{"id":388207,"date":"2026-03-24T00:45:51","date_gmt":"2026-03-24T03:45:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=388207"},"modified":"2026-03-23T11:09:22","modified_gmt":"2026-03-23T14:09:22","slug":"o-rabo-da-maricota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-rabo-da-maricota\/","title":{"rendered":"O rabo da Maricota"},"content":{"rendered":"<p>Maricota n\u00e3o tem rabo. Tinha um, mas cortaram.<br \/>\nPor maldade ou por quest\u00f5es est\u00e9ticas. Caudectomia, amputa\u00e7\u00e3o e fim. De toda forma, maldade, pois o rabo era dela; a quest\u00e3o est\u00e9tica, coisa \u00e9 outro lance.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m pode ser que tenha sofrido um acidente, vai saber?<\/p>\n<p>O que importa \u00e9 que a Maricota \u00e9, hoje, uma cadelinha sem rabo. Cot\u00f3. Deixaram-lhe s\u00f3 uma v\u00e9rtebra, coberta por um chuma\u00e7o de pelo feito um topete do lado errado.<\/p>\n<p>E, ainda assim, ela abana docemente o rabo que n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>Abana o rabo e deve sentir que o rabo n\u00e3o responde, como no sonho em que a gente grita e a voz n\u00e3o sai, aquela dor de cabe\u00e7a que a gente jura &#8220;que est\u00e1 nos matando&#8221;, mas n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Maricota rebola. Cantar n\u00e3o canta.<\/p>\n<p>Rebola de felicidade, rebola de excita\u00e7\u00e3o. E a excita\u00e7\u00e3o n\u00e3o deixa de ser uma forma de felicidade.<\/p>\n<p>Pode ser que todo animalzinho amputado rebole ao abanar o rabo (vou prestar mais aten\u00e7\u00e3o!) e n\u00e3o se perceba o rebolado porque o rabo j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1.<\/p>\n<p>O rabo sempre rouba a cena. O rabo \u00e9 a janela da alma de animaizinhos tipo Maricota.<\/p>\n<p>Os olhos s\u00e3o s\u00f3 o seu jeito de ser bil\u00edngue e falar com a gente na nossa l\u00edngua.<\/p>\n<p>Pode parecer estranho, mas tamb\u00e9m atrav\u00e9s de nossos olhos -do ponto de vista de uma cachorrinha de alto QI como Maricota-, conseguimos projetar nossos sentimentos.<\/p>\n<p>Mas o idioma, a sintaxe que ela domina, o vocabul\u00e1rio mais complexo \u00e9 com o rabo que ela nos fala e nos comunica.<\/p>\n<p>\u00c9 com o rabo que ela diz &#8220;Eu te amo&#8221; quando saio para jogar o lixo; ou quando eu retornava do trabalho antes da peste.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o sei por que voc\u00ea se foi e me deixou sozinha aqui&#8230;&#8221; (que \u00e9 outra forma de dizer &#8220;te amo&#8221;). Seres sens\u00edveis e geniosos feito Maricota s\u00e3o terr\u00edveis na manipula\u00e7\u00e3o do amor.<\/p>\n<p>Maricota sofre pela perda do rabinho.<\/p>\n<p>Como nas mulheres que usam botox, pintam as ra\u00edzes embranquecidas dos cabelos e nos homens escondidos atr\u00e1s de suas carecas e barrigas imensas, h\u00e1 emo\u00e7\u00f5es que Maricota n\u00e3o consegue expressar.<\/p>\n<p>Ao levar uma bronca, por exemplo, ela n\u00e3o pode simplesmente enfiar o rabo entre as pernas.<\/p>\n<p>Contrariada, ent\u00e3o, ela se senta, o que acaba sendo a forma dela de se proteger e protestar.<\/p>\n<p>Possivelmente c\u00e3es e cadelas n\u00e3o sentem culpa. Isto \u00e9 coisa de humanos; privil\u00e9gio judaico-crist\u00e3o de milh\u00f5es que precisam de um deus para poderem se arrepender sem culpa.<\/p>\n<p>A cachorrada sente outra coisa ao tomar o dedo em riste diante do focinho:<\/p>\n<p>\u2013 Dedo? Por que n\u00e3o o biscoito de osso que voc\u00ea guarda no arm\u00e1rio? &#8211; ou ao ouvirem a voz alterada.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o precisa continuar nesse tom; n\u00e3o vamos ter problemas, t\u00e1? -mudando as respostas das perguntas ret\u00f3ricas.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea sabe que fui eu, por que \u00e9 que est\u00e1 perguntando QUEM FOI QUE FEZ ISSO?&#8230;e olhando pra mim?<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos meses ando perdendo o sono.<\/p>\n<p>Esse ar perplexo de Maricota (entendido como culpa, sentimento mais familiar aos humanos), n\u00e3o seria menor se o rabo estivesse l\u00e1, inteiro?<\/p>\n<p>O rabinho entre as pernas facilitaria a chantagem, dispensando a humilha\u00e7\u00e3o, as orelhas baixas, o olhar na diagonal, o peso do mundo sob o fiof\u00f3 grudado no ch\u00e3o frio.<\/p>\n<p>Mas o tempo \u00e9 mesmo ingrato e cruel.<\/p>\n<p>De tanto rebolar de felicidade e de tanto travar o rebolado de perplexidade, Maricota foi perdendo o movimento jovial e as articula\u00e7\u00f5es est\u00e3o ficando endurecidas; ela, agora, anda meio durinha, de lado, com as patinhas arqueadas.<\/p>\n<p>Est\u00e1 ficando triste, a minha amadinha; uma fr\u00e1gil cachorrinha articulada da ponta do focinho at\u00e9 onde acabam as costelas.<\/p>\n<p>Dali para tr\u00e1s, at\u00e9 o chuma\u00e7o de pelo do cotoco do rabo, ela funciona em bloco, como esses caras bombados de academia que n\u00e3o s\u00e3o capazes de virar o pesco\u00e7o sem girar o tronco.<\/p>\n<p>Com o rabo que j\u00e1 n\u00e3o tem, ela s\u00f3 pode ficar de c\u00f3coras e &#8220;dizer&#8221; que est\u00e1 com medo de outro cachorro ou pior, de algum humano. Creio que n\u00e3o.<\/p>\n<p>Acredito no amor incondicional desta pessoinha vinda de outro planeta, pois assim como eu,<\/p>\n<p>Maricota ainda tem f\u00e9 e confian\u00e7a no ser humano, mesmo depois de lhe terem tolhido a liberdade de express\u00e3o total decepando-lhe o rabo.<\/p>\n<p>Maricota \u00e9 um ser digno e extraordin\u00e1rio companheira.<\/p>\n<p>N\u00e3o consigo esconder dela a minha tristeza por n\u00e3o entender direito a sua linguagem.<\/p>\n<p>Sempre pensei que poderia, talvez pelo fato de eu ser um parente mais pr\u00f3ximo do macaco, que h\u00e1 tempos tamb\u00e9m perdeu o rabo. Acho rid\u00edculo, mas dizem que eu sou um ser desenvolvido, humano.<\/p>\n<p>Acho mais rid\u00edculo ainda quando dizem que bichinhos como a Maricota t\u00eam os trejeitos, a personalidade e se parecem com o dono ou a dona. Bobagem.<\/p>\n<p>Veja o caso da minha vizinha &#8211; a verdadeira dona da Maricota cotozinha- pode ser tudo, tudo mesmo, menos um ser; e humano, jamais!<\/p>\n<p>Desta forma, passam os dias e vamos sobrevivendo trancados em meio a terr\u00edvel pandemia.<\/p>\n<p>Maricota e eu formamos um t\u00edpico casal p\u00f3s-moderno, um novo arranjo familiar, p\u00f3s-tudo. N\u00f3s nos amamos, trocamos solidariedades e viajamos em nossa imagina\u00e7\u00e3o. Mas vivemos em apartamentos separados. Na verdade, Maricota \u00e9 a dona absoluta da casa.<\/p>\n<p>N\u00e3o lembro bem do dia em que conheci Maricota.<\/p>\n<p>De certo mesmo, j\u00e1 rebolava sem o rabinho poliglota.<\/p>\n<p>Passeamos pela vida viandantes c\u00famplices e confiantes, apenas, de que ficaremos juntos at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>H\u00e1 um fim?<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Gilberto Motta \u00e9 escritor, jornalista, professor\/pesquisador e amante da Maricota. Vive na Guarda do Emba\u00fa\/SC.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maricota n\u00e3o tem rabo. Tinha um, mas cortaram. Por maldade ou por quest\u00f5es est\u00e9ticas. Caudectomia, amputa\u00e7\u00e3o e fim. De toda forma, maldade, pois o rabo era dela; a quest\u00e3o est\u00e9tica, coisa \u00e9 outro lance. Tamb\u00e9m pode ser que tenha sofrido um acidente, vai saber? 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