{"id":388864,"date":"2026-03-28T01:15:16","date_gmt":"2026-03-28T04:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=388864"},"modified":"2026-03-28T00:05:33","modified_gmt":"2026-03-28T03:05:33","slug":"a-dignidade-entre-os-bombons","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-dignidade-entre-os-bombons\/","title":{"rendered":"A dignidade entre os bombons"},"content":{"rendered":"<p>A manh\u00e3 nasceu mentirosa. A previs\u00e3o prometia um sol de rachar, mas o que vi pela janela foi um len\u00e7ol de neblina branca sufocando as montanhas. Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi a desist\u00eancia: o sof\u00e1, a Netflix e um balde de pipoca pareciam o \u00fanico destino l\u00f3gico. Mas o desassossego \u00e9 minha b\u00fassola. Decidi que, se n\u00e3o haveria sol, haveria mar, mesmo que sob chuva.<\/p>\n<p>Encontrei o ref\u00fagio perfeito: um barzinho com varanda de vidro, onde o som da m\u00fasica ao vivo duelava com o barulho das ondas, que naquele dia batiam com uma f\u00faria incomum. O acaso, ou talvez a mesma teimosia que me levou at\u00e9 l\u00e1 e reuniu minhas amigas na mesma mesa. Entre um gole e outro, admir\u00e1vamos aquele mar revolto, quando ele surgiu.<\/p>\n<p>Era jovem, mas o rosto trazia as marcas de quem j\u00e1 viveu tr\u00eas vidas em uma s\u00f3. Estava limpo, apresent\u00e1vel, e carregava uma caixa de bombons com uma postura que n\u00e3o condizia com a invisibilidade comum aos moradores de rua. O que me fisgou n\u00e3o foi a mercadoria, mas a dic\u00e7\u00e3o perfeita e a educa\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel.<\/p>\n<p>&#8220;Sou morador de rua&#8221;, disse ele, sem rodeios ou vitimismo. &#8220;Vendo bombons para pagar meu almo\u00e7o e dez reais para uma senhora lavar minha roupa.&#8221;<\/p>\n<p>Fui puxando o fio daquela meada. N\u00e3o havia nele o olhar turvo do v\u00edcio, mas a lucidez de quem conhecia as &#8220;pe\u00e7as&#8221; que a vida prega. Ele j\u00e1 fora auditor, corretor, gerente de vendas. Tinha terno, gravata, metas e uma fam\u00edlia. O div\u00f3rcio foi o primeiro golpe; a morte dos pais, o nocaute. O luto mal curado abriu brecha para uma experi\u00eancia desastrosa com drogas, e em seis meses, o gerente de sucesso vegetava em um lix\u00e3o dom\u00e9stico.<\/p>\n<p>Ouvi sua hist\u00f3ria de quedas e tentativas de reerguimento, o retiro pago pelo cunhado, a promessa de Portugal barrada por uma pandemia e uma guerra, o abrigo tempor\u00e1rio que se tornou insuport\u00e1vel. Agora, a rua era seu endere\u00e7o, a pracinha seu teto, e a honestidade seu \u00faltimo escudo.<br \/>\nComprei os bombons, mas levei comigo o peso daquela conversa. A vida \u00e9 um equil\u00edbrio prec\u00e1rio, pensei.<\/p>\n<p>Tr\u00eas anos se passaram. O tempo, esse senhor que tudo apaga, n\u00e3o apagou aquele encontro da minha mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>Em uma tarde de sol verdadeiro&#8230; desta vez a previs\u00e3o n\u00e3o falhou, eu estava novamente no mesmo barzinho. O sol brilhava, o mar estava calmo. De repente, ele parou diante da minha mesa. O olhar era o mesmo, mas o semblante estava descansado.<\/p>\n<p>\u2014 Lembra de mim? Perguntou, com um sorriso que n\u00e3o vi da primeira vez. Consegui um emprego. N\u00e3o moro mais na rua. Tenho minha quitinete.<\/p>\n<p>Ele ainda vendia bombons, mas agora o lucro n\u00e3o era para a sobreviv\u00eancia imediata. Era para o afeto: ele estava juntando dinheiro para visitar a filha. As caixas de doce agora eram compradas com o suor de um sal\u00e1rio fixo.<\/p>\n<p>Comprei quatro bombons. Naquele dia, o doce tinha um sabor diferente. N\u00e3o era apenas chocolate; era o gosto raro e persistente da vit\u00f3ria de quem, mesmo perdendo tudo, n\u00e3o permitiu que a vida lhe roubasse a identidade.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e9rcia Souza \u00e9 escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com tr\u00eas livros publicados e participa\u00e7\u00e3o em diversas antologias, encontra na escrita o f\u00f4lego para registrar o cotidiano. M\u00e3e e av\u00f3 dedicada, \u00e9 apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contempla\u00e7\u00e3o do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspira\u00e7\u00e3o para suas pr\u00f3ximas narrativas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A manh\u00e3 nasceu mentirosa. A previs\u00e3o prometia um sol de rachar, mas o que vi pela janela foi um len\u00e7ol de neblina branca sufocando as montanhas. Minha primeira rea\u00e7\u00e3o foi a desist\u00eancia: o sof\u00e1, a Netflix e um balde de pipoca pareciam o \u00fanico destino l\u00f3gico. Mas o desassossego \u00e9 minha b\u00fassola. 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