{"id":383554,"date":"2026-02-18T02:15:09","date_gmt":"2026-02-18T05:15:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=383554"},"modified":"2026-02-17T16:03:46","modified_gmt":"2026-02-17T19:03:46","slug":"por-que-o-brasil-nao-pode-esquecer-1964","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/por-que-o-brasil-nao-pode-esquecer-1964\/","title":{"rendered":"Por que o Brasil n\u00e3o pode esquecer 1964"},"content":{"rendered":"<p>O cinema brasileiro sempre foi muito mais do que apenas pipoca e entretenimento. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, cineastas do pa\u00eds assumiram uma miss\u00e3o quase sagrada: a de funcionar como um &#8220;arquivo vivo&#8221; de um dos per\u00edodos mais sombrios da nossa hist\u00f3ria, a Ditadura Militar. Filmar o que aconteceu entre 1964 e 1985 n\u00e3o \u00e9 apenas contar uma hist\u00f3ria antiga, mas garantir que o presente n\u00e3o perca o rumo.<\/p>\n<p>\u00c9 comum ouvirmos que &#8220;o que passou, passou&#8221;, mas no caso de regimes autorit\u00e1rios, o sil\u00eancio \u00e9 o melhor amigo da repeti\u00e7\u00e3o. O cinema entra em cena para quebrar esse gelo. Quando um filme retrata a censura ou a persegui\u00e7\u00e3o, ele educa as novas gera\u00e7\u00f5es de um jeito que os livros did\u00e1ticos, por vezes frios, n\u00e3o conseguem. A tela grande traz a emo\u00e7\u00e3o que humaniza os dados estat\u00edsticos.<\/p>\n<p>Recentemente, obras como Ainda Estou Aqui mostraram que o foco das narrativas mudou. Se antes o cinema focava muito nos com\u00edcios e na pol\u00edtica das ruas, hoje ele entra na sala de estar das fam\u00edlias. O filme de Walter Salles foca na luta de Eunice Paiva para criar seus filhos e descobrir o que o Estado fez com seu marido, Rubens Paiva. Isso gera uma empatia imediata no p\u00fablico: poderia ser a fam\u00edlia de qualquer um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a de perspectiva \u00e9 fundamental para o entendimento de que a ditadura n\u00e3o afetou apenas &#8220;pol\u00edticos&#8221;. Ela destruiu lares, interrompeu carreiras e calou vozes de artistas, professores e estudantes. Ao ver o sofrimento de uma m\u00e3e ou o medo de uma crian\u00e7a, como no sens\u00edvel <em>O Ano em que Meus Pais Sa\u00edram de F\u00e9rias<\/em>, o espectador entende que a liberdade \u00e9 um bem fr\u00e1gil e precioso.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do drama familiar, o cinema de a\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m cumpre seu papel. Filmes como <em>Marighella<\/em>, dirigido por Wagner Moura, trazem uma energia visceral para a tela. Eles mostram a resist\u00eancia ativa e os dilemas \u00e9ticos de quem decidiu pegar em armas contra o regime. Esse tipo de obra gera debate, incomoda e faz com que o p\u00fablico saia da sala de cinema questionando as vers\u00f5es oficiais da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Outro ponto crucial \u00e9 a den\u00fancia da tortura. Filmes como <em>Batismo de Sangue<\/em> e <em>Zuzu Angel<\/em> n\u00e3o desviam o olhar da brutalidade cometida em por\u00f5es oficiais como o DOI-CODI. Ver essas cenas \u00e9 desconfort\u00e1vel, mas necess\u00e1rio. O desconforto \u00e9 o que nos impede de aceitar discursos negacionistas que tentam dizer que &#8220;n\u00e3o foi bem assim&#8221;. O cinema prova, com imagens e sons, que foi, sim, muito grave.<\/p>\n<p>O papel dos document\u00e1rios tamb\u00e9m n\u00e3o pode ser esquecido. Enquanto a fic\u00e7\u00e3o nos faz sentir, o document\u00e1rio nos faz compreender a engrenagem do poder. <em>O Dia que Durou 21 Anos<\/em>, por exemplo, utiliza documentos reais para mostrar como for\u00e7as estrangeiras influenciaram o golpe. \u00c9 uma aula de geopol\u00edtica que explica como o Brasil foi inserido em um jogo de xadrez global durante a Guerra Fria.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o das produ\u00e7\u00f5es ao longo das d\u00e9cadas mostra que o cinema brasileiro est\u00e1 amadurecendo sua forma de lidar com o trauma. Nos anos 70, a censura obrigava os diretores a usarem met\u00e1foras e mensagens escondidas. Hoje, a liberdade de express\u00e3o conquistada a duras penas permite que a verdade seja dita sem rodeios, com a clareza que a democracia exige.<\/p>\n<p>Manter essa mem\u00f3ria viva atrav\u00e9s das c\u00e2meras \u00e9 uma forma de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Para muitas fam\u00edlias que nunca puderam enterrar seus mortos ou que nunca receberam um pedido de desculpas oficial, ver sua dor reconhecida em um filme premiado mundialmente \u00e9 uma forma de justi\u00e7a simb\u00f3lica. O cinema oferece o reconhecimento que as institui\u00e7\u00f5es, por vezes, negam.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a ind\u00fastria audiovisual gera empregos e leva a cultura brasileira para os maiores festivais do mundo, como Cannes e Veneza. Quando um filme sobre a nossa hist\u00f3ria faz sucesso no exterior, ele mostra que o Brasil \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o que encara seus fantasmas de frente. Isso traz respeito internacional e fortalece a nossa identidade cultural.<\/p>\n<p>Portanto, apoiar e assistir ao cinema nacional que trata desse tema n\u00e3o \u00e9 um ato de &#8220;revanchismo&#8221;. \u00c9 um exerc\u00edcio de cidadania. \u00c9 entender que a democracia brasileira \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o constante e que a vigil\u00e2ncia deve ser eterna. Cada ingresso comprado para um filme hist\u00f3rico \u00e9 um voto de confian\u00e7a na liberdade e na mem\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por fim, o cinema nos ensina que o esquecimento \u00e9 uma forma de nova viol\u00eancia. Enquanto houver luz projetada em uma tela branca, as vozes daqueles que foram calados no passado continuar\u00e3o ecoando. Que as futuras gera\u00e7\u00f5es possam olhar para esses filmes n\u00e3o como um espelho do que vivem, mas como um lembrete constante de um caminho que nunca mais desejamos trilhar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema brasileiro sempre foi muito mais do que apenas pipoca e entretenimento. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, cineastas do pa\u00eds assumiram uma miss\u00e3o quase sagrada: a de funcionar como um &#8220;arquivo vivo&#8221; de um dos per\u00edodos mais sombrios da nossa hist\u00f3ria, a Ditadura Militar. 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