{"id":391893,"date":"2026-04-22T01:00:50","date_gmt":"2026-04-22T04:00:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=391893"},"modified":"2026-04-19T23:17:36","modified_gmt":"2026-04-20T02:17:36","slug":"negrinha-de-monteiro-lobato-e-o-brasil-que-nao-passou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/negrinha-de-monteiro-lobato-e-o-brasil-que-nao-passou\/","title":{"rendered":"NEGRINHA, DE MONTEIRO LOBATO, E O BRASIL QUE N\u00c3O PASSOU"},"content":{"rendered":"<p data-start=\"144\" data-end=\"158\"><strong>NOTA EDITORIAL<\/strong><\/p>\n<p data-start=\"160\" data-end=\"325\"><em>O <strong>Caf\u00e9 Liter\u00e1rio<\/strong> publica, a seguir, o conto \u201cNegrinha\u201d, de Monteiro Lobato, em sua condi\u00e7\u00e3o de obra em dom\u00ednio p\u00fablico e em respeito \u00e0 integridade do texto original.<\/em><\/p>\n<p data-start=\"327\" data-end=\"689\"><em>A republica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz por complac\u00eancia com sensibilidades de \u00e9poca, nem por ades\u00e3o irrefletida ao imagin\u00e1rio social que o conto exp\u00f5e. Faz-se, antes, por reconhecer em \u201cNegrinha\u201d, publicada pela primeira vez em 1920, uma pe\u00e7a liter\u00e1ria relevante, embora inc\u00f4moda, cuja for\u00e7a ainda reside precisamente na capacidade de expor, sem anestesia, a viol\u00eancia estrutural que marcou a forma\u00e7\u00e3o brasileira.<\/em><\/p>\n<p data-start=\"691\" data-end=\"1038\"><em>O leitor encontrar\u00e1, a seguir, uma narrativa atravessada por crueldade, humilha\u00e7\u00e3o e desumaniza\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de leitura leve, nem de texto para frui\u00e7\u00e3o desatenta. Trata-se de um conto que, ao mesmo tempo em que mobiliza recursos sentimentais caracter\u00edsticos de seu tempo, lan\u00e7a sobre a sociedade brasileira um olhar severo e perturbador.<\/em><\/p>\n<p data-start=\"1040\" data-end=\"1288\"><em>Public\u00e1-lo hoje exige responsabilidade editorial. Por isso, o <strong>Caf\u00e9 Liter\u00e1rio<\/strong> o oferece como documento liter\u00e1rio e hist\u00f3rico, aberto \u00e0 leitura cr\u00edtica, ao desconforto reflexivo e \u00e0 necess\u00e1ria revis\u00e3o de nossa mem\u00f3ria cultural.<\/em><\/p>\n<p data-start=\"1040\" data-end=\"1288\">\n<p data-start=\"1040\" data-end=\"1288\"><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p>Negrinha era uma pobre \u00f3rf\u00e3 de sete anos. Preta? N\u00e3o. Fusca, mulatinha escura, de cabelos ru\u00e7os e olhos assustados.<\/p>\n<p>Nascera na senzala, de m\u00e3e escrava, e seus primeiros anos de vida vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre farrapos de esteira e panos imundos. Sempre escondida, que a patroa n\u00e3o gostava de crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada pelos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo no c\u00e9u. Entaladas as banhas no trono \u2014 uma cadeira de balan\u00e7o na sala de jantar \u2014 ali bordava, recebendo as amigas e o vig\u00e1rio, dando audi\u00eancias, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora, em suma \u2014 \u201cdama de grandes virtudes apost\u00f3licas, esteio da religi\u00e3o e da moral\u201d, dizia o padre.<\/p>\n<p>\u00d3tima, a D. In\u00e1cia.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o admitia choro de crian\u00e7a. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Vi\u00fava sem filhos, n\u00e3o a calejara o choro da sua carne, e por isso n\u00e3o suportava o choro da carne escrava. Assim, mal vagiava, longe na cozinha, a triste crian\u00e7a, gritava logo, nervosa:<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9 a peste que est\u00e1 chorando a\u00ed?<\/p>\n<p>Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pil\u00e3o? A m\u00e3e da criminosa abafava a boquinha da filha e corria com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho belisc\u00f5es desesperados:<\/p>\n<p>\u2014 Cale a boca, peste do diabo!!<\/p>\n<p>No entanto, aquele choro nunca vinha sem raz\u00e3o. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem p\u00e9s e m\u00e3os e fazem-nos doer&#8230;<\/p>\n<p>Assim cresceu Negrinha \u2014 magra, atrofiada, com olhos eternamente assustados. \u00d3rf\u00e3 aos quatro anos, ficou por ali, feita gato sem dono, levada a pontap\u00e9s. N\u00e3o compreendia a ideia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas n\u00e3o andava, quase. Com pretexto de que, \u00e0s soltas, reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao p\u00e9 de si, num desv\u00e3o de porta.<\/p>\n<p>\u2014 Sentadinha a\u00ed, e bico!! Hem??<\/p>\n<p>Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.<\/p>\n<p>\u2014 Bra\u00e7os cruzados, j\u00e1, diabo!!<\/p>\n<p>Cruzava os bracinhos, a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. O rel\u00f3gio batia uma, duas, tr\u00eas, quatro, cinco horas \u2014 um cuco t\u00e3o engra\u00e7adinho! Era seu divertimento v\u00ea-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se, ent\u00e3o, feliz um momento.<\/p>\n<p>Puseram-na depois a fazer croch\u00ea, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.<\/p>\n<p>Que ideia faria de si essa crian\u00e7a, que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata choca, pinto gorado, mosca morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa ruim, lixo \u2014 n\u00e3o tinha conta o n\u00famero de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi \u2014 bub\u00f4nica. A epidemia andava \u00e0 berra, como novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim \u2014 por sinal, achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que n\u00e3o teria um gostinho s\u00f3 na vida, nem esse de personalizar a peste&#8230;<\/p>\n<p>O corpo de Negrinha era tatuado de sinais roxos, cicatrizes, verg\u00f5es. Batiam nele os da casa, todos os dias, houvesse ou n\u00e3o motivo. A sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e belisc\u00f5es a mesma atra\u00e7\u00e3o que o \u00edm\u00e3 exerce para o a\u00e7o.<\/p>\n<p>M\u00e3o em cujos n\u00f3s de dedos comichasse um cocre, era m\u00e3o que se descarregaria dos fluidos em sua cabe\u00e7a, de passagem. Coisa de rir, e ver a careta&#8230;<\/p>\n<p>A excelente D. In\u00e1cia era mestra na arte de judiar de crian\u00e7as. Vinha da escravid\u00e3o, fora senhora de escravos e daquelas ferozes, amigas de ouvir contar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao reg\u00edmen novo \u2014 essa indec\u00eancia de negro igual a branco; e qualquer coisinha, a pol\u00edcia!!<\/p>\n<p>\u201cQualquer coisinha\u201d; uma mucama assada ao forno, porque se engra\u00e7ou dela o senhor; uma novena de relho, porque disse: \u2014 \u201cComo \u00e9 ruim, a sinh\u00e1!\u201d&#8230;<\/p>\n<p>O 13 de maio tirou-lhe das m\u00e3os o azorrague, mas n\u00e3o lhe tirou da alma a gana. Conservava, pois, Negrinha em casa como rem\u00e9dio para os frenesis. Simples derivativo.<\/p>\n<p>\u2014 Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!&#8230;<\/p>\n<p>Tinha de contentar-se com isso, judiaria mi\u00fada, os n\u00edqueis da crueldade: cocres, m\u00e3o fechada com raiva e n\u00f3s de dedos que cantam no coco do paciente. Pux\u00f5es de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar!) e o a duas m\u00e3os, o sacudido. A gama dos belisc\u00f5es: do miudinho, com a ponta da unha, \u00e0 torcida do umbigo, equivalente ao pux\u00e3o de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontap\u00e9s e safan\u00f5es \u00e0 uma \u2014 divertid\u00edssimo! A vara de marmelo, flex\u00edvel, cortante: para doer fino, nada melhor.<\/p>\n<p>Era pouco, mas antes isso do que nada. L\u00e1 de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o f\u00edgado e matar saudades do bom tempo. Foi assim com aquela hist\u00f3ria do ovo quente.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabem? Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha \u2014 coisa de rir \u2014 um pedacinho de carne que ela guardava para o fim. A crian\u00e7a n\u00e3o sofreu a revolta e atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam, todos os dias.<\/p>\n<p>\u2014 \u201cPeste\u201d? Espere a\u00ed!! Voc\u00ea vai ver quem \u00e9 peste.<\/p>\n<p>E foi contar o caso \u00e0 patroa.<\/p>\n<p>D. In\u00e1cia estava azeda, e necessitad\u00edssima de derivativo. Sua cara iluminou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Eu curo ela! disse, desentalando as banhas do trono e indo para a cozinha, qual uma perua choca, a rufar as saias. \u2014 Traga um ovo!!<\/p>\n<p>Veio o ovo. D. In\u00e1cia mesma p\u00f4-lo na chaleira de \u00e1gua a ferver e, de m\u00e3os \u00e0 cinta, gozando-se na preliba\u00e7\u00e3o da tortura, ficou de p\u00e9 uns minutos, \u00e0 espera. Seus olhos contentes envolviam a m\u00edsera crian\u00e7a que, encolhidinha a um canto, tr\u00eamula, olhar esgazeado, aguardava alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 Venha c\u00e1!!<\/p>\n<p>Negrinha aproximou-se.<\/p>\n<p>\u2014 Abra a boca!!<\/p>\n<p>Negrinha abriu a boca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa ent\u00e3o, com uma colher, tirou da \u00e1gua \u201cpulando\u201d o ovo e z\u00e1s! na boca da pequena. E antes que o urro de dor sa\u00edsse, pr\u00e1tica que era D. In\u00e1cia nesse castigo, suas m\u00e3os amorda\u00e7aram-na at\u00e9 que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas s\u00f3. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:<\/p>\n<p>\u2014 Diga nomes feios aos mais velhos outra vez!! Ouviu, peste??<\/p>\n<p>E voltou contente da vida para o trono, a virtuosa dama, a fim de receber o vig\u00e1rio que chegava.<\/p>\n<p>\u2014 Ah! Monsenhor! N\u00e3o se pode ser boa nesta vida&#8230; Estou criando aquela pobre \u00f3rf\u00e3, filha de Ces\u00e1ria; mas que trabalheira me d\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 A caridade \u00e9 a mais bela das virtudes! exclamou o padre.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, mas cansa&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Quem d\u00e1 aos pobres, empresta a Deus!<\/p>\n<p>A virtuosa senhora suspirou piedosamente:<\/p>\n<p>\u2014 Inda \u00e9 o que vale&#8230;<\/p>\n<p>Certo dezembro vieram passar as f\u00e9rias com \u201cSanta\u201d In\u00e1cia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.<\/p>\n<p>Negrinha, do seu canto, na sala do trono, viu-as irromperem pela casa adentro como dois anjos do c\u00e9u, alegres, pulando e rindo numa vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de v\u00ea-la armada para desferir sobre os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.<\/p>\n<p>Mas abriu a boca: a sinh\u00e1 ria-se tamb\u00e9m&#8230; Qu\u00ea? Pois n\u00e3o era um crime brincar? Estaria tudo mudado e findo o seu inferno \u2014 e aberto o c\u00e9u??!<\/p>\n<p>No enlevo da doce ilus\u00e3o, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.<\/p>\n<p>Mas logo a dura li\u00e7\u00e3o da desigualdade humana chicoteou sua alma. Belisc\u00e3o no umbigo e nos ouvidos o som cruel de todos os dias:<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1, para o seu lugar, pestinha!! N\u00e3o se enxerga??<\/p>\n<p>Com l\u00e1grimas dolorosas, menos de dor f\u00edsica que de ang\u00fastia moral \u2014 sofrimento novo que se vinha somar aos j\u00e1 conhecidos \u2014 a triste crian\u00e7a encorujou-se no cantinho de sempre.<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9, titia? perguntou uma das meninas, curiosa.<\/p>\n<p>\u2014 Quem h\u00e1 de ser?! disse a tia num suspiro de v\u00edtima. \u2014 Uma caridade minha. N\u00e3o me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus&#8230; Uma \u00f3rf\u00e3&#8230; Mas, brinquem, filhinhas!! A casa \u00e9 grande. Brinquem por a\u00ed a fora!!<\/p>\n<p>\u201cBrinquem!!\u201d Brincar! Como seria bom brincar! refletiu com suas l\u00e1grimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que at\u00e9 ali s\u00f3 brincara em imagina\u00e7\u00e3o com o cuco!<\/p>\n<p>Chegaram as malas; e logo:<\/p>\n<p>\u2014 Meus brinquedos!! reclamaram as duas meninas.<\/p>\n<p>Uma criada abriu-as e tirou-os fora.<\/p>\n<p>Que maravilha! Um cavalo de rodas!&#8230; Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim, t\u00e3o galante. Um cavalinho! E mais&#8230; Que \u00e9 aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos&#8230; que fala \u201cpap\u00e1\u201d&#8230; que dorme&#8230;<\/p>\n<p>Era de \u00eaxtase, o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma crian\u00e7a artificial.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 feita?&#8230; perguntou extasiada.<\/p>\n<p>E, dominada pelo enlevo, um momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arruma\u00e7\u00e3o das meninas, Negrinha esqueceu o belisc\u00e3o, o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criaturinha de lou\u00e7a. Olhou-a com assombro e encanto, sem jeito, sem \u00e2nimo de peg\u00e1-la.<\/p>\n<p>As meninas admiraram-se daquilo.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca viu boneca?<\/p>\n<p>\u2014 Boneca? repetiu Negrinha. \u2014 Chama-se Boneca?<\/p>\n<p>Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 boba! disseram. \u2014 E voc\u00ea, como se chama?<\/p>\n<p>\u2014 Negrinha.<\/p>\n<p>As meninas, novamente, torceram-se de riso; mas vendo que o \u00eaxtase da bobinha perdurava, disseram, estendendo-lhe a boneca:<\/p>\n<p>\u2014 Pegue!!<\/p>\n<p>Negrinha olhou para os lados, ressabiada, com o cora\u00e7\u00e3o aos pinotes. Que aventura, santo Deus! Seria poss\u00edvel?? Depois, pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as meninas, com relances de olhos assustados para a porta. Fora de si, literalmente&#8230; Era como se penetrara o c\u00e9u e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe viesse adormecer ao colo.<\/p>\n<p>Tamanho foi o enlevo que n\u00e3o viu chegar a patroa, j\u00e1 de volta. D. In\u00e1cia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, im\u00f3vel, presenciando a cena.<\/p>\n<p>Mas era tal a alegria das sobrinhas ante a surpresa est\u00e1tica de Negrinha, e t\u00e3o grande a for\u00e7a irradiante da felicidade desta, que o seu duro cora\u00e7\u00e3o afinal bambeou. E pela primeira vez na vida soube ser mulher. Apiedou-se.<\/p>\n<p>Ao perceb\u00ea-la na sala, Negrinha tremera, passando-lhe num relance pela cabe\u00e7a a imagem do ovo quente, e hip\u00f3teses de castigos piores ainda. E incoerc\u00edveis l\u00e1grimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.<\/p>\n<p>Falhou tudo isso, por\u00e9m. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo: estas palavras, as primeiras que ouviu, doces, na vida:<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e3o todas brincar no jardim!! e v\u00e1 voc\u00ea tamb\u00e9m!! mas veja l\u00e1!! Hem??<\/p>\n<p>Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas n\u00e3o viu nela a fera antiga. Compreendeu e sorriu-se.<\/p>\n<p>Se a gratid\u00e3o sorriu na vida, alguma vez, foi naquela surrada carinha&#8230;<\/p>\n<p>Varia a pele, a condi\u00e7\u00e3o, mas a alma da crian\u00e7a \u00e9 a mesma \u2014 na princesinha e na mendiga. E para ambas \u00e9 a boneca o supremo enlevo. D\u00e1 a natureza dois momentos divinos \u00e0 vida da mulher: o momento da boneca \u2014 preparat\u00f3rio, e o momento dos filhos \u2014 definitivo. Depois disso est\u00e1 extinta a mulher.<\/p>\n<p>Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha alma.<\/p>\n<p>Divina eclos\u00e3o! Surpresa maravilhosa do mundo que ela trazia em si, e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada \u00e0 altura de ser humano. Cessara de ser coisa e de ora avante lhe seria imposs\u00edvel viver a vida de coisa. Se n\u00e3o era coisa! Se sentia! Se vibrava!&#8230;<\/p>\n<p>Assim foi, e essa consci\u00eancia a matou.<\/p>\n<p>Terminadas as f\u00e9rias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa reentrou no ramerr\u00e3o habitual. S\u00f3 n\u00e3o voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.<\/p>\n<p>D. In\u00e1cia, pensativa, j\u00e1 a n\u00e3o atenazava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de cora\u00e7\u00e3o, amenizava-lhe a vida. Negrinha, n\u00e3o obstante, ca\u00edra numa tristeza infinita.<\/p>\n<p>Mal comia e perdera a express\u00e3o de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nost\u00e1lgicos, cismarentos.<\/p>\n<p>Aquele dezembro de f\u00e9rias, luminosa rajada de c\u00e9u trevas adentro de seu doloroso inferno, envenenara-a. Brincara ao sol, no jardim. Brincara!&#8230;<\/p>\n<p>Acalentara dias seguidos a linda boneca loura, t\u00e3o boa, t\u00e3o quieta, a dizer pap\u00e1 e a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imagina\u00e7\u00e3o. Desabrochara-se de alma.<\/p>\n<p>A repentina retirada de tudo isso fora forte demais para a d\u00e9bil resist\u00eancia de uma alma, com um m\u00eas de vida apenas. Enfraqueceu, definhou, como ro\u00edda de invis\u00edvel doen\u00e7a consuntora. E uma febre veio e a levou.<\/p>\n<p>Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Ningu\u00e9m, entretanto, morreu jamais com maior beleza. O del\u00edrio rodeou-se de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos&#8230; E bonecas e anjos rodamoinhavam em torno dela, numa far\u00e2ndola do c\u00e9u. Sentia-se agarrada por aquelas m\u00e3ozinhas de lou\u00e7a, abra\u00e7ada, rodopiada.<\/p>\n<p>Veio a tontura, e uma n\u00e9voa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e o cuco pela \u00faltima vez lhe apareceu, de boca aberta.<\/p>\n<p>Mas, im\u00f3vel, sem rufar as asas.<\/p>\n<p>Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou&#8230; E tudo se esvaiu em trevas.<\/p>\n<p>Depois, vala comum. A terra papou com indiferen\u00e7a sua carnezinha de terceira \u2014 uma mis\u00e9ria, quinze quilos mal pesados&#8230;<\/p>\n<p>E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impress\u00f5es. Uma c\u00f4mica, na mem\u00f3ria das meninas ricas:<\/p>\n<p>\u2014 Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?<\/p>\n<p>Outra de saudade, no n\u00f3 dos dedos de D. In\u00e1cia:<\/p>\n<p>\u2014 Como era boa para um cocre!&#8230;<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Monteiro Lobato (1882\u20131948) foi escritor e jornalista, uma das figuras centrais da literatura brasileira do s\u00e9culo XX.<\/strong><br data-start=\"126\" data-end=\"129\" \/><strong>Nascido em Taubat\u00e9, destacou-se tanto pela obra infantil quanto por textos adultos de forte cr\u00edtica social. <\/strong><br \/>\n<strong>Criou o universo do S\u00edtio do Picapau Amarelo, que marcou gera\u00e7\u00f5es de leitores no Brasil.<\/strong><br data-start=\"327\" data-end=\"330\" \/><strong>Tamb\u00e9m teve atua\u00e7\u00e3o destacada no mercado editorial e no debate p\u00fablico, com posi\u00e7\u00f5es nacionalistas sobre temas como petr\u00f3leo e ferro.<\/strong><br data-start=\"463\" data-end=\"466\" \/><strong>Sua obra permanece influente, embora hoje seja relida de modo cr\u00edtico diante de passagens e vis\u00f5es marcadas pelo contexto de seu tempo.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NOTA EDITORIAL O Caf\u00e9 Liter\u00e1rio publica, a seguir, o conto \u201cNegrinha\u201d, de Monteiro Lobato, em sua condi\u00e7\u00e3o de obra em dom\u00ednio p\u00fablico e em respeito \u00e0 integridade do texto original. A republica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se faz por complac\u00eancia com sensibilidades de \u00e9poca, nem por ades\u00e3o irrefletida ao imagin\u00e1rio social que o conto exp\u00f5e. 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