{"id":387093,"date":"2026-03-17T00:45:24","date_gmt":"2026-03-17T03:45:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=387093"},"modified":"2026-03-15T09:38:13","modified_gmt":"2026-03-15T12:38:13","slug":"vaga-lumes-em-chamas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/vaga-lumes-em-chamas\/","title":{"rendered":"Vaga-lumes em chamas"},"content":{"rendered":"<p>Em outubro de 1993, poucos dias antes do banho fatal que levaria nossa m\u00e3e de forma implac\u00e1vel &#8211; a pneumonia e o enfisema andam de m\u00e3os dadas e tramam com o destino do tempo -, conversamos sobre as anota\u00e7\u00f5es que eu vinha fazendo ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Contei-lhe que eram pequenos registros de hist\u00f3rias, de fatos, lembran\u00e7as soltas, fragmentadas, sobre a tribo do circo, sobre n\u00f3s mesmos.<br \/>\nEla achou bacana e com o entusiasmo de sempre desfiou um ros\u00e1rio de &#8220;p\u00e9rolas&#8221; lapidadas pela viv\u00eancia deles como n\u00f4mades errantes. Hoje, eu poderia escrever at\u00e9 o fim da vida sobre hist\u00f3rias t\u00e3o ricas, variadas e cheias de ess\u00eancia e humor.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelas duas da madrugada, nossa m\u00e3e lembrou-se de uma passagem que considero extremamente po\u00e9tica e delicada e que, sem ela saber, eu tamb\u00e9m j\u00e1 conhecia:<\/p>\n<p>\u2014 O teu pai era um poeta, Beto! Um homem grande que via o mundo com os olhos de crian\u00e7a. Uma noite eu acordei no hotel, em Tup\u00e3, j\u00e1 era madrugada, e como ele n\u00e3o estava na cama, sa\u00ed procurando por ele. Encontrei o M\u00e1rio e o Divino no fundo do quintal muito agitados, dando gargalhadas. Achei, de in\u00edcio, que eles tinham tomado todas e estavam alegrinhos&#8230; brincadeira&#8230; voc\u00ea sabe que o teu pai n\u00e3o bebia &#8211; s\u00f3 eu e o Divino, n\u00e9 -; perto da mangueira pude ver uma esp\u00e9cie de nuvem brilhante que girava em c\u00edrculos, ia e vinha. Fiquei intrigada e perguntei baixinho a ele o que seria aquilo?- Ele alisou o grosso bigode e me respondeu com prazer nos olhos:<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o vaga-lumes, Fia! Eles j\u00e1 est\u00e3o treinadinho, viciados&#8230; toda noite, na mesma hora, o bando vem visitar a gente aqui no quintal&#8230; vaga-lumes s\u00e3o bichinhos muito fr\u00e1geis. Os homens tamb\u00e9m. Os vaga-lumes nascem, brilham por um tempo m\u00ednimo e morrem. Os homens tamb\u00e9m. A principal diferen\u00e7a, al\u00e9m do racioc\u00ednio, \u00e9 a saudade, a circula\u00e7\u00e3o, pois eles v\u00e3o e voltam sempre&#8230; e a mem\u00f3ria&#8221;.<\/p>\n<p>Limpei as l\u00e1grimas do rosto de nossa m\u00e3e e contei-lhe sobre o epis\u00f3dio das formigas e do convite feito pelo pai naquela mesma \u00e9poca de Tup\u00e3 para que, um dia, eu participasse das observa\u00e7\u00f5es aos vaga-lumes com ele e o Divino. Nunca fui. Aos treze anos, achei que o velho tava doid\u00e3o, coisas da ma\u00e7onaria&#8230; Arrependo-me do fundo do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O ano de 1993 foi como um acerto de contas atrav\u00e9s das lembran\u00e7as e das narrativas de hist\u00f3rias com nossa m\u00e3e. Hav\u00edamos retornado a Florian\u00f3polis, depois de muitas andan\u00e7as por S\u00e3o Paulo e interior &#8211; agora j\u00e1 sem o nosso pai e o Divino &#8211; mas com o tio Norico bastante doente morando com a gente. Tenho saudades do apartamento da avenida Madre Benvenuta, na Trindade, em frente ao Clube Paula Ramos.<br \/>\nEu pedi demiss\u00e3o da rede Globo e o \u00fanico projeto era trazer nossa m\u00e3e para morrer perto dos filhos e dos netos. O mano M\u00e1rio alugou o apartamento para n\u00f3s &#8211; no mesmo condom\u00ednio onde ele j\u00e1 morava com sua fam\u00edlia &#8211; e, de certa forma, reunimos parte poss\u00edvel da tribo novamente.<\/p>\n<p>A nossa m\u00e3e estava inspirada e queria contar todas as hist\u00f3rias; como se soubesse que o prazo dado pelo tempo a ela estava pr\u00f3ximo. Por volta das tr\u00eas da madrugada tocou no que considero a hist\u00f3ria mais nebulosa e ainda n\u00e3o explicada totalmente na saga de M\u00e1rio\/Motinha e Nair\/Nha&#8217;Fia, a do inc\u00eandio de nosso circo.<\/p>\n<p>Pela primeira vez, ap\u00f3s d\u00e9cadas, nossa m\u00e3e abriu o peito, criou coragem e desabafou:<\/p>\n<p>\u2014 Olha, Beto, em 1961 n\u00f3s chegamos com o circo na cidade de Tup\u00e3. Fomos bem-recebidos, teve uma grande festa nos meus 40 anos de idade, voc\u00ea deve se lembrar, n\u00e9, apesar de pequenino. Tudo ia muito bem, a pra\u00e7a boa, circo lotado todas as noites e essa coisa legal que acontece quando tudo vai bem. Mas, numa manh\u00e3 de segunda-feira, teu irm\u00e3o Marinho saiu de dentro do circo correndo e entrou gritando, apavorado, que estava pegando fogo no circo. Est\u00e1vamos em poucos, pois era dia de folga da companhia e muitos viajaram ou sa\u00edram para passear. Quando entramos no pavilh\u00e3o, a metade do pano j\u00e1 estava tomada pelo fogo. Labaredas gigantes, tudo queimando. Como por Deus, de repente parecia que a cidade inteira estava ali com baldes d&#8217;agua, extintores, ajudando a apagar o inc\u00eandio. Foi tr\u00e1gico, dolorido, pois hav\u00edamos reformado o circo recentemente, estava um brinco de lindo, e o pano feito por n\u00f3s &#8211; lembra, Beto?- estava quase todo destru\u00eddo.<\/p>\n<p>A essa altura era nossa m\u00e3e que limpava as l\u00e1grimas em meu rosto e eu &#8211; como n\u00e3o poderia deixar de ser &#8211; permaneci im\u00f3vel, calado. Perguntei-lhe pela mil\u00e9sima vez em nossas vidas sobre o que teria ocorrido. Desta vez ela n\u00e3o desconversou como em tantas outras e, olhando bem em meus olhos, falou em tom grave:<\/p>\n<p>\u2014 Gilberto: a natureza humana \u00e9 muito complicada, cheia de coisas que n\u00e3o d\u00e1 para entender e muito menos explicar, sabe! Eu nunca aceitei o que aconteceu. A cidade nos amava, nos respeitava e nosso circo n\u00e3o tinha portas fechadas. Teu pai ajudava todo mundo, a igreja, a Casa das Crian\u00e7as, o Rotary, o Lions, a Apae e j\u00e1 estava ligado \u00e0 ma\u00e7onaria desde a cidade de Birigui. A televis\u00e3o ainda n\u00e3o tinha a for\u00e7a que tem hoje, e o circo era a alegria da cidade. S\u00f3 pode ter sido coisa de pol\u00edtica, sabe&#8230; eu n\u00e3o tenho outra explica\u00e7\u00e3o&#8230; ou ent\u00e3o coisa de inveja, de despeito, sei l\u00e1! O fato \u00e9 que quase queimaram nossos sonhos, nossa vida, mas t\u00ednhamos voc\u00ea e teu irm\u00e3o e tivemos motivos e for\u00e7as para recome\u00e7ar. E recome\u00e7amos, lembra? com aquele espet\u00e1culo maravilhoso seguido de v\u00e1rias semanas com o circo cheio, plateia boa, e tudo ali, sem pano cobrindo, ao ar livre, s\u00f3 a noite e as estrelas cuidando de n\u00f3s&#8230; sabe que pareciam mesmo os vaga-lumes do teu pai que se juntaram para iluminar o nosso circo? Porra, Beto! Agora eu fui fundo, n\u00e9! Ah! Ah! Ah!<\/p>\n<p>Aquela mulher era assim. Navegava da mais profunda tristeza \u00e0 tiradas criativas de grande humor em segundos. Era a Nair\/Nha&#8217;Fia de sempre; especial, terna e eterna; um ser de luz, como os vaga-lumes de nosso pai, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>Reconstru\u00edmos o circo com a ajuda da cidade.<\/p>\n<p>Em 1964, com o golpe militar\/financeiro\/religioso no pa\u00eds, nossos pais compraram o Hotel Coimbra exatamente na cidade de Tup\u00e3, SP.<br \/>\nVivemos ali por quatorze anos.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta, filho de Nair\/Nh\u00e1 Fia e M\u00e1rio\/Motinha, dois injusti\u00e7ados da ditadura brasileira. Vive na Guarda do Emba\u00fa SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em outubro de 1993, poucos dias antes do banho fatal que levaria nossa m\u00e3e de forma implac\u00e1vel &#8211; a pneumonia e o enfisema andam de m\u00e3os dadas e tramam com o destino do tempo -, conversamos sobre as anota\u00e7\u00f5es que eu vinha fazendo ao longo dos anos. 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