{"id":387327,"date":"2026-03-17T04:10:55","date_gmt":"2026-03-17T07:10:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=387327"},"modified":"2026-03-17T00:12:31","modified_gmt":"2026-03-17T03:12:31","slug":"acoes-em-massa-para-desacreditar-supremo-ameacam-a-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/acoes-em-massa-para-desacreditar-supremo-ameacam-a-democracia\/","title":{"rendered":"A\u00e7\u00f5es em massa para desacreditar Supremo amea\u00e7am a democracia"},"content":{"rendered":"<p>Em tempos de turbul\u00eancia, h\u00e1 sempre algu\u00e9m disposto a vender f\u00f3sforo perto do dep\u00f3sito de p\u00f3lvora. E o Brasil, que multiplica crises, tempera e serve em pra\u00e7a p\u00fablica, est\u00e1 assistindo a mais um cap\u00edtulo do velho enredo nacional, onde documentos sigilosos aparecem misteriosamente nas esquinas digitais, trechos escolhidos a dedo ganham vida pr\u00f3pria, vers\u00f5es circulam antes dos autos, e o debate deixa de ser jur\u00eddico para se transformar em espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Em linhas gerais, n\u00e3o se vaza mais informa\u00e7\u00e3o; fabrica-se atmosfera. E quando o pa\u00eds atravessa aperto fiscal, desconfian\u00e7a de mercado, ru\u00eddo entre Poderes, disputa antecipada por espa\u00e7os de 2026 e nervosismo institucional, certos vazamentos deixam de parecer acidente hidr\u00e1ulico e passam a lembrar engenharia de press\u00e3o. N\u00e3o se abre a torneira por acaso, pois escolhe-se antecipadamente a hora, o cano e o destinat\u00e1rio.<\/p>\n<p>O curioso \u00e9 que, quase sempre, o alvo preferencial tem o Supremo Tribunal Federal como o mesmo endere\u00e7o. Rep\u00f3rter da velha guarda, da \u00e9poca em que n\u00f3s, mulheres jornalistas, n\u00e3o pod\u00edamos circular nos sal\u00f5es dos Poderes trajando cal\u00e7as compridas, entendo que o Supremo, em particular, n\u00e3o \u00e9 intoc\u00e1vel. Ali\u00e1s, nenhuma institui\u00e7\u00e3o republicana deve ser. Penso, ao contr\u00e1rio, que cr\u00edtica \u00e9 oxig\u00eanio da democracia. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a civilizat\u00f3ria entre cr\u00edtica e corros\u00e3o planejada. Entre discordar de decis\u00f5es e alimentar a suspeita permanente de que nada ali merece sobreviver.<\/p>\n<p>Quando trechos sigilosos s\u00e3o lan\u00e7ados ao p\u00fablico sem contexto, sem contradit\u00f3rio e sem o conjunto da engrenagem processual, a inten\u00e7\u00e3o raramente \u00e9 esclarecer. Muitas vezes, o objetivo \u00e9 outro: produzir indigna\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea, converter fragmento em senten\u00e7a moral e transformar a pra\u00e7a p\u00fablica em tribunal superior ao pr\u00f3prio tribunal.<\/p>\n<p>O que aprendi ao longo da minha trajet\u00f3ria jornal\u00edstica \u00e9 que vivemos a pol\u00edtica do bisturi enferrujado, onde corta-se apenas onde sangra mais. A pergunta que paira, portanto, n\u00e3o \u00e9 apenas quem vazou. A pergunta relevante \u00e9 a quem serve o vazamento?<\/p>\n<p>Serve ao investigado que precisa inverter o foco, ao grupo pol\u00edtico que deseja deslocar a pauta econ\u00f4mica para o campo emocional, ao operador de crise que sabe que, quando a infla\u00e7\u00e3o aperta, conv\u00e9m oferecer um inimigo institucional ao p\u00fablico, e serve, tamb\u00e9m, ao mercado paralelo da desconfian\u00e7a, onde likes, manchetes e narrativas rendem mais do que prud\u00eancia. E tudo isso leva a crer que tentar desmoralizar uma Corte n\u00e3o \u00e9 efeito colateral, mas m\u00e9todo premeditado.<\/p>\n<p>Politicamente, ganha quem transforma tens\u00e3o institucional em combust\u00edvel eleitoral. A prova \u00e9 que, sempre que o Supremo \u00e9 empurrado para o centro de uma arena de desgaste, surgem personagens prontos para se apresentar como int\u00e9rpretes exclusivos da indigna\u00e7\u00e3o popular, mesmo que muitos deles tenham recorrido \u00e0 pr\u00f3pria Justi\u00e7a quando lhes faltou abrigo pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que o enfraquecimento da Corte interessa sobretudo aos que desejam simplificar o debate nacional numa narrativa bin\u00e1ria, onde de um lado est\u00e1 \u201co povo\u201d; do outro, \u201cas institui\u00e7\u00f5es\u201d. \u00c9 uma f\u00f3rmula antiga, eficaz e perigosa, porque desloca a discuss\u00e3o sobre infla\u00e7\u00e3o, juros, d\u00e9ficit e governabilidade para um campo emocional em que a raz\u00e3o perde espa\u00e7o para o aplauso f\u00e1cil. Em ambiente de pr\u00e9-campanha permanente, desgastar o tribunal significa tamb\u00e9m fabricar um advers\u00e1rio abstrato, suficientemente poderoso para mobilizar bases e suficientemente distante para absorver frustra\u00e7\u00f5es coletivas.<\/p>\n<p>O Supremo virou, nos \u00faltimos tempos, uma esp\u00e9cie de para-raios nacional. Quem recebe a descarga de setores opostos \u00e9 o STF: uns o acusam de excesso; outros, de omiss\u00e3o; uns querem mais interven\u00e7\u00e3o; outros sonham com retra\u00e7\u00e3o absoluta. No meio do vendaval, qualquer papel timbrado transformado em manchete cumpre fun\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 de gasolina em fogueira j\u00e1 acesa. E n\u00e3o deixa de ser revelador que os defensores mais barulhentos da transpar\u00eancia sejam, por vezes, os mesmos que apreciam bastidores opacos quando lhes conv\u00e9m.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um detalhe pouco dito. O enfraquecimento do Supremo interessa particularmente a quem prefere uma Rep\u00fablica sem \u00e1rbitro. Porque num pa\u00eds onde Executivo testa limites, Legislativo mede for\u00e7as e corpora\u00e7\u00f5es disputam influ\u00eancia, retirar autoridade do guardi\u00e3o constitucional equivale a desmontar a trave no meio do campeonato. E sem juiz confi\u00e1vel, qualquer falta vira interpreta\u00e7\u00e3o conveniente.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de santificar ministros, nem de blindar decis\u00f5es. Trata-se de perceber que h\u00e1 diferen\u00e7a entre o desgaste natural de uma institui\u00e7\u00e3o e uma opera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de desgaste dirigido. Sabemos que toda democracia madura suporta cr\u00edtica severa, embora &#8211; fique isso claro -, o que n\u00e3o se suporta por muito tempo \u00e9 a pedagogia do descr\u00e9dito permanente.<\/p>\n<p>No Brasil, onde a crise costuma chegar de terno, gravata e sorriso lateral, talvez haja gente apostando que derrubar reputa\u00e7\u00f5es institucionais rende dividendos mais r\u00e1pidos do que reconstruir confian\u00e7a. E quase sempre os que mais assopram a fuma\u00e7a aparecem pouco diante das c\u00e2meras, pois preferem o corredor, a antessala, o telefone sem registro e o vazamento sem assinatura.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria ensina, por\u00e9m, que quando pilares come\u00e7am a ser corro\u00eddos em nome da conveni\u00eancia imediata, o teto demora pouco a ranger. E teto que range em Bras\u00edlia, quase nunca avisa antes de cair.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;.<\/p>\n<p><strong>Marta Nobre \u00e9 Editora Executiva de Notibras<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de turbul\u00eancia, h\u00e1 sempre algu\u00e9m disposto a vender f\u00f3sforo perto do dep\u00f3sito de p\u00f3lvora. E o Brasil, que multiplica crises, tempera e serve em pra\u00e7a p\u00fablica, est\u00e1 assistindo a mais um cap\u00edtulo do velho enredo nacional, onde documentos sigilosos aparecem misteriosamente nas esquinas digitais, trechos escolhidos a dedo ganham vida pr\u00f3pria, vers\u00f5es circulam [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":324547,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-387327","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/387327","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=387327"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/387327\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":387329,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/387327\/revisions\/387329"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/324547"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=387327"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=387327"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=387327"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}