{"id":394112,"date":"2026-05-10T02:00:55","date_gmt":"2026-05-10T05:00:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394112"},"modified":"2026-05-09T07:22:42","modified_gmt":"2026-05-09T10:22:42","slug":"o-peso-de-uma-escolha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-peso-de-uma-escolha\/","title":{"rendered":"O peso de uma escolha"},"content":{"rendered":"<p>Minha m\u00e3e tem certas coisas que \u00e9 melhor nem discutir, como se fosse d\u00e9spota ciente do pr\u00f3prio esclarecimento sobre tudo. E n\u00e3o pense voc\u00ea que n\u00e3o tentei alguns argumentos, tolos, como ela se refere aos meus e do R\u00f4mulo, o ca\u00e7ula.<\/p>\n<p>\u2014 Sexta voc\u00eas v\u00e3o pra fazenda.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, m\u00e3e, o anivers\u00e1rio do Marcos \u00e9 no s\u00e1bado. J\u00e1 combinei de ir.<\/p>\n<p>\u2014 Pois v\u00e1 no do pr\u00f3ximo ano, que nem sei se seu av\u00f4 vai estar vivo at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Mas, m\u00e3e!<\/p>\n<p>\u2014 Maria L\u00facia, a conversa acabou aqui. Agora v\u00e1 arrumar seu quarto, que n\u00e3o sou sua empregada.<\/p>\n<p>Assim que virei as costas, ouvi minha m\u00e3e perguntando se o R\u00f4mulo queria falar alguma coisa. \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o, ainda mais depois do que ele acabara de presenciar. Tola fui eu de ainda querer bater de frente com a ditadora da nossa casa. Nossa?<\/p>\n<p>N\u00e3o teve jeito, acabei inventando uma desculpa para o Marcos, com quem estava muito a fim de dar uns beijos e, dependendo da qu\u00edmica, engatar um namoro. Que gato! Aqueles cabelos que n\u00e3o param quietos, sempre obrigando o lind\u00e3o a tir\u00e1-los dos olhos. Ah, e que olhos s\u00e3o aqueles? De t\u00e3o grandes, os c\u00edlios parecem querer me tocar sempre que me aproximo.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, Marcos, n\u00e3o vai dar. Meu av\u00f4 t\u00e1 pra morrer, os m\u00e9dicos j\u00e1 o desenganaram, minha m\u00e3e disse que precisamos ir visit\u00e1-lo antes de&#8230; Voc\u00ea sabe, n\u00e9?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, gata! \u00c9 claro que entendo. Sua m\u00e3e est\u00e1 certa. A gente se v\u00ea.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o dava para fugir de casa naquele final de semana, l\u00e1 fomos meu irm\u00e3o e eu, de \u00f4nibus, at\u00e9 Padre Bernardo. Descemos antes a poucos quil\u00f4metros antes da cidade, pr\u00f3ximo a uma estrada de ch\u00e3o, onde vov\u00f4 j\u00e1 estava nos esperando em sua velha camionete azul. R\u00f4mulo e eu corremos para abra\u00e7\u00e1-lo e, naquele momento, era como se o Marcos deixasse de ser prioridade. Al\u00e9m do mais, como ele havia me dito, &#8220;A gente se v\u00ea&#8221;.<\/p>\n<p>Depois dos beijos, abra\u00e7os e palavras t\u00edpicas de av\u00f4 quando passa alguns dias sem ver os netos &#8211; &#8220;Nossa, como voc\u00eas cresceram!&#8221;, &#8220;Voc\u00eas t\u00eam certeza de que s\u00e3o mesmo os filhos da minha filha? Est\u00e3o t\u00e3o grandes!\u201d, &#8220;Maria L\u00facia, n\u00e3o conte pra sua m\u00e3e, mas voc\u00ea est\u00e1 mais linda do que ela na sua idade&#8221; &#8211; l\u00e1 fomos n\u00f3s a caminho da fazenda.<\/p>\n<p>Mal chegamos, foi aquela sensa\u00e7\u00e3o de que, de algum modo, eu pertencia \u00e0quele lugar. Lembran\u00e7as da minha inf\u00e2ncia querendo ir v\u00e1rias vezes at\u00e9 o galinheiro para saber se havia mais algum ovo para recolher. Nesse tempo vov\u00f3 ainda estava conosco, e era com ela que passava a maior parte do tempo. Contadora de hist\u00f3rias, algumas de assombra\u00e7\u00e3o, me fazia dormir abra\u00e7ada ao meu irm\u00e3o, mesmo ele sendo ainda praticamente um beb\u00ea. O que o R\u00f4mulo poderia fazer para me proteger de monstros assustadores? Jogar uma fralda suja neles? Ah, vov\u00f3, quanta saudade!<\/p>\n<p>Meu av\u00f4 ficou desolado. N\u00e3o deve ser f\u00e1cil ficar vi\u00favo, mas ele continuou, como se querendo preservar a mem\u00f3ria da esposa. Mais de 50 anos de casamento. Cinquenta, algo que terei daqui a&#8230; Nunca fui muito boa em fazer contas de cabe\u00e7a, mas sei que precisaria de mais m\u00e3os para contar.<\/p>\n<p>No final de semana descobri algo que imaginava ser s\u00f3 minha av\u00f3 que sabia fazer, que \u00e9 contar hist\u00f3rias. Vov\u00f4, por tr\u00e1s daquele bigode de homem bravo, nos contou v\u00e1rias coisas da sua inf\u00e2ncia. Antes era dif\u00edcil me fazer acreditar que gente velha j\u00e1 foi crian\u00e7a um dia, mas hoje \u00e9 mais f\u00e1cil, ainda mais quando percebo tantas mudan\u00e7as que aconteceram comigo nos \u00faltimos meses.<\/p>\n<p>Uma das coisas que meu av\u00f4 me contou foi quando ele se embrenhou em uma mata fechada com o Tigre, seu pequeno vira-lata caramelo com branco. Ele disse que estava com mais ou menos oito anos e gostava de se sentar na mata para escutar passarinhos.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00f4, mas o senhor n\u00e3o tinha medo de cobra?<\/p>\n<p>Esse a\u00ed foi o R\u00f4mulo, que n\u00e3o consegue ouvir uma hist\u00f3ria sem encher o contador de perguntas.<\/p>\n<p>\u2014 Tem que manter os olhos bem abertos e n\u00e3o mexer com as cobras, que elas n\u00e3o saem correndo atr\u00e1s da gente.<\/p>\n<p>Vov\u00f4 \u00e9 um amor, n\u00e9? Se fosse tio Cl\u00e1udio, j\u00e1 respondia que era s\u00f3 levar um fac\u00e3o para cortar o bicho ao meio. Por\u00e9m meu av\u00f4 \u00e9 pura gentileza, o que me faz sentir que vov\u00f3 ainda est\u00e1 por aqui.<\/p>\n<p>Naquele dia, meu av\u00f4 e o Tigre se embrenharam muito fundo no mato, foram parar em um local cheio de p\u00e1ssaros, os cantos inebriantes. Quando os dois perceberam, j\u00e1 era fim de tarde, quase noitinha. E l\u00e1 foi o R\u00f4mulo encher nosso av\u00f4 de perguntas.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00f4, e como voc\u00eas voltaram?<\/p>\n<p>\u2014 Voltando.<\/p>\n<p>\u2014 Usaram o GPS, n\u00e9?!<\/p>\n<p>\u2014 GPS? N\u00e3o, R\u00f4mulo. Naquele tempo n\u00e3o tinha GPS, mas eu tinha o Tigre, que era mais confi\u00e1vel do que qualquer GPS.<\/p>\n<p>Eu queria ter conhecido o Tigre. Pena que n\u00e3o tem nenhuma fotografia dele, mas consigo imaginar como aquele cachorrinho era, de tanto meu av\u00f4 me contar. Hoje em dia, tem a Lara, uma mesti\u00e7a caramelo com branco. Ela n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o mi\u00fada como imagino que tenha sido o Tigre, mas \u00e9 bem esperta. Ser\u00e1 que \u00e9 parente do Tigre? Vai ver \u00e9 tataraneta dele.<\/p>\n<p>R\u00f4mulo e eu voltamos para Bras\u00edlia no domingo. Vov\u00f4 nos levou at\u00e9 o ponto do \u00f4nibus. Que vontade de voltar logo para l\u00e1, mas a escola me aguardava. E o Marcos tamb\u00e9m, era o que eu imaginava.<\/p>\n<p>Na segunda-feira, tive o que minha m\u00e3e me disse ser a primeira desilus\u00e3o amorosa. Voc\u00ea acredita que o Marcos estava de m\u00e3os dada com a Larissa, a minha melhor amiga? Amiga?<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha m\u00e3e tem certas coisas que \u00e9 melhor nem discutir, como se fosse d\u00e9spota ciente do pr\u00f3prio esclarecimento sobre tudo. 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