{"id":387864,"date":"2026-03-21T02:00:16","date_gmt":"2026-03-21T05:00:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=387864"},"modified":"2026-03-20T19:23:24","modified_gmt":"2026-03-20T22:23:24","slug":"ernesto-dona-chiquinha-a-surucucu-e-o-sorvete-de-abacaxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ernesto-dona-chiquinha-a-surucucu-e-o-sorvete-de-abacaxi\/","title":{"rendered":"Ernesto, dona Chiquinha, a surucucu e o sorvete de abacaxi"},"content":{"rendered":"<p>Antes que fizesse algo substancial para mudar a trajet\u00f3ria de sua vida, Ernesto se olhou no espelho e, diante da pr\u00f3pria fraqueza, tomou o \u00fanico caminho que conhecia, que era ficar. Apaziguou a rela\u00e7\u00e3o. Aquele lance de seguir em busca do desconhecido n\u00e3o era da sua natureza, como se ele j\u00e1 soubesse que o destino lhe reservara a sobreviv\u00eancia, por mais simpl\u00f3ria que pudesse parecer. E era.<\/p>\n<p>O homem se lembrou das palavras ditas por sua finada av\u00f3 materna, dona Chiquinha, cuja l\u00edngua, vez ou outra, trilhava certa mordacidade. Era Natal, l\u00e1 pelos idos de 1980. A parenta estava sentada num canto da sala com Lidiane, filha \u00fanica de um casamento que se arrastou at\u00e9 que a picada de uma surucucu a fez vi\u00fava. Dizem que, ainda no vel\u00f3rio, a mulher era s\u00f3 sorrisos. Bem, \u00e9 sabido que h\u00e1 pessoas que riem de nervoso, se bem que, aqueles que a conheceram, essa possiblidade era, no m\u00ednimo, remota, para n\u00e3o dizer imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>\u2014 Lidiane, os homens da nossa fam\u00edlia s\u00e3o covardes. E n\u00e3o digo isso da boca pra fora, pois n\u00e3o sou leviana.<\/p>\n<p>\u2014 Mam\u00e3e, como \u00e9 que a senhora diz uma coisa dessas? E o papai?<\/p>\n<p>\u2014 Hum! Aquele tinha voz de trov\u00e3o, cara de poucos amigos, virava pra cuspir, limpava a boca com o dorso da m\u00e3o, arrotava grosso, mas n\u00e3o dava um passo sem me consultar. E o pior de tudo era quando eu dizia que estava tudo bem, que ele poderia ir em frente. Uma mula n\u00e3o empacaria com tamanho fervor. O Orlando era um frouxo, isso sim!<\/p>\n<p>Ernesto repetiu a frase da dona Chiquinha em frente ao espelho, e ela soou mais verdadeira do que nunca. Na fam\u00edlia, a coragem parecia mesmo reservada \u00e0s mulheres. E foi escorado nessa muleta que ele decidiu n\u00e3o mexer uma palha para mudar de situa\u00e7\u00e3o. Ficaria ali mesmo.<\/p>\n<p>Nem tanto assim! Uma revoada de \u00edmpeto se aproximou. O sujeito pegou a carteira e, j\u00e1 na cal\u00e7ada, foi em dire\u00e7\u00e3o ao mercado da esquina. Rosto firme, parou diante do freezer. L\u00e1 estava o pote de morando de sempre. Ernesto sorriu com desd\u00e9m, esticou o bra\u00e7o e, destemido que se sentia, pegou o de abacaxi.<\/p>\n<p>Entrou no apartamento, colocou o pote de sorvete sobre a bancada da cozinha. Pegou uma pequena tigela e uma colher. Serviu-se. Puxou uma cadeira e se sentou. Observou aquela quantidade generosa de sorvete at\u00e9 que ela se derreteu por completo. Dona Chiquinha sabia mesmo das coisas.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antes que fizesse algo substancial para mudar a trajet\u00f3ria de sua vida, Ernesto se olhou no espelho e, diante da pr\u00f3pria fraqueza, tomou o \u00fanico caminho que conhecia, que era ficar. Apaziguou a rela\u00e7\u00e3o. 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