{"id":393188,"date":"2026-05-02T02:00:55","date_gmt":"2026-05-02T05:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=393188"},"modified":"2026-05-01T06:43:33","modified_gmt":"2026-05-01T09:43:33","slug":"a-existencia-precede-a-mortadela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-existencia-precede-a-mortadela\/","title":{"rendered":"A exist\u00eancia precede a mortadela"},"content":{"rendered":"<p>Vida de adulto tem dessas coisas, \u00e9 a maior correria. T\u00e3o atribulada, que at\u00e9 pique-pega no parquinho parece c\u00e2mera-lenta. E nem adianta parar para reclamar, o perigo de ser atropelado n\u00e3o perdoa.<\/p>\n<p>\u2014 Sai da frente, Jonas!<\/p>\n<p>Esse a\u00ed que acabou de gritar \u00e9 o Almeida, um dos meus colegas aqui no supermercado. Ele \u00e9 repositor, vive transitando entre os corredores, tem paci\u00eancia de boi de rodeio. N\u00e3o chega \u00e0s vias de fato, pelo menos nunca o vi envolvido em contendas f\u00edsicas, parece que esse modo de ser \u00e9 consequ\u00eancia da brutalidade da pobreza.<\/p>\n<p>Tirando o dono do estabelecimento, que vi uma ou duas vezes nesses quase cinco anos de casa, todos por aqui n\u00e3o nascemos em ber\u00e7o de ouro. Isso n\u00e3o parece impedimento para um ou outro se sentir superior ou, ent\u00e3o, n\u00e3o se misturar. N\u00e3o os culpo, tampouco lhes concedo perd\u00e3o, seja pela falta de poder, seja por compaix\u00e3o.<\/p>\n<p>Luana, cuja mis\u00e9ria foi incapaz de arrancar-lhe toda a beleza, \u00e9 uma das mais simp\u00e1ticas. Simp\u00e1tica com todos, na verdade, o que me deixa, de certo modo, enciumado. Se estou agindo como um tolo, talvez, prefiro imaginar que sou estrategista da pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, ou melhor, da sanidade que me resta.<\/p>\n<p>J\u00e1 pensei em chamar a Luana para um sorvete. Creio que ela iria rir da situa\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 respons\u00e1vel por esse produto aqui no mercado. N\u00e3o, sorvete n\u00e3o. Melhor seria um cinema, mas o pre\u00e7o da pipoca \u00e9 um horror. Qualquer hora a convido para ver um filme l\u00e1 em casa, e deixa que a pipoca eu fa\u00e7o. Pelo menos n\u00e3o precisarei fazer um vale com o gerente.<\/p>\n<p>Gosto do Marco Ant\u00f4nio. N\u00e3o a ponto de dialogar mais do que os breves momentos de descontra\u00e7\u00e3o durante as pausas para o almo\u00e7o. Percebo que ele sempre mastiga mais do que todos, os olhos perdidos ou em busca de algo. Ser\u00e1 que ele sempre foi um dos nossos ou, n\u00e3o duvido, o pai ou o av\u00f4 foi um herdeiro incauto? Talvez seja o seu jeito mesmo e se apegue ao devaneio para escapar, ao menos por um instante, desse labirinto que nascemos.<\/p>\n<p>Dia desses, o Marco Ant\u00f4nio puxou assunto comigo. Deve ser porque nossos olhos se cruzaram. Tentei disfar\u00e7ar, fiz cara de atento a algo qualquer. N\u00e3o colou.<\/p>\n<p>\u2014 Jonas, tu gosta de Sartre?<\/p>\n<p>Sartre? N\u00e3o fazia ideia do que seria. Por sorte, Carlos, o gerente, me arrancou daquela sinuca.<\/p>\n<p>\u2014 Jonas, estamos com problema com os frios. V\u00e1 l\u00e1 agora.<\/p>\n<p>Sartre. Jean-Paul Charles Aymard Sartre ou, como Marco Ant\u00f4nio disse, simplesmente Sartre. Ele foi&#8230; Precisei decorar algumas coisas sobre esse sujeito, que foi fil\u00f3sofo existencialista, enquanto eu s\u00f3 estou tentando sobreviver neste mundo. Ele teve um caso com uma tal Simone de Beauvoir. Na verdade, a Luana \u00e9 mais bonita, pelo menos \u00e9 o que eu acho. Se bem que o Sartre parece ter tido mais sorte do que eu. Ser\u00e1 que a Luana aceitaria ser a minha Simone?<\/p>\n<p>No dia seguinte, enquanto mexia em presuntos e mortadelas, vi o Marco Ant\u00f4nio se aproximar. Sorri e puxei conversa.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, acabei n\u00e3o te respondendo.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Sobre o Sartre.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, t\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Fil\u00f3sofo existencialista&#8230; Ele \u00e9 dos meus favoritos.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, mas prefiro Nietzsche.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9&#8230; Voc\u00ea tem raz\u00e3o. Meu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Nietzsche? N\u00e3o fazia a menor ideia do que o meu colega havia dito. E l\u00e1 fui eu pesquisar novamente. Fil\u00f3sofo alem\u00e3o, cr\u00edtico voraz da religi\u00e3o, da cultura contempor\u00e2nea, da moral. N\u00e3o tive d\u00favida e, assim, comecei a evitar o Marco Ant\u00f4nio. N\u00e3o por causa das ideias do Nietzche, que considero v\u00e1lidas, a quest\u00e3o era outra.<\/p>\n<p>Luana, ah, Luana, o que o Gustavo tem que eu n\u00e3o tenho? A minha musa, h\u00e1 quase uma semana, anda de conversinha pelos cantos com o vigilante mais parrudo. J\u00e1 me chegou que os dois engataram um relacionamento firme. Ah, Nietzsche, voc\u00ea \u00e9 que est\u00e1 certo. Aquilo que n\u00e3o me mata me faz mais forte.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vida de adulto tem dessas coisas, \u00e9 a maior correria. T\u00e3o atribulada, que at\u00e9 pique-pega no parquinho parece c\u00e2mera-lenta. 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