{"id":389154,"date":"2026-03-05T01:15:04","date_gmt":"2026-03-05T04:15:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=389154"},"modified":"2026-03-30T00:25:26","modified_gmt":"2026-03-30T03:25:26","slug":"a-voz-que-desafiou-a-republica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-voz-que-desafiou-a-republica\/","title":{"rendered":"A voz que desafiou a Rep\u00fablica"},"content":{"rendered":"<p>A retratada de hoje em <strong>O Lado B da Literatura<\/strong> \u00e9 Josefina \u00c1lvares de Azevedo. Nascida em 5 de maio de 1851, a sua origem exata \u00e9 um quebra-cabe\u00e7a biogr\u00e1fico: enquanto registros de \u00f3bito apontam a Para\u00edba, ela se dizia pernambucana de Recife, e h\u00e1 quem jure que ela nasceu em Itabora\u00ed, sendo meia-irm\u00e3 do c\u00e9lebre poeta rom\u00e2ntico \u00c1lvares de Azevedo.<\/p>\n<p>Independente do ber\u00e7o, Josefina foi uma for\u00e7a da natureza que n\u00e3o aceitava o sil\u00eancio. Em 1877, trocou o Nordeste por S\u00e3o Paulo e, onze anos depois, deu vida ao jornal <em>A Fam\u00edlia<\/em>. O t\u00edtulo parecia inofensivo para a \u00e9poca, mas o conte\u00fado era pura vanguarda: uma ferramenta de combate pela emancipa\u00e7\u00e3o feminina atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O jornal n\u00e3o ficou parado. Percebendo que a proximidade com o poder era estrat\u00e9gica, Josefina mudou a reda\u00e7\u00e3o para o Rio de Janeiro em 1889. Ela queria que sua voz ecoasse nos corredores da Corte e, mais tarde, nos gabinetes da rec\u00e9m-proclamada Rep\u00fablica, viajando pessoalmente pelo pa\u00eds para garantir que sua mensagem circulasse de norte a sul.<\/p>\n<p>Para Josefina, a imprensa era a &#8220;v\u00e1lvula&#8221; capaz de despertar consci\u00eancias. Ela batia na tecla de que a suposta inferioridade feminina era uma inven\u00e7\u00e3o masculina. Em seus editoriais, argumentava que, se as mulheres eram capazes de gerir a ordem de um lar \u2014 algo que, segundo ela, os homens raramente conseguiam \u2014, estavam mais do que aptas a coordenar a sociedade.<\/p>\n<p>A chegada da Rep\u00fablica em 1889 trouxe esperan\u00e7a, mas tamb\u00e9m uma frustra\u00e7\u00e3o amarga. Ao ver que o novo regime mantinha as mulheres exclu\u00eddas das urnas, Josefina elevou o tom. Ela classificava como &#8220;absurdo&#8221; o fato de mulheres instru\u00eddas e l\u00facidas serem equiparadas juridicamente a &#8220;dementes e menores&#8221; apenas pela diferen\u00e7a de sexo.<\/p>\n<p>Sua luta n\u00e3o se restringia aos artigos de jornal. Em 1890, ela levou o debate para os palcos com a com\u00e9dia <em>O Voto Feminino<\/em>. A pe\u00e7a, encenada no popular Teatro Recreio Dram\u00e1tico, usava o humor para ridicularizar a ideia de que o lugar da mulher era restrito aos &#8220;arranjos da casa&#8221;.<\/p>\n<p>No palco, personagens debatiam o direito de votar e ser votada. Atrav\u00e9s do &#8220;Doutor&#8221;, um de seus personagens, Josefina questionava: se uma mulher tem capacidade para obter t\u00edtulos cient\u00edficos, por que n\u00e3o poderia ocupar cargos p\u00fablicos? Era a literatura servindo de palanque para a justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de Josefina foi prol\u00edfica. Al\u00e9m do jornal, que circulou com breves interrup\u00e7\u00f5es at\u00e9 quase o fim de sua vida, ela publicou a colet\u00e2nea <em>Retalhos<\/em> e o livro <em>A Mulher Moderna<\/em>. Seus textos eram um misto de poesia e doutrina\u00e7\u00e3o feminista, sempre focados na quebra das correntes seculares da &#8220;escravid\u00e3o feminina&#8221;.<\/p>\n<p>Ela entendia que a igualdade sem o voto seria apenas uma utopia. Por isso, transformou <em>A Fam\u00edlia<\/em> em um reduto de reivindica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Para ela, n\u00e3o havia justificativa intelectual para a exclus\u00e3o eleitoral; o que existia era apenas um preconceito que a nova Rep\u00fablica se recusava a abandonar.<\/p>\n<p>A vida familiar de Josefina tamb\u00e9m respirava letras. Irm\u00e3 de Maria Am\u00e9lia e m\u00e3e de Alfredo e Moacyr, ela carregava o sobrenome Azevedo com o orgulho de quem sabia que sua linhagem tamb\u00e9m era feita de intelecto e coragem, e n\u00e3o apenas da sombra de parentes famosos.<\/p>\n<p>Mesmo enfrentando dificuldades financeiras que suspenderam seu jornal por um ano em 1897, ela n\u00e3o desistiu. Retomou a publica\u00e7\u00e3o em 1898, recebendo o apoio de outras revistas femininas da \u00e9poca, como <em>A Mensageira<\/em>, que reconheciam nela uma pioneira indispens\u00e1vel.<\/p>\n<p>Josefina \u00c1lvares de Azevedo faleceu no Rio de Janeiro em 1913, anos antes de ver o voto feminino finalmente ser conquistado no Brasil. No entanto, sua insist\u00eancia em dizer que homens e mulheres s\u00e3o &#8220;semelhantes, embora de sexo diverso&#8221; lan\u00e7ou as sementes para todas as conquistas que vieram a seguir.<\/p>\n<p>Hoje, ao olharmos para a hist\u00f3ria da imprensa brasileira, o nome de Josefina brilha como o de uma mulher que n\u00e3o pediu licen\u00e7a para entrar no debate pol\u00edtico. Ela tomou para si o direito de escrever, de editar e de exigir que a cidadania n\u00e3o tivesse g\u00eanero.<\/p>\n<p>Sua trajet\u00f3ria nos lembra que a educa\u00e7\u00e3o e a palavra s\u00e3o as armas mais potentes contra a opress\u00e3o. Josefina n\u00e3o foi apenas uma escritora; foi uma estrategista que usou o jornalismo para tentar reformar uma sociedade que insistia em manter metade de sua popula\u00e7\u00e3o na invisibilidade.<\/p>\n<p>Josefina \u00c1lvares de Azevedo foi a paraibana (ou pernambucana) que provou que, quando uma mulher decide falar, nem mesmo a for\u00e7a de uma Rep\u00fablica rec\u00e9m-nascida \u00e9 capaz de calar o seu clamor por justi\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A retratada de hoje em O Lado B da Literatura \u00e9 Josefina \u00c1lvares de Azevedo. 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