{"id":382762,"date":"2026-02-12T00:30:27","date_gmt":"2026-02-12T03:30:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=382762"},"modified":"2026-02-11T18:56:39","modified_gmt":"2026-02-11T21:56:39","slug":"somos-todos-gregor-samsa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/somos-todos-gregor-samsa\/","title":{"rendered":"Somos todos Gregor Samsa"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Estou aqui, mais do que isso n\u00e3o sei.&#8221;<br \/>\n(Franz Kafka, O ca\u00e7ador Graco)<\/p>\n<p>*Temos um senso comum sobre FRANZ KAFKA (1883 -1924): escritor tcheco, de l\u00edngua alem\u00e3, considerado um dos principais escritores da Literatura Moderna. Suas obras retratam a ansiedade e a aliena\u00e7\u00e3o do homem do s\u00e9culo XX. Generaliza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Resolve; por\u00e9m desejo conversar na cr\u00f4nica de hoje sobre sentidos, emo\u00e7\u00f5es e fazeres mais ocultos presentes no lado profundo \u2013 aquele outro lado que todos temos \u2013 do homem do castelo kafkiano.<\/p>\n<p>Toda a obra de Kafka \u00e9 produzida numa esp\u00e9cie de pesadelo, ou num estado de transe paranoico, que retrata corredores escuros e seres sinistros, procedimentos burocr\u00e1ticos e &#8220;manias persecut\u00f3rias&#8221;, ou seja, no popular: mania de persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>T\u00e1; pra n\u00e3o engessar esta cr\u00f4nica que objetiva ser leve, fluente, &#8220;pro pov\u00e3o&#8221;, repletas de cen\u00e1rios e a\u00e7\u00f5es cotidianas, vamos deixar claro o papo que rola aqui: literatura de mesa de boteco. Isto mesmo; aquele papo gostoso no final da sexta-feira no happy hour\/hora feliz com os amigos do peito; os AMIGOS, pois geralmente &#8220;esses encontros ainda s\u00e3o muito machistas para &#8216;abrir&#8217; para as f\u00eameas&#8221;, com diria Greg\u00f3rio Souza, parceiro de copo que tive na Sampa do final dos anos 1970 fazendo o curso de jornalismo na C\u00e1sper L\u00edbero.<\/p>\n<p>Isto mesmo, Greg\u00f3rio, um fervoroso leitor &#8220;\u00e0s avessas&#8221; do c\u00e9lebre Kafka. Ele dava logo na cara:<\/p>\n<p>&#8220;Velhinho, larga a m\u00e3o de ser ing\u00eanuo: Kafka foi um g\u00eanio doid\u00e3o, paranoico, mas g\u00eanio que n\u00e3o se contentou apenas em virar barata; ele transformou tudo e todos naquele inseto desprez\u00edvel&#8230; e para sempre!&#8221;<\/p>\n<p>No livro A Metamorfose (1912), o protagonista acorda e sem mais nem menos vai adquirindo o aspecto de um inseto. Est\u00e1 logo na primeira p\u00e1gina da novela.<\/p>\n<p>De certa forma, todos n\u00f3s somos Gregor Samsa e desde que nascemos seguimos pela vida predestinados a este movimento de transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 inevit\u00e1vel. Ao longo dos tempos, &#8220;O inseto em si n\u00e3o pode ser desenhado, nem mesmo \u00e0 dist\u00e2ncia&#8221;, escreveu o &#8220;eterno perseguido&#8221;.<\/p>\n<p>No entanto, Kafka foi transformado em vida na pr\u00f3pria barata que ele criou na met\u00e1fora. Leitores, cr\u00edticos, editores, os filmes e, agora, as plataformas sociais e seus algoritmos, insistem em ver Kafka apenas como este criador tr\u00e1gico, de narrativas s\u00f3rdidas, fant\u00e1sticas, met\u00e1foras visuais sobre a condi\u00e7\u00e3o humana num s\u00e9culo de tiranias e torturas. E n\u00e3o deixa de ser.<\/p>\n<p>A ditadura da burocracia, do Estado engessado, da falta de prazer de viver, a rotina detest\u00e1vel de nossa vida &#8220;moderna&#8221; est\u00e1 na base de toda a sua obra.<\/p>\n<p>N\u00e3o, Kafka n\u00e3o foi um expressionista. Escrevia de forma direta mesmo em met\u00e1foras e f\u00e1bulas. Tudo muito alucinado. Seu estilo \u00e9 l\u00edmpido, conciso. Suas novelas s\u00e3o deliciosamente curtas, macabras por certo, por\u00e9m na justa medida; a gente fica com a impress\u00e3o de serem esquem\u00e1ticas, \u00a0parab\u00f3licas. Mas n\u00e3o s\u00e3o. S\u00e3o pedradas diretas, porradas na ponta do queixo.<\/p>\n<p>Para finalizar, busco um resumo da Coisa Kafkiana do excelente e saudoso jornalista e escritor \u2013 tamb\u00e9m de minha gera\u00e7\u00e3o de Sampa nos anos 70 -, Daniel Piza:<\/p>\n<p>&#8220;Descrevendo o desprop\u00f3sito da crueldade, Kafka descreve o desprop\u00f3sito da pr\u00f3pria natureza humana, da vida em sociedade \u2013 que \u00e9 a \u00fanica vida que o homem conhece. Kafka observa as conting\u00eancias, n\u00e3o o acaso; n\u00e3o \u00e9 nem profeta nem marginal. Para ele, o \u00fanico sentido da vida \u00e9 n\u00e3o ter sentido.&#8221;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vamos combinar assim: voltamos amanh\u00e3 para a pr\u00f3xima cr\u00f4nica aqui no Caf\u00e9 Liter\u00e1rio; claro, depois de uma noite destrambelhada sem sono, paranoicos em pleno processo inevit\u00e1vel da metamorfose naquele enorme inseto que deixamos dormindo na cama pela manh\u00e3.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>**Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista, professor\/pesquisador que nunca teve medo de baratas e tem um cachorro velho, meio cego e manco chamado GREGOR. Vive na vila de pescadores da Guarda do Emba\u00fa, litoral de SC.\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Estou aqui, mais do que isso n\u00e3o sei.&#8221; (Franz Kafka, O ca\u00e7ador Graco) *Temos um senso comum sobre FRANZ KAFKA (1883 -1924): escritor tcheco, de l\u00edngua alem\u00e3, considerado um dos principais escritores da Literatura Moderna. Suas obras retratam a ansiedade e a aliena\u00e7\u00e3o do homem do s\u00e9culo XX. Generaliza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas. 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