{"id":387403,"date":"2026-03-19T02:00:27","date_gmt":"2026-03-19T05:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=387403"},"modified":"2026-03-17T18:38:57","modified_gmt":"2026-03-17T21:38:57","slug":"meras-marionetes-do-destino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/meras-marionetes-do-destino\/","title":{"rendered":"Meras marionetes do destino"},"content":{"rendered":"<p>A Marluce e eu somos amigas h\u00e1 d\u00e9cadas, que n\u00e3o sou capaz de me lembrar do tempo em que ainda n\u00e3o nos conhec\u00edamos. Sintoma de velha? Que seja! N\u00e3o ligo mais, como quem mente na maior cara dura.<\/p>\n<p>Sei que foi l\u00e1 pelos idos de 1971, pouca coisa antes ou depois. \u00c9poca sem aparelho celular, mas que, ao menos, sab\u00edamos onde estava o telefone. Tudo bem que a conta era um horror, o que nos obrigava a dar valor aos encontros reais. Sorte a nossa que mor\u00e1vamos no mesmo pr\u00e9dio, l\u00e1 na 312 Norte, em Bras\u00edlia. E foi naquela quadra que passamos boa parte da juventude, criamos nossos filhos, que, quando deu a \u00e9poca da revoada, foram viver suas vidas longe do ninho.<\/p>\n<p>Mais de meio s\u00e9culo depois, j\u00e1 n\u00e3o nos vemos com frequ\u00eancia. Eu me mudei para Jo\u00e3o Pessoa, enquanto Marluce permanece na capital do pa\u00eds. N\u00e3o mais na 312, n\u00e3o mais na Asa Norte, foi morar no Lago Sul, \u00e1rea de gente endinheirada. Vi\u00fava do primeiro marido, o querido Z\u00e9 Carlos, casou-se com um cardiologista. E, apesar da dist\u00e2ncia, nossas conversas di\u00e1rias s\u00e3o quase sagradas. Geralmente no final da tarde, ela em frente \u00e0 piscina, eu diante da praia de Cabo Branco.<\/p>\n<p>Ontem mesmo, distra\u00edda que sou, enquanto procurava meu celular, eis que topei o mindinho no p\u00e9 do sof\u00e1. As l\u00e1grimas amea\u00e7aram escorrer, mas consegui ret\u00ea-las a tempo de salvar a maquiagem. O maldito, acredite, estava escondido debaixo das almofadas.<\/p>\n<p>\u2014 Solange, voc\u00ea precisa ter cuidado. Poderia ter quebrado o p\u00e9.<\/p>\n<p>\u2014 Menina, mas como doeu! Cheguei a ver estrelas, e olha que o dia estava claro ainda. Mas me conta, como \u00e9 a vida de rica? Voc\u00ea e o Edgar tomam champanhe todos os dias na piscina?<\/p>\n<p>Obviamente que disse aquilo para escutar a rea\u00e7\u00e3o da Marluce, cuja gargalhada sempre teve a capacidade de transformar at\u00e9 vel\u00f3rio em baile de carnaval.<\/p>\n<p>\u2014 Seria um sonho, Solange, mas o Edgar passa mais tempo no hospital e na cl\u00ednica do que em casa. E olha que o Augusto, o filho mais velho dele, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e9dico, fala pro pai se aposentar ou, no m\u00ednimo, tirar f\u00e9rias prolongadas. Mas que nada, minha amiga, o Edgar, se parar de trabalhar, enfarta no dia seguinte.<\/p>\n<p>Passamos quase duas horas ao telefone. \u00c9 que o assunto n\u00e3o acaba e, se a gente deixar, a conversa vai at\u00e9 a orelha doer. Digo que, aqui em casa, o Arnaldo n\u00e3o d\u00e1 um passo sem me consultar. E n\u00e3o pense voc\u00ea que gosto dessa coisa da esposa controlar o marido. \u00c9 quest\u00e3o de depend\u00eancia, como se ele nem percebesse que o costume do cachimbo entorta o queixo. Capaz do meu esposo estranhar se eu tentar ajeitar os seus l\u00e1bios tombados.<\/p>\n<p>Arnaldo e eu, de vez em quando, inventamos de fazer planos. Quase sempre \u00e9 aquela bagaceira, nada sai do jeito que planejamos. Mas est\u00e1 tudo bem, vida de velho tem l\u00e1 dessas coisas. Tomamos outros rumos, a vida da gente, apesar das mudan\u00e7as, continua a mesma. E o tempo n\u00e3o espera para escutar lam\u00farias.<\/p>\n<p>N\u00e3o temos controle sobre nossa vida. N\u00e3o me esquivo de confessar que, ainda na juventude, acreditava que eu era a dona do pr\u00f3prio destino. Entretanto, h\u00e1 tempos percebi que somos meras marionetes.<\/p>\n<p>Tenho consci\u00eancia de que tem gente com pouca sorte, cujos caminhos s\u00e3o repletos de pedras, espinhos, lama. Se vivi o p\u00e3o que o Diabo amassou? N\u00e3o sou hip\u00f3crita a esse ponto. A vida me reservou, vez ou outra, algumas boas colheradas de doce de leite. N\u00e3o \u00e0 toa, meu apartamento d\u00e1 de frente para a praia de Cabo Branco.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Marluce e eu somos amigas h\u00e1 d\u00e9cadas, que n\u00e3o sou capaz de me lembrar do tempo em que ainda n\u00e3o nos conhec\u00edamos. Sintoma de velha? Que seja! N\u00e3o ligo mais, como quem mente na maior cara dura. 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