{"id":393506,"date":"2026-05-06T02:00:14","date_gmt":"2026-05-06T05:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=393506"},"modified":"2026-05-04T06:24:10","modified_gmt":"2026-05-04T09:24:10","slug":"onde-o-drama-nao-tem-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/onde-o-drama-nao-tem-vez\/","title":{"rendered":"Onde o drama n\u00e3o tem vez"},"content":{"rendered":"<p>Mam\u00e3e entrou esbaforida, sem paci\u00eancia, r\u00edspida, ofegante, como tentando extrair algo preso na garganta, corpo inclinado para frente, olhos trancados, voltados para seu interior, parecia n\u00e3o mais querer deixar sentimentos camuflarem a verdade que, finalmente, precisava ser revelada. Todos olhamos para dona M\u00e1rcia, a mulher que sempre fora o alicerce das nossas vidas, cujas m\u00e3os nos afagaram com carinho, mas que, implac\u00e1veis, n\u00e3o nos pouparam de pancadas quando ela achava serem necess\u00e1rias. Meu pai ali em p\u00e9 no canto, que nem presa diante da predadora.<\/p>\n<p>\u2014 Crian\u00e7as, v\u00e3o para o quarto, que preciso ter uma conversa com o pai de voc\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9ramos mais crian\u00e7as, est\u00e1vamos todos crescidos. Jos\u00e9, o ca\u00e7ula, j\u00e1 beirava os 15, enquanto eu e minha irm\u00e3, Clarice, h\u00e1 muito n\u00e3o precis\u00e1vamos pedir autoriza\u00e7\u00e3o para namorar. Obedecemos.<\/p>\n<p>Dona M\u00e1rcia sempre soube gritar em sussurros, e n\u00e3o foi diferente naquele dia. A tal conversa durou o tempo suficiente para que a ansiedade se instalasse entre mim e meus irm\u00e3os. No entanto, quando finalmente minha m\u00e3e abriu a porta, foi como se j\u00e1 soub\u00e9ssemos que a nossa casa n\u00e3o seria mais a mesma.<\/p>\n<p>\u2014 Crian\u00e7as, v\u00e3o l\u00e1 se despedir do pai de voc\u00eas.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro de trocar olhares surpresos com meus irm\u00e3os. Fomos at\u00e9 a sala, onde papai, ladeado por duas malas enormes, parecia puro remorso por algo que, at\u00e9 aquele momento, nos era desconhecido.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, J\u00falio, seja homem ao menos uma vez na vida.<\/p>\n<p>Papai voltou os olhos para minha m\u00e3e, em seguida nos encarou, e n\u00f3s ali, parados, sem saber o que nos seria revelado.<\/p>\n<p>\u2014 A Maria Clara \u00e9 irm\u00e3 de voc\u00eas.<\/p>\n<p>Maria Clara? A Clarinha, filha da Jurema, a nossa vizinha? Como assim? Pegos de surpresa, ningu\u00e9m disse palavras, \u00e9ramos s\u00f3 ouvidos e, naquele instante, desej\u00e1vamos ser surdos.<\/p>\n<p>Enquanto lut\u00e1vamos para direcionar nossos sentimentos, minha m\u00e3e parecia firme em suas decis\u00f5es. Era como se papai nunca havia morado ali, vivido naquele lugar. Entr\u00e1vamos e sa\u00edamos e ningu\u00e9m se atrevia a perguntar quando o ir\u00edamos ver novamente. Sem contar que, agora, t\u00ednhamos uma irm\u00e3, que roubara o lugar de raspa do tacho, que sempre fora reservado ao Jos\u00e9.<\/p>\n<p>Pode parecer estranho para quem n\u00e3o conhece a realidade da nossa gente. E, para falar a verdade, \u00e9 algo que j\u00e1 estou acostumada, mesmo que, n\u00e3o raro, perceba certo desconforto nas faces de outrem. Todavia, por aqui as coisas funcionam de maneira diferente, com ritmo pr\u00f3prio e, por isso mesmo, antes que aquilo pudesse descambar para o drama, eis que dona M\u00e1rcia tornou tudo t\u00e3o natural.<\/p>\n<p>Tia Jurema, que na verdade n\u00e3o era parenta, desde que chegamos \u00e0 capital, se demonstrou amiga de minha m\u00e3e. T\u00e3o pr\u00f3xima que resolveu pegar o marido emprestado. N\u00e3o a culpo, e at\u00e9 minha m\u00e3e, ap\u00f3s meses remoendo aquele \u00f3dio, parece que perdoou a vizinha.<\/p>\n<p>\u2014 Tu tem culpa tamb\u00e9m, Jurema, mas culpado mesmo foi o cretino do J\u00falio.<\/p>\n<p>A mulher, olhos baixos, preferia a mudez a dizer algo que n\u00e3o pudesse agradar minha m\u00e3e.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9 como te digo, Jurema, o J\u00falio \u00e9 um traste. Charmoso, \u00e9 verdade, como todos os canalhas deste mundo.<\/p>\n<p>Dava para ver o sorriso nost\u00e1lgico de Jurema atr\u00e1s daquele rosto marcado pelo pecado.<\/p>\n<p>\u2014 Tu tamb\u00e9m \u00e9 culpada, mas o que o J\u00falio fez n\u00e3o tem perd\u00e3o.<\/p>\n<p>O que para os outros pode parecer estranho, para n\u00f3s se tornou realidade. Minha m\u00e3e n\u00e3o mudou seu tratamento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Clarinha, ela sabia que a menina n\u00e3o tinha culpa. Filha do pecado, \u00e9 verdade, mas, mesmo assim, imaculada como todos os seus frutos.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mam\u00e3e entrou esbaforida, sem paci\u00eancia, r\u00edspida, ofegante, como tentando extrair algo preso na garganta, corpo inclinado para frente, olhos trancados, voltados para seu interior, parecia n\u00e3o mais querer deixar sentimentos camuflarem a verdade que, finalmente, precisava ser revelada. 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