{"id":393264,"date":"2026-05-02T01:15:52","date_gmt":"2026-05-02T04:15:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=393264"},"modified":"2026-05-01T17:57:20","modified_gmt":"2026-05-01T20:57:20","slug":"o-moleque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-moleque\/","title":{"rendered":"O moleque"},"content":{"rendered":"<p>Reclus, na sua Geografia Universal tratando do Brasil, notava a necessidade de conservarmos os nomes tupis dos lugares de uma terra. T\u00eam eles, diz o grande ge\u00f3grafo, a vantagem de possuir quase todos um sentido claro, muito claro, nas suas palavras, exprimindo algum fato da natureza, a cor das \u00e1guas correntes, a altura, a forma ou o aspecto dos rochedos, a vegeta\u00e7\u00e3o ou a aridez da regi\u00e3o. No Rio de janeiro, h\u00e1 de fato nomes tupis t\u00e3o eloquentes, para traduzir a forma ou o encanto dos lugares, que ficamos pasmos, quando lhes sabemos a significa\u00e7\u00e3o, com o poder po\u00e9tico, com a for\u00e7a de emo\u00e7\u00e3o superior de que eram capazes os primitivos canibais habitantes desta regi\u00e3o, diante dos aspectos da natureza t\u00e3o bela e singular que \u00e9 a que cerca e limita nossa cidade. Bastam os nomes da ba\u00eda. Como n\u00e3o traduz bem a sua sedu\u00e7\u00e3o, o seu recato, a sua fascina\u00e7\u00e3o, o nome: Guanabara \u2014 seio do mar? E se o mar abriu aqui um seio foi para nele esconder as suas \u00e1guas.<\/p>\n<p>\u2014 Niter\u00f3i \u2014 \u00e1gua escondida.<\/p>\n<p>Esses nomes tupis, nos acidentes naturais das cercanias da cidade, s\u00e3o os documentos mais antigos que ela possui das vidas que aqui floresceram e morreram. Edificada em um terreno que \u00e9 o mais antigo do globo, nos dep\u00f3sitos sedimentares das velhas regi\u00f5es, at\u00e9 hoje n\u00e3o se encontram vest\u00edgios quaisquer da vida pr\u00e9-hist\u00f3rica. A terra \u00e9 velha, mas as vidas que viveram nela n\u00e3o deixaram, ao que parece, nenhum tra\u00e7o direto ou indireto de sua passagem. Os mais antigos testemunhos das exist\u00eancias anteriores \u00e0s nossas, que por aqui passaram, s\u00e3o esses nomes em linguagem dos \u00edndios que habitavam estes lugares; e s\u00e3o assim bem recentes, relativamente.<\/p>\n<p>H\u00e1, parece, na fatalidade destas terras, uma necessidade de n\u00e3o conservar impress\u00f5es das sucessivas camadas de vida que elas deviam ter presenciado o desenvolvimento e o desaparecimento. Estes nomes tupaicos mesmo tendem a desaparecer, e todos sabem que, quando uma turma de trabalhadores, em escava\u00e7\u00f5es de qualquer natureza, encontra uma iga\u00e7aba, logo se apressam em parti-la, em destru\u00ed-la como coisa demon\u00edaca ou indigna de ficar entre os de hoje. A pobre talha mortu\u00e1ria dos tamoios \u00e9 sacrificada impiedosamente.<\/p>\n<p>Fr\u00e1geis eram os artefatos dos \u00edndios e todas as suas outras obras; fr\u00e1geis s\u00e3o tamb\u00e9m as nossas de hoje, tanto assim que os mais antigos monumentos do Rio s\u00e3o de s\u00e9culo e meio; e a cidade vai j\u00e1 para o caminho dos quatrocentos anos.<\/p>\n<p>O nosso granito vetusto, t\u00e3o velho quanto a terra, sobre o qual repousa a cidade, capricha em querer o fr\u00e1gil, o pouco duradouro. A sua grandeza e a sua antiguidade n\u00e3o admitem rivais.<\/p>\n<p>Ainda hoje esse esp\u00edrito do lugar domina a constru\u00e7\u00e3o dos nossos edif\u00edcios p\u00fablicos e particulares, que est\u00e3o a rachar e a desabar, a todo instante. E como se a terra n\u00e3o deseje que fiquem nela outras cria\u00e7\u00f5es, outras vidas, sen\u00e3o as florestas que ela gera, e os animais que nestas vivem.<\/p>\n<p>Ela as faz brotar, apesar de tudo, para sustentar e ostentar um instante, vidas que devem desaparecer sem deixar vest\u00edgios. Estranho capricho\u2026<\/p>\n<p>Quer ser um recolhimento, um lugar de repouso, de parada, para o turbilh\u00e3o que arrasta a cria\u00e7\u00e3o a constantes mudan\u00e7as nos seres vivos; mas s\u00f3 isto, continuando ela firme, inabal\u00e1vel, gerando e recebendo vidas, mas de tal modo que as novas que vierem n\u00e3o possam saber quais foram as que lhes antecederam.<\/p>\n<p>Desde que as suas rochas surgiram, quantas formas de vida ela j\u00e1 viu? In\u00fameras, milhares; mas de nenhuma quis guardar uma lembran\u00e7a, uma rel\u00edquia, para que a Vida n\u00e3o acreditasse que podia rivalizar com a sua eternidade.<\/p>\n<p>Mesmo os nomes \u00edndios, como j\u00e1 foi observado, se apagam, v\u00e3o se apagando, para dar lugar a nomes banais de figur\u00f5es ainda mais banais, de forma que essa pequena antiguidade de quatro s\u00e9culos desaparecer\u00e1 em breve, as novas denomina\u00e7\u00f5es talvez n\u00e3o durem tanto.<\/p>\n<p>Nenhum testemunho, dentro em pouco, haver\u00e1 das almas que eles representam, dessas consci\u00eancias tamoias que tentaram, com tais apelidos, macular a virgindade da incalcul\u00e1vel dura\u00e7\u00e3o da terra. Sapopemba \u00e9 j\u00e1 um general qualquer, e tantos outros lugares do Rio de janeiro v\u00e3o perdendo insensivelmente os seus nomes tupis.<\/p>\n<p>Inha\u00fama \u00e9 ainda dos poucos lugares da cidade que conserva o seu primitivo nome caboclo, zombando dos esfor\u00e7os dos nossos edis para apag\u00e1-lo.<\/p>\n<p>E um sub\u00farbio de gente pobre, e o bonde que l\u00e1 leva atravessa umas ruas de largura desigual, que, n\u00e3o se sabe por que, ora s\u00e3o muito estreitas, ora muito largas, bordadas de casas e casitas sem que nelas se depare um jardinzinho mais tratado ou se lobrigue, aos fundos, uma horta mais vi\u00e7osa. H\u00e1, por\u00e9m, robustas e velhas mangueiras que protestam contra aquele abandono da terra. Fogem para l\u00e1, sobretudo para seus morros e escuros arredores, aqueles que ainda querem cultivar a Divindade como seus av\u00f3s. Nas suas redondezas, \u00e9 o lugar das macumbas, das pr\u00e1ticas de feiti\u00e7aria com que a teologia da pol\u00edcia implica, pois n\u00e3o pode admitir nas nossas almas dep\u00f3sitos de cren\u00e7as ancestrais. O espiritismo se mistura a eles e a sua difus\u00e3o \u00e9 pasmosa. A Igreja cat\u00f3lica unicamente n\u00e3o satisfaz o nosso povo humilde.<\/p>\n<p>\u00c9 quase abstrata para ele, te\u00f3rica. Da divindade, n\u00e3o d\u00e1, apesar das imagens, de \u00e1gua benta e outros objetos do seu culto, nenhum sinal palp\u00e1vel, tang\u00edvel de que ela est\u00e1 presente. O padre, para o grosso do povo, n\u00e3o se comunica no mal com ela; mas o m\u00e9dium, o feiticeiro, o macumbeiro, se n\u00e3o a recebem nos seus transes, recebem, entretanto, almas e esp\u00edritos que, por j\u00e1 n\u00e3o serem mais da terra, est\u00e3o mais perto de Deus e participam um pouco da sua eterna e imensa sabedoria.<\/p>\n<p>Os m\u00e9diuns que curam merecem mais respeito e venera\u00e7\u00e3o que os mais famosos m\u00e9dicos da moda. Os seus milagres s\u00e3o contados de boca em boca, e a gente de todas as condi\u00e7\u00f5es e matizes de ra\u00e7a a eles recorre nos seus desesperos de perder a sa\u00fade e ir ao encontro da Morte. O curioso \u2014 o que era preciso estudar mais devagar \u2014 \u00e9 o am\u00e1lgama de tantas cren\u00e7as desencontradas a que preside a Igreja cat\u00f3lica com os seus santos e beatos. A feiti\u00e7aria, o espiritismo, a cartomancia e a hagiologia cat\u00f3lica se baralham naquelas pr\u00e1ticas, de modo que faz parecer que de tal baralhamento de sentimentos religiosos possa vir nascer uma grande religi\u00e3o, como nasceram de semelhantes misturas as maiores religi\u00f5es hist\u00f3ricas.<\/p>\n<p>Na confus\u00e3o do seu pensamento religioso, nas necessidades presentes de sua pobreza, nos seus embates morais e dos familiares, cada uma dessas cren\u00e7as atende a uma solicita\u00e7\u00e3o de cada uma daquelas almas, e a cada instante de suas necessidades.<\/p>\n<p>A gravidade de pensamento que todo esse espet\u00e1culo provoca e as lembran\u00e7as hist\u00f3ricas que acodem fazem perguntar se a terra que n\u00e3o tem querido guardar na sua grandeza tra\u00e7os das vidas e das almas que por elas t\u00eam passado, ainda desta vez, n\u00e3o consentir\u00e1 que fiquem vest\u00edgios, pegadas, impress\u00f5es das atuais que, nela, hoje sofrem e mergulham, a seu modo, no Mist\u00e9rio que nos cerca, para esquec\u00ea-las soturnamente; e pensa-se isto sob a luz do sol, alegre, clara, forte e alta, que recorta no c\u00e9u azul as montanhas que se alongam para toc\u00e1-lo, tal como se v\u00ea nesse lugar de Inha\u00fama, antiga aldeia de \u00edndios, a serra dos \u00d3rg\u00e3os, solene, soberba\u2026<\/p>\n<p>Numa das ruas desse humilde arrebalde, antes trilho que mesmo rua, em que as \u00e1guas cavaram sulcos caprichosos, todo ele bordado de maric\u00e1s que, quando floriam, tocavam-se de flocos brancos, morava em um barrac\u00e3o dona Felismina.<\/p>\n<p>O \u201cbarrac\u00e3o\u201d \u00e9 uma esp\u00e9cie arquitet\u00f4nica muito curiosa e muito especial \u00e0quelas paragens da cidade. N\u00e3o \u00e9 a nossa conhecida choupana de sap\u00ea e de paredes \u201ca sopapos\u201d. \u00c9 menos e \u00e9 mais. \u00c9 menos, porque em geral \u00e9 menor, com muito menos acomoda\u00e7\u00f5es; e mais, porque a cobertura \u00e9 mais civilizada; \u00e9 de zinco ou de telhas. H\u00e1 duas esp\u00e9cies. Em uma, as paredes s\u00e3o feitas de t\u00e1buas; \u00e0s vezes, verdadeiramente t\u00e1buas; em outras, de peda\u00e7os de caix\u00f5es. A esp\u00e9cie, mais aparentada com o nosso \u201crancho\u201d roceiro, possui as paredes como este: s\u00e3o de taipa. Estes \u00faltimos s\u00e3o mais baixos e a vegeta\u00e7\u00e3o das bordas das ruas e caminhos os dissimula, aos olhos dos transeuntes; mas aqueles t\u00eam mais porte e n\u00e3o se envergonham de ser vistos. H\u00e1 alguns com dois aposentos; mas quase sempre, tanto os de uma como de outra esp\u00e9cie, s\u00f3 possuem um. A cozinha \u00e9 feita fora, sob um telheiro tosco, um puxado no telhado da edifica\u00e7\u00e3o, para aproveitar o abrigo de uma das paredes da barraca; e tudo cercado do mais desolador abandono. Se o morador cria galinhas, elas vivem soltas, dormem nas \u00e1rvores, misturam-se com as dos vizinhos e, por isso, provocam rixas violentas entre as mulheres e maridos, quando disputam a posse dos ovos.<\/p>\n<p>Por vezes, no fundo, na frente ou aos lados deles, h\u00e1 uma \u00e1rvore de mais vulto: um cajueiro, um mamoeiro, uma pitangueira, uma jaqueira, uma laranjeira; mas nenhum sinal de amanho do terreno, de tentativa de cultura, a n\u00e3o ser um canteirozinho com uns p\u00e9s de manjeric\u00e3o ou alecrim. Isto \u00e0s vezes; e, \u00e0s vezes tamb\u00e9m, uma touceira de bananeira.<\/p>\n<p>A guaxima cresce, e o capim, e a vassourinha, e o carrapicho e outros arbustos silvestres e tenazes.<\/p>\n<p>O barrac\u00e3o de dona Felismina era de um s\u00f3 aposento, mas o da vizinha, dona Emerenciana, tinha dous. Eram ambos da primeira esp\u00e9cie. Dona Emerenciana era casada com o senhora Romualdo, servente ou coisa que o valha em uma depend\u00eancia da grande oficina do Trajano. Era preta como dona Felismina e honesta como ela. Defronte ficava a resid\u00eancia da Ant\u00f4nia, uma rapariga branca, com dois filhos pequenos, sempre sujos e rotos. A sua resid\u00eancia era mais modesta: as paredes do seu barraco eram de taipa.<\/p>\n<p>A vizinhan\u00e7a, ao mesmo tempo que falava dela, tinha-lhe piedade:<\/p>\n<p>\u2014 Coitada! Uma desgra\u00e7ada! Uma perdida!<\/p>\n<p>Era bem nova ela, mas fanada pelo sofrimento e pela mis\u00e9ria. Com os seus vinte e poucos anos de idade, de boas fei\u00e7\u00f5es, mesmo delicadas, a sua hist\u00f3ria devia ser a triste hist\u00f3ria de todas essas raparigas por a\u00ed\u2026<\/p>\n<p>Mal comendo, ela e os filhos; mal tendo com que se cobrir, todas as manh\u00e3s, quando sa\u00eda a comprar um pouco de caf\u00e9 e a\u00e7\u00facar, na venda do Antunes, e, na padaria do Camargo, um p\u00e3o \u2014 que lhe teria custado, quem sabe! que profunda prova\u00e7\u00e3o no seu pudor de mulher, para ganh\u00e1-lo \u2014 n\u00e3o se esquecia nunca de colher pelo caminho uns \u201cboas-noites\u201d, umas flores de mel\u00e3o-de-s\u00e3o-caetano, de pinh\u00e3o, de quaresma, de manac\u00e1s, de maric\u00e1s \u2014 o que encontrasse \u2013 para enfeitar-se ou traz\u00ea-las nas m\u00e3os, em ramilhete.<\/p>\n<p>Todos da rua dos Maric\u00e1s \u2014 era este o nome daquele trilho de Inha\u00fama \u2014 conheciam-lhe a vida, mas com a piedade e compaix\u00e3o pr\u00f3prias \u00e0 ternura do cora\u00e7\u00e3o do povo humilde pela desgra\u00e7a, tratavam-na como outra fosse ela e a socorriam nas suas horas de maiores afli\u00e7\u00f5es. S\u00f3 o Antunes, o da venda, com o seu empedernido cora\u00e7\u00e3o de futuro grande burgu\u00eas, \u00e9 que dizia, se lhe perguntavam quem era:<\/p>\n<p>\u2014 Uma vagabunda.<\/p>\n<p>Dona Felismina gozava de toda a considera\u00e7\u00e3o nas cercanias e at\u00e9 de cr\u00e9dito, tanto no Antunes, como no Camargo da padaria. Al\u00e9m de lavar para fora, tinha uma pequena pens\u00e3o que lhe deixara o marido, guarda-freios da Central, morto em um desastre. Era uma preta de meia-idade, mas j\u00e1 sem atrativo algum. Tudo nela era dependurado e todas as suas carnes, fl\u00e1cidas. Lavava todo o dia e todo o dia vivia preocupada com o seu humilde mister. Ningu\u00e9m lhe sabia uma falta, um desgarro qualquer, e todos a respeitavam pela sua honra e virtude. Era das pessoas mais estimadas da ruela e todos depositavam na humilde crioula a maior confian\u00e7a. S\u00f3 a Baiana tinha-a mais. Esta, por\u00e9m, era \u201crica\u201d. Morava em uma das poucas casas de tijolo da rua dos Espinhos, casa que era dela. Vendedora de angu, em outros tempos, conseguira juntar alguma coisa e adquirira aquela casita, a mais bem tratada da rua. Tinha \u201chomem\u201d enquanto lhe servia; e, quando ele vinha aborrec\u00ea-la mandava-o embora, mesmo a cabo de vassoura. Muito en\u00e9rgica e animosa, possu\u00eda uma piedade contida que se revelou perfeitamente numa aventura curiosa de sua vida. Uma manh\u00e3, havia cinco ou seis anos, saindo com o seu tabuleiro de angu, encontrou em uma cal\u00e7ada um embrulho um tanto grande. Arriou o tabuleiro e foi ver o que era. Era uma crian\u00e7a, branca \u2014 uma menina. Deu os passos necess\u00e1rios e criava a crian\u00e7a, que, nas imedia\u00e7\u00f5es, era conhecida por \u201cBaianinha\u201d. E, ao ir \u00e0s compras na venda, o caixeiro lhe dizia por brincadeira:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cBaianinha\u201d, tua m\u00e3e \u00e9 negra.<\/p>\n<p>A pequena arrufava-se e respondia com indigna\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2014 Negra \u00e9 tu, \u201cseu\u201d burro!<\/p>\n<p>A Baiana, por\u00e9m, era \u201crica\u201d, estava mais distante. Dona Felismina, por\u00e9m, ficava mais pr\u00f3ximo da vida de toda aquela gente da rua. Os seus conselhos eram ouvidos e procurados, e os seus rem\u00e9dios eram aceitos como se partissem da prescri\u00e7\u00e3o de um doutor. Ningu\u00e9m como ela sabia dar um ch\u00e1 conveniente, nem aconselhar em casos de diss\u00eddias dom\u00e9sticas. Detestava a feiti\u00e7aria, os bruxedos, os macumbeiros, com as suas orgias e barulhadas; mas, inclinava-se para o espiritismo, frequentando as sess\u00f5es do \u201cseu\u201d Frederico, um antigo colega do seu marido, mas branco, que morava adiante, um pouco acima. Al\u00e9m da medicina de ch\u00e1s e tisanas, ela aconselhava \u00e0quela gente os medicamentos homeop\u00e1ticos. A beladona, o ac\u00f4nito, a bri\u00f4nia, o s\u00falfur, eram os seus rem\u00e9dios preferidos e quase sempre os tinha em casa, para o seu uso e dos outros.<\/p>\n<p>Certa vez salvou um dos filhos da Ant\u00f4nia de uma convuls\u00e3o e esta lhe ficou t\u00e3o grata que chegou a prometer que se emendaria.<\/p>\n<p>Dona Felismina morava com o seu filho Jos\u00e9, o Zeca, um pretinho de pele de veludo, macia de acariciar o olhar, com a carapinha sempre aparada pelos cuidados da m\u00e3o de sua m\u00e3e, e tamb\u00e9m com as roupas sempre limpas, gra\u00e7as tamb\u00e9m aos cuidados dela.<\/p>\n<p>Tinha todos os tra\u00e7os de sua ra\u00e7a, os bons e os maus; e muita do\u00e7ura e tristeza vaga nos pequenos olhos que quase ficavam no mesmo plano da testa estreita.<\/p>\n<p>Era-lhe este seu filho o seu bra\u00e7o direito, o seu \u00fanico esteio, o arrimo de sua vida com os seus nove ou dez anos de idade. Doce, resignado, e obediente, n\u00e3o havia ordem de sua m\u00e3e que ele n\u00e3o cumprisse religiosamente. De manh\u00e3, o seu encargo era levar e trazer a roupa dos fregueses; e ele carregava os tabuleiros de roupa e trazia as trouxas; sem o mais pequeno desvio de caminho. Se ia \u00e0 casa do \u201cseu\u201d Carvalho, ia at\u00e9 l\u00e1, entregava ou recebia a roupa e voltava sem fazer a menor traquinada, a menor escapada de crian\u00e7a por aquelas ruas que s\u00e3o mais estradas que rua mesmo. Almo\u00e7ava e a m\u00e3e quase sempre precisava:<\/p>\n<p>\u2014 Zeca, vai \u00e0 venda e traz dois tost\u00f5es de sab\u00e3o \u201cregador\u201d.<\/p>\n<p>Na venda, entre todo aquele pessoal t\u00e3o especial e curioso das vendas suburbanas: carroceiros, verdureiros, carvoeiros, de passagens; habitues do parati, como os h\u00e1 na cidade de chope; conversadores da vizinhan\u00e7a, gente sem ter que fazer que n\u00e3o se sabe como vive, mas que vive honestamente; um ou outro degradado da sua condi\u00e7\u00e3o anterior ou nascimento \u2014 entre toda essa gente, Zeca era mais imperioso e gritava:<\/p>\n<p>\u2014 Caixeiro, \u201cmi\u201d serve j\u00e1 dois tost\u00f5es de sab\u00e3o \u201cregador\u201d!<\/p>\n<p>Se o caixeiro estava atendendo \u00e0 dona Aninha, mulher do servente dos tel\u00e9grafos, Fortes, e n\u00e3o vinha atend\u00ea-lo logo, Zeca insistia, fingindo-se irritado:<\/p>\n<p>\u2014 \u201cMi despache\u201d, caixeiro! dois tost\u00f5es de sab\u00e3o \u201cregador\u201d.<\/p>\n<p>\u201cSeu\u201d Eduardo, o caixeiro, que era bom e habituado a suportar a insol\u00eancia dos pequenos que v\u00e3o \u00e0s compras, fazia docemente:<\/p>\n<p>\u2014 Espere, menino. Voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea que estou servindo, aqui, a dona Aninha!<\/p>\n<p>A m\u00e3e tinha vontade de p\u00f4-lo no col\u00e9gio; ela sentia a necessidade disso todas \u00e0s vezes que era obrigada a somar os r\u00f3is. N\u00e3o sabendo ler, escrever e contar, tinha que pedir a \u201cseu\u201d Frederico, aquele \u201cbranco\u201d que fora colega de seu marido. Mas, pondo-o no col\u00e9gio, quem havia de levar-lhe e trazer-lhe a roupa? Quem havia de fazer-lhe as compras?<\/p>\n<p>\u00c0 tarde, Zeca descansava, brincava com as crian\u00e7as do lugar um pouco; mas, ao anoitecer, j\u00e1 estava perto da m\u00e3e que remendava a roupa dos fregueses, \u00e0 luz do lampi\u00e3o de querosene, cuja fuma\u00e7a enegrecia o zinco do teto do barrac\u00e3o.<\/p>\n<p>Se bem fosse com a m\u00e3e todos os meses receber a m\u00f3dica pens\u00e3o que o pai deixara, na Caixa dos Guarda\u2014 Freios, o seu sonho n\u00e3o era viver no centro da cidade, nas suas ruas brilhantes, cheias de bondes, autom\u00f3veis, carro\u00e7as e gente. Zeca desprezava aquilo tudo. O seu sonho era o Engenho de Dentro e o seu cinema. Ter dinheiro, para ir sempre a ele, ver-lhe instantemente as \u201cfitas\u201d que os grandes cartazes anunciavam e o t\u00edmpano a soar continuamente insistia no convite de v\u00ea-las. Quando sua m\u00e3e permitia, aos domingos, com outra crian\u00e7a ajuizada da vizinhan\u00e7a, ia at\u00e9 \u00e0 esta\u00e7\u00e3o, at\u00e9 l\u00e1, defronte do fascinante cinema. Encostava-se, ent\u00e3o, \u00e0 grade da estrada de ferro e ficava a olhar, no alto, minutos a fio, aqueles grandes pain\u00e9is, cheios de grandes figuras, deslumbrantes na sua cercadura de l\u00e2mpadas el\u00e9tricas, como se tudo aquilo fosse uma promessa de felicidade. Como atingiria aquilo? O c\u00e9u talvez n\u00e3o fosse mais belo\u2026 Em cima dos seus tamancos domingueiros, com o terno de casimira que a caridade do coronel Castro lhe dera, e a tesoura de sua m\u00e3e adaptara a seu corpo, ele, fascinado, n\u00e3o pensava sen\u00e3o naquele cinema brilhante de luzes e apinhado de povo. Nem o apito dos trens o distra\u00eda e s\u00f3 a passagem dos bondes el\u00e9tricos aborrecia-o um pouco, por lhe tirar a vista do divertimento. N\u00e3o tinha inveja dos que entravam; o que ele queria era entrar tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Como havia de ser uma \u201cfita\u201d? As mo\u00e7as se moviam sob luzes? Como faziam-nas grandes, parecidas? Como apareciam os homens tal e qual? As \u00e1rvores e as ruas? E sem falar, como \u00e9 que tudo aquilo falava?<\/p>\n<p>Podia ter dinheiro para ir, pois, em geral, sempre os fregueses de sua m\u00e3e lhe davam um n\u00edquel ou outro; mas, mal os apanhava, levava-os \u00e0 m\u00e3e que sempre andava necessitada deles, para a compra do trincal, do polvilho, do sab\u00e3o e mesmo para a comida que comiam. Distra\u00ed-los com o cinema seria feio e ingratid\u00e3o para com a sua m\u00e3e. Um dia havia de ir ao cinema, sem sacrific\u00e1-la, sem engan\u00e1-la, como mau filho. Ele n\u00e3o o era como o Carlos que furtava os do pr\u00f3prio pai\u2026<\/p>\n<p>Zeca, por seu procedimento, pela sua dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e, era muito estimado de todos e todos lhe davam gratifica\u00e7\u00f5es, gorjetas, balas, frutas, quando ia entregar ou buscar a roupa.<\/p>\n<p>Muitos se interessavam com a m\u00e3e, para p\u00f4-lo em um recolhimento, em um asilo; ela, por\u00e9m, embora quisesse v\u00ea-lo sabendo ler, sempre objetava, e com raz\u00e3o, a necessidade que tinha dos seus servi\u00e7os, pois era este seu \u00fanico filho o bra\u00e7o direito dela, seu \u00fanico aux\u00edlio, o seu \u00fanico \u201chomem\u201d.<\/p>\n<p>Uma vez quase cedeu. O seu\u201d Castro, o coronel, empregado aposentado da alf\u00e2ndega, conhecido em Inha\u00fama pelo seu g\u00eanio benfazejo e seu infort\u00fanio com os filhos e filhas, viera-lhe at\u00e9 \u00e0 sua pr\u00f3pria casa, at\u00e9 \u00e0quele barrac\u00e3o, naquela modesta rua, bordada de um lado e outro de sebes de maric\u00e1s e de \u201cpinh\u00e3o\u201d, e exp\u00f4s-lhe a que vinha. Dona Felismina respondeu-lhe com l\u00e1grimas nos olhos:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso, \u201cseu\u201d coronel; n\u00e3o posso\u2026 Como hei de viver sem ele? \u00c9 ele quem me ajuda\u2026 Sei bem que \u00e9 preciso aprender, saber, mas\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea vai l\u00e1 para casa, Felismina; e n\u00e3o precisa estar se matando.<\/p>\n<p>Titubeou a rapariga e o velho funcion\u00e1rio compreendeu, pois desde h\u00e1 muito j\u00e1 tinha compreendido, na gente de cor, especialmente nas negras, esse amor, esse apego \u00e0 casa pr\u00f3pria, \u00e0 sua choupana, ao seu rancho, ao seu barrac\u00e3o \u2014 uma esp\u00e9cie de protesto de posse contra a depend\u00eancia da escravid\u00e3o que sofreram durante s\u00e9culos. Apesar da recusa, o coronel Castro, em quem a idade e as desgra\u00e7as dom\u00e9sticas tinham mais enchido de bondade o seu cora\u00e7\u00e3o naturalmente bom, nunca deixou de interessar-se pela crian\u00e7a, que o penalizava excessivamente. A sua meiguice, a sua resigna\u00e7\u00e3o, aquele \u00e1rduo trabalho di\u00e1rio para a sua idade eram motivos para que o velho e tristonho aposentado sempre a olhasse com a mais extremada simpatia. Quando o pretinho ia \u00e0 sua casa levar-lhe a sua ou a roupa das filhas, dava-lhe sempre qualquer coisa, puxava-lhe a l\u00edngua, perguntava-lhe pelas suas necessidades.<\/p>\n<p>Certo dia, em come\u00e7o do ano, o pequeno Zeca chegou-lhe em casa com a fisionomia um tanto transtornada. Parecia ter chorado e muito. O coronel, homem para quem, como disse um s\u00e1bio, n\u00e3o havia nada insignificante e desprez\u00edvel que pudesse causar dor ou prazer \u00e0 mais humilde criatura, que n\u00e3o merecesse a aten\u00e7\u00e3o do fil\u00f3sofo \u2014 o coronel interrogou-o sobre o motivo de sua m\u00e1goa.<\/p>\n<p>\u2014 Foi tua m\u00e3e?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, \u201cseu\u201d coronel.<\/p>\n<p>\u2014 Que foi, ent\u00e3o, Zeca?<\/p>\n<p>O pequeno n\u00e3o quis dizer e n\u00e3o cessava de olhar o ch\u00e3o, de encar\u00e1-lo, de crav\u00e1-lo, de cav\u00e1-lo, de enterrar toda a sua vida nele. Zeca estava na varanda de uma velha casa de fazenda, como ainda as h\u00e1 muito por l\u00e1, varanda em parapeito e colunas, no cl\u00e1ssico estilo dessas velhas habita\u00e7\u00f5es; o coronel nela tamb\u00e9m estava lendo os jornais, na cadeira de balan\u00e7o, e s\u00f3 deixara a leitura quando avistou o pequeno que subia a ladeira com o tabuleiro de roupa \u00e0 cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>A atitude do pequeno, a sua recusa em confessar o motivo do seu choro e o seu todo de desalento fizeram que o velho funcion\u00e1rio, j\u00e1 por ternura natural, j\u00e1 por bondosa curiosidade, procurasse a causa da dor que feria t\u00e3o profundamente aquela crian\u00e7a t\u00e3o pobre, t\u00e3o humilde, t\u00e3o desgra\u00e7ada, quase miser\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u2014 Dize, Zeca. Dize que eu te darei uma vestimenta de \u201cdiabinho\u201d no Carnaval que est\u00e1 a\u00ed.<\/p>\n<p>O pretinho levantou a cabe\u00e7a e olhou com um grande e brusco olhar de agradecimento, de comovido agradecimento \u00e0quele velho de t\u00e3o belos cabelos brancos.<\/p>\n<p>Confessou; e Castro nada disse a ningu\u00e9m da humilde e ing\u00eanua confiss\u00e3o do pretinho Zeca.<\/p>\n<p>Aproximou-se o Carnaval; e, quando foi s\u00e1bado, v\u00e9spera dele, dona Felismina retirou mais cedo dos arames a roupa branca que estivera a secar.<\/p>\n<p>Atarefada com esse servi\u00e7o, ela n\u00e3o viu que o seu filho entrara-lhe pelo barrac\u00e3o adentro, sobra\u00e7ando um embrulho guizalhante e um outro, com rasg\u00f5es no papel, por onde sa\u00edam recurvados chifres e uma formid\u00e1vel l\u00edngua vermelha. Era uma horr\u00edvel m\u00e1scara de \u201cdiabo\u201d.<\/p>\n<p>Dona Felismina veio para o interior do barrac\u00e3o; e p\u00f4s-se a arrumar a roupa seca ou corada. Zeca, distra\u00eddo, no outro extremo do aposento, n\u00e3o a viu entrar e, julgando-a l\u00e1 fora, desembrulhou os apetrechos carnavalescos. Sobre a humilde e tosca mesa de pinho estendeu uma rubra vestimenta de ganga rala e uma m\u00e1scara apavorante de olhos esbugalhados, l\u00edngua retorcida e chifres agressivos, apareceu t\u00e3o amedrontadora que se o pr\u00f3prio diabo a visse teria medo.<\/p>\n<p>A m\u00e3e, ao barulho dos guizos, virou-se, e, vendo aquilo, ficou subitamente cheia de m\u00e1s suspeitas:<\/p>\n<p>\u2014 Zeca, que \u00e9 isso?<\/p>\n<p>Uma vis\u00e3o dolorosa lhe chegou aos olhos, da casa de deten\u00e7\u00e3o, das suas grades, dos seus muros altos\u2026 Ah! meu Deus! Antes uma boa morte!\u2026 E repetiu ainda mais severamente:<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isso, Zeca? Onde voc\u00ea arranjou isso?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o\u2026 mam\u00e3e\u2026 n\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea roubou, meu filho?\u2026 Zeca, meu filho! Pobre, sim; mas ladr\u00e3o, n\u00e3o! Ah! meu Deus!\u2026 Onde voc\u00ea arranjou isso, Zeca?<\/p>\n<p>A pobre mulher quase chorava e o pequeno, transido de medo e com a como\u00e7\u00e3o diante da dor da m\u00e3e, balbuciava, titubeava e as palavras n\u00e3o lhe vinham. Afinal, disse:<\/p>\n<p>\u2014 Mas\u2026 mam\u00e3e\u2026 n\u00e3o foi assim\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Como foi? Diz!<\/p>\n<p>\u2014 Foi \u201cseu\u201d Castro quem me deu. Eu n\u00e3o pedi\u2026<\/p>\n<p>Dona Felismina sossegou e o pequeno tamb\u00e9m. Passados instantes, ela perguntou com outra voz:<\/p>\n<p>\u2014 Mas para que voc\u00ea quer isso? Antes tivesse dado a voc\u00ea umas camisas\u2026 Para que essas bobagens? Isso \u00e9 para gente rica, que pode. Enfim\u2026<\/p>\n<p>\u2014 Mas, mam\u00e3e, eu aceitei, porque precisava.<\/p>\n<p>\u2014 Disto! Ningu\u00e9m precisa disto! Precisa-se de roupa e comida\u2026 Isto s\u00e3o tolices!<\/p>\n<p>\u2014 Eu precisava, sim senhora.<\/p>\n<p>\u2014 Como, voc\u00ea precisava?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o lhe contei que h\u00e1 meses, diversas vezes, quando passava, para ir \u00e0 casa de dona Ludovina, diante do port\u00e3o do capit\u00e3o Albuquerque, os meninos gritavam: \u00f3 moleque! \u2014 \u00f3 moleque! \u2013 o negro! \u2014 \u00f3 gibi!? N\u00e3o lhe contei?<\/p>\n<p>\u2014 Contou-me; e da\u00ed?<\/p>\n<p>\u2014 Por isso quando o coronel me prometeu a fantasia, eu aceitei.<\/p>\n<p>\u2014 Que tem uma coisa com a outra?<\/p>\n<p>\u2014 Queria amanh\u00e3 passar por l\u00e3 e meter medo aos meninos que me vaiaram.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) foi um importante escritor e jornalista pr\u00e9-modernista brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, conhecido por sua cr\u00edtica social contundente. Filho de ex-escravizados, enfrentou racismo e dificuldades financeiras, utilizando sua literatura para retratar a pobreza, a exclus\u00e3o suburbana e as contradi\u00e7\u00f5es da Primeira Rep\u00fablica. Autor de obras marcantes como <em>Triste Fim de Policarpo Quaresma<\/em>, destacou-se por um estilo direto que denunciava as desigualdades de sua \u00e9poca.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reclus, na sua Geografia Universal tratando do Brasil, notava a necessidade de conservarmos os nomes tupis dos lugares de uma terra. 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