{"id":387491,"date":"2026-03-19T00:00:21","date_gmt":"2026-03-19T03:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=387491"},"modified":"2026-03-18T04:48:20","modified_gmt":"2026-03-18T07:48:20","slug":"rodrigo-fazia-uso-do-codinome-literario-judas-hardy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/rodrigo-fazia-uso-do-codinome-literario-judas-hardy\/","title":{"rendered":"Rodrigo fazia uso do codinome liter\u00e1rio Judas Hardy"},"content":{"rendered":"<p>Aos 55 anos, Rodrigo era um contista obscuro. Talvez por isso, resignado com a sua sorte, utilizasse o codinome liter\u00e1rio de Judas Hardy, em refer\u00eancia ao romance Judas, o obscuro, e a seu autor, o escritor ingl\u00eas Thomas Hardy.<\/p>\n<p>O reconhecer-se obscuro n\u00e3o o impedia de escrever, como quem semeia, contos, contos \u00e0 m\u00e3o cheia. Infelizmente, contrariando o verso de Castro Alves, suas produ\u00e7\u00f5es liter\u00e1rias n\u00e3o faziam o povo pensar. Isso porque, n\u00e3o sei se voc\u00eas lembram, ele n\u00e3o passava de um contista obscuro.<\/p>\n<p>Aos 52 anos, Dolores era uma vi\u00fava catarinense. Depois de comer o p\u00e3o que o diabo amassou servido pelas patas do marido, enviuvou e, meses depois, conheceu na internet o contista obscuro. Os dois namoraram e ela, carente de tudo, apaixonou-se por um homem que jamais vira em carne e osso.<\/p>\n<p>S\u00f3 que o amor, para Dolores, tinha sua temperatura medida pelo term\u00f4metro do ci\u00fame: quanto mais alto marcasse o cium\u00f4metro, mais intensa a entrega amorosa. Isso contrariava Rodrigo, que aprendera, a duras penas, a descartar o sentimento de posse na rela\u00e7\u00e3o a dois.<\/p>\n<p>&#8211; Dolores, ci\u00fame n\u00e3o \u00e9 prova de amor, \u00e9 apenas manifesta\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a \u2013 ele insistia.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 prova de amor, sim \u2013 ela retrucava. \u2013 Aprendi com a minha m\u00e3e, que aprendeu com a m\u00e3e dela!<\/p>\n<p>O que mostra o estrago que uma vis\u00e3o de mundo tradicional, conservadora, pode causar no psiquismo de uma mulher.<\/p>\n<p>O pior foi que o namoro chegou ao fim. Permaneceram amigos, mas Dolores, inconformada, passou a ter um ci\u00fame doentio de todas as personagens femininas dos contos de Rodrigo. Ele havia criado, por exemplo, uma personagem nascida em Minas Gerais, unicamente porque conhecia o jeito de falar dos mineirim; foi o bastante para que a ex-namorada lhe enviasse uma postagem ressentida e amargurada, mal dissimulada sob uma camada de esp\u00edrito esportivo:<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, contista querido. Li seu texto falando de sua paix\u00e3o por uma mineirinha. Legal, voc\u00ea continua amando. Bom saber disso, se cuida.<\/p>\n<p>Controlando sua gastura, ele explicou pela mil\u00e9sima vez que a mineirinha era apenas uma personagem, n\u00e3o existia em sua vida. Seus contos eram fic\u00e7\u00e3o, fic-\u00e7\u00e3o! Voc\u00eas pensam que adiantou? Horas depois, ela mandou nova mensagem:<\/p>\n<p>&#8211; Contista adorado, enquanto eu viver, vou ter ci\u00fames de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Preocupado com a sa\u00fade de ambos \u2013 ele j\u00e1 tivera um leve AVC e ela tamb\u00e9m \u2013, Rodrigo desistiu das explica\u00e7\u00f5es sobre inseguran\u00e7a e decidiu mudar. S\u00f3 que parar com os contos que, apesar de sua admitida obscuridade, semeava \u00e0 m\u00e3o cheia, no melhor estilo castroalvesco, nem pensar.<\/p>\n<p>O jeito era virar a banda.<\/p>\n<p>Rodrigo vasculhou seu psiquismo em busca de transas ou quase transas homossexuais e encontrou algumas. Um epis\u00f3dio veio v\u00edvido, cheio de detalhes: um flerte com o filho de uma colega de reda\u00e7\u00e3o, bem mais novo que ele, na casa de uma amiga. Ele reviveu a deliciosa sensa\u00e7\u00e3o de perigo, o risco da entrega e de gostar em demasia da fruta, a profus\u00e3o de perguntas come\u00e7adas por \u201cE se&#8230;\u201d que passavam r\u00e1pido por sua mente, a come\u00e7ar por \u201cE se essa for a minha praia?\u201d \u201cE se for a minha op\u00e7\u00e3o sexual, tardiamente descoberta?\u201d<\/p>\n<p>O babado foi mesmo forte. A amiga que testemunhou o lance comentou mais tarde:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 faltou voc\u00eas ficarem noivos!<\/p>\n<p>Trabalhando com todos esses elementos, Rodrigo escreveu um conto instigante, que recebeu o t\u00edtulo de \u201cSedu\u00e7\u00e3o\u201d. Antes mesmo de post\u00e1-lo em suas redes sociais, enviou-o para Dolores pelo whatsapp.<\/p>\n<p>A resposta veio minutos depois:<\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer, Rodrigo, seu fiodeumaegua (o \u201cmeu contista querido\u201d fora descartado, chutado pras cucuias, pelo menos temporariamente), que, al\u00e9m de me trair com todas as vacas do planeta, voc\u00ea agora se enrosca com os homens? Quer me matar de ci\u00fame? Agora, quando voc\u00ea sair pra encontrar um amigo, n\u00e3o vou ter um minuto de paz!<\/p>\n<p>Rodrigo desistiu. O problema de Dolores n\u00e3o era amor, nem inseguran\u00e7a, era posse: ela queria controlar tudo o que ele sentia, pensava, escrevia e fazia, e enquadrar tudo isso dentro dos padr\u00f5es r\u00edgidos de uma catarinense de meia idade.<\/p>\n<p>Se esse era o problema dela, o dele era outro, bem diferente.<\/p>\n<p>Lembrou-se de uma frase da amiga que assistira a seu flerte com o mo\u00e7oilo. Famosa pelos bord\u00f5es que inventava, ela dizia sempre, \u201cVai dar enquanto \u00e9 mo\u00e7o\u201d. Ele n\u00e3o era um jovenzinho, longe disso, mas ainda n\u00e3o estava caindo aos peda\u00e7os. Dava tempo. Mais, ainda percebeu que sua obscuridade como escritor, em boa medida, resultava da falta de luz dentro do arm\u00e1rio.<\/p>\n<p>Vestiu-se nos trinques e saiu pela noite paulistana, para obedecer ao comando recebido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 55 anos, Rodrigo era um contista obscuro. 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