{"id":394041,"date":"2026-05-11T01:15:05","date_gmt":"2026-05-11T04:15:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394041"},"modified":"2026-05-08T08:50:52","modified_gmt":"2026-05-08T11:50:52","slug":"rachel-gomes-transforma-o-suburbio-carioca-em-cronica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/rachel-gomes-transforma-o-suburbio-carioca-em-cronica\/","title":{"rendered":"RACHEL LIMA TRANSFORMA O SUB\u00daRBIO CARIOCA EM CR\u00d4NICA"},"content":{"rendered":"<p>Viver nos Sub\u00farbios ainda nos permite ter experi\u00eancias bem peculiares, tr\u00e1gicas at\u00e9, se n\u00e3o fossem c\u00f4micas. Basta um olhar mais cuidadoso pra encontrar pessoas e situa\u00e7\u00f5es que a gente n\u00e3o v\u00ea em qualquer lugar do mundo. O Rio de Janeiro \u00e9 um lugar diferenciado que nos proporciona uma rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio incr\u00edvel.<\/p>\n<p>Considero-me uma intelectual org\u00e2nica, uma mulher que cresceu nos Sub\u00farbios de Lima Barreto e quis entender sua origem, assim como a influ\u00eancia do meio em sua exist\u00eancia. Frequentei o ambiente acad\u00eamico, fa\u00e7o pesquisas e leciono em universidade. Sou prolet\u00e1ria.<\/p>\n<p>Trabalhadora celetista. Simples assim. Ao contr\u00e1rio do que os alunos imaginam, n\u00e3o tenho vida de luxo. Lavo passo cozinho, cuido da fam\u00edlia e trabalho, acumulando tarefas mil como a maioria das mulheres deste pa\u00eds.<\/p>\n<p>Cresci andando de transporte p\u00fablico. Na gradua\u00e7\u00e3o vivia entre \u00f4nibus e Kombis, al\u00e9m das caminhadas a p\u00e9. J\u00e1 na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, eram \u00f4nibus, metr\u00f4 e barca. E hoje s\u00e3o \u00f4nibus, van e metr\u00f4. E essas experi\u00eancias nem sempre s\u00e3o t\u00e3o agrad\u00e1veis, mas muitas vezes s\u00e3o peculiares. Tenho carro, mas dirigir na cidade tamb\u00e9m \u00e9 um exerc\u00edcio dolorido para a sanidade mental. \u00c9 falta de educa\u00e7\u00e3o do coleguinha e muita moto fazendo \u201cbi bi bi\u201d. Chego mais r\u00e1pido mesmo, muitas vezes, andando de metr\u00f4.<\/p>\n<p>A minhoca de metal vai lotada nos hor\u00e1rios de rush. Outro dia uma gr\u00e1vida entrou empurrando todo mundo em pleno hor\u00e1rio das 7 da manh\u00e3. Ao oferecerem lugar, n\u00e3o quis se sentar, mas exigia que ningu\u00e9m a empurrasse&#8230; Uma fam\u00edlia composta por duas crian\u00e7as de uns 10 e 11 anos, mais a m\u00e3e e a av\u00f3 ficaram horrorizadas ao entrarem e serem empurradas para o meio do vag\u00e3o a cada abertura de portas&#8230; segurei um dos meninos antes que ele fosse sugado por axilas e bolsas penduradas sob sua cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros problemas significativos no metr\u00f4 lotado: de solturas de g\u00e1s metano, as brigas verbais e at\u00e9 f\u00edsicas na corrida para se sentar nas esta\u00e7\u00f5es iniciais de cada linha. Se voc\u00ea \u00e9 mulher vai sofrer com homens querendo se \u201cachegar\u201d nos vag\u00f5es comuns (pra n\u00e3o usar outro verbo). Se escolher o vag\u00e3o feminino, vai lutar com os intensos cheiros de perfumes, e com os empurr\u00f5es que as mulheres d\u00e3o para entrarem e ocuparem espa\u00e7os inimagin\u00e1veis&#8230; o que tamb\u00e9m pode gerar grandes conflitos e proclama\u00e7\u00f5es de palavras de \u201cbaixo cal\u00e3o\u201d. Acredito que o metr\u00f4 s\u00f3 n\u00e3o ande mais cheio que o trem. Logo, n\u00e3o empurrar algu\u00e9m em um ambiente que mais parece um navio negreiro, \u00e9 algo praticamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Faz muito tempo que n\u00e3o pego trem, mas acompanho as not\u00edcias de sua precariza\u00e7\u00e3o pelo notici\u00e1rio matinal. O Rio de Janeiro que j\u00e1 possuiu uma das melhores redes ferrovi\u00e1rias do mundo nos long\u00ednquos oitocentos, n\u00e3o se modernizou e padece com a degrada\u00e7\u00e3o das linhas f\u00e9rreas por falta de investimento ou roubo de pe\u00e7as e cabos por alguns indiv\u00edduos, assim como puladas dos muros e das roletas para evitar o pagamento que s\u00e3o compensados nos altos pre\u00e7os dos modais pagos por passageiros id\u00f4neos que sofrem com a superlota\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Costumava ir \u00e0 nutricionista em um bairro pr\u00f3ximo a minha casa. O pr\u00e9dio, quase esquina com a Rua Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio, t\u00e3o narrada pelo querido Lima Barreto, fica praticamente em frente ao Norte Shopping, na Avenida Dom H\u00e9lder C\u00e2mara (Av. Suburbana para os \u00edntimos).<\/p>\n<p>O ponto de \u00f4nibus conta com lojas de rua e camel\u00f4s. E por ali passam pessoas com diferentes objetivos, classes e gostos. Eis que em um destes dias do nada come\u00e7ou uma discuss\u00e3o que assustou muitos transeuntes: Um camel\u00f4 batendo boca com outro homem. Eles circulavam pelo ponto de \u00f4nibus se agredindo verbalmente. Citavam palavr\u00f5es que eu nem mesmo conhecia. O homem que parecia uma pessoa em situa\u00e7\u00e3o de rua, atravessava a Dom Helder C\u00e2mara aos brados, sem se preocupar com os carros que passavam. O camel\u00f4 por sua vez, ia atr\u00e1s tamb\u00e9m discutindo. Quando o homem voltava para encarar o camel\u00f4, este recuava e vice-versa. Eu tensa, esperando a qualquer momento a briga rolar solta, vi que se tratava apenas de dois seres que se estranhavam, e que s\u00f3 latiam, mas n\u00e3o atacavam.<\/p>\n<p>Isso mesmo, eu lembrei automaticamente de dois cachorros que s\u00f3 latiam para defenderem o territ\u00f3rio, mas n\u00e3o atacavam com receio de perderem na briga f\u00edsica.<\/p>\n<p>H\u00e1 outros casos peculiares dos sub\u00farbios cariocas em pleno s\u00e9culo XXI que pretendo narrar futuramente para n\u00e3o deixar essa cr\u00f4nica t\u00e3o longa. Em outro ponto da Dom Helder C\u00e2mara, por exemplo, meu marido e eu pass\u00e1vamos de carro e presenciamos um homem e uma mulher que realmente sa\u00edram as vias de fato partindo, agarrados um nos cabelos do outro, para o meio da pista&#8230; N\u00f3s quase paramos para assistir como terminaria a quest\u00e3o, mas resolvemos ficar s\u00f3 no quase mesmo.<\/p>\n<p>Apesar de tudo, ainda me sinto em casa. N\u00e3o me adapto \u00e0s formalidades da Zona Sudoeste (criada recentemente no RJ para segregar a popula\u00e7\u00e3o) e nem nos condom\u00ednios luxuosos do resto da cidade.<\/p>\n<p>Nada como um dia ap\u00f3s o outro nos sub\u00farbios cariocas&#8230;<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Rachel Gomes de Lima (@rachel.lima.prof), escritora, \u00e9 doutora em Hist\u00f3ria e professora universit\u00e1ria carioca.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viver nos Sub\u00farbios ainda nos permite ter experi\u00eancias bem peculiares, tr\u00e1gicas at\u00e9, se n\u00e3o fossem c\u00f4micas. Basta um olhar mais cuidadoso pra encontrar pessoas e situa\u00e7\u00f5es que a gente n\u00e3o v\u00ea em qualquer lugar do mundo. O Rio de Janeiro \u00e9 um lugar diferenciado que nos proporciona uma rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio incr\u00edvel. 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