{"id":393637,"date":"2026-05-06T00:00:27","date_gmt":"2026-05-06T03:00:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=393637"},"modified":"2026-05-05T08:42:05","modified_gmt":"2026-05-05T11:42:05","slug":"o-queijo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-queijo\/","title":{"rendered":"O queijo"},"content":{"rendered":"<p>Revolucion\u00e1rios que dependem de mesada do papai sofrem, pelo menos no seu orgulho. Foi o caso de Roberto, 20 anos, estudante de Economia na Universidade Federal Fluminense, um dos tr\u00eas representantes da UFF ao Congresso da UNE de 1966, a se realizar na clandestinidade, em algum lugar de Belo Horizonte. Enfrentar a repress\u00e3o n\u00e3o o preocupava; o problema era arranjar uma desculpa para visitar a capital mineira \u2013 e descolar com os pais a grana para a viagem e a estadia.<\/p>\n<p>Para justificar o passeio, Roberto alegou que estava morrendo de saudades de primos mais que distantes, de Belzonte, que s\u00f3 tinha visto uma vez na vida. Ele cal\u00e7ou as sand\u00e1lias da humildade, implorou e esperneou. Chorou tanto que mamou, quer dizer, conseguiu o dinheiro e o contato com aqueles parentes meio fantasmag\u00f3ricos. Bons mineiros, eles aceitaram hosped\u00e1-lo sem fazer perguntas. Mas levantaram as sobrancelhas (dava pra sentir pelo telefone) quando souberam que ele ia invadir com mais dois amigos a caduzoto.<\/p>\n<p>No \u00f4nibus, os outros dois representantes da UFF, um rapaz e uma mo\u00e7a, sentaram juntos. Roberto sentou no banco anterior, junto a uma mulher uns 10 anos mais velha que ele. N\u00e3o era muito bonita, mas jovens de 20 anos t\u00eam est\u00f4mago (e outras partes) de avestruz, tra\u00e7am o que pintar&#8230;Al\u00e9m disso, o perigo e a perspectiva de ser detido antes mesmo de chegar ao Congresso o deixara numa excita\u00e7\u00e3o arretada.<\/p>\n<p>No escurinho do \u00f4nibus, Roberto encostou o bra\u00e7o no bra\u00e7o da mulher. Estava pronto a recuar, se ela n\u00e3o correspondesse, mas a fera o pressionou forte. O lance seguinte foi a colagem das pernas; em pouco tempo pareciam bonecos presos por um pouco de piche. E ent\u00e3o ela tateou para lhe abrir a braguilha com uma das m\u00e3os, sem dar bandeira, enquanto a dele se enfiava sem obst\u00e1culos pelo vestido dela. A mulher o sentiu duro como pedra, e lhe deu um trato de responsa; para azar dela, Roberto n\u00e3o era t\u00e3o h\u00e1bil, limitou-se a dedilh\u00e1-la sem maestria. Clit\u00f3ris, conhecia de nome e de reputa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tinha muita intimidade com o personagem.<\/p>\n<p>Reagindo aos ferom\u00f4nios \u2013 ou, mais prov\u00e1vel, sentindo um cheirinho conhecido \u2013, a mo\u00e7a do banco de tr\u00e1s bateu no ombro de Roberto, quase o fazendo broxar de susto.<\/p>\n<p>&#8211; Tudo bem a\u00ed, companheiro? \u2013 perguntou sol\u00edcita.<\/p>\n<p>-Tu-tudo! \u2013 rosnou o dedilhado.<\/p>\n<p>A companheira recolheu os chifres e foi dormir, enquanto o casal no banco da frente continuava a se tocar mutuamente.<\/p>\n<p>Roberto gozou, sua parceira provavelmente n\u00e3o. Ficaram quietos por algum tempo, at\u00e9 que ela lhe falou baixinho:<\/p>\n<p>&#8211; Podemos fazer de novo, se oc\u00ea quiser. Mas n\u00e3o vou chupar um queijo, aqui n\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Roberto n\u00e3o conhecia a express\u00e3o, mas, pelo tom, devia ser coisa boa.<\/p>\n<p>Fizeram mais duas vezes. Na terceira, pelos estremecimentos do corpo dela, o rapaz percebeu que marcara um gola\u00e7o. Sem saber como, mas um gola\u00e7o.<\/p>\n<p>Os dois se arrumarem e deixaram sua respira\u00e7\u00e3o se acalmar. Algum tempo depois agradecida, ela murmurou no seu ouvido:<\/p>\n<p>-Vou saltar daqui a pouco. Moro sozinha, se oc\u00ea quiser vem comigo. L\u00e1 em casa a gente faz tudim&#8230;<\/p>\n<p>Por um instante, Roberto esqueceu a ditadura militar, o Congresso da UNE, a revolu\u00e7\u00e3o socialista, seus horm\u00f4nios tornaram-se tribunos veementes de uma revolu\u00e7\u00e3o pessoal. Mas estava com os companheiros&#8230; Com l\u00e1grimas nos olhos, gaguejou para a tentadora:<\/p>\n<p>&#8211; Sin-sinto muito, n\u00e3o vai dar. Estou com dois amigos&#8230;<\/p>\n<p>Ela saltou. Uma hora depois os tr\u00eas desembarcaram na rodovi\u00e1ria de Belzonte sem problemas (a efic\u00e1cia da repress\u00e3o em 1966 deixava muito a desejar) e foram para a casa dos priminhos.<\/p>\n<p>E o Congresso da UNE? Pois \u00e9, o companheiro que devia lhes passar o endere\u00e7o furou e a bancada da UFF s\u00f3 entrou na igreja de S\u00e3o Francisco, sede do encontro, quando as discuss\u00f5es haviam terminado. Os tr\u00eas ficaram indignados, Roberto mais que os outros. Passaria algum tempo antes de o rapaz ser apresentado a essa joia da culin\u00e1ria sexual mineira, a arte de chupar um queijo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Revolucion\u00e1rios que dependem de mesada do papai sofrem, pelo menos no seu orgulho. Foi o caso de Roberto, 20 anos, estudante de Economia na Universidade Federal Fluminense, um dos tr\u00eas representantes da UFF ao Congresso da UNE de 1966, a se realizar na clandestinidade, em algum lugar de Belo Horizonte. 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