{"id":393384,"date":"2026-05-03T00:47:40","date_gmt":"2026-05-03T03:47:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=393384"},"modified":"2026-05-03T00:52:32","modified_gmt":"2026-05-03T03:52:32","slug":"ponte-que-une-margens-e-como-porta-para-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ponte-que-une-margens-e-como-porta-para-futuro\/","title":{"rendered":"Ponte que une margens \u00e9 como porta para futuro"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 quem conte a vida por datas. Eu, olhando com algum cuidado, percebo que fui contando pelas travessias.<\/p>\n<p>Recife foi meu primeiro mapa. E nele, as pontes n\u00e3o tinham nada de cen\u00e1rio contemplativo. Eram passagem obrigat\u00f3ria, quase um gesto autom\u00e1tico do dia a dia. Eu atravessava sem pensar muito, como quem resolve o trajeto e segue a vida.<\/p>\n<p>S\u00f3 bem depois \u00e9 que entendi que aquilo j\u00e1 era um tipo de aprendizado. Ir de um lado a outro sem muita garantia de como se chega. E, principalmente, sem a menor no\u00e7\u00e3o de que, ao voltar, j\u00e1 n\u00e3o se \u00e9 exatamente o mesmo.<\/p>\n<p>Mas Recife n\u00e3o come\u00e7ou comigo. Muito antes de eu chegar ali, algu\u00e9m j\u00e1 tinha entendido que aquela cidade s\u00f3 faria sentido se fosse conectada. Maur\u00edcio de Nassau, l\u00e1 atr\u00e1s, tratou de unir margens quando tudo ainda era separa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o como quem faz uma obra apenas, mas como quem antecipa uma ideia de cidade.<\/p>\n<p>As pontes depois vieram em sequ\u00eancia, de ferro, de concreto, de rotina. Eu cresci no meio delas sem perceber que carregava um pouco dessa l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Na adolesc\u00eancia, elas come\u00e7aram a ganhar outro peso. Viraram ponto de encontro, cen\u00e1rio de conversas que pareciam decisivas demais para a pouca idade. Algumas eram mesmo importantes. Outras, nem tanto. Mas, na hora, tudo parecia definitivo.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia veio depois, com outro tipo de sil\u00eancio. Outra escala. Outro tempo. E foi ali que eu vi uma ponte nascer.<\/p>\n<p>A Ponte JK n\u00e3o chegou pronta na minha hist\u00f3ria. Eu acompanhei aquele tra\u00e7o sair do papel, ganhar forma, ocupar espa\u00e7o. Talvez por isso ela nunca tenha sido s\u00f3 um caminho.<\/p>\n<p>Havia algo de ousado naquele desenho. Uma certa recusa em aceitar o \u00f3bvio, como se dissesse que liga\u00e7\u00e3o entre margens n\u00e3o precisa ser burocr\u00e1tica. Obras assim atravessam governos, mas acabam sendo associadas a quem estava ali quando ganharam forma. O nome de Joaquim Roriz, de alguma maneira, ficou ligado a esse momento em que Bras\u00edlia expandia n\u00e3o s\u00f3 seu territ\u00f3rio, mas tamb\u00e9m suas possibilidades.<\/p>\n<p>E isso muda o jeito de olhar para o outro lado.<\/p>\n<p>Mais recentemente, outra ponte entrou no meu campo de vis\u00e3o. N\u00e3o como mem\u00f3ria pessoal, mas como testemunho.<\/p>\n<p>A Ponte da Vit\u00f3ria, no Paran\u00e1, ligando Guaratuba a Matinhos, carrega um peso diferente. N\u00e3o \u00e9 uma travessia \u00edntima. \u00c9 quase uma repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mais de 60 anos de espera n\u00e3o cabem em uma obra s\u00f3. Mas deixam marca em tudo o que vem depois dela. Ali n\u00e3o se trata apenas de encurtar caminho. Trata-se de resolver um atraso que foi sendo empurrado de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, como se sempre pudesse esperar mais um pouco.<\/p>\n<p>Dessa vez, n\u00e3o esperou.<\/p>\n<p>E, como acontece com obras dessa dimens\u00e3o, o tempo vai tratar de guardar tamb\u00e9m o nome de quem estava \u00e0 frente quando ela finalmente saiu do papel. Ratinho Junior, inevitavelmente, ficar\u00e1 associado a essa travessia que por d\u00e9cadas foi promessa e agora virou caminho.<\/p>\n<p>E isso talvez seja o que mais me chama aten\u00e7\u00e3o agora. As pontes que marcaram minha vida foram r\u00e1pidas, naturais, quase inconscientes. Essas outras n\u00e3o. Elas foram constru\u00eddas na insist\u00eancia. Na paci\u00eancia de quem j\u00e1 nem acreditava tanto, mas continuava esperando assim mesmo.<\/p>\n<p>No fim, todas acabam dizendo algo parecido, ainda que cada uma \u00e0 sua maneira.<\/p>\n<p>A vida dificilmente se acomoda em uma \u00fanica margem. E, quando a gente percebe, j\u00e1 est\u00e1 atravessando de novo. Sem muita cerim\u00f4nia. Sem certeza de nada.<\/p>\n<p>Mas indo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 quem conte a vida por datas. Eu, olhando com algum cuidado, percebo que fui contando pelas travessias. Recife foi meu primeiro mapa. E nele, as pontes n\u00e3o tinham nada de cen\u00e1rio contemplativo. Eram passagem obrigat\u00f3ria, quase um gesto autom\u00e1tico do dia a dia. 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