{"id":388221,"date":"2026-03-24T00:00:08","date_gmt":"2026-03-24T03:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=388221"},"modified":"2026-03-23T11:51:54","modified_gmt":"2026-03-23T14:51:54","slug":"carlos-frederico-era-uma-homenagem-a-karl-marx-e-friedrich-engels","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/carlos-frederico-era-uma-homenagem-a-karl-marx-e-friedrich-engels\/","title":{"rendered":"Carlos Frederico era uma homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels"},"content":{"rendered":"<p>Carlos Frederico detestava nomes duplos. Especialmente o seu.<\/p>\n<p>Era um nome forte, altissonante, reconhecia, nomes duplos geralmente o s\u00e3o. E ele era um cara de esquerda, assim como seus pais, que, ao batiz\u00e1-lo assim, pretendiam homenagear Karl Marx e Friedrich Engels, autores do Manifesto Comunista. Ele tamb\u00e9m reverenciava os dois l\u00edderes revolucion\u00e1rios, mas, ao contr\u00e1rio dos progenitores, era obrigado a conviver com um nome demasiado extenso. Na cama, por exemplo, ficava dif\u00edcil algu\u00e9m dizer, \u201cCarlos Frederico, vem com tudo!\u201d A\u00ed o jeito era apelar pro \u201cmoz\u00e3o\u201d ou pro \u201camore\u201d, termos que ele achava rid\u00edculos, piores que qualquer nome duplo.<\/p>\n<p>E os apelidos, ou melhor, a falta de defini\u00e7\u00e3o dos! Ele morria de inveja de um Carlos Henrique, sempre chamado de Ca\u00edque, ou de um Carlos Eduardo, vulgo Cadu. J\u00e1 no seu caso, alguns par\u00e7as o chamavam de Fred (ele at\u00e9 que gostava), outros de Cade (ele exigia a pron\u00fancia C\u00e1de, do contr\u00e1rio ficaria eternamente procurando alguma coisa indefinida), de Cari, ou mesmo (argh) de Caco. Houve at\u00e9 um botocudo que tentou cham\u00e1-lo de Cafr\u00ea, mas a\u00ed foi demais: o quase apelidado amea\u00e7ou cobri-lo de porrada e em seguida cortar a amizade se ele repetisse tamanha barbaridade.<\/p>\n<p>Certa madrugada, Carlos Frederico voltava a p\u00e9 para casa quando, numa encruzilhada, avistou um vulto. Na verdade, uma nuvem escura, sem contornos definidos, que aos poucos foi ganhando forma: dois chifres, olhos de fogo, fei\u00e7\u00f5es grotescas, apavorantes, um corpo nu coberto de pelos e um rabo \u2013 a representa\u00e7\u00e3o de um dem\u00f4nio que conhecia desde a inf\u00e2ncia, nascido em uma fam\u00edlia cat\u00f3lica (quem disse que catolicismo e socialismo s\u00e3o inconcili\u00e1veis?).<\/p>\n<p>&#8211; Boa noite, Carlos Frederico \u2013 disse a apari\u00e7\u00e3o. \u2013 Na verdade, m\u00e1 noite pra ti \u2013 e abriu um sorriso pavoroso, mostrando presas amareladas.<\/p>\n<p>O humano continuou em sil\u00eancio, assustado demais para falar.<\/p>\n<p>&#8211; Meu nome \u00e9 Asmodeu \u2013 prosseguiu o diab\u00e3o. \u2013 Talvez j\u00e1 tenhas ouvido falar de mim&#8230; \u2013 e deu outro sorriso horr\u00edvel.<\/p>\n<p>Carlos Frederico\/C\u00e1de\/Cari\/Caco permaneceu em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Vou propor algumas adivinha\u00e7\u00f5es. Se acertares, escapas com vida. Se errares, levo-te para o inferno comigo! A primeira \u00e9, qual o significado do meu nome?<\/p>\n<p>Leitor on\u00edvoro, o amea\u00e7ado vasculhou em seu lixo cultural e sapecou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 poderoso, vosso nome deriva de uma l\u00edngua morta indo-europeia na qual foi escrito o Zend Avesta, texto sagrado do zoroastrismo persa. \u00c9 formado pela uni\u00e3o dos termos Aesma, que significa ira, e Daeva, dem\u00f4nio. Sois, desse modo, o dem\u00f4nio da ira, mas tamb\u00e9m da lux\u00faria e do ci\u00fame.<\/p>\n<p>&#8211; Porra, n\u00e3o \u00e9 que o filhodeumaegua acertou!? \u2013 espantou-se a entidade infernal. \u2013 A segunda adivinha\u00e7\u00e3o \u00e9 bem mais f\u00e1cil. Aesma-daeva \u00e9 um nome duplo, e Asmodeu tamb\u00e9m; qual a divis\u00e3o desse nome? \u2013 e, diante da indecis\u00e3o do vivente, insistiu:<\/p>\n<p>&#8211; Vamos, querido. Acertaste a adivinha\u00e7\u00e3o que leva a esmagadora maioria para o inferno, vais te sair bem nessa!<\/p>\n<p>Tranquilizado pelo \u201cquerido\u201d, e identificando um jeito de corpo e um olhar bem conhecidos na entidade, Carlos Frederico n\u00e3o hesitou:<\/p>\n<p>&#8211; Asmo e deu. Deu e fez bem. Deu o que era teu, ou emprestou, tanto faz; o importante \u00e9 ser feliz.<\/p>\n<p>Asmodeu o fitou em sil\u00eancio, com uma surpresa deliciada. Depois perguntou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9s do babado?<\/p>\n<p>&#8211; Sou sim \u2013 admitiu o n\u00e3o h\u00e9tero. \u2013 E tu?<\/p>\n<p>Se o dem\u00f4nio se ofendesse com o uso da segunda pessoa do singular e, mais ainda, com a insinua\u00e7\u00e3o de homossexualidade, Carlos Frederico estava<br \/>\nlascado. Mas a apari\u00e7\u00e3o bateu as p\u00e1lpebras, num esgar pavoroso, que se pretendia sedutor, e respondeu:<\/p>\n<p>&#8211; Eu tamb\u00e9m, coleguinha. Mas viro a banda quando sinto vontade, ser dem\u00f4nio da lux\u00faria tem suas vantagens&#8230; E agora tchau, vou procurar outro macho, j\u00e1 que escapaste!<\/p>\n<p>E se desmaterializou no mesmo instante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Frederico detestava nomes duplos. Especialmente o seu. Era um nome forte, altissonante, reconhecia, nomes duplos geralmente o s\u00e3o. E ele era um cara de esquerda, assim como seus pais, que, ao batiz\u00e1-lo assim, pretendiam homenagear Karl Marx e Friedrich Engels, autores do Manifesto Comunista. 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