{"id":389845,"date":"2026-04-06T01:15:47","date_gmt":"2026-04-06T04:15:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=389845"},"modified":"2026-04-06T02:09:51","modified_gmt":"2026-04-06T05:09:51","slug":"a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/","title":{"rendered":"\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA"},"content":{"rendered":"<p>Um jantar de paz: era isso o que eu sempre esperei conquistar na vida adulta, quando tivesse minha casa e minha fam\u00edlia. Talvez por causa da mem\u00f3ria das brigas intermin\u00e1veis entre meus pais, que quase sempre come\u00e7avam quando meu pai chegava do trabalho, n\u00e3o raro tarde, cheirando a cerveja barata ou, pior, a perfume barato, que j\u00e1 nem fazia quest\u00e3o de esconder. \u00c0s vezes, havia ainda manchas de batom no colarinho, o que despertava a ira de minha m\u00e3e. Come\u00e7avam a discutir, a se exaltar um com o outro de uma forma que chamava a aten\u00e7\u00e3o at\u00e9 dos vizinhos.<\/p>\n<p>Minha irm\u00e3 e eu nos encolh\u00edamos em nossos lugares \u00e0 mesa, sem saber se dev\u00edamos proteger um ao outro ou se tent\u00e1vamos apartar nossos pais, que, n\u00e3o raro, chegavam \u00e0s vias de fato. Lembro-me de um dia em que minha m\u00e3e, numa esp\u00e9cie de transe furioso, atirou um prato de comida na parede. O prato ficou l\u00e1, despeda\u00e7ado, enquanto a comida escorria devagar at\u00e9 o ch\u00e3o da cozinha. Acho que, naquela ocasi\u00e3o, a raz\u00e3o da briga era uma mulher que viera \u00e0 nossa casa \u00e0 procura de meu pai. Bonito, galante, ele n\u00e3o deixava de conquistar mo\u00e7as e senhoras, casadas ou solteiras, n\u00e3o importava. \u00c0s vezes gastava muito dinheiro com essas aventuras, dinheiro que faltava dentro de casa e que poderia ter proporcionado um pouco mais de conforto \u00e0 fam\u00edlia que ele criara. Minha m\u00e3e, naquele tempo, sem instru\u00e7\u00e3o e sem profiss\u00e3o, pouco podia fazer por n\u00f3s. E como sofria por isso.<br \/>\nQuando pude, sa\u00ed daquele ambiente. Tive pena de deixar minha irm\u00e3, coitada, pensando em quantos gritos e xingamentos ela ainda presenciaria entre os dois. Mas prometi a mim mesmo que, assim que as coisas melhorassem, eu voltaria por ela e faria o poss\u00edvel para lhe proporcionar um ambiente familiar mais maduro e gentil. Essa promessa jamais se concretizou. Antes mesmo dos dezessete anos, minha irm\u00e3 se enamorou de um tal Gerv\u00e1sio, soldado da Pol\u00edcia Militar, e foi morar com ele. Teve praticamente um filho por ano, at\u00e9 os vinte e cinco, quando, numa plataforma da esta\u00e7\u00e3o de trem, renunciou \u00e0quela vida med\u00edocre e sofrida. Os filhos foram espalhados entre parentes do soldado, e nunca mais tivemos not\u00edcia desses sobrinhos, que devem andar por a\u00ed, distribuindo os genes de meus pais e de minha irm\u00e3. Genes meus tamb\u00e9m, de certo modo, pela consanguinidade que nos une; ainda assim, eu n\u00e3o saberia sequer dizer seus nomes completos.<\/p>\n<p>Passei anos sem voltar \u00e0 casa dos velhos. S\u00f3 fui visit\u00e1-los quando, j\u00e1 casado com Helena, nasceu nossa primeira filha, Laura. Minha m\u00e3e, ainda que comovida por me ver e por conhecer a nora e a neta, n\u00e3o deu o bra\u00e7o a torcer. Querendo gracejar diante de minha esposa, chamou-me de filho pr\u00f3digo, ingrato, disse que eu abandonara os pais por muitos anos e que agora, tomado pelo remorso, vinha pedir a b\u00ean\u00e7\u00e3o de dois velhos j\u00e1 no fim da vida. Helena desconversou, riu, mas percebeu o constrangimento no meu rosto. Desde o in\u00edcio, ainda no tempo em que nos conhec\u00edamos sem saber que um dia formar\u00edamos uma fam\u00edlia, eu lhe prometera:<\/p>\n<p>\u2014 Quero que, entre n\u00f3s, seja tudo diferente. Se um dia tivermos um lar, uma fam\u00edlia, eu te juro, minha galega, que teremos paz. Principalmente na hora do jantar, que \u00e9 sagrada.<\/p>\n<p>Nunca fui muito dado a refletir sobre a vida, a racionalizar as coisas. Hoje compreendo que isso se deve, em parte, ao ambiente em que cresci. Ainda assim, gosto de pensar que amadureci, que aprendi a n\u00e3o ferir os outros com as minhas pr\u00f3prias feridas. As pessoas n\u00e3o merecem que nossos traumas e frustra\u00e7\u00f5es lhes sejam passados como se fossem uma maldi\u00e7\u00e3o, dilu\u00edda de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Mas, naquele tempo, no in\u00edcio do namoro com aquela que viria a ser minha esposa, eu tinha muito medo de guardar, em algum lugar da alma, o molde daquelas explos\u00f5es, daquelas brigas incontidas que via meus pais travarem, e um dia reproduzir tudo aquilo. Helena era, sem sombra de d\u00favida, a mulher da minha vida. Soube disso desde o primeiro instante em que pus os olhos nela, e n\u00e3o podia decepcion\u00e1-la nem perd\u00ea-la. Ela vinha de uma fam\u00edlia boa, carinhosa com os filhos, muito unida. E eu n\u00e3o queria lhe oferecer menos do que isso, menos do que ela merecia.<\/p>\n<p>Olhando para o passado com o distanciamento de hoje, n\u00e3o tenho do que me queixar quanto ao amor materno que recebi. Dentro das possibilidades que tinha, minha m\u00e3e fez o melhor. Mas era uma mulher que escolhia suas batalhas. Havia dias em que apenas tentava se defender de um mundo opressivo e cruel, que a lan\u00e7ara num casamento em que, todos os dias, o desafio era sair viva. Meu pai&#8230; bem, dele n\u00e3o posso dizer grande coisa. At\u00e9 porque o lugar em que ele menos permanecia era justamente a nossa casa. E, quando estava sob o mesmo teto que a esposa e os filhos, invariavelmente se envolvia naquelas discuss\u00f5es in\u00fateis, nas brigas, no pega pra capar de todo dia.<\/p>\n<p>Com Helena, as coisas come\u00e7aram do modo como eu sempre sonhara. N\u00e3o havia gritos, portas batidas, pratos quebrados, vizinhos escutando e comentando desgra\u00e7a alheia. Nossa vida, a princ\u00edpio, parecia uma repara\u00e7\u00e3o. Laura nasceu trazendo claridade nova para dentro de casa. Minha m\u00e3e, quando a viu ainda beb\u00ea, chegou a dizer que Deus me recompensava pela dureza que eu vivera. N\u00e3o sei se Deus se ocupa desses arranjos, mas a verdade \u00e9 que, por alguns anos, a felicidade me pareceu uma coisa simples: trabalhar, voltar para casa, beijar minha Helena, tomar Laura nos bra\u00e7os, jantar em paz.<\/p>\n<p>Era sobretudo nessa hora que eu me sentia vitorioso. A mesa posta, ainda que modesta; a luz amarela do teto; o prato quente servido por Helena; a menina na cadeirinha, sujando os dedos de feij\u00e3o e arroz, enquanto eu e minha mulher troc\u00e1vamos impress\u00f5es banais sobre o dia. Eu olhava aquela cena como quem contempla uma vida alheia, inacredit\u00e1vel. N\u00e3o havia luxo, nem grandeza. Eu n\u00e3o era nada que desse inveja a ningu\u00e9m. Mas tinha paz. E, para algu\u00e9m que crescera onde cresci, paz j\u00e1 era um milagre.<\/p>\n<p>Com o tempo, fui aprendendo a amar esse pequeno ritual com uma devo\u00e7\u00e3o talvez excessiva. O jantar passou a ser, para mim, mais do que uma refei\u00e7\u00e3o. Era o momento em que eu confirmava a mim mesmo que n\u00e3o me tornara meu pai. O mundo podia ser injusto, o trabalho podia humilhar, o dinheiro podia faltar, o cansa\u00e7o podia corroer a paci\u00eancia de qualquer homem; mas, chegando em casa, eu me sentava \u00e0 mesa com a minha fam\u00edlia, e ali, naquele universo, tudo se recompunha em equil\u00edbrio. Era como se eu dissesse em sil\u00eancio ao menino que eu havia sido: est\u00e1 vendo? Voc\u00ea chegou l\u00e1! Era poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Helena, \u00e0s vezes, ria dessa solenidade toda.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea trata o jantar como se fosse missa.<\/p>\n<p>E talvez fosse mesmo. Uma liturgia dom\u00e9stica, minha forma privada de reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os anos correram. Laura cresceu. Helena voltou a sorrir com mais calma, depois dos sustos naturais da maternidade. Eu progredi no trabalho o quanto pude. N\u00e3o muito, mas o bastante para proporcionar alguma dignidade. Quando Laura j\u00e1 come\u00e7ava a perder o rosto de crian\u00e7a, nasceu Lu\u00edsa. Veio de surpresa, quando j\u00e1 n\u00e3o esper\u00e1vamos recome\u00e7ar mamadeiras, fraldas, noites maldormidas. Helena recebeu a not\u00edcia com susto e riso. Eu, com um medo fundo que logo se desfez no instante em que peguei a rec\u00e9m-nascida no colo. Lu\u00edsa era menor, mais delicada, e trazia um olhar muito atento, como se desde o ber\u00e7o desconfiasse do mundo.<\/p>\n<p>Foi tamb\u00e9m por esse tempo que meu pai adoeceu.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei dizer ao certo quando um homem come\u00e7a a morrer. Talvez muito antes do diagn\u00f3stico, talvez muito antes da cama, dos rem\u00e9dios e dos exames. Talvez meu pai tivesse come\u00e7ado a morrer ainda mo\u00e7o, desperdi\u00e7ando a vida em bares, camas alheias e valentias in\u00fateis. O que sei \u00e9 que, um dia, chegou a not\u00edcia de que estava mal. Primeiro veio uma tosse persistente, depois a perda de peso, depois a peregrina\u00e7\u00e3o entre m\u00e9dicos e filas, at\u00e9 que se fixou um nome grave na doen\u00e7a e, com ele, a certeza de que o tempo j\u00e1 n\u00e3o lhe seria generoso.<\/p>\n<p>Voltei a frequentar a casa dos velhos por obriga\u00e7\u00e3o moral. N\u00e3o por ternura. Seria falso dizer que fui movido pelo amor filial. Eu ia porque minha m\u00e3e estava cansada, porque algu\u00e9m precisava resolver coisas pr\u00e1ticas, porque \u00e0s vezes a vida nos chama n\u00e3o para grandes gestos de afeto, mas para carregar sacolas de rem\u00e9dio, enfrentar reparti\u00e7\u00f5es, assinar pap\u00e9is, ouvir recomenda\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas de que mal nos lembramos meia hora depois.<\/p>\n<p>Meu pai j\u00e1 n\u00e3o era o homem bonito e espalhafatoso de outros tempos. Estava murcho, irritadi\u00e7o, com a vaidade ferida de quem percebe que o corpo o traiu. Esperava, confesso, que a doen\u00e7a lhe trouxesse alguma grandeza tardia. Talvez uma palavra de arrependimento. Talvez um pedido de perd\u00e3o \u00e0 minha m\u00e3e. Talvez, ao menos para mim, alguma frase que fechasse a porta do passado. N\u00e3o veio nada disso. Continuou pequeno at\u00e9 o fim. Reclamava da comida, do calor, do pre\u00e7o dos rem\u00e9dios, da demora do atendimento, da vida que, segundo ele, sempre o perseguira. Minha m\u00e3e seguia servindo, limpando, ajeitando, como quem n\u00e3o conhecesse outra forma de existir.<\/p>\n<p>Morreu numa manh\u00e3 abafada. Sem reconcilia\u00e7\u00e3o, sem revela\u00e7\u00e3o, sem nenhuma daquelas frases memor\u00e1veis que s\u00f3 existem direito em romance ou cinema. Morreu como viveu: deixando para os outros o trabalho sujo do depois.<\/p>\n<p>No enterro, minha m\u00e3e chorou mais do que eu achei que choraria. Talvez chorasse o homem que ele poderia ter sido; talvez chorasse a juventude dela mesma, enterrada junto.<\/p>\n<p>Talvez chorasse apenas o h\u00e1bito. H\u00e1 lutos que n\u00e3o nascem do amor, mas da conviv\u00eancia. Depois do sepultamento, vi-a voltar para casa com um tamanho menor, como se tivesse encolhido alguns cent\u00edmetros dentro do vestido preto.<\/p>\n<p>Passados poucos meses, tornou-se claro que ela n\u00e3o poderia continuar morando sozinha. A casa era antiga, o bairro piorara, a aposentadoria n\u00e3o bastava, e, al\u00e9m disso, a viuvez a deixara com uma fragilidade que eu, embora relutasse, n\u00e3o podia ignorar. Helena recebeu a not\u00edcia com compostura.<\/p>\n<p>\u2014 Se n\u00e3o h\u00e1 outro jeito, ela vem.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia outro jeito. Ou, se havia, eu n\u00e3o quis procur\u00e1-lo com afinco. E minha m\u00e3e veio.<\/p>\n<p>No in\u00edcio, tentei convencer a mim mesmo de que tudo daria certo. Afinal, eu j\u00e1 n\u00e3o era menino; Helena n\u00e3o era minha m\u00e3e; aquela n\u00e3o era a casa em que cresci. Havia regras, maturidade, dec\u00eancia, amor. Minha m\u00e3e teria seu quarto. As meninas fariam companhia \u00e0 av\u00f3. Helena, que sempre foi mais generosa do que eu, esfor\u00e7ou-se para acolh\u00ea-la bem.<\/p>\n<p>Chegou a comprar uma colcha nova para a cama dela e a reorganizar arm\u00e1rios para acomodar suas roupas e seus rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>Mas certas presen\u00e7as n\u00e3o entram sozinhas numa casa. Chegam acompanhadas dos fantasmas, dos elementos de seu pr\u00f3prio mundo, que se instalam sem terem sido convidadas.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e chegou trazendo consigo um modo de olhar, de comentar, de suspirar, de transformar qualquer banalidade numa pequena acusa\u00e7\u00e3o. Nada \u00f3bvio demais, nada que pudesse ser condenado com facilidade. Era um veneno em gotas, mi\u00fado, dom\u00e9stico, destilado em frases aparentemente inocentes.<\/p>\n<p>\u2014 Na minha \u00e9poca, menino n\u00e3o respondia assim.<\/p>\n<p>\u2014 Helena, voc\u00ea deixa Laura muito solta.<\/p>\n<p>\u2014 Essa pequena n\u00e3o come quase nada, coitada. Crian\u00e7a sem sustan\u00e7a fica doente.<\/p>\n<p>\u2014 Na sua casa agora todo mundo chega cada dia numa hora?<\/p>\n<p>Helena suportou muito. Mais do que eu seria capaz. \u00c0s vezes respondia com eleg\u00e2ncia; \u00e0s vezes calava; \u00e0s vezes vinha desabafar comigo no quarto, j\u00e1 de noite, quando as meninas dormiam.<\/p>\n<p>\u2014 Sua m\u00e3e n\u00e3o precisa me amar. S\u00f3 precisa parar de me corrigir dentro da minha pr\u00f3pria cozinha.<\/p>\n<p>Eu prometia intervir. E, nas primeiras vezes, at\u00e9 tentei. Mas cada observa\u00e7\u00e3o que eu fazia \u00e0 minha m\u00e3e vinha carregada do peso antigo de filho. Ela se ofendia, lembrava sacrif\u00edcios, evocava o pai morto, dizia-se um estorvo, uma vi\u00fava sem lugar no mundo. Era como se toda conversa desembocasse inevitavelmente na culpa. Aos poucos, fui ficando cansado. E, quando um homem se cansa, quase sempre escolhe a injusti\u00e7a mais confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>Passei a pedir paci\u00eancia a Helena.<\/p>\n<p>Depois, passei a pedir mais paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Depois, sem perceber, j\u00e1 n\u00e3o pedia. Exigia.<\/p>\n<p>\u2014 Releva, Helena. Ela est\u00e1 velha. Voc\u00ea sabe o que ela viveu. N\u00e3o precisa retrucar por qualquer coisa, vamos evitar atrito.<\/p>\n<p>Esse \u201cvamos evitar atrito\u201d tornou-se uma esp\u00e9cie de lema da casa. Mas eu n\u00e3o via, ou fingia n\u00e3o ver, que evitar atrito, do modo como eu come\u00e7ava a impor, significava quase sempre que algu\u00e9m deveria engolir o inc\u00f4modo em sil\u00eancio. E esse algu\u00e9m raramente era eu ou minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>As meninas tamb\u00e9m mudaram. Laura entrou naquela idade em que a inf\u00e2ncia come\u00e7a a se afastar e a pessoa ensaia os primeiros enfrentamentos com o mundo. J\u00e1 n\u00e3o baixava os olhos com tanta facilidade. Tinha opini\u00e3o, ironia, impaci\u00eancia. Lu\u00edsa, menor, era ainda doce, mas de uma sensibilidade extrema; percebia o clima do ambiente como certos animais percebem a chuva antes que ela caia. Se a mesa ficava tensa, ela mastigava olhando o prato. Se algu\u00e9m elevava a voz, seus ombros encolhiam.<\/p>\n<p>E eu, que deveria ter reconhecido esse sinal, fiz o contr\u00e1rio. Em vez de me alarmar, senti-me provocado. O jantar, que antes era uma b\u00ean\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou a se transformar em prova. Eu chegava do trabalho exausto, encontrava minha m\u00e3e com alguma queixa, Helena j\u00e1 irritada de ouvir indiretas o dia inteiro, Laura emburrada por qualquer motivo pr\u00f3prio da idade, Lu\u00edsa distra\u00edda, a comida esfriando, a televis\u00e3o ligada em volume indevido, e uma f\u00faria antiga come\u00e7ava a subir dentro de mim, n\u00e3o como explos\u00e3o s\u00fabita, mas como uma \u00e1gua escura enchendo um reservat\u00f3rio, litro a litro, gota a gota.<\/p>\n<p>Sem perceber, tornei-me zelador feroz daquela liturgia.<\/p>\n<p>\u2014 Desliga essa televis\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Senta direito.<\/p>\n<p>\u2014 Menina, larga esse celular.<\/p>\n<p>\u2014 Eu j\u00e1 falei que na hora do jantar quero todo mundo \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>\u2014 O que custa ter meia hora de ordem nesta casa?<\/p>\n<p>Eu dizia ordem, mas talvez quisesse impor submiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Helena come\u00e7ou a me olhar de um jeito novo. N\u00e3o era medo ainda. Era decep\u00e7\u00e3o. Um espanto entristecido, como quem v\u00ea um m\u00f3vel familiar come\u00e7ar a dar cupim, ser ro\u00eddo e estragar por dentro.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 exagerando \u2014 dizia, em voz baixa, entre dentes, para n\u00e3o constranger as meninas.<\/p>\n<p>E eu, em vez de escutar, sentia-me contrariado. Porque, no \u00edntimo, acreditava estar defendendo a fam\u00edlia do caos. N\u00e3o percebia que, ao tentar preservar a paz como um objeto, eu j\u00e1 a havia destru\u00eddo como experi\u00eancia.<\/p>\n<p>A cena aconteceu numa ter\u00e7a-feira comum, o que a tornou pior. Trag\u00e9dias grandes, quando v\u00eam em dias banais, parecem dizer que o horror n\u00e3o precisa de ocasi\u00e3o especial.<\/p>\n<p>Eu chegara tarde. Houvera um problema no trabalho, um desgaste idiota desses que roubam ao homem a energia e lhe deixam apenas o ressentimento. Em casa, encontrei minha m\u00e3e queixando-se de tontura, embora tivesse passado a tarde inteira suficientemente disposta para criticar a arruma\u00e7\u00e3o da cozinha. Helena ainda finalizava o jantar. Laura estava contrariada porque a professora lhe cobrara uma reda\u00e7\u00e3o que ela n\u00e3o queria fazer. Lu\u00edsa choramingava de sono. A mesa se armou j\u00e1 torta, cada qual trazendo ao prato o resto azedo do pr\u00f3prio dia.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a comer em sil\u00eancio. N\u00e3o era um sil\u00eancio bom, nem acolhedor. Era aquele sil\u00eancio armado, tenso, em que qualquer tilintar de talher retumba.<\/p>\n<p>Lu\u00edsa derrubou suco na toalha.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e soltou um suspiro antip\u00e1tico, cheio de censura.<\/p>\n<p>Helena cobriu o l\u00edquido com o guardanapo de papel, mas n\u00e3o bastou. Levantou-se para buscar um pano de prato.<\/p>\n<p>Laura aproveitou para dizer que n\u00e3o iria \u00e0 aula no dia seguinte porque odiava reda\u00e7\u00e3o e a professora era uma chata.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea vai, sim \u2014 respondi.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vou.<\/p>\n<p>\u2014 Laura!<\/p>\n<p>\u2014 Pai, eu estou falando s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e ent\u00e3o resolveu intervir:<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 muito respondona. Na minha casa, uma filha minha n\u00e3o falava assim \u00e0 mesa.<\/p>\n<p>Helena, de costas, secando a \u00e1gua, disse apenas:<\/p>\n<p>\u2014 Na sua casa aconteciam outras coisas \u00e0 mesa tamb\u00e9m. A senhora controlava?<\/p>\n<p>A frase caiu como um f\u00f3sforo aceso num rastilho de p\u00f3lvora.<\/p>\n<p>Minha m\u00e3e empalideceu. Virou-se para mim, ofendida, como se exigisse imediato desagravo. Laura percebeu o movimento. Lu\u00edsa parou de mastigar. Helena, talvez percebendo tarde demais o peso do que dissera, voltou \u00e0 mesa ainda com o pano na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu poderia ter ficado quieto. Poderia ter pedido calma. Poderia at\u00e9 ter concordado com Helena. Mas havia muitos anos de cansa\u00e7o, culpa, inf\u00e2ncia e orgulho adoecido comprimidos dentro de mim, e bastou aquele segundo para que tudo cedesse.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o admito esse tom nesta mesa! \u2014 gritei.<\/p>\n<p>Foi a primeira vez que minha voz ocupou a casa inteira daquele jeito.<\/p>\n<p>Helena me olhou sem acreditar.<\/p>\n<p>\u2014 E eu n\u00e3o admito mais viver assim \u2014 ela respondeu, tamb\u00e9m tr\u00eamula, mas firme. \u2014 Sua paz virou pris\u00e3o. Sua m\u00e3e dita o clima desta casa e voc\u00ea quer que todas n\u00f3s finjamos normalidade para satisfazer a sua mania de jantar perfeito.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se foi a palavra mania, ou o olhar das meninas, ou o vulto de minha m\u00e3e ao lado, em sil\u00eancio vingado. Sei apenas que senti o rosto ferver e, no gesto seguinte, antes que qualquer consci\u00eancia pudesse me deter, agarrei o prato e o lancei contra a parede.<\/p>\n<p>O barulho foi seco, brutal, absurdo.<\/p>\n<p>Por um instante ningu\u00e9m se mexeu, como se o tempo houvesse parado.<\/p>\n<p>O prato se despeda\u00e7ou. O feij\u00e3o, o arroz, os peda\u00e7os de carne escorreram pela parede num movimento lento, grotesco, quase solene. E foi essa lentid\u00e3o que me matou. Porque eu j\u00e1 tinha visto aquilo. Muitos anos antes. A mesma parede suja de comida. O mesmo espanto suspenso no ar. O mesmo sil\u00eancio posterior, mais terr\u00edvel do que o grito.<\/p>\n<p>Virei os olhos para a mesa.<\/p>\n<p>Laura e Lu\u00edsa estavam encolhidas em suas cadeiras.<\/p>\n<p>Exatamente como minha irm\u00e3 e eu.<\/p>\n<p>Helena levou a m\u00e3o \u00e0 boca, n\u00e3o para chorar, mas como quem tenta conter uma n\u00e1usea. Minha m\u00e3e n\u00e3o disse nada. Nem precisou. Havia em seu rosto uma express\u00e3o indecifr\u00e1vel, meio triunfo, meio desola\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu quis falar. Pedir perd\u00e3o. Dizer que n\u00e3o era daquela forma. Que eu n\u00e3o era aquilo. Mas j\u00e1 era tarde para as palavras. O gesto j\u00e1 havia dito tudo, uma verdade que a boca n\u00e3o conseguiria apagar.<\/p>\n<p>Helena levantou-se, pegou Lu\u00edsa no colo e segurou Laura pelo bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Meninas, j\u00e1 para o quarto \u2014 disse, num fio de voz.<\/p>\n<p>Laura, antes de sair, ainda me olhou. N\u00e3o era s\u00f3 medo. Havia tamb\u00e9m uma compreens\u00e3o precoce e triste, dessas que nenhuma filha deveria ter do pai.<\/p>\n<p>Naquela noite, n\u00e3o dormi. Fiquei sentado na cozinha escura, diante da parede j\u00e1 limpa, olhando o lugar exato em que o prato batera. Pela primeira vez entendi que ningu\u00e9m se salva apenas desejando ser diferente. O passado n\u00e3o desaparece porque o desprezamos. Ele espera, latente, trai\u00e7oeiro, \u00e0 espreita. E, se n\u00e3o o enfrentamos de verdade, acaba encontrando em n\u00f3s um modo de continuar.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a casa amanheceu num sil\u00eancio de mosteiro. Minha m\u00e3e n\u00e3o saiu do quarto cedo como de costume. Helena falou comigo apenas o indispens\u00e1vel. Laura evitou me encarar. Lu\u00edsa, mais agarrada \u00e0 m\u00e3e do que nunca, mal tocou no caf\u00e9.<\/p>\n<p>Sa\u00ed para trabalhar com a sensa\u00e7\u00e3o de que levava nos ombros uma casa morta.<\/p>\n<p>Voltei mais cedo naquela tarde, sem avisar. N\u00e3o tinha coragem de enfrentar ningu\u00e9m, mas menos coragem ainda de continuar adiando. Ao entrar, ouvi vozes baixas vindas do quarto das meninas. A porta estava entreaberta. N\u00e3o fiz barulho.<\/p>\n<p>Laura estava sentada \u00e0 escrivaninha, com o caderno aberto. Lu\u00edsa brincava no ch\u00e3o com bonecas, murmurando falas que eu n\u00e3o podia distinguir. Laura mastigava a ponta do l\u00e1pis, concentrada. Depois escreveu algumas linhas, parou, releu, e sorriu para a irm\u00e3:<\/p>\n<p>\u2014 Sabe o que eu botei aqui?<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea? \u2014 quis saber Lu\u00edsa.<\/p>\n<p>Laura ent\u00e3o leu em voz alta, devagar, com a pureza cruel que s\u00f3 as crian\u00e7as t\u00eam:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cQuando eu crescer, quero ter uma casa onde o jantar seja em paz.\u201d<\/p>\n<p>Fiquei parado do lado de fora, sem entrar, e compreendi, com uma clareza inc\u00f4moda, que eu tinha dado \u00e0 minha filha um pequeno recorte da mesma inf\u00e2ncia da qual passei a vida tentando escapar.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;..<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi \u00e9 poeta e contista, editor de Notibras, advogado e professor no Rio de Janeiro.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um jantar de paz: era isso o que eu sempre esperei conquistar na vida adulta, quando tivesse minha casa e minha fam\u00edlia. Talvez por causa da mem\u00f3ria das brigas intermin\u00e1veis entre meus pais, que quase sempre come\u00e7avam quando meu pai chegava do trabalho, n\u00e3o raro tarde, cheirando a cerveja barata ou, pior, a perfume barato, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":389849,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-389845","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.2 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA - Notibras<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA - Notibras\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Um jantar de paz: era isso o que eu sempre esperei conquistar na vida adulta, quando tivesse minha casa e minha fam\u00edlia. Talvez por causa da mem\u00f3ria das brigas intermin\u00e1veis entre meus pais, que quase sempre come\u00e7avam quando meu pai chegava do trabalho, n\u00e3o raro tarde, cheirando a cerveja barata ou, pior, a perfume barato, [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Notibras\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/notibras\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2026-04-06T04:15:47+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2026-04-06T05:09:51+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ChatGPT-Image-4-de-abr.-de-2026-10_04_46-1024x683.png\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1024\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"683\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/png\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"Eduardo Mart\u00ednez\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:creator\" content=\"@Notibras\" \/>\n<meta name=\"twitter:site\" content=\"@Notibras\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"Eduardo Mart\u00ednez\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"19 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/\"},\"author\":{\"name\":\"Eduardo Mart\u00ednez\",\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#\/schema\/person\/5b7fabf2aedc3ada2105f03b22b4d3dd\"},\"headline\":\"\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA\",\"datePublished\":\"2026-04-06T04:15:47+00:00\",\"dateModified\":\"2026-04-06T05:09:51+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/\"},\"wordCount\":3685,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#organization\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ChatGPT-Image-4-de-abr.-de-2026-10_04_46.png\",\"articleSection\":[\"Caf\u00e9 Liter\u00e1rio\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/\",\"url\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/\",\"name\":\"\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA - Notibras\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ChatGPT-Image-4-de-abr.-de-2026-10_04_46.png\",\"datePublished\":\"2026-04-06T04:15:47+00:00\",\"dateModified\":\"2026-04-06T05:09:51+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#primaryimage\",\"url\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ChatGPT-Image-4-de-abr.-de-2026-10_04_46.png\",\"contentUrl\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ChatGPT-Image-4-de-abr.-de-2026-10_04_46.png\",\"width\":1536,\"height\":1024},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"In\u00edcio\",\"item\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#website\",\"url\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/\",\"name\":\"Notibras\",\"description\":\"Not\u00edcias de Bras\u00edlia, do Brasil e do Mundo\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#organization\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"Organization\",\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#organization\",\"name\":\"Grupo Notibras de Comunica\u00e7\u00e3o\",\"url\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/\",\"logo\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#\/schema\/logo\/image\/\",\"url\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/notibras23.png\",\"contentUrl\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/notibras23.png\",\"width\":350,\"height\":87,\"caption\":\"Grupo Notibras de Comunica\u00e7\u00e3o\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#\/schema\/logo\/image\/\"},\"sameAs\":[\"https:\/\/www.facebook.com\/notibras\/\",\"https:\/\/x.com\/Notibras\",\"https:\/\/www.instagram.com\/notibras\/\"]},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#\/schema\/person\/5b7fabf2aedc3ada2105f03b22b4d3dd\",\"name\":\"Eduardo Mart\u00ednez\",\"image\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"pt-BR\",\"@id\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/7902f906289926289cbcda644b5197c796b893c6ffd7b9a536a42d290f7704a0?s=96&d=mm&r=g\",\"url\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/7902f906289926289cbcda644b5197c796b893c6ffd7b9a536a42d290f7704a0?s=96&d=mm&r=g\",\"contentUrl\":\"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/7902f906289926289cbcda644b5197c796b893c6ffd7b9a536a42d290f7704a0?s=96&d=mm&r=g\",\"caption\":\"Eduardo Mart\u00ednez\"}}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA - Notibras","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/","og_locale":"pt_BR","og_type":"article","og_title":"\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA - Notibras","og_description":"Um jantar de paz: era isso o que eu sempre esperei conquistar na vida adulta, quando tivesse minha casa e minha fam\u00edlia. Talvez por causa da mem\u00f3ria das brigas intermin\u00e1veis entre meus pais, que quase sempre come\u00e7avam quando meu pai chegava do trabalho, n\u00e3o raro tarde, cheirando a cerveja barata ou, pior, a perfume barato, [&hellip;]","og_url":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/","og_site_name":"Notibras","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/notibras\/","article_published_time":"2026-04-06T04:15:47+00:00","article_modified_time":"2026-04-06T05:09:51+00:00","og_image":[{"width":1024,"height":683,"url":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ChatGPT-Image-4-de-abr.-de-2026-10_04_46-1024x683.png","type":"image\/png"}],"author":"Eduardo Mart\u00ednez","twitter_card":"summary_large_image","twitter_creator":"@Notibras","twitter_site":"@Notibras","twitter_misc":{"Escrito por":"Eduardo Mart\u00ednez","Est. tempo de leitura":"19 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/"},"author":{"name":"Eduardo Mart\u00ednez","@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#\/schema\/person\/5b7fabf2aedc3ada2105f03b22b4d3dd"},"headline":"\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA","datePublished":"2026-04-06T04:15:47+00:00","dateModified":"2026-04-06T05:09:51+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/"},"wordCount":3685,"publisher":{"@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#organization"},"image":{"@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ChatGPT-Image-4-de-abr.-de-2026-10_04_46.png","articleSection":["Caf\u00e9 Liter\u00e1rio"],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/","url":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/","name":"\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA - Notibras","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ChatGPT-Image-4-de-abr.-de-2026-10_04_46.png","datePublished":"2026-04-06T04:15:47+00:00","dateModified":"2026-04-06T05:09:51+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#breadcrumb"},"inLanguage":"pt-BR","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#primaryimage","url":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ChatGPT-Image-4-de-abr.-de-2026-10_04_46.png","contentUrl":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/ChatGPT-Image-4-de-abr.-de-2026-10_04_46.png","width":1536,"height":1024},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-mesa-homem-descobre-que-se-tornou-o-pai-que-temia\/#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"In\u00edcio","item":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"\u00c0 MESA, HOMEM DESCOBRE QUE SE TORNOU O PAI QUE TEMIA"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#website","url":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/","name":"Notibras","description":"Not\u00edcias de Bras\u00edlia, do Brasil e do Mundo","publisher":{"@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#organization"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"pt-BR"},{"@type":"Organization","@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#organization","name":"Grupo Notibras de Comunica\u00e7\u00e3o","url":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/","logo":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#\/schema\/logo\/image\/","url":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/notibras23.png","contentUrl":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/notibras23.png","width":350,"height":87,"caption":"Grupo Notibras de Comunica\u00e7\u00e3o"},"image":{"@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#\/schema\/logo\/image\/"},"sameAs":["https:\/\/www.facebook.com\/notibras\/","https:\/\/x.com\/Notibras","https:\/\/www.instagram.com\/notibras\/"]},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/#\/schema\/person\/5b7fabf2aedc3ada2105f03b22b4d3dd","name":"Eduardo Mart\u00ednez","image":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"pt-BR","@id":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/7902f906289926289cbcda644b5197c796b893c6ffd7b9a536a42d290f7704a0?s=96&d=mm&r=g","url":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/7902f906289926289cbcda644b5197c796b893c6ffd7b9a536a42d290f7704a0?s=96&d=mm&r=g","contentUrl":"https:\/\/secure.gravatar.com\/avatar\/7902f906289926289cbcda644b5197c796b893c6ffd7b9a536a42d290f7704a0?s=96&d=mm&r=g","caption":"Eduardo Mart\u00ednez"}}]}},"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/389845","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=389845"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/389845\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":390087,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/389845\/revisions\/390087"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/389849"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=389845"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=389845"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=389845"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}