{"id":387800,"date":"2026-03-21T00:00:20","date_gmt":"2026-03-21T03:00:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=387800"},"modified":"2026-03-20T09:40:59","modified_gmt":"2026-03-20T12:40:59","slug":"libertinos-meio-loucos-e-absolutamente-geniais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/libertinos-meio-loucos-e-absolutamente-geniais\/","title":{"rendered":"Libertinos, meio loucos e absolutamente geniais"},"content":{"rendered":"<p>Roberto, paulistano, 58 anos, ia sempre a Paris. Em sonhos.<\/p>\n<p>Claro que a capital francesa que visitava era on\u00edrica, colcha de retalhos da Paris que conhecera em diferentes \u00e9pocas ou via pela TV e outros meios de comunica\u00e7\u00e3o. Nas ruas, rapazes de jeans e mo\u00e7oilas sempre cobertas de ponchos ao estilo andino \u2013 uniforme das militantes gauchistas \u2013 distribu\u00edam Rouge, o jornalzinho do grupo trotskista Liga Comunista Revolucion\u00e1ria (LCR). Era uma das marcas registradas dos anos 1973 \u2013 1977, em que havia morado na Fran\u00e7a. \u00c0 exce\u00e7\u00e3o das jovens militantes, por\u00e9m, as parisienses usavam meias-cal\u00e7as e decotes s\u00f3brios, mas atraentes, dando mostras de uma eleg\u00e2ncia que o havia encantado em 1987, quando de sua segunda perman\u00eancia no pa\u00eds. E havia grandes manifesta\u00e7\u00f5es populares, lideradas pelo partido\/movimento de esquerda La France Insoumise (A Fran\u00e7a Insubmissa), sucessora da LCR na hegemonia da extrema-esquerda. Em termos pol\u00edticos e na realidade, os dois grupamentos n\u00e3o podiam ser contempor\u00e2neos \u2013 mas, nos sonhos de Roberto, podiam sim, e o eram.<\/p>\n<p>E havia os pintores, que ele conhecera em Montmartre e em outros redutos bo\u00eamios. Conforme os personagens, sabia que estava no Segundo Imp\u00e9rio ou na Belle \u00c9poque, mais para o final do s\u00e9culo XIX, j\u00e1 na III Rep\u00fablica (proclamada em 1870, ap\u00f3s a derrota francesa na guerra franco-prussiana). Era um absurdo temporal participar de uma \u201cmanif\u201d contra a extrema-direita, \u00e0 tarde, e, horas depois, dirigir-se ao Moulin Rouge, para beber absinto e se chapar de \u00f3pio na companhia do pintor Henri de Toulouse-Lautrec. Nos sonhos de Roberto, por\u00e9m, isso acontecia sempre.<\/p>\n<p>Libertinos, meio loucos e absolutamente geniais, os pintores das duas gera\u00e7\u00f5es, separadas por mais de 20 anos, acolheram-no sem problemas (as generosas rodadas de absinto, que Roberto pagava com dinheiro de sonho, provavelmente ajudavam). Chamavam-no \u201cle br\u00e9silien\u201d, o brasileiro. E foi quando estava com os artistas do Segundo Imp\u00e9rio, um pouco mais comedidos que os loucos da Belle \u00c9poque, que \u00c9douard Manet, um dos impulsionadores do impressionismo na pintura, lhe dirigiu as seguintes palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Eh, le br\u00e9silien! Je vais t\u2019immortalizer! [ei, brasileiro, vou te imortalizar].<\/p>\n<p>Roberto sorriu e n\u00e3o respondeu.<\/p>\n<p>Certo dia, em vig\u00edlia, em S\u00e3o Paulo, ele se entregou a um dos seus passatempos favoritos: examinar as telas dos artistas que havia conhecido\/conhecia, respons\u00e1veis pela extraordin\u00e1ria explos\u00e3o de criatividade nas artes pl\u00e1sticas do s\u00e9culo XIX. J\u00e1 havia mergulhado em algumas produ\u00e7\u00f5es do impressionista Claude Monet e do p\u00f3s-impressionista Toulose-Lautrec, cronista visual de cabar\u00e9s e prostitutas, quando se deparou com uma tela de \u00c9douard Manet. Intitulava-se M\u00fasica nas Tulherias e fora pintada em 1862, sendo considerada uma das obras-primas da fase inicial do impressionismo.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o ele viu a si mesmo. Estava em meio \u00e0 multid\u00e3o, em segundo plano, de chap\u00e9u comum \u2013 ou seja, sem cartola, acess\u00f3rio indispens\u00e1vel aos elegantes do Segundo Imp\u00e9rio \u2013 mas o artista havia registrado com precis\u00e3o sua face, de perfil, e sua barba. Recordou as palavras de Manet, de que o imortalizaria, e murmurou, \u201cEle cumpriu a promessa\u201d.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, havia a possibilidade de n\u00e3o ser ele, e sim algu\u00e9m muito parecido. Para Roberto, por\u00e9m, foi o suficiente para confirmar que seus sonhos parisienses eram bem mais que sonhos.<\/p>\n<p>Recordou a seguir uma passagem do in\u00edcio de No caminho de Swann, livro 1 do monumental romance Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust: \u201cUm homem que dorme sustenta em c\u00edrculo, a seu redor, o fio das horas, a ordena\u00e7\u00e3o dos anos e dos mundos\u201d. Era isso, ele se tornara um ex\u00edmio manipulador dos fios das horas, um ordenador dos anos, capaz de mesclar grupelhos gauchistas p\u00f3s-1968 a pintores da Belle \u00c9poque, lindas parisienses dos anos 1980 a impulsionadores do impressionismo e a manifesta\u00e7\u00f5es antifascistas da d\u00e9cada de 2020. E, como evidenciava o quadro de Manet, nesses deslocamentos temporais e espaciais, via e era visto, participava disso tudo com todas as for\u00e7as, de corpo e alma.<\/p>\n<p>Roberto deu um sorriso e pensou: \u201cS\u00f3 espero que o absinto, a deliciosa e mortal \u2018fada verde\u2019, n\u00e3o me leve pro t\u00famulo antes da hora. E se morrer em Paris, bato as botas aqui tamb\u00e9m? Parei de beber h\u00e1 10 anos em S\u00e3o Paulo; j\u00e1 em Paris, encaro \u00f3pio, haxixe, absinto, champanhe, qualquer prazer me diverte. \u00c9, preciso ordenar melhor meus mundos\u201d.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s essa reflex\u00e3o, preparou-se para dormir e, quem sabe, partir de mala e cuia para a Cidade-Luz, mergulhando em mais um sonho parisiense.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberto, paulistano, 58 anos, ia sempre a Paris. Em sonhos. 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