{"id":388306,"date":"2026-03-25T00:00:19","date_gmt":"2026-03-25T03:00:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=388306"},"modified":"2026-03-24T16:56:28","modified_gmt":"2026-03-24T19:56:28","slug":"jazia-quieta-contida-pelas-bordas-curvas-do-local-onde-se-encontrava","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/jazia-quieta-contida-pelas-bordas-curvas-do-local-onde-se-encontrava\/","title":{"rendered":"Jazia quieta, contida pelas bordas curvas do local onde se encontrava"},"content":{"rendered":"<p>A coisa podre jazia quieta, contida pelas bordas curvas do local onde se encontrava.<\/p>\n<p>Quieta, mas \u00e0 espreita. Serpente pronta a dar o bote.<\/p>\n<p>Surgira como mat\u00e9ria inerte, composta por incont\u00e1veis cuspidelas de saliva e, sobretudo, de catarro. Mas havia vida nesses materiais, bact\u00e9rias, v\u00edrus e fungos, e, com o tempo, a massa gosmenta se tornou senciente. E, como o tempo n\u00e3o para (obrigado, Cazuza), bem mais tarde incorporou novos atributos. O primeiro foi a consci\u00eancia de si e de suas necessidades. O segundo, uma aura, um intento de malignidade.<\/p>\n<p>Consciente e maligna, ela esperou, no fundo do recipiente, que algo a libertasse.<\/p>\n<p>Aguardou muito tempo, a ponto de o bolor cobrir sua superf\u00edcie.<\/p>\n<p>Bolor, mofo esverdeado, mas nenhuma teia de aranha, presen\u00e7a t\u00e3o usual em outros pontos do aposento, se estendia pelas bordas da abertura. Aranha nenhuma seria louca de construir sua teia em um lugar daqueles.<\/p>\n<p>O ber\u00e7o-pris\u00e3o da coisa podre era uma escarradeira, objeto obsoleto, quase desaparecido dos grandes centros urbanos. Mas ainda encontrado nos bares dos trechos mais esquecidos do sert\u00e3o, que nem o que abrigava a massa \u00e0 espreita.<\/p>\n<p>Se Guimar\u00e3es Rosa, autor da obra-prima Grande Sert\u00e3o: Veredas, a tivesse visto, poderia acrescentar mais uma a suas defini\u00e7\u00f5es de sert\u00e3o, apresentadas no romance.<\/p>\n<p>\u201cO sert\u00e3o \u00e9 onde a coisa podre espera, im\u00f3vel e paciente, jagun\u00e7o na tocaia\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, houve algumas tentativas de esvaziar a escarradeira. Mas todas fracassaram, os empregados preferiam ser despedidos a se aproximarem daquilo.<\/p>\n<p>Certo dia, por\u00e9m, o dono do bar ouviu um berro de dor ou susto, vindo de junto da escarradeira. Aproximou-se e viu um homem, p\u00e1lido como a morte e suando em bicas, ao lado do recipiente, cujo interior reluzia, livre da massa esverdeada e gosmenta.<\/p>\n<p>&#8211; Macho, limpaste a escarradeira! Vais receber uma bela gorjeta!<\/p>\n<p>O homem p\u00e1lido n\u00e3o respondeu. Levava a m\u00e3o \u00e0 boca, como se tentasse conter o v\u00f4mito.<\/p>\n<p>&#8211; Conta como fizeste, homem!<\/p>\n<p>Em vez de falar, o cara soltou uma golfada de v\u00f4mito, que caiu sobre um dos p\u00e9s do propriet\u00e1rio do estabelecimento, cal\u00e7ado com sand\u00e1lias. Uma pequena parcela da coisa podre penetrou pela epiderme da v\u00edtima e iniciou sua obra de destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Com a press\u00e3o em seu peito um pouco menor, devido ao v\u00f4mito, o desconhecido coberto de suor conseguiu dizer:<\/p>\n<p>&#8211; Eu&#8230;eu dei uma cuspida, ficou preso um filete de saliva em minha boca. Ent\u00e3o aspirei o fio, para cort\u00e1-lo, e veio tudo! Ah, meu Deus, vou morrer!<\/p>\n<p>E vomitou de novo, agora mais forte, no peito de um empregado que havia se juntado ao patr\u00e3o. Em seguida caiu por terra e estrebuchou, borrando-se todo.<\/p>\n<p>Com uma express\u00e3o de nojo, o empregado limpou o v\u00f4mito que cobria o p\u00e9 do patr\u00e3o, sua pr\u00f3pria camisa e seu peito, e tamb\u00e9m a merda, que escorria pelas bocas da cal\u00e7a do defunto. Lan\u00e7ou esses materiais no vaso sanit\u00e1rio, sujo mas em bom funcionamento. Era a realiza\u00e7\u00e3o dos sonhos da coisa podre: havia atingido seus f\u00e9rteis campos de ca\u00e7a, e em pouco tempo contaminou todos os detritos ao seu redor.<\/p>\n<p>Enquanto isso, no bar, tombaram o patr\u00e3o e o empregado. Em seguida, foi a vez dos que atenderam os dois novos defuntos; a espiral macabra ganhava ritmo.<\/p>\n<p>A transmiss\u00e3o aos seres aqu\u00e1ticos demorou um pouco mais, devido \u00e0 escassez de rios no sert\u00e3o. Contudo, levadas nos cascos de cavalos, jumentos e bois, parcelas da coisa podre lan\u00e7adas no esgoto e mais tarde espalhadas pelo ch\u00e3o pedregoso terminaram por atingir lagoas e riachos, depois os rios, em seguida o mar. Por onde passavam, dizimavam a vida fluvial e marinha. Paralelamente, aves carniceiras consumiam as carca\u00e7as desses animais condutores, tombados na caatinga, e tamb\u00e9m morriam. O mesmo aconteceu com os passarinhos que escavavam o solo contaminado, em busca de insetos tamb\u00e9m contaminados.<\/p>\n<p>Em seguida, foi a vez das popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas, que consumiram peixes v\u00edtimas da pestil\u00eancia. Da\u00ed os tent\u00e1culos da coisa podre chegaram \u00e0s grandes cidades nordestinas, e delas ganharam as metr\u00f3poles de outras regi\u00f5es. Em um planeta cada vez mais interligado, os desdobramentos da gosma acumulada em uma escarradeira do sert\u00e3o atingiram todos os continentes. Era a mais letal das pandemias, corrente inquebr\u00e1vel de contamina\u00e7\u00e3o e morte.<\/p>\n<p>Devolvo a palavra a Guimar\u00e3es Rosa (na verdade, assumo seu estilo, pois, como mencionado, ele n\u00e3o conheceu a coisa podre, nem testemunhou seus efeitos), para mais uma defini\u00e7\u00e3o de sert\u00e3o, a mais terr\u00edvel, a definitiva:<\/p>\n<p>\u201cO sert\u00e3o \u00e9 de onde tudo acaba.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A coisa podre jazia quieta, contida pelas bordas curvas do local onde se encontrava. Quieta, mas \u00e0 espreita. Serpente pronta a dar o bote. Surgira como mat\u00e9ria inerte, composta por incont\u00e1veis cuspidelas de saliva e, sobretudo, de catarro. 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