{"id":393876,"date":"2026-05-08T02:00:14","date_gmt":"2026-05-08T05:00:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=393876"},"modified":"2026-05-07T10:51:38","modified_gmt":"2026-05-07T13:51:38","slug":"lata-barro-e-cafe-com-leite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lata-barro-e-cafe-com-leite\/","title":{"rendered":"Lata, barro e caf\u00e9 com leite"},"content":{"rendered":"<p>Meu bisav\u00f4, Salvatore Conti, chegou ao Brasil ainda no colo de sua mamma, Giuseppina Rossi, que acompanhava os passos aflitos do marido, Francesco Conti, um italiano que teria acreditado em promessas de vida farta na ent\u00e3o capital do pa\u00eds, o Rio de Janeiro. Apesar da decep\u00e7\u00e3o inicial, o trio decidiu ficar, mesmo porque lhe faltava recursos para a viagem de volta para comuna de Paola, na Cosenza, parte da Cal\u00e1bria, regi\u00e3o mais ao Sul da It\u00e1lia.<\/p>\n<p>Sem alternativas e pressionado pela situa\u00e7\u00e3o, Francesco n\u00e3o titubeou em aceitar a primeira oferta de emprego: ajudante de pedreiro. O sal\u00e1rio era p\u00edfio para tanto calo e suor, mas o suficiente para apaziguar o fantasma da fome que j\u00e1 rondava os seus. Giuseppina, olhos voltados para o rebento, preocupada com a unidade familiar, se fiava no discernimento do marido, ainda mais por se encontrar em terras estrangeiras t\u00e3o distantes.<\/p>\n<p>O pequeno, carinhosamente chamado de Sal, protegido por Giuseppina, levou alguns anos at\u00e9 perceber que a vida n\u00e3o era t\u00e3o doce como imaginava. N\u00e3o que tivesse luxos, mas crian\u00e7a sabe se divertir com qualquer peda\u00e7o de lata. Al\u00e9m do mais, gente tem o h\u00e1bito de guardar com carinho o sabor de meros nacos de p\u00e3o dormido molhados em caf\u00e9 com leite pelos dedos macios da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Sal estudou o necess\u00e1rio para entender que manchetes, n\u00e3o raro, direcionam para caminhos diversos ao do conte\u00fado. O resto aprendeu em casa ou, quando os assuntos n\u00e3o eram apropriados para uma m\u00e3e ter com a cria, nas ruas.<\/p>\n<p>V\u00e1rias tentativas para deixar de ser um peso morto para fam\u00edlia, a partir dos nove anos, conseguiu alguns trocados, a maior parte entregue para sua mamma. Se fosse por ela, Salvatore se tornaria doutor. Por\u00e9m, a mulher h\u00e1 muito teria deixado as tolices nas profundezas do Atl\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Em 1922, ap\u00f3s breve e respeitoso namoro com a filha de um determinado comerciante, Sal se casou. Orgulhoso, declinou de trabalhar em um dos pr\u00f3speros neg\u00f3cios do sogro, preferindo manter o emprego de mascate, quando, em uma das viagens para o interior de Minas Gerais, conheceu um adestrador de cachorros. Achou aquilo interessante, mas n\u00e3o vislumbrou de imediato serventia. Que aquela coisa de fazer cachorro deitar, sentar, dar a pata e at\u00e9 fingir de morto at\u00e9 curiosa, como se o bicho tivesse passado anos em escola, mas a vida corrida n\u00e3o permitia que o sujeito se perdesse em contempla\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 Qual \u00e9 seu of\u00edcio, amigo?<\/p>\n<p>\u2014 De tudo um pouco, o que a vida me oferecer, eu cato. E o seu?<\/p>\n<p>\u2014 Bem, meu amigo, a vida n\u00e3o tem me oferecido muita coisa. Ent\u00e3o, ai de mim se n\u00e3o criar as minhas pr\u00f3prias oportunidades. Voc\u00ea est\u00e1 vendo este cachorro?<\/p>\n<p>Salvatore observou o pequeno animal, n\u00e3o mais de cinco quilos, calculou. Em seguida, voltou os olhos para Diego, era esse o nome do tipo, cujo forte sotaque indicava origem espanhola.<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, meu amigo, este aqui \u00e9 o Peteleco. Esperto que nem a m\u00e3e, que era menor do que ele quando a peguei na sarjeta. Voc\u00ea acredita nisso? Que algu\u00e9m possa largar uma criatura de Deus assim pra morrer? Era pele e osso, mais osso do que pele at\u00e9, n\u00e3o sei como ainda estava viva. Era desses casos de querer resistir ao chamado da Senhora da Foice.<\/p>\n<p>\u2014 Onde ela est\u00e1? Morreu?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o! Voc\u00ea acredita que hoje vive num palacete no Rio de Janeiro? Na capital, meu amigo. Na capital! E sabe por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Grana, meu amigo. Grana!<\/p>\n<p>Salvatore passou a olhar com interesse aquele homem, que ele sabia ser deveras esperto e, por isso mesmo, precisaria ficar ainda mais atento do que de costume.<\/p>\n<p>\u2014 Uma madame, meu amigo, mais emperiquitada que mulher da vida. N\u00e3o me enganei, e n\u00e3o foi por causa das joias, que todas l\u00e1 t\u00eam as suas. Estilo, meu amigo! A dona era chique. E at\u00e9 a Teca, que de boba n\u00e3o tem nada, percebeu.<\/p>\n<p>\u2014 Teca?<\/p>\n<p>\u2014 A cachorra.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, t\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 Pois como te falava, a Teca, sabida que nem Pedro Urdemales, come\u00e7ou a fazer os truques que sabia.<\/p>\n<p>Espanhol, Salvatore teve quase certeza. Todavia, preferiu n\u00e3o interromper o homem, que falava mais do que a pr\u00f3pria l\u00edngua.<\/p>\n<p>\u2014 E olha que eu n\u00e3o dei qualquer comando. A Teca parece que entendeu que a grande chance de comer caviar estava ali naquela criatura perfumada. E come\u00e7ou a sentar, deitar, dava as patinhas, ficava de p\u00e9, saltitava s\u00f3 com as patas de tr\u00e1s, depois rolava, rodopiava e, ent\u00e3o, fingiu ter morrido. Um dos olhos fechado, o outro t\u00e3o aberto que parecia jabuticaba. Funcionou! A madame se apaixonou e quis saber se eu vendia. Fiz cara de contrariado, a dona insistiu. Falei que a cadela era da fam\u00edlia, que precisava valer muito a pena pra desfazer dela. A rica\u00e7a me olhou de cima a baixo, como se estivesse calculando a pobreza instalada. A primeira oferta foi de 50 mil-r\u00e9is. Fiz cara de ofendido, e a dona ofereceu o dobro. Continuei indiferente, quando a madame pareceu irredut\u00edvel: &#8220;Pois bem, meu senhor, 200 mil-r\u00e9is!&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 E \u00e9 \u00f3bvio que voc\u00ea vendeu a cachorra.<\/p>\n<p>\u2014 Hum! Assim que a madame disse que 200 mil-r\u00e9is era o limite, fiz cara de ofendido. Falei que a Teca era uma leg\u00edtima pastora de Covadonga, de estirpe que n\u00e3o custa menos do que 400 mil-r\u00e9is. Mesmo assim, disse que n\u00e3o vendia, que as crian\u00e7as de casa ficariam desoladas, que a mulher tamb\u00e9m era apegada demais.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o vendeu?<\/p>\n<p>\u2014 Hum! Aquela madame era tinhosa, mais cabe\u00e7uda do que Miura.<\/p>\n<p>Sim, o sujeito s\u00f3 podia ser espanhol, pensou Salvatore.<\/p>\n<p>\u2014 Sabe o que ela fez?<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Abriu a bolsa e retirou um bolo de notas gra\u00fadas, meu amigo. A dona se aproximou de mim, esticou o bra\u00e7o e disse: &#8220;Toma aqui, meu senhor! \u00c9 o que tenho! Agora me d\u00ea essa cachorra!&#8221;<\/p>\n<p>\u2014 E voc\u00ea aceitou?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, meu amigo, chega uma hora que n\u00e3o d\u00e1 mais pra esticar a corda. Tive que ceder, afinal, eram 500 mil-r\u00e9is.<\/p>\n<p>\u2014 E os seus filhos? E a sua esposa?<\/p>\n<p>\u2014 Meu amigo, nem sou casado. Como \u00e9 que vou ter filhos?<\/p>\n<p>Salvatore, misto de incredulidade e admira\u00e7\u00e3o, quis esticar a conversa.<\/p>\n<p>\u2014 Hum&#8230; Mas tem uma coisa que n\u00e3o entendo.<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea, meu amigo?<\/p>\n<p>\u2014 Por que voc\u00ea me abordou? \u00c9 \u00f3bvio que sou um tipo sem bufunfa.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea tem raz\u00e3o, meu amigo, mas percebi em voc\u00ea algo parecido comigo quando eu ainda era jovem. Quer ser meu s\u00f3cio?<\/p>\n<p>E foi assim que meu bisav\u00f4 Salvatore Conti entrou para o ramo de adestramento de cachorros, que virou neg\u00f3cio da fam\u00edlia. Of\u00edcio mais dif\u00edcil do que parece, pois precisa ter paci\u00eancia e saber escolher bem os c\u00e3es que vai se trabalhar. Que nem aqueles filhotes ali no canto. Todos descendentes diretos da Teca, leg\u00edtimos pastores de Covadonga, ra\u00e7a que n\u00e3o est\u00e1 catalogada em nenhum lugar.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meu bisav\u00f4, Salvatore Conti, chegou ao Brasil ainda no colo de sua mamma, Giuseppina Rossi, que acompanhava os passos aflitos do marido, Francesco Conti, um italiano que teria acreditado em promessas de vida farta na ent\u00e3o capital do pa\u00eds, o Rio de Janeiro. 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