{"id":387192,"date":"2026-03-16T04:00:12","date_gmt":"2026-03-16T07:00:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=387192"},"modified":"2026-03-16T04:58:09","modified_gmt":"2026-03-16T07:58:09","slug":"cidades-e-mulheres-sao-infinitas-como-o-universo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cidades-e-mulheres-sao-infinitas-como-o-universo\/","title":{"rendered":"Cidades e mulheres s\u00e3o infinitas como o Universo"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\">As cidades s\u00e3o como as mulheres. De manh\u00e3, douram-se ao sol, como as rosas da primavera, desembocando no rio azul da tarde, e, \u00e0 noite, se perdem na luz. Da mesma forma que as mulheres, as cidades latejam segredos que s\u00f3 revelam aos que sabem mergulhar no abismo das rosas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Amo v\u00e1rias cidades, e elas se entregam a mim sem reservas. Bel\u00e9m me seduz, com seu feiti\u00e7o de rosas vermelhas, colombianas, flutuando no azul do mar, deixando um rastro de Chanel 5, gim e perfume de mulher absorta ao toucador. Manaus tamb\u00e9m, onde o cheiro de mulher \u00e9 t\u00e3o intenso que causa vertigem, e sentimos, lentos, os movimentos da Terra no espa\u00e7o, como m\u00fasica de Mozart.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Rio de Janeiro tem o poder de me fazer voar, cavalgando besouros furta-cores num mar transparente sem fim. H\u00e1, ainda, outras cidades a quem eu seduzo como o garanh\u00e3o faz a corte \u00e0 sua pr\u00f3xima v\u00edtima, com paci\u00eancia, concentra\u00e7\u00e3o total e, sobretudo, f\u00e9. Mas, diferentemente do garanh\u00e3o, percorro as cidades com amor. Assim \u00e9 com Macap\u00e1.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A melhor maneira de descobrir Macap\u00e1 \u00e9 atravessando de barco o estu\u00e1rio do rio Amazonas. Quem sai do arquip\u00e9lago do Maraj\u00f3 e mergulha no maior rio do mundo, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Linha Imagin\u00e1ria do Equador, avista, de repente, a cidade, que emerge como cunhant\u00e3 se banhando no rio, o vestido molhado, colando-se ao corpo, os cabelos espargindo \u00e1gua e nos olhos o mist\u00e9rio. \u00c9 assim que gosto de pensar a cidade, com seu cheiro de jasmim nas noites mornas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sou teu, Macap\u00e1, porque tu me pariste, \u00e0s 5 horas do dia 7 de agosto de 1954, no Hospital Geral, e de l\u00e1 fui para a Casa Amarela, ao lado do Col\u00e9gio Amapaense, na Avenida Iracema Carv\u00e3o Nunes com a Rua Eliezer Levy, ao lado da Mata do Rocha, e l\u00e1 passei 11 anos da minha inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Restou a Seringueira, que meu pai plantou, e que foi salva de ser decepada \u2013 porque se recusou a sair do caminho do muro do Col\u00e9gio Amapaense \u2013 pelo agr\u00f4nomo Luiz Fa\u00e7anha, que se abra\u00e7ou ao seu tronco num gesto de amor. Meu pai, Jo\u00e3o Raimundo Cunha, semeou a Seringueira, em 1952, ano do nascimento do meu irm\u00e3o, o pintor genial Olivar Cunha. Macap\u00e1, para mim, \u00e9 isso, e \u00e9 tanta coisa&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As cidades, como as mulheres, quanto mais as amamos, mais belas ficam, e mais misteriosas. E, como as mulheres, as cidades nunca s\u00e3o nossas. S\u00e3o delas mesmas, e de todos os que as amam. N\u00e3o podemos jamais ser donos de uma cidade, da mesma forma que \u00e9 imposs\u00edvel nos apossarmos de uma mulher, porque as mulheres s\u00e3o sempre livres e misteriosas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E, como as mulheres, as cidades est\u00e3o sempre diferentes. A cada manh\u00e3 h\u00e1 algo novo nas suas vidas, h\u00e1 um novo mist\u00e9rio no seu sorriso. A cada partida, fica impl\u00edcito o encontro marcado, e as chegadas s\u00e3o regadas de risos, de luz, e perd\u00e3o. As mulheres, devemos apenas as amar, sem exigir nada, porque nada se pode exigir do inacess\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As mulheres s\u00e3o feitas de eternidade. \u00c9 imposs\u00edvel subjug\u00e1-las para aspirar suas almas. Tudo o que um homem pode fazer \u00e9 deixar-se inundar pela luz das mulheres, e, ent\u00e3o, tornar-se imortal. Porque as mulheres s\u00e3o deusas. Deusas porque a intelig\u00eancia que rege o Universo as criou com a subjetividade de Deus.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As mulheres s\u00e3o feitas de ferom\u00f4nios, porque exalam perfume de p\u00fabis angelical, suave aroma azul, como a mais sublime inspira\u00e7\u00e3o de Mozart, como gemidos da mulher amada, de madrugada, em um grande hotel. As mulheres s\u00e3o a rua mais ensolarada das nossas lembran\u00e7as. Cada uma delas \u00e9 uma cidade onde gostamos de mergulhar. As possibilidades que se abrem nos labirintos misteriosos da alma feminina s\u00e3o alento de serotonina.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Caminhamos nas cidades que amamos pelas ruas do cora\u00e7\u00e3o, frequentamos os bares onde est\u00e3o nossos amigos, vivos e mortos, e, se \u00e9 uma cidade que tem mar, mergulhamos nele com o olhar, e, se \u00e9 uma cidade que tem rio, contemplamos o rio. Da mesma forma navegamos as mulheres, sentindo seu cheiro, seu sabor, ouvindo seu riso, seus gemidos de prazer, bebendo colostro, sugando serotonina e viajando como a luz.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Dentro de uma mulher, viajamos instantaneamente para qualquer ponto do Universo. O Universo \u00e9 infinito, n\u00e3o para as mulheres. Elas s\u00e3o como a luz. S\u00f3 temos que as amar. S\u00f3 assim, mesmo que n\u00e3o as possuamos, elas s\u00e3o nossas, apenas porque nos quedamos sob sua luz. Se n\u00e3o podemos toc\u00e1-las, podemos v\u00ea-las, mesmo que seja por alguns segundos em um grande aeroporto internacional, de madrugada. E se nem isso for poss\u00edvel basta pensarmos nelas, com f\u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As cidades s\u00e3o como as mulheres. De manh\u00e3, douram-se ao sol, como as rosas da primavera, desembocando no rio azul da tarde, e, \u00e0 noite, se perdem na luz. Da mesma forma que as mulheres, as cidades latejam segredos que s\u00f3 revelam aos que sabem mergulhar no abismo das rosas. Amo v\u00e1rias cidades, e elas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":260417,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[236],"tags":[],"class_list":["post-387192","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-ponto-de-vista"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/387192","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=387192"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/387192\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":387193,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/387192\/revisions\/387193"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/260417"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=387192"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=387192"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=387192"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}