{"id":392380,"date":"2026-04-26T01:15:16","date_gmt":"2026-04-26T04:15:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=392380"},"modified":"2026-04-24T01:28:07","modified_gmt":"2026-04-24T04:28:07","slug":"cornelio-penna-e-a-menina-que-vivia-nele","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cornelio-penna-e-a-menina-que-vivia-nele\/","title":{"rendered":"CORN\u00c9LIO PENNA E A MENINA QUE VIVIA NELE"},"content":{"rendered":"<p>Corn\u00e9lio Penna nasceu em Petr\u00f3polis, em 1896, mas sua vida parece ter pertencido menos a uma cidade do que a um certo modo de habitar o tempo. Passou pela inf\u00e2ncia mineira, estudou em Campinas, viveu no Rio de Janeiro, formou-se em Direito em S\u00e3o Paulo, exerceu o jornalismo, desenhou, pintou, ilustrou livros e, j\u00e1 maduro, encontrou no romance a forma mais funda de sua inquieta\u00e7\u00e3o. Antes de ser romancista, foi homem de imagens. Talvez por isso sua literatura pare\u00e7a sempre nascer de uma cena fixa: uma casa em sil\u00eancio, uma janela antiga, um retrato de fam\u00edlia, um rosto que n\u00e3o se deixa explicar.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi escritor de pra\u00e7a p\u00fablica. Corn\u00e9lio pertencia mais ao interior das casas, aos jardins fechados, aos retratos pendurados na parede, aos objetos que parecem guardar alguma coisa de seus donos desaparecidos. Num de seus textos mais reveladores, ao falar da rotina em sua casa nas Laranjeiras, descreveu a pr\u00f3pria vida como uma sucess\u00e3o de dias iguais, entregues ao acaso, mas a um acaso sem brilho, \u201cum crep\u00fasculo sem colorido\u201d, sem raios de luz, sem sol que se pusesse no horizonte. Apenas um fim de dia tranquilo e sereno que se prolongava.<\/p>\n<p>A imagem serve para o homem e para a obra. Corn\u00e9lio viveu como quem observava o mundo de dentro de um ref\u00fagio. Falava de uma casa isolada por paredes altas e muros cheios de hera, com um pequeno jardim que parecia continuar nas \u00e1rvores da embaixada vizinha. Dali, acompanhava as \u00e1rvores, as palmeiras, o vento, os ru\u00eddos abafados da rua, os r\u00e1dios estridentes de pessoas que, segundo ele, pareciam desejar atordoar-se em vez de ouvir m\u00fasica. A vida exterior chegava filtrada, como eco. O mundo passava l\u00e1 fora; Corn\u00e9lio o escutava de dentro.<\/p>\n<p>H\u00e1 nesse depoimento uma cena que parece sa\u00edda de seus romances. Uma gar\u00e7a, vinda dos gramados de certo pal\u00e1cio da vizinhan\u00e7a, pousava todas as noites numa das \u00e1rvores pr\u00f3ximas \u00e0 sua casa. Corn\u00e9lio e os seus a acompanhavam em sil\u00eancio. A ave alongava o pesco\u00e7o, girava a cabe\u00e7a, fazia a sua \u201ctoilette\u201d noturna e adormecia at\u00e9 a manh\u00e3 clara, quando retornava ao lugar onde devia figurar oficialmente como ornamento vivo. Um dia, a gar\u00e7a deixou de aparecer. Corn\u00e9lio imaginou que lhe tivessem cortado as asas, obrigando-a a permanecer onde vivia. Acabara-se, para ela e para eles, a aventura di\u00e1ria de esconder-se entre outras \u00e1rvores e ser contemplada em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Essa pequena hist\u00f3ria diz muito. Corn\u00e9lio Penna via a vida como quem percebe, no m\u00ednimo acontecimento dom\u00e9stico, uma alegoria moral. A gar\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas uma ave: \u00e9 uma visita, uma companhia, uma liberdade provis\u00f3ria, uma beleza amea\u00e7ada. Quando desaparece, deixa uma falta desproporcional ao fato. \u00c9 assim tamb\u00e9m em sua fic\u00e7\u00e3o. Um retrato, uma janela, um corredor, uma aus\u00eancia, uma crian\u00e7a morta: tudo adquire peso de destino.<\/p>\n<p>No mapa da literatura brasileira, Corn\u00e9lio ficou numa posi\u00e7\u00e3o singular. Estreou no romance com Fronteira, em 1935, num per\u00edodo em que a fic\u00e7\u00e3o nacional era fortemente marcada pelo regionalismo social, pela den\u00fancia das desigualdades, pela vida rural em conflito, pela seca, pelo engenho, pelo trabalhador e pela cidade em transforma\u00e7\u00e3o. Mas ele n\u00e3o entrou por essa porta. Enquanto muitos de seus contempor\u00e2neos procuravam o Brasil na paisagem aberta da hist\u00f3ria social, Corn\u00e9lio o procurou dentro das casas fechadas, nos corredores, nos quartos interditos, nos retratos antigos, nas fam\u00edlias que conservavam a pr\u00f3pria ru\u00edna com boas maneiras.<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a explica tanto a sua grandeza quanto o relativo isolamento de sua obra. Corn\u00e9lio Penna n\u00e3o foi um escritor menor; foi um escritor lateral. E essa lateralidade, no seu caso, n\u00e3o \u00e9 defeito de percurso, mas natureza est\u00e9tica. Fronteira, Dois romances de Nico Horta, Repouso e, sobretudo, A Menina Morta comp\u00f5em uma obra breve, densa e pouco acomodada \u00e0s gavetas habituais. Sua fic\u00e7\u00e3o trabalha com mem\u00f3ria, clausura, culpa, religiosidade subterr\u00e2nea, decad\u00eancia familiar e viol\u00eancia social filtrada pelo sil\u00eancio dom\u00e9stico. N\u00e3o se move pela explica\u00e7\u00e3o direta, mas pela insinua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o transforma o mist\u00e9rio em enfeite; faz dele um modo de conhecer.<\/p>\n<p>Em A Menina Morta, publicado em 1954, esse projeto atinge sua forma mais alta. O romance se passa numa fazenda senhorial do s\u00e9culo XIX, no Vale do Para\u00edba, dentro de um mundo que ainda se sustenta sobre escravid\u00e3o, obedi\u00eancia, hierarquia e medo. Morre a filha pequena de um comendador. O pai manda pintar-lhe o retrato. A imagem da crian\u00e7a morta, em vez de encerrar a perda, passa a governar a casa. A menina n\u00e3o fala, n\u00e3o age, n\u00e3o cresce. Mas est\u00e1 em toda parte. Sua aus\u00eancia organiza a vida dos vivos. Sua morte comanda os gestos, as culpas, as suspeitas e os sil\u00eancios.<\/p>\n<p>O equ\u00edvoco seria ler o livro como simples romance de atmosfera. \u00c9 mais do que isso. A Menina Morta \u00e9 um romance sobre a decomposi\u00e7\u00e3o de uma ordem hist\u00f3rica. A casa-grande, ali, n\u00e3o aparece como cen\u00e1rio pitoresco, mas como organismo moralmente doente. A escravid\u00e3o n\u00e3o \u00e9 posta em discurso frontal, como tese de tribuna, mas entranhada nos h\u00e1bitos, nos gestos, nas vozes contidas, na disciplina dom\u00e9stica, na viol\u00eancia que j\u00e1 n\u00e3o precisa gritar para existir. Corn\u00e9lio mostra o terror educado. Mostra a brutalidade quando ela j\u00e1 se incorporou ao ritual da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>E, no centro desse mundo, est\u00e1 o quadro.<\/p>\n<p>Numa entrevista, Corn\u00e9lio Penna deixou a melhor explica\u00e7\u00e3o sobre a origem de A Menina Morta. Come\u00e7ou quase se desculpando. Reconstruir a \u201cbiografia\u201d da menina morta lhe parecia um enorme sacrif\u00edcio, pois, quando terminava um livro, dizia ele, esquecia-se inteiramente de tudo. As figuras vinham, viviam, morriam e desapareciam; ele j\u00e1 n\u00e3o sabia de onde tinham vindo nem para onde iam. Mas, com aquela menina, era diferente. O sepulcro, escreveu, ficava vazio.<\/p>\n<p>O retrato o acompanhara por toda a vida. Nele, a crian\u00e7a fora pintada morta, o pequeno cad\u00e1ver j\u00e1 pronto para ser encerrado no esquife, com sua coroa de rosas e o vestido de brocado branco. A imagem permanecia diante de seus olhos. Quando vivia solit\u00e1rio em sua casa, ela o entristecia e povoava seus dias com uma presen\u00e7a pat\u00e9tica. Corn\u00e9lio tinha o h\u00e1bito de dizer que a menina \u201cvivia\u201d nele e que um dia escreveria o seu romance.<\/p>\n<p>Poucas vezes a g\u00eanese de um livro brasileiro foi confessada com tamanha for\u00e7a. N\u00e3o se tratava de um tema escolhido, mas de uma presen\u00e7a suportada. A menina, antes de virar personagem, foi conviv\u00eancia. Antes de entrar no romance, j\u00e1 habitava a sala, a mem\u00f3ria, a imagina\u00e7\u00e3o e a solid\u00e3o do escritor. Era, ao mesmo tempo, rel\u00edquia familiar e assombra\u00e7\u00e3o \u00edntima.<\/p>\n<p>A cena ganha ainda mais interesse quando Corn\u00e9lio recorda que mostrou o quadro a Rachel de Queiroz, em visitas nas quais ela vinha acompanhada de Ot\u00e1vio de Faria, L\u00facio Cardoso e Adonias Filho. Augusto Frederico Schmidt, diante da pintura, \u201cvibrava intensamente\u201d, a ponto de improvisar versos. Todos os que viam aquela crian\u00e7a morta pareciam guardar sua marca no cora\u00e7\u00e3o. O quadro, portanto, n\u00e3o era apenas objeto dom\u00e9stico. Funcionava como \u00edm\u00e3 liter\u00e1rio. Diante dele, aqueles escritores, t\u00e3o diferentes entre si, pareciam reconhecer que havia ali mais do que uma mem\u00f3ria de fam\u00edlia: havia um romance esperando a sua hora.<\/p>\n<p>Schmidt teve papel especial nessa constela\u00e7\u00e3o. Poeta, editor, homem de circula\u00e7\u00e3o mais ampla, ele percebeu em Corn\u00e9lio uma grandeza dif\u00edcil, dessas que n\u00e3o se acomodam no aplauso f\u00e1cil. Sua amizade com o romancista n\u00e3o parece ter sido de conveni\u00eancia liter\u00e1ria. Era antes uma conviv\u00eancia diante do enigma. Schmidt compreendia que, naquele homem reservado, havia uma literatura feita de outra mat\u00e9ria: menos solar, menos brasileira no sentido decorativo da palavra, mas talvez mais funda em sua capacidade de revelar a zona abafada da forma\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>E essa liga\u00e7\u00e3o quase levou A Menina Morta a outro destino. Em 1963, alguns cineastas procuraram Augusto Frederico Schmidt: ele produziria uma vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica do romance. A ideia, vista de longe, parece natural. Havia no livro uma for\u00e7a visual rara, uma casa que j\u00e1 parecia cen\u00e1rio, um retrato que parecia plano fixo, personagens que se moviam como sombras dentro de uma arquitetura moral em ru\u00edna. Mas a hist\u00f3ria brasileira entrou no caminho da hist\u00f3ria liter\u00e1ria. Em 1964 veio o golpe militar, tornando mais dif\u00edcil a articula\u00e7\u00e3o do projeto. Em 1965, Schmidt morreu. Com ele, morreu tamb\u00e9m a possibilidade concreta daquele filme. A Menina Morta, que j\u00e1 era romance de espectros, ganhou mais um fantasma: o de sua adapta\u00e7\u00e3o jamais realizada.<\/p>\n<p>H\u00e1, nas lembran\u00e7as que cercam Corn\u00e9lio, essa tend\u00eancia curiosa de aproxim\u00e1-lo de pessoas e objetos de outro tempo. N\u00e3o surpreende que se fale tamb\u00e9m de sua conviv\u00eancia com figuras mais antigas da vida familiar de Schmidt, inclusive a av\u00f3 do poeta, como se Corn\u00e9lio se movesse melhor entre sobreviventes de outro s\u00e9culo. O dado, mais do que aned\u00f3tico, combina com sua figura. Ele parecia pertencer menos ao presente imediato do que a uma esp\u00e9cie de sala de espera da mem\u00f3ria, onde velhas senhoras, retratos, fazendas arruinadas e mortos de fam\u00edlia ainda conservavam autoridade.<\/p>\n<p>Mas o pr\u00f3prio Corn\u00e9lio teve o cuidado de evitar a leitura mais pobre. A Menina Morta n\u00e3o nasceu como simples transcri\u00e7\u00e3o autobiogr\u00e1fica, nem como invent\u00e1rio sentimental das fazendas de seus av\u00f3s. Ele mencionava a fazenda pioneira do Vale do Para\u00edba, onde a menina vivera, e tamb\u00e9m as terras ligadas \u00e0 minera\u00e7\u00e3o de ouro e ferro, no Brumado e em Itabira, onde passara dias de inf\u00e2ncia. Falava desses lugares com emo\u00e7\u00e3o, mas reconhecia que, quando voltou a v\u00ea-los, a presen\u00e7a hostil dos propriet\u00e1rios atuais, \u201cestranhos, zelosos e secos\u201d, refreou nele o impulso de ajoelhar-se e beijar aquelas terras sagradas.<\/p>\n<p>A frase \u00e9 reveladora. Havia, sim, uma saudade intensa da vida rural, mas n\u00e3o havia ingenuidade. O passado, em Corn\u00e9lio, nunca se entrega intacto. Ele aparece quebrado, interditado, vigiado por estranhos, j\u00e1 transformado em ru\u00edna. As cidades, as \u00e1rvores cariocas, os jardins, uma casa velha, uma janela derreada que ficou aberta, muros em in\u00edcio de destrui\u00e7\u00e3o, port\u00f5es com t\u00e1buas carcomidas \u2014 tudo isso criava nele momentos de \u201cconsolo ilus\u00f3rio\u201d. N\u00e3o era retorno. Era miragem.<\/p>\n<p>Essa ideia aparece tamb\u00e9m em sua descri\u00e7\u00e3o da vida nas Laranjeiras. O escritor se comparava a Candide, passando os dias junto a um jardim que \u00e0s vezes tratava, outras vezes apenas contemplava, em suas muta\u00e7\u00f5es mi\u00fadas. Dizia viver cercado por uma esp\u00e9cie de Constantinopla dom\u00e9stica, com seus pr\u00f3prios pach\u00e1s, seus costumes e sua Sublime Porta. Para al\u00e9m do port\u00e3o, sabia pouco: apenas os ecos que chegavam at\u00e9 ele. Nos passeios vagarosos pelos arredores, contemplava o mundo exterior como quem visita uma fronteira. Depois voltava para casa com a ansiedade de quem foge.<\/p>\n<p>H\u00e1 nessa confiss\u00e3o um detalhe importante. Corn\u00e9lio sonhara a vida inteira com uma fazenda em torno de si, com salas enormes e reboantes, terras que se estendessem at\u00e9 o horizonte. No fim, contentava-se com um relvado e alguns metros de quintal que subiam pelo morro. A fazenda sonhada, que n\u00e3o veio, passou para dentro do romance. O que a vida lhe deu em escala menor, a imagina\u00e7\u00e3o ampliou em sombra, mem\u00f3ria e assombra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais importante ainda: Corn\u00e9lio afirmou que o romance n\u00e3o era feito de recorda\u00e7\u00f5es de fatos j\u00e1 ocorridos. Era \u201ca cria\u00e7\u00e3o de tudo em torno dela\u201d, uma \u201cfantasmagoria de exist\u00eancias, de epis\u00f3dios, de detalhes\u201d. A palavra \u00e9 decisiva. Fantasmagoria. O livro n\u00e3o documenta uma casa: assombra-a. N\u00e3o reconstitui uma fazenda: faz dela um teatro de espectros. N\u00e3o reconstr\u00f3i objetivamente o passado: revela a sua sobreviv\u00eancia deformada dentro da imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para compreender a grandeza de A Menina Morta. Corn\u00e9lio parte de um retrato real, de mem\u00f3rias familiares e de paisagens herdadas, mas n\u00e3o se limita a elas. Transforma tudo em mundo ficcional. E que mundo. Uma fazenda onde a autoridade parece mais antiga que os vivos; onde a crian\u00e7a morta \u00e9 mais presente que os adultos; onde a escravid\u00e3o pesa como atmosfera; onde as mulheres vivem entre repress\u00e3o, obedi\u00eancia e segredo; onde os objetos guardam mais verdade do que as conversas.<\/p>\n<p>Em certo momento, Corn\u00e9lio fala de tr\u00eas meninas, todas com o mesmo nome. As duas primeiras partiram cedo, com dois ou tr\u00eas anos, deixando apenas retratos a \u00f3leo e a lembran\u00e7a de sua pureza e bondade com os escravos. A terceira, revivida por uma prima, parecia conservar sozinha todo o passado, cheio de vida estuante. Mas justamente para fugir do \u201ctipo de livros muito pessoais\u201d, Corn\u00e9lio deixou sua imagina\u00e7\u00e3o construir, sem peias, \u201co pequeno mundo de fantasmas sem hist\u00f3ria\u201d, onde se agitam seres fora da realidade que iriam, no livro esquecido nas estantes, ter a ilus\u00e3o, como ele, de que vivem um pouco.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1, talvez, o programa secreto de sua obra. \u201cUm pequeno mundo de fantasmas sem hist\u00f3ria.\u201d A express\u00e3o poderia servir de legenda para Corn\u00e9lio Penna inteiro. Seus personagens parecem viver sempre um pouco depois da vida, ou um pouco antes da morte. N\u00e3o s\u00e3o criaturas de a\u00e7\u00e3o expansiva, mas de press\u00e3o interior. T\u00eam medos antigos, culpas herdadas, desejos sufocados e segredos muito bem guardados. Movem-se como sombras, na casa que os observa. E a casa, em Corn\u00e9lio, viva e opressora, observa mesmo.<\/p>\n<p>Por isso ele \u00e9 t\u00e3o singular no romance brasileiro. Enquanto parte da fic\u00e7\u00e3o de seu tempo se organizava pela paisagem exposta, emoldurando a luta social vis\u00edvel, Corn\u00e9lio preferiu a zona interna da hist\u00f3ria. Entrou na senzala pela casa-grande, mas sem absolver a casa-grande. Entrou na fam\u00edlia pela crian\u00e7a morta, mas sem transformar a morte em sentimentalismo. Entrou no passado pela mem\u00f3ria, mas sem ceder \u00e0 nostalgia. Sua literatura sabe que a nostalgia \u00e9 frequentemente uma forma elegante de mentira.<\/p>\n<p>A menina morta n\u00e3o \u00e9 apenas uma crian\u00e7a. \u00c9 imagem de uma era, a rel\u00edquia santa isenta de culpa, ocupando o centro simb\u00f3lico de uma ordem abolida. Est\u00e1 morta e, justamente por isso, manda nos vivos. A fam\u00edlia tenta conservar sua pureza, mas acaba revelando sua pr\u00f3pria decomposi\u00e7\u00e3o. O quadro, que poderia ser lembran\u00e7a afetuosa, converte-se em espelho severo. Quem olha para ele n\u00e3o v\u00ea apenas a menina; v\u00ea a casa, o regime, os escravos, as mulheres, os mandos, os medos, os pecados que ningu\u00e9m nomeia e todos cometem, sejam servos ou senhores.<\/p>\n<p>Corn\u00e9lio Penna foi tamb\u00e9m pintor, desenhista, homem de sensibilidade pl\u00e1stica. Talvez isso explique a for\u00e7a visual de sua fic\u00e7\u00e3o. Mas sua pintura verbal n\u00e3o ilumina tudo. Ao contr\u00e1rio, distribui sombras. Ele sabia que certas verdades s\u00f3 aparecem quando a luz baixa. Em A Menina Morta, as cenas parecem compostas por algu\u00e9m que conhece a arte do retrato, mas desconfia da apar\u00eancia. O rosto pintado da crian\u00e7a \u00e9 n\u00edtido; o mundo ao redor \u00e9 que se turva. E, nesse contraste, o romance cresce.<\/p>\n<p>Talvez por isso a not\u00edcia do projeto cinematogr\u00e1fico interrompido pare\u00e7a t\u00e3o coerente. A Menina Morta j\u00e1 trazia dentro de si uma voca\u00e7\u00e3o visual: n\u00e3o de cinema movimentado, mas de cinema de espera, de rosto, de sil\u00eancio, de interiores carregados. A c\u00e2mera teria encontrado ali n\u00e3o apenas uma hist\u00f3ria, mas uma atmosfera. O filme que n\u00e3o veio tornou-se, \u00e0 sua maneira, uma continua\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria do pr\u00f3prio romance: mais uma presen\u00e7a ausente, mais uma imagem suspensa, mais um quadro que ficou por ser aberto.<\/p>\n<p>Que belo projeto para os cineastas de hoje.<\/p>\n<p>H\u00e1 escritores que sobrevivem porque foram muito lidos. Outros sobrevivem porque, mesmo pouco frequentados, continuam necess\u00e1rios. Corn\u00e9lio Penna pertence a esta segunda fam\u00edlia. N\u00e3o \u00e9 autor de consumo r\u00e1pido, nem de frases prontas para circular como ornamento cultural. Exige do leitor perman\u00eancia, paci\u00eancia, ouvido para os sil\u00eancios. Mas, quando se entra em sua obra, dificilmente se sai dela sem a sensa\u00e7\u00e3o de ter visitado uma regi\u00e3o essencial e pouco iluminada da literatura brasileira.<\/p>\n<p>Seu Lado B n\u00e3o est\u00e1 em excentricidades biogr\u00e1ficas. Est\u00e1 nesse modo obl\u00edquo de fazer o Brasil aparecer pela sombra. Est\u00e1 na sala onde o retrato da menina morta continuava pendurado. Est\u00e1 na solid\u00e3o do escritor que dizia que ela vivia nele. Est\u00e1 na gar\u00e7a que pousava \u00e0 noite e depois desapareceu. Est\u00e1 no jardim das Laranjeiras, no ref\u00fagio cercado de muros, na vida que Corn\u00e9lio descrevia como repeti\u00e7\u00e3o quase monacal de gestos e palavras. Est\u00e1 na visita de Rachel, Ot\u00e1vio, L\u00facio, Adonias e Schmidt, todos diante de uma imagem que parecia pedir romance. Est\u00e1 no filme que quase houve, mas ficou pelo caminho entre o golpe, a morte de Schmidt e o sil\u00eancio posterior. Est\u00e1 nas fazendas de av\u00f3s, nas janelas abertas, nos muros em ru\u00edna, nos port\u00f5es carcomidos, na saudade imposs\u00edvel de uma vida rural que j\u00e1 n\u00e3o podia ser recuperada sem mentira.<\/p>\n<p>Corn\u00e9lio n\u00e3o quis escrever um livro \u201cmuito pessoal\u201d. Fez melhor: escreveu um livro profundamente impessoal, no sentido mais alto da literatura, porque nele a mem\u00f3ria privada se transforma em forma hist\u00f3rica. A menina de sua fam\u00edlia torna-se a menina de um pa\u00eds. O quadro de uma sala converte-se em retrato de uma ordem social. A crian\u00e7a morta, silenciosa, branca, coroada de rosas, passa a olhar para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Corn\u00e9lio Penna morreu no Rio de Janeiro, em 12 de fevereiro de 1958, poucos dias antes de completar 62 anos. Morreu depois de ter publicado apenas quatro romances, mas j\u00e1 tendo deixado uma obra de densidade incomum na fic\u00e7\u00e3o brasileira. No mesmo ano de sua morte, seus romances seriam reunidos em volume, como se a literatura brasileira, atrasada em reconhec\u00ea-lo, precisasse ao menos juntar aquelas sombras antes que se dispersassem.<\/p>\n<p>H\u00e1 algo de coerente nesse fim discreto. O homem que fizera da casa fechada, do retrato antigo, da crian\u00e7a morta, do jardim amea\u00e7ado, da gar\u00e7a desaparecida e do sil\u00eancio familiar a mat\u00e9ria de sua fic\u00e7\u00e3o saiu de cena sem alarde, deixando atr\u00e1s de si n\u00e3o uma escola, nem uma moda, mas uma atmosfera. Corn\u00e9lio Penna n\u00e3o desapareceu: recolheu-se \u00e0 pr\u00f3pria obra. E, desde ent\u00e3o, quem abre A Menina Morta encontra, no fundo da casa, o mesmo olhar im\u00f3vel. Esse olhar ainda n\u00e3o terminou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 82, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n<div id=\"wpdevar_comment_4\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Corn\u00e9lio Penna nasceu em Petr\u00f3polis, em 1896, mas sua vida parece ter pertencido menos a uma cidade do que a um certo modo de habitar o tempo. 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