{"id":393409,"date":"2026-05-06T01:15:47","date_gmt":"2026-05-06T04:15:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=393409"},"modified":"2026-05-03T13:59:24","modified_gmt":"2026-05-03T16:59:24","slug":"a-fatura-do-desejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/a-fatura-do-desejo\/","title":{"rendered":"A FATURA DO DESEJO"},"content":{"rendered":"<p>Rodrigo instalou um aplicativo de paquera. Ele, em princ\u00edpio, achou isso rid\u00edculo e aderiu mais porque os amigos insistiram. Afinal, estava farto de ficar sozinho, sua vida era de casa para o trabalho e do trabalho para casa. Escolheu suas melhores fotos, os \u00e2ngulos mais favor\u00e1veis, a roupa que ca\u00eda bem, o rosto viril e solar. Desprezou v\u00e1rias onde ele aparecia de olheiras, abatido, por conta de longos ser\u00f5es no trabalho, e ainda aquela tirada na praia, nas \u00faltimas f\u00e9rias, porque n\u00e3o se sentia seguro com a barriguinha \u00e0 mostra.<\/p>\n<p>Nada custava dar uma chance \u00e0 novidade. Mas logo percebeu que custava sim. Fez o upgrade para a vers\u00e3o paga do aplicativo, j\u00e1 pensando em mais uma conta que viria na fatura do cart\u00e3o de cr\u00e9dito&#8230; A vers\u00e3o gratuita s\u00f3 permitia conversar quando a curtida era m\u00fatua. E ele queria saber, antes, quem havia visitado e gostado de seu perfil.<\/p>\n<p>As op\u00e7\u00f5es eram muitas. Era s\u00f3 deslizar o dedo sobre a tela. Entre fotos sorridentes, s\u00e9rias, com o sem \u00f3culos, que focavam no rosto ou j\u00e1 mostravam o corpo inteiro, na balada, na piscina ou na praia, o que o impressionou foi como todos os rostos, sem exce\u00e7\u00e3o, se mostravam felizes. As pessoas, ali, eram mais jovens, mais din\u00e2micas. Todas pareciam ter seus problemas existenciais resolvidos, e estavam prontos para aventuras rom\u00e2nticas de tirar o f\u00f4lego.<\/p>\n<p>Rodrigo tamb\u00e9m ficou pensativo como aventuras e esportes radicais, trilhas na montanha e saltos de paraquedas pareciam ser as atividades preferidas de nove entre dez mo\u00e7as.<\/p>\n<p>Logo come\u00e7ou a receber curtidas e curtir tamb\u00e9m. E vieram os assuntos.<\/p>\n<p>Vanessa, a m\u00e9dica radiologista que tinha dois filhos e jogava v\u00f4lei no condom\u00ednio. Camila, a publicit\u00e1ria divorciada que amava m\u00fasica, tinha pets ex\u00f3ticos e dirigia um carrinho de dois lugares. Zena, a artista \u00edtalo-brasileira que pintava aquarelas. Fernanda, a professora que s\u00f3 tinha fotos de seu belo rosto e deixava um rastro de mist\u00e9rio no ar.<\/p>\n<p>Ficaram ali, conversando por semanas. Primeiro no aplicativo pago, depois trocando n\u00famero de telefone e se falando fora dele. Assuntos \u00edntimos, prefer\u00eancias, rotina, sonhos, desejos&#8230; Mas sempre, de parte a parte, mantendo as milimetricamente calculadas barreiras de um personagem constru\u00eddo para agradar o interlocutor.<\/p>\n<p>Logo a conversa com Vanessa esfriou. A m\u00e9dica queria muito que se encontrassem, mas que fosse num evento do condom\u00ednio onde ela morava, com a turma do v\u00f4lei. Fariam um churrasco naquele fim de semana, havia pressa para confirmar a presen\u00e7a de Rodrigo, o n\u00famero de participantes iria orientar as compras. Ela declinara sutilmente de todos os convites anteriores para que sa\u00edssem apenas os dois, e insistia no churrasco. Rodrigo entendeu que ela se sentiria mais segura se, da primeira vez que se vissem, houvesse mais pessoas em volta. Mas a ideia o deixava pouco \u00e0 vontade, e afinal ele n\u00e3o foi ao evento. Pararam de conversar poucos dias depois.<\/p>\n<p>Com Camila, a hist\u00f3ria foi diferente. Ela come\u00e7ou a ficar mais intensa a cada dia, declarou-se apaixonada por Rodrigo, convidou-o para ir na casa dela, de noite, para tomarem um vinho e conversarem sobre m\u00fasica, campo em que tinham muito em comum. Mas Rodrigo, sem admitir, ficou um pouco assustado com a insist\u00eancia, e, sobretudo, com a facilidade com que ela abriria a porta de casa para, no fundo, um completo estranho. Preferiu p\u00f4r um freio no papo a se ver tomando vinho, de noite, na casa de uma desconhecida em meio a iguanas e texugos.<\/p>\n<p>Zena chegou a se encontrar com Rodrigo numa exposi\u00e7\u00e3o coletiva que fez nos jardins do Pal\u00e1cio do Catete. Ele a achou bel\u00edssima, interessante, educada. Tomaram um caf\u00e9, riram, prometeram-se repetir o programa. Mas os planos da mo\u00e7a mudaram, e ela resolveu voltar para a It\u00e1lia por um tempo, atr\u00e1s de uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em arte. Evitando sentirem saudade, encerraram algo antes de sequer come\u00e7ar.<\/p>\n<p>Com Fernanda, as coisas foram mais longe. Encontraram-se, primeiro, num shopping. Dali, sa\u00edram para caminhar na orla, onde as luzes da cidade se fundiam para criar um cen\u00e1rio fe\u00e9rico. A conversa foi melhor ainda que pelo celular, a identifica\u00e7\u00e3o, enorme. Gostavam das mesmas coisas, tinham feito as mesmas leituras. Quanto mais se viam, mais queriam estar perto um do outro. O interesse m\u00fatuo era genu\u00edno, ficavam \u00e0 vontade em sil\u00eancio um perto do outro. Chegaram a desinstalar o aplicativo.<\/p>\n<p>O fato de ela s\u00f3 postar fotos de rosto era por causa de uma certa vergonha que sentia \u2014 a professora simp\u00e1tica e inteligente, de conversas profundas e sobre qualquer assunto, estava um tanto acima do peso. Rodrigo n\u00e3o ligava. Ela, no entanto, ficava encanada com celulites, estrias no quadril e pequenos vasinhos que se sobressa\u00edam em suas coxas roli\u00e7as e muito brancas. Rodrigo, no entanto, achava-a muito sensual, e a desejava por causa de um mero movimento de sobrancelhas.<\/p>\n<p>Chegaram a ficar mais \u00edntimos em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Ele, contudo, custou a v\u00ea-la nua sob alguma claridade, porque Fernanda tinha muita vergonha de seu corpo. Ela chegava a n\u00e3o conseguir pensar numa rela\u00e7\u00e3o de longo prazo com Rodrigo, por causa dos tabus que o corpo, fora de um pretenso padr\u00e3o, estava sempre entre eles como uma barreira.<\/p>\n<p>Com as semanas, isso foi minando a paci\u00eancia de Rodrigo. De nada adiantaram as conversas que tiveram, a identifica\u00e7\u00e3o espontaneamente nascida, as coisas em comum, se Fernanda n\u00e3o se aceitava, se punha mil defeitos e n\u00e3o ficava \u00e0 vontade com o fato de ser desejada como ela era. Rodrigo preferiu n\u00e3o insistir na rela\u00e7\u00e3o que tendia a nascer, em vez de permanecer e convenc\u00ea-la, porque percebeu que o caso dependia de uma mudan\u00e7a na perspectiva de Fernanda sobre ela mesma.<\/p>\n<p>O fim n\u00e3o teve uma briga. Talvez por isso mesmo Rodrigo tenha sa\u00eddo da hist\u00f3ria com a impress\u00e3o de que nada muito grave acontecera. Foram mensagens espa\u00e7adas, respostas mais curtas, um telefonema adiado, depois outro. Fernanda, que antes lhe mandava \u00e1udios longos, \u00e0s vezes de madrugada, comentando um livro ou reclamando de alguma reuni\u00e3o pedag\u00f3gica, passou a escrever frases pequenas.<\/p>\n<p>Rodrigo tamb\u00e9m. Havia ali uma delicadeza de parte a parte, mas era uma delicadeza fria, quase burocr\u00e1tica, como se os dois assinassem, sem ler direito, o distrato de uma coisa que ainda nem tinha contrato.<\/p>\n<p>\u2014 Acho que a gente se encontrou numa hora complicada \u2014 ela disse, certa noite.<br \/>\nRodrigo concordou. Era uma frase confort\u00e1vel. Cabia em qualquer separa\u00e7\u00e3o sem culpados.<\/p>\n<p>\u2014 Tamb\u00e9m acho.<\/p>\n<p>N\u00e3o era exatamente mentira. Apenas n\u00e3o era toda a verdade.<\/p>\n<p>Depois disso, ficaram alguns dias sem se falar. Rodrigo pensou em procur\u00e1-la duas ou tr\u00eas vezes, mas n\u00e3o sabia mais o que dizer.<\/p>\n<p>Dizer que gostava dela de qualquer jeito parecia pouco. Dizer que queria ficar, desde que ela parasse de ter vergonha do pr\u00f3prio corpo, seria cruel. Dizer que n\u00e3o queria carregar a inseguran\u00e7a alheia tamb\u00e9m seria uma honestidade feia demais para ser dita.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o calou e nada foi posto \u00e0s claras.<\/p>\n<p>Numa sexta-feira qualquer, voltando do trabalho, preso no tr\u00e2nsito, reinstalou o aplicativo. Apertou alguns bot\u00f5es, recuperou a conta, escolheu de novo as fotos antigas, trocou apenas uma, na qual aparecia de camisa azul, num restaurante de ilumina\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel. O sistema perguntou se ele queria reativar a assinatura paga. Rodrigo hesitou um pouco, lembrando da fatura do cart\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois confirmou. Afinal, seria s\u00f3 por um m\u00eas.<\/p>\n<p>Novas possibilidades surgiram na tela. As mesmas fotos felizes, os mesmos sorrisos de gente que parecia acordar cedo para correr na praia, trabalhar com entusiasmo, viajar nos feriados, tomar vinho sem ressaca e rir da vida com os dentes branqu\u00edssimos. Rodrigo deslizou o dedo, ainda com um certo pudor, como se algu\u00e9m pudesse v\u00ea-lo por tr\u00e1s do banco do carro. Era curioso como a vergonha diminu\u00eda \u00e0 medida que surgiam as curtidas.<\/p>\n<p>Foi assim que apareceu Samara. Tinha vinte e oito anos, embora parecesse menos. Morena, cabelos muito lisos, olhos vivos, uma beleza sem esfor\u00e7o aparente. Nas fotos, surgia em praias de clar\u00edssimas \u00e1guas, bares badalados, espelhos de academia, elevadores, festas. Sorria de um jeito direto, atrevido. Na descri\u00e7\u00e3o, poucas palavras: \u201cintensa, livre, leonina, apaixonada por gente de verdade\u201d.<\/p>\n<p>Rodrigo achou gra\u00e7a naquilo de \u201cgente de verdade\u201d. Quase todo mundo no aplicativo dizia procurar gente de verdade. Ainda assim, curtiu.<\/p>\n<p>O retorno veio em segundos.<\/p>\n<p>\u2014 At\u00e9 que enfim voc\u00ea apareceu \u2014 ela escreveu.<\/p>\n<p>Rodrigo sorriu sozinho.<\/p>\n<p>\u2014 Eu que apareci?<\/p>\n<p>\u2014 Claro. Eu j\u00e1 tinha visto seu perfil. Estava esperando voc\u00ea tomar coragem.<\/p>\n<p>Era mentira, provavelmente. Mas uma mentira simp\u00e1tica, dessas que a vaidade agradece.<\/p>\n<p>Conversaram a noite inteira. Samara era r\u00e1pida, engra\u00e7ada, mordaz, um pouco debochada. Perguntava muito, respondia sem cerim\u00f4nia, mandava fotos do rosto rec\u00e9m-sa\u00eddo do banho, dos p\u00e9s, do copo de vinho, do gato da tia, de uma sand\u00e1lia nova. Dizia que detestava homem enrolado, que gostava de presen\u00e7a, de intensidade, de gente que assumia o que queria.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o tenho mais idade para perder tempo \u2014 ela disse.<\/p>\n<p>Rodrigo pensou que ela tinha idade, sim. Mas achou melhor n\u00e3o fazer piada.<\/p>\n<p>No s\u00e1bado, encontraram-se num bar em Botafogo. Samara chegou atrasada, perfumada, linda, usando um vestido simples que nela parecia escolhido por um departamento inteiro de figurino. Beijou Rodrigo no rosto, sentou-se perto demais, pediu desculpas pelo atraso sem parecer propriamente arrependida.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 melhor pessoalmente \u2014 ela disse.<\/p>\n<p>Rodrigo, que j\u00e1 havia dito e ouvido aquilo antes em vers\u00f5es menos convincentes, sentiu-se ridiculamente feliz.<\/p>\n<p>O encontro correu bem. Beberam, riram, falaram de viagens. Samara contou que j\u00e1 tinha morado em Florian\u00f3polis por tr\u00eas meses, em S\u00e3o Paulo por dois, em Buenos Aires por uma temporada, mas n\u00e3o se adaptara a lugar nenhum. Rodrigo perguntou no que ela trabalhava.<\/p>\n<p>\u2014 Agora estou entre projetos \u2014 ela respondeu.<\/p>\n<p>\u2014 Que projetos?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, v\u00e1rias coisas. Eu n\u00e3o sou muito de ficar presa a um lugar. J\u00e1 trabalhei com moda, com eventos, com marketing digital, com umas consultorias. Agora estou ajudando minha tia em umas coisas.<\/p>\n<p>\u2014 Sua tia?<\/p>\n<p>\u2014 Ela \u00e9 como se fosse minha m\u00e3e. Me ajuda muito. Mas eu quero muito ter minha independ\u00eancia. S\u00f3 n\u00e3o quero fazer qualquer coisa, sabe? Eu nasci para uma vida maior. Aqui \u00e9 puro brilho!<\/p>\n<p>Rodrigo n\u00e3o soube exatamente o que responder. Havia naquela frase qualquer coisa entre a ambi\u00e7\u00e3o e a pregui\u00e7a, mas o decote de Samara, suas unhas feitas e a maneira como ela o olhava e ria encostando a m\u00e3o em seu bra\u00e7o tiraram o peso da impress\u00e3o inicial.<\/p>\n<p>Depois do segundo encontro, ela passou a cham\u00e1-lo de amor.<\/p>\n<p>No come\u00e7o, Rodrigo estranhou. Depois gostou e embarcou nesse desconhecido arriscado. Havia uma facilidade em Samara que parecia compensar todas as dificuldades anteriores. Ela n\u00e3o tinha vergonha do corpo, pelo contr\u00e1rio, conhecia seus efeitos. Gostava de sexo, de beijo na rua, de dormir abra\u00e7ada, de fazer planos. Falava em viagens como quem escolhe sobremesa. Paris, Atenas, Fernando de Noronha, Lisboa, Tiradentes. Dizia que queria ter filhos, mas s\u00f3 se fosse com algu\u00e9m que tivesse cabe\u00e7a, estrutura, vis\u00e3o de futuro.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem cara de pai \u2014 disse uma vez, deitada no peito dele.<\/p>\n<p>\u2014 Isso \u00e9 elogio?<\/p>\n<p>\u2014 Depende. Pai rico \u00e9 elogio.<\/p>\n<p>Ela riu. Rodrigo tamb\u00e9m. Era brincadeira. Quase tudo, no come\u00e7o, era brincadeira.<\/p>\n<p>Samara queria v\u00ea-lo sempre. Durante a semana, quando Rodrigo sa\u00eda tarde do escrit\u00f3rio, ela mandava mensagem perguntando se ele j\u00e1 estava a caminho.<\/p>\n<p>\u2014 A caminho de onde?<\/p>\n<p>\u2014 Da minha saudade.<\/p>\n<p>Ele sorria, cansado, dentro do carro. Havia dias em que s\u00f3 queria tomar banho, comer qualquer coisa e dormir. Mas Samara fazia da recusa uma esp\u00e9cie de pequeno desamor.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea trabalha para viver ou vive para trabalhar?<\/p>\n<p>\u2014 Hoje eu estou morto.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o vem morrer dentro de mim.<\/p>\n<p>E ele ia.<\/p>\n<p>No primeiro m\u00eas, Rodrigo ainda se sentia escolhido. No segundo, come\u00e7ou a sentir-se convocado. No terceiro, percebeu que toda espontaneidade de Samara tinha endere\u00e7o, hor\u00e1rio e custo.<\/p>\n<p>A primeira cena que o incomodou de verdade aconteceu numa quinta-feira, num restaurante onde havia apresenta\u00e7\u00e3o de stand up comedy. Samara insistira muito. Dizia que precisavam sair da rotina, rir um pouco, viver como casal de verdade. Rodrigo chegou do trabalho com a camisa amarrotada e um cansa\u00e7o que parecia preso nos ombros. Ela j\u00e1 o esperava na porta, inteira, cheirosa, alegre demais para uma noite comum.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje voc\u00ea vai relaxar \u2014 disse, dando-lhe um beijo.<\/p>\n<p>A mesa ficava perto do pequeno palco. O comediante falava alto, fazia piadas sobre casamento, trai\u00e7\u00e3o, boleto, academia, sogra. O p\u00fablico ria com uma obedi\u00eancia estranha. Rodrigo tamb\u00e9m ria, \u00e0s vezes antes de entender, apenas para seguir o roteiro. Samara ria de cabe\u00e7a para tr\u00e1s, batendo nele de leve, como se tudo fosse muito mais engra\u00e7ado ao lado dela.<\/p>\n<p>Quando o gar\u00e7om trouxe a carta de vinhos, Rodrigo olhou rapidamente os pre\u00e7os. Pensou em pedir um vinho honesto, desses que n\u00e3o foram envelhecidos para humilham ningu\u00e9m. Samara tomou a carta de sua m\u00e3o com naturalidade.<\/p>\n<p>\u2014 Hoje eu quero um vinho bom.<\/p>\n<p>\u2014 Claro \u2014 ele disse.<\/p>\n<p>Ela apontou para um r\u00f3tulo chileno no alto da p\u00e1gina.<\/p>\n<p>\u2014 Esse aqui.<\/p>\n<p>Rodrigo viu o pre\u00e7o. Por um instante, achou que podia ter lido errado. O gar\u00e7om esperava.<\/p>\n<p>\u2014 Esse? \u2014 Rodrigo perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 U\u00e9, amor. Voc\u00ea n\u00e3o disse que hoje era para relaxar?<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o havia dito. Mas sorriu.<\/p>\n<p>\u2014 Pode ser.<\/p>\n<p>O comediante, naquele momento, fazia uma piada sobre homem que finge n\u00e3o olhar a conta no primeiro encontro. Todos riram. Rodrigo riu tamb\u00e9m, pensando onde a conta do aplicativo o havia levado.<\/p>\n<p>Samara bebeu duas ta\u00e7as, elogiou o vinho, tirou uma foto da garrafa e escreveu qualquer coisa no celular. Rodrigo pensou em perguntar para quem ela mandava, mas achou a pergunta pequena demais. Ao fim da noite, a conta veio numa pastinha preta. Ele abriu, fechou, abriu de novo. Samara falava sobre uma amiga que havia casado numa pousada em Angra.<\/p>\n<p>\u2014 Casamento de dia \u00e9 lindo, n\u00e9? Com o mar atr\u00e1s. Eu acho chique e simples ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Rodrigo passou o cart\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Quer sua via? \u2014 perguntou o gar\u00e7om.<\/p>\n<p>Rodrigo sentiu um al\u00edvio desproporcional. Como se o cart\u00e3o pudesse, naquele momento, absolv\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Depois disso, vieram outras coisas.<\/p>\n<p>Samara dizia que n\u00e3o gostava de presentes caros, mas mandava links. Bolsas, sapatos, vestidos, perfumes. \u201cOlha que lindo.\u201d \u201cMinha cara, n\u00e9?\u201d \u201cImagina eu usando isso com voc\u00ea.\u201d Nunca pedia diretamente. Era pior. Fazia Rodrigo participar da fantasia antes de chegar \u00e0 compra.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea ia gostar de me ver de lingerie com esse salto \u2014 disse uma noite.<\/p>\n<p>\u2014 Bonito.<\/p>\n<p>\u2014 Bonito s\u00f3?<\/p>\n<p>\u2014 Muito bonito.<\/p>\n<p>\u2014 Homem \u00e9 tudo desligado mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 O que voc\u00ea queria que eu dissesse?<\/p>\n<p>\u2014 Nada. Esquece.<\/p>\n<p>O \u201cesquece\u201d de Samara n\u00e3o esquecia. Ficava no ar, como perfume forte dentro de elevador.<\/p>\n<p>Ela tamb\u00e9m gostava de mot\u00e9is caros. N\u00e3o qualquer lugar, dizia. Tinha horror a quarto com espelho manchado, toalha \u00e1spera, ar-condicionado barulhento. Rodrigo, que antes teria achado a exig\u00eancia engra\u00e7ada, passou a calcular mentalmente as horas. Quatro horas. Seis horas. Pernoite. Su\u00edte com hidro. Su\u00edte tem\u00e1tica. Su\u00edte com vista. Samara tinha uma prefer\u00eancia especial pela que chamava de \u201cnossa su\u00edte\u201d, embora a conta nunca tivesse dividido com ele a intimidade do pronome.<\/p>\n<p>\u2014 Amor, voc\u00ea fica t\u00e3o tenso com dinheiro \u2014 ela disse certa madrugada, enquanto mexia no cabelo dele.<\/p>\n<p>\u2014 Eu s\u00f3 acho que a gente anda gastando demais.<\/p>\n<p>\u2014 Gastando ou vivendo?<\/p>\n<p>Rodrigo ficou calado.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem que parar com essa mentalidade de escassez \u2014 ela continuou. \u2014 Dinheiro vai e vem. Experi\u00eancias ficam.<\/p>\n<p>Ele quis responder que parcela e juros do cart\u00e3o tamb\u00e9m ficavam, pelo menos at\u00e9 os meses seguintes. N\u00e3o se animou a dizer nada.<\/p>\n<p>A tia de Samara, a certa altura, come\u00e7ou a aparecer mais nas conversas. Dona Marilene. Morava na Tijuca, tinha uma aposentadoria boa, ajudava a sobrinha com aluguel, mercado, sal\u00e3o, \u00e0s vezes com a presta\u00e7\u00e3o do celular. Samara falava disso sem vergonha, como quem relata uma quest\u00e3o administrativa da vida.<\/p>\n<p>\u2014 Ela implica porque acha que eu devia arrumar um emprego fixo.<\/p>\n<p>\u2014 E voc\u00ea acha que n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2014 Acho que eu preciso arrumar uma coisa que tenha a ver comigo.<\/p>\n<p>\u2014 O que tem a ver com voc\u00ea?<\/p>\n<p>Samara pensou um pouco.<\/p>\n<p>\u2014 Liberdade.<\/p>\n<p>Rodrigo, naquela noite, achou a resposta bonita. S\u00f3 depois percebeu que liberdade, para Samara, era uma palavra que sempre terminava na conta de outra pessoa.<\/p>\n<p>Ainda assim, continuou. Porque ela era linda. Porque era mais jovem. Porque o desejava com uma evid\u00eancia que o fazia esquecer o pr\u00f3prio cansa\u00e7o. Porque, ao lado dela, em certos lugares, ele se sentia observado de um jeito bom. Homens olhavam Samara. Mulheres tamb\u00e9m. E Samara, percebendo, apertava a m\u00e3o dele, beijava-o na boca, chamava-o de amor. Rodrigo sabia que havia nisso alguma coisa infantil, mas nem por isso deixava de gostar.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que a vida real apareceu com for\u00e7a e come\u00e7ou a bater onde mais do\u00eda.<\/p>\n<p>Primeiro, a fatura veio alta. Depois, alt\u00edssima. Em seguida, indecente. Rodrigo passou a esconder de si mesmo os aplicativos de banco, como se as notifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o o soubessem alcan\u00e7ar. Um almo\u00e7o parcelado, uma di\u00e1ria, uma bolsa comprada \u201cporque estava em promo\u00e7\u00e3o\u201d, ingressos de show, farm\u00e1cia, estacionamento, mercado, vinho, motel, Uber para Samara voltar para casa porque ela n\u00e3o gostava de dirigir \u00e0 noite.<\/p>\n<p>Quando o limite do cart\u00e3o estourou, ele estava sozinho em casa. O celular avisou com uma frieza exemplar. Transa\u00e7\u00e3o recusada.<\/p>\n<p>Rodrigo tinha tentado comprar uma passagem a\u00e9rea para um fim de semana em Gramado, ideia de Samara, que dizia precisar muito de frio, fondue e uma foto bonita de casaco.<\/p>\n<p>Olhou para a tela por alguns segundos. Depois abriu a fatura. Desceu a lista com o dedo. Havia ali uma biografia recente de sua estupidez.<\/p>\n<p>Naquela noite, Samara ligou por v\u00eddeo. Apareceu deitada, o rosto perfeito na luz calculada do abajur.<\/p>\n<p>\u2014 Comprou?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Meu cart\u00e3o n\u00e3o passou.<\/p>\n<p>Ela fez sil\u00eancio. N\u00e3o um sil\u00eancio preocupado. Um sil\u00eancio ofendido.<\/p>\n<p>\u2014 Como assim n\u00e3o passou?<\/p>\n<p>\u2014 Estourou o limite.<\/p>\n<p>\u2014 Nossa.<\/p>\n<p>Rodrigo esperou. Talvez um \u201ctudo bem\u201d. Talvez um \u201cdeixa para outro momento\u201d. Talvez um riso, qualquer coisa que devolvesse humanidade \u00e0 cena.<\/p>\n<p>\u2014 E agora? \u2014 ela perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 Agora nada.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 estranho.<\/p>\n<p>\u2014 Estou cansado.<\/p>\n<p>\u2014 Cansado de mim?<\/p>\n<p>Rodrigo passou a m\u00e3o no rosto. Do outro lado, Samara continuava bonita. Aquilo, de repente, n\u00e3o pareceu o bastante.<\/p>\n<p>\u2014 Estou cansado do que a gente virou.<\/p>\n<p>\u2014 A gente?<\/p>\n<p>\u2014 Sim.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea quer terminar comigo porque est\u00e1 sem dinheiro?<\/p>\n<p>A frase era injusta, mas n\u00e3o totalmente falsa. Isso a tornava mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o \u00e9 porque eu estou sem dinheiro.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o \u00e9 por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Rodrigo procurou uma explica\u00e7\u00e3o elegante. N\u00e3o encontrou. Pensou em falar de excesso, de desequil\u00edbrio, de afeto, de respeito, de futuro. Mas tudo pareceria discurso de quem descobriu tarde demais o pre\u00e7o da pr\u00f3pria vaidade.<\/p>\n<p>\u2014 Porque eu n\u00e3o estou bem.<\/p>\n<p>Samara respirou fundo, impaciente.<\/p>\n<p>\u2014 Rodrigo, pelo amor de Deus. Voc\u00ea complica tudo.<\/p>\n<p>Ele quase riu. Talvez complicasse mesmo. Talvez tivesse complicado com Fernanda, que era simples e dif\u00edcil ao mesmo tempo. Talvez tivesse simplificado demais com Samara, que era dif\u00edcil e parecia simples. J\u00e1 n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p>\u2014 Eu preciso parar \u2014 disse.<\/p>\n<p>\u2014 Parar o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Isso.<\/p>\n<p>Samara desligou sem se despedir.<\/p>\n<p>No dia seguinte, mandou mensagens longas. Disse que ele era frio, que a havia iludido, que homem nenhum prestava, que ela tinha se entregado de verdade, que dinheiro nunca tinha sido importante para ela, que esperava dele outra postura. Depois mandou uma foto chorando. Depois apagou. Depois mandou um \u00e1udio dizendo que n\u00e3o queria mais falar. Depois perguntou se ele estava mesmo bem.<\/p>\n<p>Rodrigo respondeu pouco. Talvez menos do que devia, talvez exatamente o necess\u00e1rio. A hist\u00f3ria terminou aos peda\u00e7os, como come\u00e7ara: pela tela.<\/p>\n<p>Durante alguns dias, sentiu uma paz culpada. Trabalhava, voltava para casa, comia mal, dormia cedo. O cart\u00e3o continuava estourado. Samara continuava postando fotos bonitas, frases sobre amor-pr\u00f3prio e recome\u00e7os, m\u00fasicas em ingl\u00eas, pequenos recados que podiam ou n\u00e3o ser para ele. Rodrigo olhava menos do que poderia. Mais do que deveria.<\/p>\n<p>Foi numa dessas entradas no aplicativo que viu Fernanda.<\/p>\n<p>A foto era nova. Apenas o rosto, como antes. Mas havia algo diferente. Talvez o cabelo um pouco mais curto. Talvez a luz. Talvez a aus\u00eancia daquela tentativa antiga de parecer invis\u00edvel. Ela sorria sem mostrar os dentes, olhando para algum ponto fora da c\u00e2mera.<\/p>\n<p>Na descri\u00e7\u00e3o, uma frase curta: \u201cGosto de caf\u00e9, caminhada sem pressa e gente que n\u00e3o tem certeza de tudo.\u201d<\/p>\n<p>Rodrigo ficou olhando.<\/p>\n<p>N\u00e3o curtiu. N\u00e3o naquela hora.<\/p>\n<p>Fechou o aplicativo, abriu de novo, procurou o perfil dela. Durante uma semana, fez isso mais de uma vez. Viu que Fernanda entrava pouco. Ou talvez o aplicativo s\u00f3 mostrasse pouco. Acompanhou uma atualiza\u00e7\u00e3o sobre um livro, uma foto de uma x\u00edcara, outra de um c\u00e9u nublado sobre a praia. Nenhuma foto de corpo inteiro. Nenhum sinal claro de que estivesse com algu\u00e9m. Nenhuma autoriza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, para que ele voltasse.<\/p>\n<p>Na sexta-feira, depois de pagar o m\u00ednimo da fatura, Rodrigo abriu a conversa antiga. O hist\u00f3rico permanecia ali, salvo como ficam salvas certas coisas que deveriam desaparecer. Havia piadas internas, recomenda\u00e7\u00f5es de filmes, \u00e1udios n\u00e3o baixados, uma foto de um caf\u00e9, um \u201ccheguei bem\u201d numa noite de chuva. A \u00faltima mensagem de Fernanda era simples.<\/p>\n<p>\u201cTudo bem. Cuide-se.\u201d<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o havia respondido.<\/p>\n<p>Rodrigo pensou em escrever alguma coisa honesta. Algo que explicasse n\u00e3o apenas a saudade, mas a vergonha. Queria dizer que fora precipitado. Que confundira a inseguran\u00e7a dela com um problema que n\u00e3o queria carregar. Que depois descobrira em si mesmo defeitos mais caros, mais constrangedores, menos confess\u00e1veis. Queria dizer que ela lhe fazia falta n\u00e3o como possibilidade, mas como pessoa.<\/p>\n<p>A frase lhe pareceu bonita demais. Desconfiou.<\/p>\n<p>Digitou:<\/p>\n<p>\u2014 Oi, sumida.<\/p>\n<p>Olhou para aquilo. Era horr\u00edvel. Um cumprimento de quem n\u00e3o tinha o direito de cumprimentar. Uma frase de homem que reaparece sem explicar por que desapareceu. Apagou.<\/p>\n<p>Digitou:<\/p>\n<p>\u2014 Oi, Fernanda. Tudo bem?<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m apagou. Formal demais, como se perguntasse por uma encomenda atrasada ou um objeto esquecido.<br \/>\nVoltou \u00e0 primeira frase.<\/p>\n<p>\u2014 Oi, sumida.<\/p>\n<p>Dessa vez, enviou.<\/p>\n<p>Arrependeu-se imediatamente. Largou o celular sobre a mesa. Levantou. Bebeu \u00e1gua. Abriu a geladeira sem fome. Voltou. Nada. Tomou banho. Olhou de novo. Nada. Tentou assistir a uma s\u00e9rie, mas n\u00e3o conseguiu acompanhar sequer a primeira cena. De tempos em tempos, a tela acendia por alguma notifica\u00e7\u00e3o in\u00fatil. Banco. Farm\u00e1cia. Promo\u00e7\u00e3o de vinho. Samara postando alguma coisa. Fernanda, nada.<\/p>\n<p>Quando a resposta chegou, j\u00e1 passava das onze.<\/p>\n<p>\u2014 Eu n\u00e3o sumi, Rodrigo.<\/p>\n<p>Ele leu a frase tr\u00eas vezes. Abaixo dela, segundos depois, apareceu outra.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea \u00e9 que foi embora.<\/p>\n<p>Rodrigo sentiu o golpe com uma esp\u00e9cie de al\u00edvio. Era justo. Havia alguma generosidade escondida na justi\u00e7a daquela frase, porque ela ainda se dava ao trabalho de responder.<\/p>\n<p>\u2014 Tem raz\u00e3o \u2014 escreveu.<\/p>\n<p>A frase saiu pequena, quase covarde. Antes que ela dissesse qualquer coisa, completou:<\/p>\n<p>\u2014 Eu pensei muito em voc\u00ea.<\/p>\n<p>Fernanda demorou.<\/p>\n<p>\u2014 Pensou ou lembrou quando cansou da outra?<\/p>\n<p>Rodrigo fechou os olhos. N\u00e3o sabia como ela sabia. Talvez n\u00e3o soubesse. Talvez apenas conhecesse os caminhos previs\u00edveis dos homens que voltam.<\/p>\n<p>\u2014 As duas coisas talvez. Mas n\u00e3o queria que fosse assim.<\/p>\n<p>\u2014 Nunca \u00e9 assim que voc\u00eas querem.<\/p>\n<p>Ele sorriu sem alegria. Havia em Fernanda uma intelig\u00eancia que n\u00e3o precisava levantar a voz.<\/p>\n<p>\u2014 Eu fui embora de um jeito ruim.<\/p>\n<p>\u2014 Foi.<\/p>\n<p>\u2014 Me arrependo.<\/p>\n<p>\u2014 Acredito.<\/p>\n<p>Aquela resposta, curta, o desarmou mais do que uma acusa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 bem? \u2014 ele perguntou.<\/p>\n<p>\u2014 Estou.<\/p>\n<p>\u2014 De verdade?<\/p>\n<p>\u2014 Rodrigo, eu n\u00e3o sei responder de mentira t\u00e3o bem quanto voc\u00eas.<\/p>\n<p>Ele quase digitou \u201cvoc\u00eas quem?\u201d, mas teve o bom senso de n\u00e3o pedir explica\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3prio retrato.<\/p>\n<p>Ficaram alguns minutos sem escrever. Rodrigo via o nome dela no alto da tela, a pequena indica\u00e7\u00e3o de online aparecendo e sumindo.<\/p>\n<p>Pensou que, se insistisse demais, estragaria tudo. Se insistisse pouco, talvez provasse que nada mudara. N\u00e3o havia medida certa.<\/p>\n<p>\u2014 Eu queria te ver \u2014 escreveu, enfim. \u2014 Sem press\u00e3o. S\u00f3 conversar um pouco.<\/p>\n<p>Fernanda n\u00e3o respondeu de imediato.<\/p>\n<p>\u2014 Para qu\u00ea?<\/p>\n<p>A pergunta era simples, mas nele abriu um buraco.<\/p>\n<p>\u2014 Porque sinto sua falta.<\/p>\n<p>Dessa vez, n\u00e3o apagou. A frase era pobre, mas era verdadeira.<\/p>\n<p>\u2014 Falta de qu\u00ea?<\/p>\n<p>Rodrigo pensou. Do corpo, seria injusto. Da conversa, seria insuficiente. Da paz, talvez. Mas Fernanda n\u00e3o era uma pra\u00e7a p\u00fablica onde ele pudesse descansar depois de errar em outro lugar.<\/p>\n<p>\u2014 De voc\u00ea. Da sua conversa. Do seu jeito. Da forma como eu ficava menos idiota perto de voc\u00ea.<\/p>\n<p>Fernanda demorou mais do que antes.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei se isso \u00e9 saudade ou intervalo.<\/p>\n<p>Rodrigo deixou o celular sobre a mesa. A frase ficou ali, acesa e inc\u00f4moda. Saudade ou intervalo. Ele quis negar depressa. N\u00e3o negou. Havia um intervalo, sim. Samara terminara. A fatura chegara. A fantasia quebrara. E ele procurava Fernanda no espa\u00e7o aberto pelo desastre. Mas havia saudade tamb\u00e9m. Uma saudade antiga, abafada, que ele preferira chamar de incompatibilidade.<\/p>\n<p>\u2014 Talvez eu mere\u00e7a que voc\u00ea pense isso \u2014 respondeu. \u2014 Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 intervalo.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o sei.<\/p>\n<p>\u2014 Posso te chamar para um caf\u00e9?<\/p>\n<p>Fernanda visualizou.<\/p>\n<p>Rodrigo, ansioso, continuou antes que ela respondesse:<\/p>\n<p>\u2014 Ou uma caminhada na praia, qualquer dia. Uns exerc\u00edcios ao ar livre. Depois um caf\u00e9. Que tal?<\/p>\n<p>A mensagem saiu inteira, r\u00e1pida, quase simp\u00e1tica. S\u00f3 quando a releu percebeu. Praia. Exerc\u00edcios. Ar livre. O corpo de Fernanda posto outra vez no centro, como se ele voltasse trazendo, embrulhada em convite casual, a mesma velha corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Do outro lado, o sil\u00eancio mudou de temperatura.<\/p>\n<p>Rodrigo quis apagar a mensagem. J\u00e1 era tarde. A palavra \u201cvisualizada\u201d parecia uma senten\u00e7a.<\/p>\n<p>Fernanda respondeu depois de alguns minutos.<\/p>\n<p>\u2014 Prefiro um caf\u00e9. Sentada.<\/p>\n<p>Ele ficou olhando para a frase. Nela havia recusa, humor, dignidade e uma pequena porta entreaberta. N\u00e3o era absolvi\u00e7\u00e3o. Era melhor que isso. Era uma condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Claro \u2014 escreveu. \u2014 Caf\u00e9. Sentados.<\/p>\n<p>\u2014 E sem projeto de melhoria.<\/p>\n<p>Rodrigo sorriu, agora com tristeza e algum entendimento.<\/p>\n<p>\u2014 Sem projeto de melhoria.<\/p>\n<p>Fernanda mandou apenas um sinal de positivo. Rodrigo n\u00e3o gostava daquele gesto. Parecia frio. Mas talvez fosse o m\u00e1ximo que ele merecesse naquela noite.<\/p>\n<p>Combinaram um s\u00e1bado, fim de tarde, numa cafeteria perto da praia. Lugar p\u00fablico, simples, sem vinho caro, sem luz calculada, sem promessa de viagem, sem su\u00edte, sem futuro anunciado antes da hora. Rodrigo chegou cedo. Sentou-se numa mesa perto da janela. Pediu \u00e1gua. Pensou em pedir caf\u00e9, mas preferiu esperar. Pela primeira vez em muito tempo, tentou n\u00e3o preparar uma vers\u00e3o melhor de si mesmo.<\/p>\n<p>Fernanda chegou no hor\u00e1rio. Usava uma cal\u00e7a escura, blusa larga, sand\u00e1lia baixa. O rosto era o mesmo das fotos, mas mais vivo. O corpo, que tanto a assustara e que Rodrigo, em sua pressa, transformara em obst\u00e1culo, vinha com ela como v\u00eam os corpos de verdade: sem pedir licen\u00e7a, sem caber inteiramente na ideia que os outros fazem.<\/p>\n<p>Ela se aproximou devagar.<\/p>\n<p>\u2014 Oi.<\/p>\n<p>\u2014 Oi.<\/p>\n<p>N\u00e3o se beijaram. Ela sentou-se \u00e0 sua frente. O gar\u00e7om veio. Pediram dois caf\u00e9s.<\/p>\n<p>Por alguns segundos, falaram de coisas pequenas. O calor, o tr\u00e2nsito, uma obra na rua, a demora do atendimento. Rodrigo teve vontade de pedir desculpas logo, mas ficou quieto. Fernanda olhava para ele sem hostilidade. Tamb\u00e9m sem pressa.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea est\u00e1 diferente \u2014 ele disse, afinal.<\/p>\n<p>Ela ergueu uma sobrancelha.<\/p>\n<p>Rodrigo percebeu o perigo da frase antes de complet\u00e1-la.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o fisicamente \u2014 corrigiu. \u2014 Quer dizer&#8230; n\u00e3o era isso.<\/p>\n<p>Fernanda quase sorriu.<\/p>\n<p>\u2014 Melhor parar por a\u00ed.<\/p>\n<p>\u2014 Melhor.<\/p>\n<p>O caf\u00e9 chegou. Rodrigo mexeu a colher sem a\u00e7\u00facar.<\/p>\n<p>\u2014 Eu queria te pedir desculpas.<\/p>\n<p>Fernanda n\u00e3o disse nada.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o pelo fim apenas. Talvez a gente fosse terminar mesmo. Mas pelo jeito. Eu coloquei em voc\u00ea uma responsabilidade que era minha tamb\u00e9m. Achei que o problema era a sua dificuldade com o seu corpo, e talvez fosse mais a minha dificuldade com qualquer coisa que exigisse paci\u00eancia.<\/p>\n<p>Ela ouviu olhando para a x\u00edcara.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tinha mesmo dificuldade com o meu corpo \u2014 disse.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n<p>\u2014 Ainda tenho.<\/p>\n<p>Rodrigo assentiu.<\/p>\n<p>\u2014 Mas era meu corpo. N\u00e3o um defeito t\u00e9cnico da rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ele sentiu a frase ficar entre os dois.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 \u2014 disse. \u2014 Eu entendo.<\/p>\n<p>\u2014 Entende agora?<\/p>\n<p>\u2014 Um pouco.<\/p>\n<p>Fernanda tomou caf\u00e9. Olhou pela janela. Do outro lado da rua, pessoas caminhavam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 praia. Havia corpos de todos os tipos, todos com alguma pressa de parecerem naturais dentro da pr\u00f3pria pele.<\/p>\n<p>\u2014 Eu tamb\u00e9m n\u00e3o fui f\u00e1cil \u2014 ela disse.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o precisa dizer isso para me aliviar.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o estou dizendo para te aliviar. Estou dizendo porque \u00e9 verdade. Eu me escondia muito. S\u00f3 que voc\u00ea n\u00e3o precisava ter ido embora como se eu fosse um problema sem solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Rodrigo respirou fundo.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe mesmo?<\/p>\n<p>Ele pensou em Samara. Na fatura. No vinho. Na beleza que o fazia sentir-se mais homem diante dos outros. Pensou no aplicativo, nas fotos escolhidas, nas fotos descartadas, nas barrigas escondidas, nas olheiras cortadas fora do quadro. Pensou que talvez todo mundo estivesse ali, de algum modo, tentando caber numa imagem que n\u00e3o suportava a luz comum da manh\u00e3.<\/p>\n<p>\u2014 Estou tentando saber \u2014 respondeu.<\/p>\n<p>Fernanda pareceu aceitar a resposta porque ela n\u00e3o prometia demais.<\/p>\n<p>N\u00e3o houve reconcilia\u00e7\u00e3o naquela tarde. N\u00e3o como nos filmes, nem como nos livros ruins. Falaram por uma hora. Riram duas ou tr\u00eas vezes. Houve sil\u00eancios. Alguns bons, outros n\u00e3o. Na despedida, Fernanda permitiu um abra\u00e7o breve. Rodrigo sentiu o perfume dela, discreto, familiar, e n\u00e3o disse que sentira saudade daquilo. N\u00e3o queria transformar tudo em frase.<\/p>\n<p>\u2014 A gente se fala \u2014 ela disse.<\/p>\n<p>\u2014 Se voc\u00ea quiser.<\/p>\n<p>\u2014 Eu disse que a gente se fala, Rodrigo. N\u00e3o complica.<\/p>\n<p>Ele riu.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 bem.<\/p>\n<p>Quando ela foi embora, Rodrigo ficou alguns minutos na cal\u00e7ada. A praia estava perto, mas n\u00e3o foi at\u00e9 l\u00e1. Preferiu voltar para casa. No caminho, o celular vibrou. Uma curtida nova no aplicativo. Depois outra. O sistema, sempre prestativo, informava que havia pessoas interessadas em conhec\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Rodrigo parou no sinal. Olhou para a tela. Por um instante, o dedo quase repetiu o gesto antigo.<\/p>\n<p>Depois bloqueou o celular.<\/p>\n<p>N\u00e3o era uma vit\u00f3ria. Era apenas um intervalo enquanto pensava se desinstalaria o aplicativo de paqueras uma pr\u00f3xima vez.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<br \/>\nDaniel Marchi, editor-executivo de Notibras, \u00e9 professor, advogado e escritor carioca.<\/strong><br \/>\n<strong>Autor de \u201cA Verdade nos Seres\u201d (poemas) e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (contos, no prelo).<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rodrigo instalou um aplicativo de paquera. 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