{"id":386062,"date":"2026-03-09T00:00:51","date_gmt":"2026-03-09T03:00:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=386062"},"modified":"2026-03-07T21:01:33","modified_gmt":"2026-03-08T00:01:33","slug":"a-trajetoria-de-cadu-matos-em-evora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-trajetoria-de-cadu-matos-em-evora\/","title":{"rendered":"A trajet\u00f3ria de Cadu Matos em \u00c9vora"},"content":{"rendered":"<p>Depois de escrever <em>Saudades do Alentejo<\/em>, decidi levar at\u00e9 voc\u00eas <em>Uma aventura em \u00c9vora<\/em>, o relato da porra toda. Foi o meu primeiro texto, escrito e publicado em 2019. \u00c9 grandinho, ser\u00e1 publicado em quatro partes<\/p>\n<p><strong>Uma aventura em \u00c9vora \u2013 1<\/strong><\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou com uma festa na casa de uma brasileira em Lisboa. N\u00e3o lembro de quem era o apartamento, minha mem\u00f3ria est\u00e1 uma lama, mas essas reuni\u00f5es da, digamos, esquerda festiva (e n\u00e3o t\u00e3o festiva assim) brasileira em Portugal eram comuns, no ano de gra\u00e7a de 1975.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o era (mais) militante, estava na periferia desse movimento. Fazia em Paris um doutorado na \u00c9cole Pratique des Hautes \u00c9tudes e morava com minha mulher na Maison du Br\u00e9sil. Meu trabalho acad\u00eamico ia mal, meu casamento idem. N\u00f3s dois j\u00e1 hav\u00edamos visitado Portugal em 1974, logo ap\u00f3s a derrubada do regime p\u00f3s-salazarista, e fic\u00e1ramos encantados com a coisa. Ent\u00e3o decidi voltar, sozinho, no ano seguinte. Cheguei, vi e me perdi, mergulhei de cabe\u00e7a na festa m\u00f3vel que era a Lisboa dos com\u00edcios e das bandeiras vermelhas.<\/p>\n<p>E \u00e0 noite havia outro tipo de festa, muito \u00e1lcool, algumas drogas, discos de MPB e intermin\u00e1veis discuss\u00f5es pol\u00edticas. Foi ent\u00e3o que ouvi dois carinhas conversando, n\u00e3o lembro quem eram. Um deles perguntou se o outro aceitaria dar aulas em uma faculdade de \u00c9vora, no Alentejo. Para sorte minha, o carinha no 2 recusou. Eu estava perto, entrei no papo, e minutos depois estava com os contatos para iniciar uma carreira de professor universit\u00e1rio. Lembro de havermos dito, o carinha no 2 e eu, que era essencial impor condi\u00e7\u00f5es de rigor acad\u00eamico e pol\u00edtico aos dirigentes da faculdade, antes de aceitar qualquer proposta de trabalho. Mais politicamente correto, imposs\u00edvel. Quanto a ele, n\u00e3o sei; quanto a mim, era uma mentira deslavada, eu venderia a alma para deixar de ser turista e me tornar um intelectual org\u00e2nico (Gramsci oblige) de um pa\u00eds em ebuli\u00e7\u00e3o. Meu tipo ideal, naquele momento, n\u00e3o era L\u00eanin nem Trostky, e sim John Reed. Eu estava decidido a, no m\u00ednimo, testemunhar de maneira participativa aqueles dias que abalariam a Europa (cu\u00edca o mundo).<\/p>\n<p>E foi assim que comprei passagem no comboio para \u00c9vora e, 1h30 depois, desembarquei no Alentejo. \u00c0 medida que me afastava da esta\u00e7\u00e3o, o calor me golpeou, como um soco no peito. Fui criado nas praias fluminenses, e achava que tiraria de letra qualquer ver\u00e3ozinho europeu. Mas o calor vinha da \u00c1frica, momentaneamente amenizado pela brisa das praias do Algarve, para em seguida avan\u00e7ar, querendo vingan\u00e7a, rumo ao Alentejo central. O ar quente e seco tornava dif\u00edcil respirar; meu relacionamento com a cidade come\u00e7ava mal.<\/p>\n<p>Mas logo me apaixonei pelas casinhas, de telhado vermelho e um branco reluzente ao Sol. As ruas tinham nomes encantadores, como Rua do Imagin\u00e1rio (dos fabricantes de imagens religiosas). Afinal, cheguei \u00e0 grande pra\u00e7a do Giraldo, bem no centro da cidade, com seus arcos em curva. Alguns desses arcos davam acesso a um misto de botequim e bar, mais sombrio e mais fresco que o exterior. Ele tornou-se um point, um local para preparar minhas aulas e beber imperiais (chopes, para os n\u00e3o iniciados).<\/p>\n<p>Mas nesse primeiro dia n\u00e3o houve imperiais. Continuei a andar e logo cheguei ao centro hist\u00f3rico. Ali, no Largo de Vila Flor (obrigado, Google) ficava a Escola Superior de Estudos Sociais e Econ\u00f3micos Bento de Jesus Cara\u00e7a, onde eu daria aulas. Fora criada depois que a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos levara a faculdade jesu\u00edtica existente no local a suspender suas atividades. Era a segunda vez que a Companhia de Jesus se dava mal por ali. As instala\u00e7\u00f5es abrigaram a Universidade de \u00c9vora \u2013 fundada em 1559 e controlada pelos jesu\u00edtas at\u00e9 1759, quando o marqu\u00eas de Pombal a extinguiu e expulsou os padres.<\/p>\n<p>Junto \u00e0 Escola Bento de Jesus Cara\u00e7a, entre outros monumentos magn\u00edficos, estavam a S\u00e9 de \u00c9vora, o antigo Tribunal da Inquisi\u00e7\u00e3o, a Igreja e Convento dos L\u00f3ios e a Biblioteca P\u00fablica. Mas o monumento mais pr\u00f3ximo, coladinho \u00e0 faculdade, estava em ru\u00ednas. Eram os restos do templo romano de \u00c9vora \u2013 a \u00fanica coisa que eu conhecia da cidade, ainda que o chamasse erroneamente, como tanta gente boa, de Templo de Diana. N\u00e3o era de Diana, era dos meus alunos e meu. Ou logo viria a ser.<\/p>\n<p>Apresentei-me na secretaria, expus minhas credenciais acad\u00eamicas \u2013 eu fazia mestrado no Brasil sob a orienta\u00e7\u00e3o de Francisco Weffort e doutorado em Paris, com Alain Touraine \u2013, fui contratado, soube quando daria minhas primeiras aulas, pra quais turmas, e quanto receberia. O pagamento n\u00e3o era nenhuma maravilha, mas os administradores acrescentaram que eu teria uma ajuda de custo por ter de me deslocar da capital at\u00e9 a distante \u00c9vora. Grana extra por 1h30 de viagem? Eu quase pagaria para dar aulas no Alentejo vermelho! Sou Flamengo, mas lembrei-me do hino do Gr\u00eamio: \u201cAt\u00e9 a p\u00e9 n\u00f3s iremos&#8230;\u201d. Eu n\u00e3o chegaria a tanto, iria de comboio, n\u00e3o a p\u00e9, mas o esp\u00edrito era esse.<\/p>\n<p><strong>Uma aventura em \u00c9vora \u2013 2<\/strong><\/p>\n<p>Eu ficaria com uma turma do 4\u00ba ano e outra do 5\u00ba, ensinando, respectivamente, Sociologia do Desenvolvimento e Sindicalismo. Para esta \u00faltima n\u00e3o havia problema: eu escrevera, na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o brasileira, um paper em que abordava ideias de L\u00eanin, Trotsky, Rosa Luxemburgo e Gramsci, somando-as \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o sindical e aos movimentos sociais do proletariado europeu nas d\u00e9cadas de 1900 a 1930. O texto mereceu elogios e eu, todo pimp\u00e3o, levei-o comigo para a Europa. Foi s\u00f3 xerocar o documento, distribuir c\u00f3pias entre os alunos e encomendar semin\u00e1rios e discuss\u00f5es sobre os diversos t\u00f3picos. Este texto foi depositado na Biblioteca de \u00c9vora, bem perto da Escola do Cara\u00e7a \u2013 era como meus alunos designavam a alma mater, por motivos \u00f3bvios.<\/p>\n<p>Para Sociologia do Desenvolvimento, por\u00e9m, o buraco era mais embaixo. Eu n\u00e3o tinha livros sobre o assunto, nem grana para compr\u00e1-los. Afinal, meu pouco dinheiro era para cigarros, muito \u00e1lcool, comida barata, tomar o Metro (metr\u00f4) de Amadora, onde eu morava com um casal de amigos, at\u00e9 o centro de Lisboa, onde tudo acontecia. E tamb\u00e9m para jornais, obrigat\u00f3rios, e um eventual hotel quando eu tinha companhia feminina. Sem outro recurso, entrei na Livraria Luso-Brasileira (acho que o nome era esse), peguei o livro Sociologia do Desenvolvimento, da Zahar, e sa\u00ed na maior cara de pau. Ningu\u00e9m me perseguiu, os deuses protegem professores iniciantes.<\/p>\n<p>Veio ent\u00e3o a prepara\u00e7\u00e3o das aulas. Eu n\u00e3o tinha experi\u00eancia e muito menos did\u00e1tica, ent\u00e3o cronometrei minha exposi\u00e7\u00e3o, os momentos de introduzir piadas para tornar mais leve a coisa e por a\u00ed foi. Tive a ideia de explorar uma f\u00f3rmula de L\u00eanin \u2013 socialismo = poder dos sovietes + eletricidade \u2013 e compar\u00e1-la aos projetos desenvolvimentistas latino-americanos e portugueses, que enfatizam a eletrifica\u00e7\u00e3o e outras pol\u00edticas mas se omitem na quest\u00e3o do poder de classe. Em outras palavras, n\u00e3o se encontram por a\u00ed f\u00f3rmulas do tipo capitalismo = poder da burguesia + eletricidade. Da\u00ed ser poss\u00edvel criticar, pela esquerda, as pol\u00edticas dos generais dos cravos, tamb\u00e9m omissos quanto a esse poder. Era assim que se pensava na \u00e9poca, e olhem que meu c\u00f4t\u00e9 trotskista me tornava mais sofisticado e flex\u00edvel que os comunistas casca grossa.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera de meu d\u00e9but professoral, sa\u00ed com uma turma para festejar. No final, quando eu, beba\u00e7o, me dirigia ao Metro, tropecei e senti uma dor lancinante no p\u00e9 esquerdo. Aparentemente, ele estava quebrado, o que me imobilizaria em Lisboa. Mas desistir de \u00c9vora, nem pensar. Repeti para mim mesmo que era apenas uma entorse \u2013 e por sorte era mesmo, sen\u00e3o meu p\u00e9 teria gangrenado \u2013, manquitolei at\u00e9 o Metro e fui para Amadora, gemendo que nem alma penada. No dia seguinte, eu estava na Escola do Cara\u00e7a, com o p\u00e9 super inchado, pronto a enfrentar minha primeira turma.<\/p>\n<p>Foi um sucesso, na minha enviesada opini\u00e3o. Escrevi na lousa a f\u00f3rmula leninista, os alunos copiaram, quebrei a tens\u00e3o com observa\u00e7\u00f5es divertidas nos momentos previstos, os alunos riram, discuti a quest\u00e3o do poder de classe, os alunos, s\u00e9rios, pareceram concordar. Cumpri o cronograma at\u00e9 o \u00faltimo segundo. Meses depois, soube que, devido ao meu sotaque brazuca, eles n\u00e3o entenderam pissirongas, mas eram educados demais para me pedir que repetisse algum ponto ou que falasse mais devagar.<\/p>\n<p>Alguns momentos dessa primeira aula s\u00e3o inesquec\u00edveis. Uma aluna do 4\u00ba ano se encantou comigo, invadiu minha aula pro 5\u00ba ano e me encarou o tempo todo, embevecida. Chamava-se Ant\u00f3nia e era uma alentejana t\u00edpica, meio feia, mais forte do que gorda. Meses depois, minha futura ex-mulher foi comigo at\u00e9 \u00c9vora e assistiu \u00e0s minhas aulas. Ant\u00f3nia bufava de \u00f3dio. Se olhar matasse, haveria uma fil\u00f3sofa brasileira a menos no mundo.<\/p>\n<p>E, finalmente, veio a confraterniza\u00e7\u00e3o com os alunos, todos sentados nas pedras gastas do templo romano. Os alentejanos eram maioria, mas havia rapazes e mo\u00e7as de todo o pa\u00eds, de Tr\u00e1s-os-Montes ao Algarve. Convenci-os a n\u00e3o me chamar de Sr. Professor Dr., apenas de professor, ou de Carlos, ou de Eduardo, ou de Carlos Eduardo ou de Cadu. E instiguei-os a entoar os lindos cantares alentejanos. Muitos deles achavam cafona, preferiam MPB ou rock, mas eu recebia uma Ant\u00f3nia r\u00e1pida e ficava embevecido, ouvindo-os.<\/p>\n<p>Entre uma toada e outra, paqueras e discuss\u00f5es pol\u00edticas n\u00e3o cessavam. Os primeiros a se aproximar foram dois transmontanos que se diziam anarquistas, o Rato e o Bica (n\u00e3o lembro seus primeiros nomes). Vinham de aldeias conservadoras do Norte, e o anarquismo deles, a meu ver, era um recurso para continuarem a se opor a comunistas e socialistas. Mas havia um professor libert\u00e1rio, de ideias enraizadas e fino senso de humor, com quem tive divertidas discuss\u00f5es pol\u00edticas. Claro que n\u00e3o lembro seu nome.<\/p>\n<p>Simpatizante trosco, eu at\u00e9 tentei catequisar a mo\u00e7ada, no melhor estilo Escola com Partido \u2013 algo prejudicado por eu n\u00e3o ser militante de um partido nem em Portugal nem no Brasil \u2013, mas n\u00e3o converti ningu\u00e9m. Nem Ant\u00f3nia, que dava mostras ostensivas de querer abra\u00e7ar as ideias de Lev Davidovitch, desde que pudesse tamb\u00e9m abra\u00e7ar meu fr\u00e1gil corpinho. Pobre Ant\u00f3nia! O m\u00e1ximo de intimidade que tivemos foi um jantar no Fialho, um restaurante chique de \u00c9vora. Depois alguns alunos me felicitaram por ter comido apenas o jantar, n\u00e3o Ant\u00f3nia, mas outra coisa seria abuso, e dos grandes.<\/p>\n<p>Minhas tentativas de proselitismo n\u00e3o tinham muita convic\u00e7\u00e3o. Em Lisboa eu participava de intermin\u00e1veis discuss\u00f5es, escrevia artigos pol\u00edticos \u00e0s vezes publicados na imprensa pr\u00f3xima ao trotskismo, bebia porradas de imperiais no Rossio e tentava transar adoidado. Eu me sentia livre, leve e solto; meu casamento, de papel passado, tinha subido no telhado e se inclinava perigosamente na beirada, balan\u00e7ando as perninhas. J\u00e1 em \u00c9vora, bastavam-me o templo romano e os cantares.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>As duas partes finais do conto <em>Uma aventura em \u00c9vora<\/em> ser\u00e3o publicadasnesta ter\u00e7a (10).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de escrever Saudades do Alentejo, decidi levar at\u00e9 voc\u00eas Uma aventura em \u00c9vora, o relato da porra toda. Foi o meu primeiro texto, escrito e publicado em 2019. \u00c9 grandinho, ser\u00e1 publicado em quatro partes Uma aventura em \u00c9vora \u2013 1 Tudo come\u00e7ou com uma festa na casa de uma brasileira em Lisboa. 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