{"id":392376,"date":"2026-04-25T00:30:59","date_gmt":"2026-04-25T03:30:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=392376"},"modified":"2026-04-24T00:15:21","modified_gmt":"2026-04-24T03:15:21","slug":"quando-a-infancia-descobre-o-peso-da-compaixao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-a-infancia-descobre-o-peso-da-compaixao\/","title":{"rendered":"QUANDO A INF\u00c2NCIA DESCOBRE O PESO DA COMPAIX\u00c3O"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nota editorial<\/strong><\/p>\n<p>Em \u201cTempo de Camisolinha\u201d, M\u00e1rio de Andrade transforma uma lembran\u00e7a de inf\u00e2ncia em mat\u00e9ria de investiga\u00e7\u00e3o moral. O corte dos cabelos, a vergonha do corpo, a doen\u00e7a da m\u00e3e, o medo do mar, a presen\u00e7a dom\u00e9stica da santa e o encontro com os trabalhadores junto ao canal formam uma pequena constela\u00e7\u00e3o de perdas, descobertas e culpas. O menino que narra \u2014 ou melhor, o adulto que se revisita menino \u2014 n\u00e3o encontra na inf\u00e2ncia um territ\u00f3rio puro, mas um espa\u00e7o de assombro, vaidade, ressentimento, imagina\u00e7\u00e3o e compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>A for\u00e7a do conto est\u00e1 justamente nessa recusa da inoc\u00eancia f\u00e1cil. A crian\u00e7a n\u00e3o \u00e9 idealizada: deseja, calcula, teme, desafia, sofre e, por fim, sacrifica algo que lhe parecia precioso. Ao entregar sua estrela-do-mar, ela experimenta uma forma inaugural de piedade, mas tamb\u00e9m descobre que nenhum gesto individual \u00e9 bastante para vencer o sofrimento do mundo. Entre mem\u00f3ria, confiss\u00e3o e delicada crueldade psicol\u00f3gica, M\u00e1rio de Andrade comp\u00f5e uma das mais agudas p\u00e1ginas da literatura brasileira sobre a inf\u00e2ncia \u2014 n\u00e3o como para\u00edso perdido, mas como primeiro campo de batalha da consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>TEMPO DE CAMISOLINHA<\/strong><\/p>\n<p>A feiura dos cabelos cortados me fez mal. N\u00e3o sei que no\u00e7\u00e3o prematura da sordidez dos nossos atos, ou exatamente, da vida, me veio nessa experi\u00eancia da minha primeira inf\u00e2ncia. O que n\u00e3o pude esquecer, e \u00e9 minha recorda\u00e7\u00e3o mais antiga, foi, dentre as brincadeiras que faziam comigo para me desemburrar da tristeza em que ficara por me terem cortado os cabelos, algu\u00e9m, n\u00e3o sei mais quem, uma voz masculina falando: \u201cVoc\u00ea ficou um homem, assim!\u201d. Ora eu tinha tr\u00eas anos, fui tomado de pavor. Veio um medo lancinante de j\u00e1 ter ficado homem naquele tamanhinho, um medo medonho, e recomecei a chorar.<\/p>\n<p>Meus cabelos eram muito bonitos, dum negro quente, acastanhado nos reflexos. Ca\u00edam pelos meus ombros em cachos gordos, com ritmos pesados de molas de espiral. Me lembro de uma fotografia minha desse tempo, que depois destru\u00ed por uma esp\u00e9cie de polidez envergonhada&#8230; Era j\u00e1 agora bem homem e aqueles cabelos adorados na inf\u00e2ncia, me pareceram de repente como um engano grave, destru\u00ed com rapidez o retrato. Os tra\u00e7os n\u00e3o era felizes, mas na moldura da cabeleira havia sempre um olhar manso, um rosto sem marcas, franco, promessa de alma sem maldade. De um ano depois do corte dos cabelos ou pouco mais, guardo outro retrato tirado junto com Tot\u00f3, meu mano. Ele, quatro anos mais velho que eu, vem garboso e completamente infantil numa bonita roupa marinheira; eu, bem menor, inda conservo uma camisolinha de veludo, muito besta, que minha m\u00e3e por economia teimava utilizar at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Guardo esta fotografia porque se ela n\u00e3o me perdoa do que tenho sido, ao menos me explica. Dou a impress\u00e3o de uma monstruosidade insubordinada. Meu irm\u00e3o, com seus oito anos, \u00e9 uma crian\u00e7a integral, olhar vazio de experi\u00eancia, rosto rechonchudo e lisinho, sem car\u00e1ter fixo, sem mal\u00edcia, a pr\u00f3pria imagem da inf\u00e2ncia. Eu, t\u00e3o menor, tenho esse qu\u00ea repulsivo do an\u00e3o, pare\u00e7o velho. E o que \u00e9 mais triste, com uns sulcos vividos descendo das abas voluptuosas do nariz e da boca larga, entreaberta num risinho p\u00e9rfido. Meus olhos n\u00e3o olham, espreitam. Fornecem \u00e0s claras, com uma facilidade teatral, todos os ind\u00edcios de uma segunda inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei por que n\u00e3o destru\u00ed em tempo tamb\u00e9m essa fotografia, agora \u00e9 tarde. Muitas vezes passei minutos compridos me contemplando, me buscando dentro dela. E me achando. Comparava-a com meus atos e tudo eram confirma\u00e7\u00f5es. Tenho certeza que essa fotografia me fez imenso mal, porque me deu muita pregui\u00e7a de reagir. Me proclamava demasiadamente em mim e afogou meus poss\u00edveis anseios de perfei\u00e7\u00e3o. Voltemos ao caso que \u00e9 melhor.<\/p>\n<p>Toda a gente apreciava os meus cabelos cacheados, t\u00e3o lentos! e eu me envaidecia deles, mais que isso, os adorava por causa dos elogios. Foi por uma tarde, me lembro bem, que meu pai suavemente murmurou uma daquelas suas decis\u00f5es irrevog\u00e1veis: \u201c\u00c9 preciso cortar os cabelos desse menino\u201d. Olhei de um lado, de outro, procurando um apoio, um jeito de fugir daquela ordem, muito aflito. Preferi o instinto e fixei os olhos j\u00e1 lacrimosos em mam\u00e3e. Ela quis me olhar compassiva, mas me lembro como se fosse hoje, n\u00e3o aguentou meus \u00faltimos olhos de inoc\u00eancia perfeita, baixou os dela, oscilando entre a piedade por mim e a raz\u00e3o poss\u00edvel que estivesse no mando do chefe. Hoje, imagino um ego\u00edsmo grande da parte dela, n\u00e3o reagindo. As camisolinhas, ela as conservaria ainda por mais de ano, at\u00e9 que se acabassem feitas trapos. Mas ningu\u00e9m percebeu a delicadeza da minha vaidade infantil. Deixassem que eu sentisse por mim, me incutissem aos poucos a necessidade de cortar os cabelos, nada: uma decis\u00e3o \u00e0 antiga, brutal, impiedosa, castigo sem culpa, primeiro convite \u00e0s revoltas \u00edntimas: \u201c\u00e9 preciso cortar os cabelos desse menino\u201d.<\/p>\n<p>Tudo o mais s\u00e3o mem\u00f3rias confusas ritmadas por gritos horr\u00edveis, cabe\u00e7a sacudida com viol\u00eancia, m\u00e3os en\u00e9rgicas me agarrando, palavras aflitas me mandando com raiva entre piedades infecundas, dificuldades irritadas do cabeleireiro que se esfor\u00e7ava em ter paci\u00eancia e me dava terror. E o pranto, afinal. E no \u00faltimo e prolongado fim, o chorinho dolorid\u00edssimo, convulsivo, cheio de visagens pr\u00f3ximas atrozes, um desespero desprendido de tudo, uma fixa\u00e7\u00e3o emperrada em n\u00e3o querer aceitar o consumado.<\/p>\n<p>Me davam presentes. Era raz\u00e3o pra mais choro. Ca\u00e7oavam de mim: choro. Beijos de mam\u00e3e: choro. Recusava os espelhos em que me diziam bonito. Os cad\u00e1veres de meus cabelos guardados naquela caixa de sapatos: choro. Choro e recusa. Um n\u00e3o-conformismo navalhante que de um momento pra outro me virava homem-feito, cheio de desilus\u00f5es, de revoltas, f\u00e1cil para todas as ruindades. De-noite fiz quest\u00e3o de n\u00e3o rezar; e minha m\u00e3e, depois de v\u00e1rias tentativas, olhou o lindo quadro de Nossa Senhora do Carmo, com mais de s\u00e9culo na fam\u00edlia dela, gente empobrecida mas diz-que nobre, o olhou com olhos de implora\u00e7\u00e3o. Mas eu estava com raiva da minha madrinha do Carmo.<\/p>\n<p>E o meu passado se acabou pela primeira vez. S\u00f3 ficavam como demonstra\u00e7\u00f5es desagrad\u00e1veis dele, as camisolinhas. Foi dentro delas, camisolas de fazendinha barata (a gloriosa, de veludo, era s\u00f3 para as grandes ocasi\u00f5es), foi dentro ainda das camisolinhas que parti com os meus pra Santos, aproveitar as f\u00e9rias do Tot\u00f3 sempre fraquinho, um junho.<\/p>\n<p>Havia ali\u00e1s outra raz\u00e3o mais tristonha pra essa vilegiatura aparentemente festiva de f\u00e9rias. Me viera uma irm\u00e3zinha aumentar a fam\u00edlia e parece que o parto fora desastroso, n\u00e3o sei direito&#8230; Sei que mam\u00e3e ficara quase dois meses de cama, paral\u00edtica, e s\u00f3 principiara mesmo a andar premida pelas obriga\u00e7\u00f5es da casa e dos filhos. Mas andava mal, se encostando nos m\u00f3veis, se arrastando, com dores insuport\u00e1veis na voz, sentindo pux\u00f5es nos m\u00fasculos das pernas e um des\u00e2nimo vasto. Menos tratava da casa que se iludia, consolada por cumprir a obriga\u00e7\u00e3o de tratar da casa. Diante da imin\u00eancia de algum desastre maior, papai fizera um esfor\u00e7o espantoso para o seu ser que s\u00f3 imaginava a exist\u00eancia no trabalho sem recreio, todo assombrado com os progressos financeiros que fazia e a subida de classe. Resolvera aceitar o conselho do m\u00e9dico, se dera f\u00e9rias tamb\u00e9m, e levara mam\u00e3e aos receitados banhos de mar.<\/p>\n<p>Isso foi, conv\u00e9m lembrar, ali pelos \u00faltimos anos do s\u00e9culo passado, e a praia do Jos\u00e9 Menino era quase um deserto longe. Mesmo assim, a casa que papai alugara n\u00e3o ficava na praia exatamente, mas numa das ruas que a ela davam e onde uns oper\u00e1rios trabalhavam diariamente no alinhamento de um dos canais que carreavam o enxurro da cidade para o mar do golfo. A\u00ed vivemos perto de dois meses, cas\u00e3o imenso e vazio, lar improvisado cheio de defici\u00eancias, a que o desmazelo doentio de mam\u00e3e ainda melancolizava mais, deixando pousar em tudo um ar de mau trato e passagem.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que os banhos logo lhe tinham feito bem, lhe voltaram as cores, as for\u00e7as, e os pux\u00f5es dos nervos desapareciam com rapidez. Mas ficara a lembran\u00e7a do sofrimento muito grande e pr\u00f3ximo, e ela sentia um prazer perdo\u00e1vel de representar naquelas f\u00e9rias o papel largado da convalescente. A papai ent\u00e3o o passeio deixara bem menos pai, um \u00f3timo camarada com muita fome e condescend\u00eancia. Eu \u00e9 que n\u00e3o tomava banho de mar nem que me batessem! No primeiro dia, na roupinha de baeta cal\u00e7uda, como era a moda de ent\u00e3o, fora com todos at\u00e9 a primeira onda, mas n\u00e3o sei que pavor me tomou, dera tais gritos, que nem mesmo o exemplo sempre invejado de meu mano mais velho me fizera mais entrar naquelas \u00e1guas vivas. Me parecia morte certa, vingativa, um castigo inexplic\u00e1vel do mar, que o c\u00e9u de n\u00e9voa de inverno deixava cinzento e mau, enfarruscado, cheio de amea\u00e7as impiedosas. E at\u00e9 hoje detesto banho de mar&#8230; Odiei o mar, e tanto, que nem as caminhadas na praia me agradavam, apesar da companhia agora deliciosa e faladeira de papai. Os outros que fossem passear, eu ficava no terreno maltratado da casa, algumas \u00e1rvores frias e um capim amarelo, nas minhas conversas com as formigas e o meu sonho grande. Ainda apreciava mais, ir at\u00e9 \u00e0 borda barrenta do canal, onde os oper\u00e1rios me protegiam de qualquer perigo. Papai \u00e9 que n\u00e3o gostava muito disso n\u00e3o, porque tendo sido oper\u00e1rio um dia e subido de classe por esfor\u00e7o pessoal e Deus sabe l\u00e1 que sacrif\u00edcios, considerava oper\u00e1rio m\u00e1 companhia pra filho de negociante mais ou menos. Por\u00e9m mam\u00e3e intervinha com o \u201cdeixe ele!\u201d de agora, fatigado, de convalescente pela primeira vez na vida com vontades; e l\u00e1 estava eu dia inteiro, sujando a barra da camisolinha na terra amontoada do canal, com os oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Vivia sujo. Muitas vezes agora at\u00e9 me faltavam, por baixo da camisola, as calcinhas de encobrir as coisas feias, e eu sentia um esporte de inverno em levantar a camisola na frente pra o friozinho entrar. Mam\u00e3e se incomodava muito com isso, mas n\u00e3o havia calcinhas que chegassem, todas no varal enxugando ao sol fraco. E foi por causa disso que entrei a detestar minha madrinha, Nossa Senhora do Carmo. N\u00e3o v\u00ea que minha m\u00e3e levara pra Santos aquele quadro antigo de que falei e de que ela n\u00e3o se separava nunca, e quando me via erguendo a camisola no gesto indiscreto, me amea\u00e7ava com a minha encantadora madrinha: \u201cMeu filho, n\u00e3o mostre isso, que feio! repare: sua madrinha est\u00e1 te olhando na parede!\u201d. Eu espiava pra minha madrinha do Carmo na parede, e descia a camisolinha, mal convencido, com raiva da santa linda, t\u00e3o apreciada noutros tempos, sorrindo sempre e com aquelas m\u00e3os gordas e quentes. E desgostoso ia brincar no barro do canal, botando a culpa de tudo no quadro secular. Odiei minha madrinha santa.<\/p>\n<p>Pois um dia, n\u00e3o sei o que me deu de repente, o des\u00edgnio explodiu, nem pensei: largo correndo os meus brinquedos com o barro, barafusto porta a dentro, vou primeiro espiar onde mam\u00e3e estava. N\u00e3o estava. Fora passear na praia matinal com papai e Tot\u00f3. S\u00f3 a cozinheira no fog\u00e3o perdida, conversando com a ama da Mariazinha nova. Ent\u00e3o podia! Entrei na sala da frente, solene, com uma coragem desenvolta, heroica, de quem perde tudo mas se quer liberto. Olhei francamente, com \u00f3dio, a minha madrinha santa, eu bem sabia, era santa, com os doces olhos se rindo pra mim. Levantei quanto pude a camisola e empinando a barriguinha, mostrei tudo pra ela. \u201cT\u00f3! que eu dizia, olhe! olhe bem! t\u00f3! olhe bastante mesmo!\u201d. E empinava a barriguinha de quase me quebrar pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o sucedeu nada, eu bem imaginava que n\u00e3o sucedia nada&#8230; Minha madrinha do quadro continuava olhando pra mim, se rindo, a boba, n\u00e3o zangando comigo nada. E eu sa\u00ed muito firme, quase sem remorso, delirando num orgulho t\u00e3o corajoso no peito, que me arrisquei a chegar sozinho at\u00e9 a esquina da praia larga. Estavam uns pescadores ali mesmo na esquina, conversando, e me meti no meio deles, sempre era uma prote\u00e7\u00e3o. E todos eles eram casados, tinham filhos, n\u00e3o se amolavam proletariamente com os filhos, mas proletariamente davam muita import\u00e2ncia pra o filhinho de \u201cseu dot\u00f4\u201d meu pai, que nem era doutor, gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p>Ora se deu que um dos pescadores pegara tr\u00eas lindas estrelas-do-mar e brincava com elas na m\u00e3o, expondo-as ao solzinho. E eu fiquei num del\u00edrio de entusiasmo por causa das estrelas-do-mar. O pescador percebeu logo meus olhos de desejo, e sem paci\u00eancia pra ser bom devagar, com brutalidade, foi logo me dando todas.<\/p>\n<p>\u2014 Tome pra voc\u00ea, que ele disse, estrela-do-mar d\u00e1 boa-sorte.<\/p>\n<p>\u2014 O que \u00e9 boa-sorte, hein?<\/p>\n<p>Ele olhou r\u00e1pido os companheiros porque n\u00e3o sabia explicar o que era boa-sorte. Mas todos estavam esperando e ele arrancou meio bravo:<\/p>\n<p>\u2014 Isto \u00e9&#8230; n\u00e3o v\u00ea que a gente fica cheio de tudo&#8230; dinheiro, sa\u00fade&#8230;<\/p>\n<p>Pigarreou fatigado. E depois de me olhar com um olho indiferentemente carinhoso, acrescentou mais firme:<\/p>\n<p>\u2014 Seque bem elas no sol que d\u00e1 boa-sorte.<\/p>\n<p>Isso nem agradeci, fui numa chispada luminosa pra casa esconder minhas estrelas-do-mar. Pus as tr\u00eas ao sol, perto do muro l\u00e1 no fundo do quintal onde ningu\u00e9m chegava, e entre feliz e inquieto fui brincabrincar no canal. Mas quem disse brincar! me dava aquela vontade amante de ver minhas estrelas e voltava numa chispada luminosa contemplar as minhas tesoureiras da boa-sorte. A felicidade era tamanha e o desejo de contar minha gl\u00f3ria, que at\u00e9 meu pai se inquietou com o meu fastio no almo\u00e7o. Mas eu n\u00e3o queria contar. Era um segredo contra tudo e todos, a arma certa da minha vingan\u00e7a, eu havia de machucar bastante Tot\u00f3, e quando mam\u00e3e se incomodasse com o meu sujo, n\u00e3o sei n\u00e3o&#8230; mas pelo menos ela havia de dar um trupic\u00e3o de at\u00e9 dizer \u201cai!\u201d, bem feito! As minhas estrelas-do-mar estavam l\u00e1 escondidas junto do muro me dando boa-sorte. Comer? pra que comer? elas me davam tudo, me alimentavam, me davam licen\u00e7a pra brincar no barro, e se Nossa Senhora, minha madrinha, quisesse se vingar daquilo que eu fizera pra ela, as estrelas me salvavam, davam nela, machucavam muito ela, isto \u00e9&#8230; muito eu n\u00e3o queria n\u00e3o, s\u00f3 um bocadinho, que machucassem um pouco, sem estragar a cara t\u00e3o linda da pintura, s\u00f3 pra minha madrinha saber que agora eu tinha a boa-sorte, estava protegido e nem precisava mais dela, t\u00f3! ai que saudades das minhas estrelas-do-mar!&#8230; Mas n\u00e3o podia desistir do almo\u00e7o pra ir espi\u00e1-las, Tot\u00f3 era capaz de me seguir e querer uma pra ele, isso nunca!<\/p>\n<p>\u2014 Esse menino n\u00e3o come nada, Maria Lu\u00edsa!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei o que \u00e9 isso hoje, Carlos! Meu filho, coma ao menos a goiabada&#8230;<\/p>\n<p>Que goiabada nem man\u00e9 goiabada! eu estava era pensando nas minhas estrelas, doido por enxerg\u00e1-las. E nem bem o almo\u00e7o se acabou, at\u00e9 disfarcei bem, e fui correndo ver as estrelas-do-mar.<\/p>\n<p>Eram tr\u00eas, uma menorzinha e duas grandonas. Uma das grandonas tinha as pernas um bocado tortas para o meu gosto, mas assim mesmo era muito mais bonita que a pequetitinha, que trazia um defeito imenso numa das pernas, faltava a ponta. Essa decerto n\u00e3o dava boa-sorte n\u00e3o, as outras \u00e9 que davam: e agora eu havia de ser sempre feliz, n\u00e3o havia de crescer, minha madrinha gostosa se rindo sempre, mam\u00e3e completamente sarada me dando brinquedos, com papai n\u00e3o se amolando por causa dos gastos. N\u00e3o! a estrela pequenina dava boa-sorte tamb\u00e9m, nunca que eu largasse de uma delas!<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que aconteceu o caso desgra\u00e7ado de que jamais me esquecerei no seu menor detalhe. Cansei de olhar minhas estrelas e fui brincar no canal. Era j\u00e1 na hora do meio-dia, hora do almo\u00e7o, da janta, do n\u00e3o-sei-o-qu\u00ea dos oper\u00e1rios, e eles estavam descansando jogados na sombra das \u00e1rvores. Apenas um por\u00e9m, um portuga magru\u00e7o e b\u00e1rbaro, de enormes bigod\u00f5es, que n\u00e3o me entrava nem jamais dera import\u00e2ncia pra mim, estava assentado num monte de terra, afastado dos outros, ar de melancolia. Eu brincava por ali tudo, mas a solid\u00e3o do homem me preocupava, quase me do\u00eda, e eu rabeava umas olhadelas para a banda dele, desejoso de consolar. Fui chegando com ar de quem n\u00e3o quer e perguntei o que ele tinha. O oper\u00e1rio primeiro deu de ombros, portugu\u00eas, bruto, b\u00e1rbaro, longe de consentir na car\u00edcia da minha pergunta infantil. Mas estava com uns olhos t\u00e3o tristes, o bigode ca\u00eda tanto, desolado, que insisti no meu carinho e perguntei mais outra vez o que ele tinha. \u201cM\u00e1 sorte\u201d ele resmungou, mais a si mesmo que a mim.<\/p>\n<p>Eu por\u00e9m \u00e9 que ficara aterrado. Minha Nossa Senhora! aquele homem tinha m\u00e1 sorte! aquele homem enorme com tantos filhinhos pequenos e uma mulher paral\u00edtica na cama!&#8230; E no entanto eu era feliz, feliz! e com tr\u00eas estrelinhas-do-mar pra me darem boa-sorte&#8230; \u00c9 certo: eu pusera imediatamente as tr\u00eas estrelas no diminutivo, porque se houvesse de ceder alguma ao oper\u00e1rio, j\u00e1 de antem\u00e3o eu desvalorizava as tr\u00eas, todas as tr\u00eas, na esperan\u00e7a desesperada de dar apenas a menor. N\u00e3o havia diferen\u00e7a mais, eram apenas tr\u00eas \u201cestrelinhas\u201d-do-mar. Fiquei desesperado. Mas a lei se riscara inilud\u00edvel no meu esp\u00edrito: e se eu desse boa-sorte ao oper\u00e1rio na pessoa da minha menor estrelinha pequetitinha?&#8230; Bem que podia dar a menor, era t\u00e3o feia mesmo, faltava uma das pontas, mas sempre era uma estrelinha-do-mar. Depois: oper\u00e1rio n\u00e3o era bem-vestido como papai, n\u00e3o carecia de uma boa-sorte muito grande n\u00e3o. Meus passos tontos j\u00e1 me conduziam para o fundo do quintal fatalizadamente. Eu sentia um sol de rachar completamente forte. Agora \u00e9 que as estrelinhas ficavam bem secas e davam uma boa-sorte danada, acabava duma vez a paralisia da mulher do oper\u00e1rio, os filhinhos teriam p\u00e3o e Nossa Senhora do Carmo, minha madrinha, nem se amolava de enxergar o pintinho deles. L\u00e1 estavam as tr\u00eas estrelinhas, brilhando no ar do sol, cheias de uma boa-sorte imensa. E eu tinha que me desligar de uma delas, da menorzinha estragada, t\u00e3o linda! justamente a que eu gostava mais, todas valiam igual, porque a mulher do oper\u00e1rio n\u00e3o tomava banhos de mar? mas sempre, ah meu Deus que sofrimento! eu bem n\u00e3o queria pensar mas pensava sem querer, deslumbrado, mas a boa mesmo era a grandona perfeita, que havia de dar mais boa-sorte pra aquele malvado de oper\u00e1rio que viera, cachorro! dizer que estava com m\u00e1 sorte. Agora eu tinha que dar pra ele a minha grande, a minha sublime estrelona-do-mar!&#8230;<\/p>\n<p>Eu chorava. As l\u00e1grimas corriam francas listrando a cara sujinha. O sofrimento era tanto que os meus solu\u00e7os nem me deixavam pensar bem. Fazia um calor horr\u00edvel, era preciso tirar as estrelas do sol, sen\u00e3o elas secavam demais, se acabava a boa-sorte delas, o sol me batia no coco, eu estava tonto, oper\u00e1rio, m\u00e1 sorte, a estrela, a paral\u00edtica, a minha sublime estrelona-do-mar! Isso eu agarrei na estrela com raiva, meu desejo era quebrar a perna dela tamb\u00e9m pra que ficasse igualzinha \u00e0 menor, mas as m\u00e3os adorantes desmentiam meus des\u00edgnios, meus p\u00e9s \u00e9 que resolveram correr daquele jeito, rapid\u00edssimos, pra acabar de uma vez com o mart\u00edrio. Fui correndo, fui morrendo, fui chorando, carregando com f\u00faria e car\u00edcia a minha maiorzona estrelinha-do-mar. Cheguei pro oper\u00e1rio, ele estava se erguendo, toquei nele com aspereza, puxei duro a roupa dele:<\/p>\n<p>\u2014 Tome! eu solu\u00e7ava gritado, tome a minha&#8230; tome a estrela-do-mar! d\u00e1&#8230; d\u00e1, sim, boa-sorte!&#8230;<\/p>\n<p>O oper\u00e1rio olhou surpreso sem compreender. Eu solu\u00e7ava, era um supl\u00edcio medonho.<\/p>\n<p>\u2014 Pegue depressa! faz favor! depressa! d\u00e1 boa-sorte mesmo!<\/p>\n<p>A\u00ed que ele entendeu, pois n\u00e3o me aguentava mais! Me olhou, foi pegando na estrela, sorriu por tr\u00e1s dos bigod\u00f5es portugas, um sorriso desacostumado, n\u00e3o falou nada felizmente que sen\u00e3o eu desatava a berrar. A m\u00e3o calosa quis se ajeitar em concha pra me acarinhar, certo! ele nem media a extens\u00e3o do meu sacrif\u00edcio! e a m\u00e3o calosa apenas ro\u00e7ou por meus cabelos cortados.<\/p>\n<p>Eu corri. Eu corri pra chorar \u00e0 larga, chorar na cama, abafando os solu\u00e7os no travesseiro sozinho. Mas por dentro era imposs\u00edvel saber o que havia em mim, era uma luz, uma Nossa Senhora, um gosto maltratado, cheio de desilus\u00f5es clar\u00edssimas, em que eu sofria arrependido, vendo inutilizar-se no infinito dos sofrimentos humanos a minha estrela-do-mar.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e1rio de Andrade nasceu em S\u00e3o Paulo, em 1893, e tornou-se uma das figuras centrais do modernismo brasileiro. Poeta, contista, romancista, cr\u00edtico, music\u00f3logo e pesquisador da cultura popular, participou decisivamente da Semana de Arte Moderna de 1922 e ajudou a redefinir os caminhos da literatura nacional. Autor de obras fundamentais como Pauliceia Desvairada, Macuna\u00edma e Contos Novos, soube unir experimenta\u00e7\u00e3o formal, investiga\u00e7\u00e3o da linguagem brasileira e profunda aten\u00e7\u00e3o \u00e0s contradi\u00e7\u00f5es humanas. Morreu em 1945, deixando uma obra decisiva para a cultura do pa\u00eds.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota editorial Em \u201cTempo de Camisolinha\u201d, M\u00e1rio de Andrade transforma uma lembran\u00e7a de inf\u00e2ncia em mat\u00e9ria de investiga\u00e7\u00e3o moral. 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