{"id":393428,"date":"2026-05-04T00:00:09","date_gmt":"2026-05-04T03:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=393428"},"modified":"2026-05-03T17:21:44","modified_gmt":"2026-05-03T20:21:44","slug":"versao-um-pouco-mais-leve-de-um-conto-da-pesada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/versao-um-pouco-mais-leve-de-um-conto-da-pesada\/","title":{"rendered":"Vers\u00e3o (um pouco) mais leve de um conto da pesada"},"content":{"rendered":"<p>Andr\u00e9 tinha 32 anos, um casamento rec\u00e9m-desfeito e uma grande amiga, Mara, colega de trabalho e da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o da USP.<\/p>\n<p>Tudo come\u00e7ou no final de uma festinha na casa de Mara. Houve alguns baseados e muita bebida alco\u00f3lica para animar a mo\u00e7ada, que era mais et\u00edlica que qualquer outra coisa. Quando quase todos haviam ido embora, Andr\u00e9 avistou Mara de p\u00e9 sobre uma cama, num quarto colado \u00e0 sala, bem diante dele. De repente, a mo\u00e7a olhou firme em sua dire\u00e7\u00e3o e, desabotoando a frente do vestido, mostrou-se nua por uns dois segundos.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 custou a acreditar. \u201cEla estava de calcinha da cor da pele, foi isso\u201d, pensou. \u201cE devia estar caindo de b\u00eabada.\u201d Mas no fundo sabia que aquela natureza viva fora criada em sua homenagem. Logo em seguida despediu-se (Mara j\u00e1 estava com o vestido comportadamente abotoado) e foi para casa.<\/p>\n<p>Na noite seguinte, passou no apartamento da amiga. Beberam todas, conversaram muito, at\u00e9 que ele foi ao banheiro. Ao voltar, Andr\u00e9 sentou-se de novo no ch\u00e3o junto a Mara, disposto a continuar o papo. Foi ent\u00e3o que ela investiu:<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea deve estar com gotinhas de xixi na cueca. Deixa que eu protejo a sua cal\u00e7a.<\/p>\n<p>Com um sorrisinho sacana e fazendo gestos exagerados, como uma personagem da commedia dell\u2019arte, Mara usou dois dedos em pin\u00e7a de cada m\u00e3o para erguer-lhe um pouco a cal\u00e7a na altura da virilha, cortando o contato do tecido com a cueca. Ao faz\u00ea-lo, ro\u00e7ou de leve a m\u00e3o no membro de Andr\u00e9, numa car\u00edcia insinuante. Depois retomou o fio da conversa, como se nada houvesse acontecido. Atordoado, ele deu meia d\u00fazia de respostas idiotas e, na primeira pausa do papo, despediu-se.<\/p>\n<p>\u201cSou um imbecil!\u201d, recriminou-se. \u201cEu devia ter dado um sorriso t\u00e3o sacana quanto o dela e falado que, pra secar legal, tinha de afastar o cacete da cueca. E que, pra secar de verdade, o melhor meio era usar ar quente, soprando sobre ele \u2013 mas sem toc\u00e1-lo, com todo o respeito. Isso, no m\u00ednimo, apimentaria ainda mais essa loucura entre n\u00f3s.\u201d<\/p>\n<p>Naquela noite, Andr\u00e9 tocou-se furiosamente, rememorando cada detalhe do que havia acontecido. Tinha certeza de que Mara fazia o mesmo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, t\u00e3o logo anoiteceu, Andr\u00e9 voou para o apartamento de Mara. Ela estava com os bot\u00f5es do vestido j\u00e1 estrategicamente desabotoados. Foi uma loucura, os dois pareciam dispostos a comprovar que a mente \u00e9 o mais poderoso \u00f3rg\u00e3o sexual. Exibiam-se, tocavam-se; depois, os olhos brilhantes de desejo, os dois apoiaram-se em almofadas colocadas no ch\u00e3o. Mara abriu o \u00faltimo bot\u00e3o.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 colocou a m\u00e3o sobre o ventre exposto e em fogo da amiga. Emitindo um som entre um gemido e um rosnado, ela lan\u00e7ou-se sobre ele e mordeu seu l\u00e1bio inferior at\u00e9 tirar sangue. Os dois transformaram-se em animais no cio, que se mordiam, se chupavam, se lambiam e se beijavam, esquecidos de tudo.<\/p>\n<p>Naquela noite, Andr\u00e9 n\u00e3o foi para casa. Ele e Mara recome\u00e7aram a maratona sexual desde manh\u00e3zinha, s\u00f3 a interrompendo para almo\u00e7ar e jantar. Por sorte o dia anterior fora uma sexta, eles dispunham de dois dias para o tes\u00e3o baixar e voltarem \u00e0 normalidade.<\/p>\n<p>Normalidade, no caso, significava trabalhar mal e porcamente o dia inteiro, pensando um no outro (por sorte, estavam em departamento diferentes), sair voando para suas respectivas casas, para um banho e, t\u00e3o logo anoitecia, um procurar o outro, como um casal de vampiros no cio.<\/p>\n<p>A coisa rolou assim na segunda, ter\u00e7a e quarta-feira. Na quinta, Andr\u00e9 j\u00e1 avan\u00e7ava para a mo\u00e7a, os olhos vidrados, quando ela o afastou.<\/p>\n<p>&#8211; Andr\u00e9, temos de conversar.<\/p>\n<p>&#8211; ???<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea lembra do F\u00e1bio, meu ex? Ele me ligou hoje, no trabalho. Est\u00e1 a fim de voltar, diz que eu sou a mulher da vida dele. E voc\u00ea e eu, a gente \u00e9 mais amigo que qualquer outra coisa&#8230;<\/p>\n<p>\u201cAmigo? Claro que sim\u201d, pensou Andr\u00e9. \u201cPau amigo, dedo amigo, l\u00edngua amiga\u201d. Mas continuou em sil\u00eancio.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o as trepadas de hoje v\u00e3o ser as \u00faltimas. Por algum tempo, pelo menos \u2013 concluiu, com o risinho sacana que Andr\u00e9 adorava.<\/p>\n<p>Naquela noite, as loucuras foram ainda maiores. Transaram furiosamente, desesperadamente, na despedida.<\/p>\n<p>Os dois trilharam caminhos diferentes. Mara casou-se com F\u00e1bio, teve tr\u00eas filhos, parou de trabalhar e de cursar faculdade. Considera-se (talvez seja) uma m\u00e3e perfeita e uma dona de casa exemplar. Perdeu o contato com Andr\u00e9, pensa pouco nele e nunca, nunca, deixa aflorar as lembran\u00e7as daquelas noites de loucura. J\u00e1 Andr\u00e9 salta de relacionamento em relacionamento, mas no fundo resignou-se \u00e0 solid\u00e3o. Pelo menos at\u00e9 a noite em que uma ficante lhe dirija um sorrisinho sacana, coloque dois dedos de cada m\u00e3o em pin\u00e7a e diga as palavras m\u00e1gicas:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea deve estar com gotinhas de xixi na cueca. Deixa que eu protejo a sua cal\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Andr\u00e9 tinha 32 anos, um casamento rec\u00e9m-desfeito e uma grande amiga, Mara, colega de trabalho e da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o da USP. Tudo come\u00e7ou no final de uma festinha na casa de Mara. Houve alguns baseados e muita bebida alco\u00f3lica para animar a mo\u00e7ada, que era mais et\u00edlica que qualquer outra coisa. 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