{"id":388387,"date":"2026-03-25T00:30:07","date_gmt":"2026-03-25T03:30:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=388387"},"modified":"2026-03-24T21:56:45","modified_gmt":"2026-03-25T00:56:45","slug":"a-epopeia-da-construcao-da-ceilandia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-epopeia-da-construcao-da-ceilandia\/","title":{"rendered":"A epopeia da constru\u00e7\u00e3o da Ceil\u00e2ndia"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria de Ceil\u00e2ndia n\u00e3o come\u00e7a apenas com o tra\u00e7ado de suas ruas, mas com as ra\u00edzes profundas de povos catagu\u00e1s que habitavam a regi\u00e3o muito antes da chegada dos portugueses. No s\u00e9culo XVIII, o cen\u00e1rio mudou com a vinda de europeus atra\u00eddos pela febre dos metais preciosos e pela agropecu\u00e1ria, marcando o in\u00edcio da ocupa\u00e7\u00e3o colonial.<\/p>\n<p>Nesse mesmo per\u00edodo, o territ\u00f3rio serviu de ref\u00fagio e esperan\u00e7a para negros escravizados que fugiam das minas de Paracatu e de Goi\u00e1s. Essas ocupa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas lan\u00e7aram as bases de uma ocupa\u00e7\u00e3o humana diversificada, muito antes de qualquer plano urban\u00edstico moderno ser sonhado para o Planalto Central.<\/p>\n<p>O destino da regi\u00e3o mudou drasticamente entre 1956 e 1958, quando o governo de Goi\u00e1s desapropriou as terras para a constru\u00e7\u00e3o da nova capital do Brasil. Sob a lideran\u00e7a de Altamiro de Moura Pacheco, a Comiss\u00e3o Goiana de Coopera\u00e7\u00e3o viabilizou o terreno onde Bras\u00edlia e suas futuras cidades sat\u00e9lites seriam erguidas.<\/p>\n<p>Contudo, o crescimento acelerado da capital trouxe desafios sociais inesperados. Em 1969, apenas nove anos ap\u00f3s a funda\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia, cerca de 80 mil pessoas viviam em ocupa\u00e7\u00f5es irregulares pr\u00f3ximas ao centro, buscando proximidade com seus postos de trabalho em uma popula\u00e7\u00e3o total de 500 mil habitantes.<\/p>\n<p>Diante da precariedade dessas moradias, um semin\u00e1rio sobre problemas sociais no Distrito Federal acendeu o alerta das autoridades. O governador H\u00e9lio Prates da Silveira, reconhecendo a gravidade da falta de infraestrutura, ordenou a erradica\u00e7\u00e3o dessas invas\u00f5es, dando in\u00edcio a um processo de transfer\u00eancia em massa.<\/p>\n<p>Para gerenciar essa transi\u00e7\u00e3o, foi criada a Campanha de Erradica\u00e7\u00e3o das Invas\u00f5es (CEI), presidida pela ent\u00e3o primeira-dama, dona Vera de Almeida Silveira. O nome da futura cidade nasceria justamente dessa sigla, unindo &#8220;CEI&#8221; ao sufixo &#8220;-l\u00e2ndia&#8221;, termo que estava em voga na \u00e9poca para designar novos territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>A demarca\u00e7\u00e3o dos primeiros 17.619 lotes foi uma opera\u00e7\u00e3o de guerra executada pela Novacap em apenas 97 dias, come\u00e7ando em outubro de 1970. A \u00e1rea escolhida ficava ao norte de Taguatinga, nas terras da antiga Fazenda Guariroba, inicialmente cobrindo 20 quil\u00f4metros quadrados de cerrado.<\/p>\n<p>O objetivo era transferir moradores de locais como a Vila IAPI, Vila Esperan\u00e7a e Morro do Querosene, que somavam mais de 15 mil barracos. Em 27 de mar\u00e7o de 1971, o governador H\u00e9lio Prates lan\u00e7ou a pedra fundamental da cidade, iniciando o assentamento das primeiras 20 fam\u00edlias vindas do IAPI.<\/p>\n<p>Os primeiros anos foram marcados pela extrema precariedade, pois o governo entregava apenas os lotes demarcados. N\u00e3o havia \u00e1gua encanada, esgoto ou luz, e a infraestrutura b\u00e1sica de abastecimento h\u00eddrico levaria cerca de seis anos para ser completamente instalada em toda a regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse contexto de car\u00eancia, surgiu um dos maiores \u00edcones da identidade local: a Caixa d\u2019\u00c1gua de Ceil\u00e2ndia. Inaugurada no terceiro anivers\u00e1rio da cidade, em 1974, o monumento tornou-se um s\u00edmbolo de sobreviv\u00eancia e progresso para a comunidade que ajudava a erguer o Distrito Federal.<\/p>\n<p>A cidade n\u00e3o parou de crescer, expandindo sua \u00e1rea para mais de 231 quil\u00f4metros quadrados em 1988. Setores como o N\u00facleo Guariroba, QNO, QNQ e QNP foram criados sucessivamente, consolidando Ceil\u00e2ndia como o cora\u00e7\u00e3o populacional e a maior regi\u00e3o administrativa de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Hoje, Ceil\u00e2ndia ostenta n\u00fameros impressionantes, com quase 400 mil habitantes. A for\u00e7a de sua gente transformou o que era planejado como um projeto de remo\u00e7\u00e3o em um polo de efervesc\u00eancia cultural, onde a tradi\u00e7\u00e3o nordestina pulsa forte em cada esquina e feira.<\/p>\n<p>Um dos grandes destaques do calend\u00e1rio local \u00e9 o &#8220;S\u00e3o Jo\u00e3o do Cerrado&#8221;, considerado o terceiro maior evento junino do Brasil. A festa atrai multid\u00f5es com parques, artesanato e grandes shows, celebrando anualmente a alegria de uma popula\u00e7\u00e3o que construiu sua hist\u00f3ria com as pr\u00f3prias m\u00e3os.<\/p>\n<p>A religiosidade tamb\u00e9m \u00e9 um pilar fundamental da cidade, tendo em Nossa Senhora da Gl\u00f3ria sua padroeira oficial. Todo dia 15 de agosto, a comunidade se re\u00fane para celebrar a f\u00e9 que, junto com a determina\u00e7\u00e3o dos pioneiros, manteve a cidade de p\u00e9 nos momentos mais dif\u00edceis.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Ceil\u00e2ndia \u00e9, acima de tudo, uma cr\u00f4nica de resist\u00eancia. O que come\u00e7ou como uma sigla administrativa (CEI) tornou-se uma metr\u00f3pole vibrante, provando que a identidade de um lugar n\u00e3o \u00e9 feita apenas de asfalto e concreto, mas da alma e da luta de seu povo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria de Ceil\u00e2ndia n\u00e3o come\u00e7a apenas com o tra\u00e7ado de suas ruas, mas com as ra\u00edzes profundas de povos catagu\u00e1s que habitavam a regi\u00e3o muito antes da chegada dos portugueses. 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