{"id":393552,"date":"2026-05-05T01:00:29","date_gmt":"2026-05-05T04:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=393552"},"modified":"2026-05-04T16:44:28","modified_gmt":"2026-05-04T19:44:28","slug":"mandacarus-uma-obra-que-surpreende-pela-originalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mandacarus-uma-obra-que-surpreende-pela-originalidade\/","title":{"rendered":"Mandacarus, uma obra que surpreende pela originalidade"},"content":{"rendered":"<p>Iniciei a leitura com certa reserva. Ap\u00f3s ter lido <em>A Representa\u00e7\u00e3o Social do Canga\u00e7o<\/em>, de Rosa Maria Bezerra, e <em>Cangaceiros e Pedra Bonita<\/em>, de Jos\u00e9 Lins do Rego, receava encontrar uma abordagem repetitiva ou convencional de um tema t\u00e3o recorrente na literatura brasileira, especialmente nos romances da d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>Leonardo Almeida Filho, no entanto, surpreende. Em<em> Mandacarus<\/em> (Patu\u00e1, 2025), apresenta um romance de f\u00f4lego, que, embora dialogue com esse universo, destaca-se pela originalidade e pelo vigor de sua escrita. N\u00e3o se trata de revisitar o canga\u00e7o sob lentes j\u00e1 gastas, mas de propor novas perspectivas sobre personagens, conflitos e contextos hist\u00f3ricos. O autor demonstra rara habilidade narrativa ao equilibrar rigor hist\u00f3rico e intensidade liter\u00e1ria. Cada cap\u00edtulo revela camadas que desafiam o leitor a ir al\u00e9m do \u00f3bvio, construindo uma experi\u00eancia que \u00e9, ao mesmo tempo, envolvente e reflexiva.<\/p>\n<p>H\u00e1, ainda, um aspecto que merece destaque: o resgate da linguagem. O uso de express\u00f5es regionais \u00e9 preciso e abrangente, funcionando quase como um trabalho de preserva\u00e7\u00e3o cultural. Em tempos de homogeneiza\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica, Leonardo recupera termos que tendem ao esquecimento \u2014 e o faz de maneira org\u00e2nica, sem artificialismos. Confesso, inclusive, certo inc\u00f4modo pessoal ao perceber o quanto dessas express\u00f5es j\u00e1 haviam se perdido em minha pr\u00f3pria mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>O vanguardismo do autor se manifesta tamb\u00e9m na estrutura formal da obra. H\u00e1 cap\u00edtulos constru\u00eddos em par\u00e1grafos \u00fanicos \u2014 n\u00e3o como mero recurso est\u00e9tico, mas como consequ\u00eancia de uma narrativa que dispensa fragmenta\u00e7\u00f5es artificiais. Trata-se de uma escolha que rompe com padr\u00f5es contempor\u00e2neos frequentemente moldados por exig\u00eancias comerciais. Aqui, a forma serve \u00e0 ess\u00eancia. Nesse sentido, a obra dialoga, ainda que indiretamente, com reflex\u00f5es de Jean-Paul Sartre e Albert Camus, para quem a arte \u00e9, antes de tudo, um ato de liberdade \u2014 uma cria\u00e7\u00e3o de sentido em meio ao absurdo. Leonardo Almeida Filho demonstra que, mesmo em um campo j\u00e1 amplamente explorado, ainda \u00e9 poss\u00edvel renovar a experi\u00eancia est\u00e9tica com for\u00e7a e autenticidade.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea, como eu, j\u00e1 percorreu narrativas sobre canga\u00e7o, seca e \u00eaxodo, e teme encontrar apenas repeti\u00e7\u00e3o, prepare-se para uma grata surpresa. <em>Mandacarus<\/em> renova o olhar sobre um tema fundamental da literatura brasileira, afirmando-se pela originalidade, pela densidade e pela pot\u00eancia narrativa.<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Barros<\/strong><br \/>\n<strong>Romancista, contista e artista pl\u00e1stico<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Iniciei a leitura com certa reserva. 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