{"id":384568,"date":"2026-02-26T01:15:41","date_gmt":"2026-02-26T04:15:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=384568"},"modified":"2026-02-25T01:01:09","modified_gmt":"2026-02-25T04:01:09","slug":"um-ritual-ao-amanhecer-uma-conta-ao-entardecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/um-ritual-ao-amanhecer-uma-conta-ao-entardecer\/","title":{"rendered":"UM RITUAL AO AMANHECER, UMA CONTA AO ENTARDECER"},"content":{"rendered":"<p>Sem cerim\u00f4nias, ela abriu a cortina do quarto da min\u00fascula casinha e o tirou da cama. Era cedo demais, fazia frio, e ele viajara uma centena de quil\u00f4metros na noite anterior para estar ali. Depois de uma noite intensa de paix\u00e3o, ela disse que queria fazer um ritual nas \u00e1guas do riacho pr\u00f3ximo, renovar as energias, e precisava ser com o dia ainda nascendo.<\/p>\n<p>\u2014 Mas d\u00e1 pra tomar ao menos um caf\u00e9?<br \/>\n\u2014 N\u00e3o, meu bem. Isso desalinha os chacras. Sabe quantos aditivos qu\u00edmicos eles colocam no caf\u00e9?<br \/>\n\u2014 T\u00e1 bem. Ent\u00e3o vamos sem caf\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Caminharam mil e quinhentos metros por uma trilha irregular. Ele chegou ofegante. Ela, plena, vestia uma saia comprida de tecido leve e uma blusa cor de terracota, com colares de pedras naturais no pesco\u00e7o. A cabeleira era loura, esvoa\u00e7ante e volumosa. Ele, de casaco corta-vento fechado at\u00e9 o pesco\u00e7o, sentia frio e calor ao mesmo tempo: suava sob a roupa, mas abri-la significava apanhar um vento gelado e cortante.<\/p>\n<p>Ela entrou no riacho de \u00e1guas cristalinas, que desciam de uma montanha verde com estr\u00e9pito. Ficou ali at\u00e9 a cintura, colocou-se numa posi\u00e7\u00e3o incomum com as m\u00e3os e entoou uma esp\u00e9cie de c\u00e2ntico. Ele observava, entre at\u00f4nito e curioso, e rememorava como haviam chegado at\u00e9 ali.<\/p>\n<p>Ela, vinte anos mais jovem, despertara nele algo que andava adormecido. Sentira-se jovem e ousado o suficiente para cortejar uma mo\u00e7a que praticamente tinha a idade de sua filha mais nova. Ela, ora t\u00edmida, ora provocadora, aceitara os galanteios e se mostrara aberta. Conheceram-se ao acaso, durante um curso que a empresa em que ele trabalhava promovera numa associa\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Ela se apresentara como artista pl\u00e1stica, em busca de patroc\u00ednio para a confec\u00e7\u00e3o de uma obra definitiva sobre as mazelas da guerra no Oriente M\u00e9dio: uma reedi\u00e7\u00e3o de Guernica, de Picasso, em outro contexto temporal e geogr\u00e1fico. Ele admirara a ousadia da mo\u00e7a.<\/p>\n<p>Dali para o romance t\u00f3rrido e clandestino foi um pulo. Construir um pretexto para ficar um fim de semana fora de casa, a fim de encontr\u00e1-la, nem fora t\u00e3o dif\u00edcil. A esposa n\u00e3o se importava. Havia anos viviam numa rela\u00e7\u00e3o de pura indiferen\u00e7a. Ela sequer suspeitara \u2014 ou, se suspeitara, nada dissera. Ele podia fazer o que desse na telha.<\/p>\n<p>Ele foi. No caminho, o cora\u00e7\u00e3o batia forte: sentia-se um menino. Viajou de noite, ap\u00f3s o trabalho, dizendo que era um compromisso profissional. Fora, na verdade, parar no s\u00edtio onde ela morava \u2014 um lugar lindo, talvez herdado, talvez alugado. Ele ainda n\u00e3o se sentia \u00e0 vontade para perguntar.<\/p>\n<p>Ali, na beira do riacho, reparava melhor nos tra\u00e7os dela: as tatuagens florais no bra\u00e7o, as sardas no corpo queimado de sol. Haviam feito amor na penumbra; n\u00e3o vira aquilo durante a noite.<\/p>\n<p>Na volta para a casinha, deitaram-se mais uma vez antes de irem ao povoado mais pr\u00f3ximo tratar de arrumar um almo\u00e7o. Ela comia frugalmente: era vegana e n\u00e3o consumia gl\u00faten. Achava uma ofensa ao corpo ingerir produtos industrializados. Ele, se pudesse, almo\u00e7aria numa churrascaria, com doses generosas de cerveja belga.<\/p>\n<p>Foram pessimamente servidos numa birosca onde a indefect\u00edvel placa de \u201ccomida caseira\u201d era pren\u00fancio da displic\u00eancia com a qualidade da comida e do atendimento. Ela mal tocou no prato e se deu por satisfeita. Comeu algumas verduras e legumes esturricados em azeite. Ele chegou a ficar mal-humorado de fome.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, convidou-a para ir a uma cidade pr\u00f3xima; vira no Google um restaurante especializado em fondue. Foram, embora o card\u00e1pio n\u00e3o se adaptasse completamente \u00e0s restri\u00e7\u00f5es alimentares da mo\u00e7a. Ao menos ele tomou um bom vinho. Riram, contaram hist\u00f3rias de suas vidas, trocaram confid\u00eancias e ficaram ainda mais \u00edntimos.<\/p>\n<p>Ao voltarem para o s\u00edtio, ela ainda quis acender velas \u2014 n\u00e3o para ilumina\u00e7\u00e3o, explicou, mas \u201cpara fechar o campo\u201d. Ele, j\u00e1 tocado pelo vinho e pelo cansa\u00e7o acumulado da viagem, assentiu como se entendesse. Na pr\u00e1tica, queria apenas dormir \u2014 e dormir com ela \u2014 porque ainda havia naquele corpo jovem uma promessa de recome\u00e7o que o distra\u00eda do que era irrecuper\u00e1vel dentro de si. Deitou-se com a sensa\u00e7\u00e3o de ter voltado no tempo; e, como todo retorno imposs\u00edvel, havia ali um qu\u00ea de rid\u00edculo que ele evitava encarar.<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 seguinte, ela j\u00e1 n\u00e3o tinha a do\u00e7ura m\u00edstica do riacho. Estava impaciente com o sinal do celular, irritada com o frio da casa pequena e com a poeira que, dizia, \u201cbaixa a vibra\u00e7\u00e3o\u201d. Ele preparou um caf\u00e9 para si, escondido, como um adolescente que infringe regra dom\u00e9stica. Quando ela sentiu o cheiro, veio com aquele olhar de quem recolhe um erro do universo.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tomou caf\u00e9? \u2014 perguntou, sem elevar a voz, mas com uma autoridade in\u00e9dita.<br \/>\n\u2014 Eu precisava. Ontem eu&#8230; \u2014 ele ia dizer \u201cpassei fome\u201d, mas engoliu a frase. N\u00e3o queria parecer mesquinho. Mesquinho era a realidade, n\u00e3o ele.<br \/>\n\u2014 Isso te deixa denso \u2014 ela decretou. \u2014 Mas tudo bem. Hoje a gente resolve umas coisas na cidade.<\/p>\n<p>\u201cA gente\u201d, ele notou, foi dito com naturalidade. Soava como casal. E ele gostou, apesar do perigo.<\/p>\n<p>Ela entrou no carro com a mesma serenidade com que entrara no riacho. Foi nesse intervalo, o s\u00edtio ficando para tr\u00e1s, o asfalto retomando seu dom\u00ednio, a vegeta\u00e7\u00e3o rareando, que ele viu o primeiro gesto que destoava daquela liturgia do \u201cnatural\u201d. Ela tirou do bolso um ma\u00e7o de cigarros, de marca conhecida, com aquele celofane brilhante e industrial, e acendeu como quem acende uma ideia. Tragou fundo, aliviada. A fuma\u00e7a preencheu o habit\u00e1culo. Ele sentiu o cheiro doce e qu\u00edmico e, por um segundo, lembrou-se da frase sobre aditivos e chacras.<\/p>\n<p>\u2014 Mas&#8230; cigarro n\u00e3o desalinha? \u2014 perguntou, tentando soar leve, quase jocoso.<br \/>\nEla riu, uma risada curta.<br \/>\n\u2014 Depende do cigarro. Esse aqui \u00e9 mais \u201climpo\u201d. E eu fumo s\u00f3 quando preciso aterrissar. Voc\u00ea n\u00e3o entende&#8230; \u00e9 energia.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o quis insistir. At\u00e9 porque, no fundo, sabia que n\u00e3o era energia: era v\u00edcio, como o caf\u00e9 dele. A diferen\u00e7a era que ele n\u00e3o recobria o v\u00edcio com uma cosmologia.<\/p>\n<p>No sem\u00e1foro, enquanto ela tragava, ele reparou melhor no bra\u00e7o dela, no desenho floral que subia e descia at\u00e9 o ombro. N\u00e3o era um detalhe delicado; era um mapa inteiro. Ali havia tinta, agulha, a agress\u00e3o calculada contra a pele \u2014 e, por mais que tatuagem hoje fosse banal, aquilo n\u00e3o combinava com a doutrina do corpo \u201cpuro\u201d, inviol\u00e1vel, ofendido por gl\u00faten e por \u201cprodutos industrializados\u201d.<\/p>\n<p>Sentiu nascer uma pergunta inc\u00f4moda. N\u00e3o era moralista. N\u00e3o era contra tatuagem. Era contra a incoer\u00eancia perform\u00e1tica, essa que se vende como superioridade espiritual.<\/p>\n<p>Ela continuava falando, agora sobre a obra definitiva. Mostrou no celular imagens de bombardeios, crian\u00e7as com poeira, ru\u00ednas. Disse que precisava \u201ctransformar dor em linguagem\u201d, \u201cfazer a arte sangrar\u201d. \u201cReedi\u00e7\u00e3o de Guernica\u201d, repetiu, com brilho nos olhos, como quem repete um mantra que abre portas.<\/p>\n<p>\u2014 S\u00f3 que isso custa \u2014 acrescentou, com naturalidade, como se fosse uma lei imperiosa da f\u00edsica. \u2014 Tinta boa custa. Tela custa, amor. Aluguel de ateli\u00ea custa. E eu n\u00e3o vou pedir para qualquer um. N\u00e3o d\u00e1 pra misturar as coisas. Tem que ser algu\u00e9m alinhado.<\/p>\n<p>Alinhado. Ele ouviu a palavra como um elogio dirigido \u00e0 carteira, n\u00e3o ao car\u00e1ter.<\/p>\n<p>Na cidade, ela pediu que ele a deixasse num sal\u00e3o. N\u00e3o era um cabeleireiro qualquer: fachada elegante, vidro espelhado, uma recep\u00e7\u00e3o que parecia de cl\u00ednica, caf\u00e9 espresso servido em x\u00edcaras com logo (ironia das ironias), uma fileira de mulheres muito arrumadas, todas com o mesmo cansa\u00e7o de quem se dedica \u00e0 pr\u00f3pria apar\u00eancia como se fosse um dever.<\/p>\n<p>Ela se olhou no espelho do carro, puxou uma mecha de cabelo e apontou a raiz escurecida.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e1 vendo? Minha raiz j\u00e1 t\u00e1 muito escura. Isso me derruba, cara. Eu fico sem brilho. E eu preciso do meu brilho agora!<\/p>\n<p>\u201cPreciso do meu brilho.\u201d Ele poderia rir, mas n\u00e3o riu. Havia uma seriedade naquilo, meio teatral, a seriedade de quem tem o mundo como vitrine.<\/p>\n<p>\u2014 Quanto custa isso?<br \/>\n\u2014 Depende. Mas eu fa\u00e7o com um cabeleireiro \u00f3timo aqui. Ele n\u00e3o \u00e9 barato. S\u00f3 que \u00e9 o \u00fanico que n\u00e3o estraga.<\/p>\n<p>Ele estacionou e, por instinto, abriu a carteira. Ela fez um gesto como quem recusa esmola \u2014 ainda que fosse isso.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o&#8230; assim n\u00e3o. Eu n\u00e3o gosto dessa energia de \u201cme dar\u201d. \u00c9 ruim, gera karmas. Eu prefiro que voc\u00ea transfira. \u00c9 mais&#8230; limpo. Eu te passo a chave.<\/p>\n<p>Ele esperou no carro, olhando o movimento da rua, tentando n\u00e3o parecer velho. Acariciou um gatinho amarelo que vadiava por ali, pensou na esposa. Pensou na express\u00e3o \u201ccompromisso profissional\u201d, dita na noite anterior com uma facilidade que o envergonhava. Pensou, tamb\u00e9m, na esposa como \u201cs\u00f3cia\u201d, palavra que ainda n\u00e3o tinha usado, mas que se desenhava h\u00e1 anos: um contrato com vida dentro, agora reduzido a obriga\u00e7\u00f5es e direitos. E pensou na garota, vinte anos mais jovem, que o chamara de \u201cmeu bem\u201d e o arrancara da cama sem cerim\u00f4nias, como se ele pudesse recome\u00e7ar uma exist\u00eancia inteira por causa de um riacho. E como ela lhe mostrara novos repert\u00f3rios e ritmos.<\/p>\n<p>Quando ela saiu do sal\u00e3o, veio com o cabelo impec\u00e1vel, o mesmo louro volumoso, agora mais homog\u00eaneo, e com um sorriso satisfeito, de quem vence uma batalha \u00edntima. Entrou no carro e, antes que ele perguntasse, j\u00e1 veio com o assunto como quem n\u00e3o pede mas informa.<\/p>\n<p>\u2014 Deu mil e trezentos e cinquenta. Mas eu te mando depois certinho, t\u00e1? Eu odeio ficar falando de dinheiro. Me d\u00e1 um n\u00f3 no est\u00f4mago.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o respondeu imediatamente. Fez uma conta mental r\u00e1pida: mil e trezentos e cinquenta por uma raiz. Que planta rara&#8230; O valor n\u00e3o o quebraria. Mas, de repente, n\u00e3o era o valor: era o gesto. Ela n\u00e3o perguntara se ele podia; ela presumira. Como presumira o \u201ca gente resolve umas coisas\u201d, como presumira que caf\u00e9 era proibido, como presumira que o mundo devia se moldar \u00e0 pr\u00f3pria narrativa.<\/p>\n<p>Ele dirigiu. O sil\u00eancio se instalou. Ela, no banco ao lado, abriu o celular e mostrou mais uma imagem: um rascunho de composi\u00e7\u00e3o, com formas angulosas, um caos organizado.<\/p>\n<p>\u2014 Eu queria te levar no meu ateli\u00ea \u2014 disse. \u2014 E queria ver se voc\u00ea topa&#8230; n\u00e3o como \u201cajuda\u201d, mas como investimento no sentido. Eu preciso fechar a fase um. \u00c9 tipo&#8230; uns quinze mil. Eu posso parcelar, claro. E eu coloco seu nome como apoiador. Isso \u00e9 lindo. Isso te torna parte de algo maior.<\/p>\n<p>Parte de algo maior. Ele sentiu, pela primeira vez, a palavra \u201cparte\u201d picar. Era exatamente o que buscava: ser parte de algo que n\u00e3o fosse o cansa\u00e7o da pr\u00f3pria vida. Mas havia ali uma mec\u00e2nica, uma tecnologia de persuas\u00e3o: ela vendia transcend\u00eancia e cobrava em parcelas.<\/p>\n<p>Ele olhou para o bra\u00e7o tatuado dela, para as unhas feitas, para o cigarro que ela acendera de novo assim que sa\u00edram do sal\u00e3o \u2014 \u201cpra aterrissar\u201d \u2014 e pensou, com uma clareza desagrad\u00e1vel: nada ali era natural, nada ali era frugal, nada ali era contra a ind\u00fastria. Era contra a ind\u00fastria quando convinha; era a favor quando trazia conforto ou status. E, sobretudo, era contra a ind\u00fastria como discurso de charme, como m\u00e1scara. A m\u00e1scara de teatro grego que ela usava n\u00e3o era de cer\u00e2mica: era de vocabul\u00e1rio. Uma vitrine de shopping center. Como essas marcas que se pretendem descoladas, mas s\u00e3o esnobes e elitistas.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o era ing\u00eanuo a ponto de achar que pessoas s\u00e3o coerentes. Ningu\u00e9m \u00e9. A vida n\u00e3o \u00e9. Mas percebia, agora, o tipo de incoer\u00eancia que n\u00e3o \u00e9 humana, mas estrat\u00e9gica. Interesseira.<\/p>\n<p>Parou o carro num posto e disse que precisava usar o banheiro. Saiu, respirou o ar frio com uma esp\u00e9cie de al\u00edvio. No espelho, viu-se com os olhos mais cansados do que lembrava. N\u00e3o era um homem rejuvenescido: era um homem tentando comprar a pr\u00f3pria juventude com a moeda da disponibilidade. Teve vontade de rir de si, mas o riso n\u00e3o veio. Veio uma sobriedade quieta.<\/p>\n<p>Quando voltou, ela estava no carro, mexendo no som, escolhendo uma playlist \u201cpra elevar\u201d. Ele entrou, fechou a porta e, antes de dar partida, falou sem raiva, o que, em certas horas, \u00e9 mais duro do que qualquer explos\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o vou fazer isso.<br \/>\n\u2014 Isso o qu\u00ea? \u2014 ela perguntou, com a testa levemente franzida.<br \/>\n\u2014 Eu n\u00e3o vou financiar tua fase um. E, sinceramente, eu tamb\u00e9m n\u00e3o sei por que eu paguei teu cabelo.<\/p>\n<p>Ela abriu a boca para responder, mas ele continuou, para n\u00e3o ser interrompido pelo encantamento:<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea n\u00e3o precisa de mim. Voc\u00ea precisa do que eu posso pagar. E eu&#8230; eu n\u00e3o quero ser isso.<\/p>\n<p>Ela ficou im\u00f3vel por alguns segundos. Depois veio o teatro \u2014 n\u00e3o o grego, mas o contempor\u00e2neo: performance de ofensa e vitimiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Nossa&#8230; que pesado. Voc\u00ea t\u00e1 t\u00e3o denso. Voc\u00ea t\u00e1 sabotando a gente.<br \/>\n\u2014 A gente n\u00e3o existe \u2014 ele disse, e a frase saiu como se estivesse esperando havia anos dentro dele, pronta para qualquer ocasi\u00e3o. \u2014 Existe um fim de semana. Existe uma fantasia. Existe um homem velho querendo se sentir menino. E existe uma mulher jovem que sabe usar isso.<\/p>\n<p>Ela o chamou de inseguro, de machista, de \u201cpresa do sistema\u201d. Disse que ele n\u00e3o suportava uma mulher livre. Ele ouviu sem se defender. N\u00e3o porque concordasse, mas porque compreendia a t\u00e9cnica: o golpe sempre inclui uma acusa\u00e7\u00e3o moral contra quem recua. A recusa vira \u201cfalta de evolu\u00e7\u00e3o\u201d. Ele j\u00e1 tinha idade suficiente para reconhecer esse truque.<\/p>\n<p>Levou-a de volta ao s\u00edtio em sil\u00eancio. Ela desceu sem se despedir, batendo a porta como se fechasse um ciclo espiritual. Ele ficou no carro alguns segundos, olhando a casa pequena que, na v\u00e9spera, lhe parecera cen\u00e1rio de renascimento. Agora era apenas uma casa pequena, um s\u00edtio bonito, uma trilha de mil e quinhentos metros, um riacho frio \u2014 e um homem ridiculamente ofegante.<\/p>\n<p>Dirigiu de volta \u00e0 cidade grande. No caminho, lembrou da esposa com uma estranha ternura sem romance. N\u00e3o porque a amasse de novo, isso seria inven\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel, mas porque, ao menos com ela, n\u00e3o havia performance. Havia a secura honesta de uma conviv\u00eancia consolidada. Havia o acordo t\u00e1cito de quem n\u00e3o se ilude mais e isso, por si, tem uma paz amarga.<\/p>\n<p>Chegou em casa tarde. A esposa estava na sala, lendo qualquer coisa na tela do celular. Olhou para ele sem pressa.<\/p>\n<p>\u2014 Como foi o \u201ccompromisso\u201d? \u2014 perguntou, com voz neutra, sem curiosidade, sem ironia.<\/p>\n<p>Ele hesitou. N\u00e3o por falta de culpa. Culpa ele tinha, sim, mas por perceber que, ali, a verdade era menos importante do que o funcionamento do pacto.<\/p>\n<p>\u2014 Foi&#8230; cansativo \u2014 respondeu.<\/p>\n<p>Ela assentiu, como quem marca um item na lista.<\/p>\n<p>\u2014 Amanh\u00e3 tem a conta do condom\u00ednio. E o carro t\u00e1 com barulho. Voc\u00ea viu?<\/p>\n<p>Ele viu, naquele instante, com uma clareza quase c\u00f4mica: voltara n\u00e3o para o amor, mas para a gest\u00e3o. Para o mundo dos boletos, dos barulhos, das obriga\u00e7\u00f5es. Era isso que a vida deles era: uma sociedade de direitos e deveres, com um apartamento no meio, uma hist\u00f3ria antiga como cl\u00e1usula geral, e um sil\u00eancio funcional como rotina.<\/p>\n<p>Foi ao quarto, tomou banho, deitou-se ao lado dela. N\u00e3o houve abra\u00e7o. N\u00e3o houve briga. Houve apenas um corpo ao lado de outro corpo, como duas presen\u00e7as que j\u00e1 n\u00e3o fingem ser mais do que s\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes de apagar, pensou na palavra \u201calinhamento\u201d, t\u00e3o repetida no fim de semana. Talvez alinhamento n\u00e3o fosse chakra nenhum. Talvez fosse isso: parar de mentir para si, reconhecer o pr\u00f3prio tamanho e aceitar que certos rios \u2014 por mais cristalinos que pare\u00e7am \u2014 s\u00f3 servem para lembrar que a \u00e1gua \u00e9 fria e que a juventude n\u00e3o volta por encantamento.<\/p>\n<p>E, pela primeira vez em muito tempo, dormiu sem a expectativa infantil de que algu\u00e9m o salvaria.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.<br \/>\n<strong>Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) \u00e9 editor do Caf\u00e9 Liter\u00e1rio, juntamente com Eduardo Mart\u00ednez. Poeta e contista, al\u00e9m de advogado e professor universit\u00e1rio no Rio de Janeiro.<\/strong><\/p>\n<div id=\"wpdevar_comment_4\"><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem cerim\u00f4nias, ela abriu a cortina do quarto da min\u00fascula casinha e o tirou da cama. Era cedo demais, fazia frio, e ele viajara uma centena de quil\u00f4metros na noite anterior para estar ali. 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