil e querida por todos de repente se transformara, contra sua vontade, em um monstro insens\u00edvel.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes, a situa\u00e7\u00e3o piorou consideravelmente, n\u00e3o havia uma intera\u00e7\u00e3o sequer, com qualquer pessoa que fosse, que Carlos, por mais que se esfor\u00e7asse, n\u00e3o metesse os p\u00e9s pelas m\u00e3os. Ningu\u00e9m mais se referia a ele pelo nome. Virou o \u201cboca aberta\u201d, \u201clinguarudo\u201d, \u201co espi\u00e3o\u201d, \u201cBoca podre\u201d e outras coisas piores.<\/p>\n<p>Carlos sofria calado e sozinho, pois a essa altura j\u00e1 n\u00e3o havia amigo ou parente disposto a passar um minuto sequer ao seu lado. N\u00e3o compreendia que esp\u00e9cie de dom, ou no caso maldi\u00e7\u00e3o era esse que bastava se aproximar de uma pessoa para conhecer e mencionar aquilo que ela mais gostaria de esconder no momento.<\/p>\n<p>N\u00e3o tardou para que o problema escalasse at\u00e9 o ponto de abalar sua carreira. Estava certo de que seria demitido quando, ap\u00f3s uma semana de caos provocada pela sua involunt\u00e1ria indiscri\u00e7\u00e3o, foi chamado \u00e0 sala do Diretor. E de fato esse seria seu destino, se em mais um arroubo incontrol\u00e1vel n\u00e3o houvesse mencionado o caso extraconjugal com a vizinha que seu chefe queria a todo custo esconder. Achando se tratar de algum tipo de chantagem e temendo pelo esc\u00e2ndalo, o Diretor ofereceu a Carlos a oportunidade de continuar suas atividades em home-office at\u00e9 que demonstrasse um pouco mais de equil\u00edbrio no trato com as pessoas.<\/p>\n<p>Era a primeira vez que sua rec\u00e9m adquirida habilidade lhe proporcionava algum benef\u00edcio, pois pensou que trabalhando em casa teria menos chances de se meter em confus\u00f5es.<\/p>\n<p>As semanas passaram e o problema s\u00f3 aumentava. Aprendeu que n\u00e3o podia mais abrir a boca em p\u00fablico sem provocar um rebuli\u00e7o, como na vez em que parabenizou a funcion\u00e1ria do caixa da padaria pelo novo emprego que esta assumiria em breve, diante dos olhares perplexos da Gerente do estabelecimento enraivecida por agora ter que arrumar um substituta \u00e0s pressas e da funcion\u00e1ria que n\u00e3o fazia ideia como esse estranho sabia do novo emprego. Sair em p\u00fablico tornou-se uma tortura, ainda que ficasse calado, seus pensamentos eram invadidos por toda esp\u00e9cie de segredos alheios.<\/p>\n<p>Buscou terapia, mas sem \u00eaxito, recusando-se a aceitar as suspeitas do diagn\u00f3stico de esquizofrenia sugerido pelos profissionais.<\/p>\n<p>Tornou-se solit\u00e1rio, recluso e com um tempo o \u00fanico momento em que saia de casa era no final da tarde para ver a famosa vista do p\u00f4r do sol na pra\u00e7a do Cruzeiro. Levava uma cadeira de praia e buscava um local o mais longe poss\u00edvel das pessoas e de seus pensamentos. Admirava cada ocaso como seu maior tesouro e na contempla\u00e7\u00e3o do horizonte residia o pouco que lhe restava de felicidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 tempos ele n\u00e3o se demorava observando outras pessoas, pois s\u00f3 isso era suficiente para inundar sua mente com toda sorte de pensamentos que as pessoas queriam esconder. Quando j\u00e1 estava no auge do desespero e mesmo os mais belos crep\u00fasculos j\u00e1 n\u00e3o lhe traziam o t\u00e3o desejado sil\u00eancio em sua mente, algo diferente ocorreu.<\/p>\n<p>Enquanto aguardava mais um final de tarde, passou o olhar pelas pessoas espalhadas no gramado quando notou uma mo\u00e7a que, assim como ele, encontrava-se afastada dos demais frequentadores. No in\u00edcio, n\u00e3o soube explicar por que aquela presen\u00e7a chamou sua aten\u00e7\u00e3o. Embora fosse bela, algo mais a distinguiu: uma for\u00e7a dif\u00edcil de nomear. De repente, percebeu que o segredo estava em n\u00e3o saber qual mist\u00e9rio ela guardava.<\/p>\n<p>Por um instante, quase chorou de alegria. Acreditou estar finalmente livre daquela loucura, mas a esperan\u00e7a durou pouco. Assim que desviou a aten\u00e7\u00e3o para as outras pessoas ao redor, percebeu que sua maldi\u00e7\u00e3o continuava ativa. Sentiu a ang\u00fastia de uma mulher que, acompanhada dos filhos, havia descoberto um c\u00e2ncer e n\u00e3o sabia como contar \u00e0 fam\u00edlia. Compartilhou a alegria de um homem prestes a surpreender a namorada com um pedido de casamento. E se enojou ao captar o segredo sujo de um psic\u00f3logo que mantinha um caso com uma paciente.<\/p>\n<p>Quando aquela sequ\u00eancia de percep\u00e7\u00f5es o deixou exausto, voltou o olhar para o lugar onde a mo\u00e7a estivera instantes antes, apenas para encontrar o espa\u00e7o vazio. A decep\u00e7\u00e3o o atingiu, mas, ainda assim, foi embora com uma centelha de esperan\u00e7a. Talvez aquela mulher fosse o primeiro sinal de que sua cura, enfim, poderia estar come\u00e7ando.<\/p>\n<p>No dia seguinte, o tormento continuou, mas ao cair da tarde, novamente notou a mesma mo\u00e7a observando o horizonte e assim como no dia anterior, n\u00e3o soube dizer o que ela ocultava.<\/p>\n<p>Suas visitas di\u00e1rias \u00e0 Pra\u00e7a do Cruzeiro j\u00e1 n\u00e3o tinham mais como objetivo apreciar o p\u00f4r do sol, ao inv\u00e9s disso, apreciava observar a jovem em sil\u00eancio, j\u00e1 que \u2014\u00a0 al\u00e9m de bela, olhar para ela representava o \u00fanico momento de paz em seus conturbados pensamentos. Dia ap\u00f3s dia, posicionava sua cadeira um pouco mais perto dela, sempre com cuidado, sempre sem ousar iniciar qualquer conversa. Temia que uma palavra fora de hora, fruto de sua indiscri\u00e7\u00e3o incontrol\u00e1vel, arruinasse tudo e lhe tirasse aquele raro al\u00edvio para sua malfadada condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cada dia a mulher permanecia por mais tempo do que o anterior, o que para ele era um al\u00edvio. Quanto mais ela ficava, mais longo era o intervalo em que conseguia se afastar de sua pr\u00f3pria afli\u00e7\u00e3o. At\u00e9 que, numa noite em que j\u00e1 fazia muito tempo que o sol havia desaparecido, ouviu pela primeira vez a voz dela.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tamb\u00e9m tem, n\u00e9?<\/p>\n<p>Demorou alguns segundos para perceber que a pergunta era dirigida a ele. Estava t\u00e3o absorto na sensa\u00e7\u00e3o de paz que a presen\u00e7a dela lhe proporcionava, que n\u00e3o percebeu que, exceto pelos dois, a pra\u00e7a estava completamente vazia. Permaneceu calado, paralisado pelo medo de abrir a boca e deixar escapar uma torrente de segredos indesejados \u2014 exatamente o tipo de desastre que poderia destruir aquele fr\u00e1gil ref\u00fagio que ela, sem saber, lhe oferecia.<\/p>\n<p>\u2014 Pode falar, sei que se disser algo inapropriado, ser\u00e1 por causa desse maldito dom, voc\u00ea tamb\u00e9m o tem n\u00e9? Eu venho te observando h\u00e1 algum tempo e notei seus olhares para mim. Eu n\u00e3o aguentava mais a ang\u00fastia de conhecer os segredos de todos que se aproximavam. J\u00e1 tinha decidido acabar com a minha vida. Mas, no dia em que decidi que veria meu \u00faltimo p\u00f4r do sol, notei o seu olhar\u2026 e mais do que isso: percebi que eu n\u00e3o sabia nada sobre voc\u00ea.<\/p>\n<p>Mesmo ali ap\u00f3s tantos minutos interagindo nem um dos dois era capaz de saber qual grande segredo o outro guardava e assim puderam conversar at\u00e9 quase entrar a madrugada, como se aquela ignor\u00e2ncia m\u00fatua fosse uma tr\u00e9gua rara. Ao se despedirem, combinaram de se ver de novo, para tentar entender a desgra\u00e7a que compartilhavam. Pela primeira vez em muito tempo carregavam algo parecido com esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>Logo ficou claro que enquanto estivessem juntos seus poderes se anulavam, conseguiam ignorar os segredos alheios, bem como um do outro.<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia, que come\u00e7ou como necessidade urgente, logo se transformou em afinidade. E dessa afinidade, o salto para o amor foi quase inevit\u00e1vel, como se ambos apenas estivessem esperando algu\u00e9m capaz de silenciar o mundo. Passaram a morar juntos e viviam praticamente grudados. A bem da verdade, tinham muito pouco em comum: gostavam de m\u00fasicas diferentes, nunca liam os mesmos livros e raramente concordavam sobre um prato favorito. O sil\u00eancio entre eles era quase constante\u2026 mas n\u00e3o importava. Eram um casal feliz, talvez at\u00e9 mais feliz do que muitos outros.<\/p>\n<p>Na \u00e2nsia de se livrarem do maldito dom, jamais perguntaram um ao outro que passado carregavam ou do que se envergonhavam. E, assim, viviam livres dos medos e inseguran\u00e7as que costumam assombrar as rela\u00e7\u00f5es. Aprenderam juntos que, para amar, n\u00e3o era preciso saber tudo, bastava sentir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jantar entre amigos marcava o retorno de um deles \u00e0 Bras\u00edlia ap\u00f3s muitos anos morando longe. 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