{"id":394138,"date":"2026-05-09T09:25:17","date_gmt":"2026-05-09T12:25:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394138"},"modified":"2026-05-09T10:03:45","modified_gmt":"2026-05-09T13:03:45","slug":"brasil-vive-assombrado-com-estranhos-tempos-morbidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-vive-assombrado-com-estranhos-tempos-morbidos\/","title":{"rendered":"Brasil vive assombrado com estranhos tempos m\u00f3rbidos"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">\u00a0Com Antonio Gramsci aprendemos que &#8220;a crise [pol\u00edtica] consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo n\u00e3o pode nascer; neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas m\u00f3rbidos&#8221;. Trazendo a formula\u00e7\u00e3o do autor de\u00a0<i>Cadernos do c\u00e1rcere<\/i>\u00a0para os tempos de hoje, talvez seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo n\u00e3o pode nascer (ou \u00e9 impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo uma hist\u00f3ria regressiva. Este velho,\u00a0hoje, \u00e9\u00a0o neofascismo revisitado \u2014 novas palavras, novos meios\u00a0\u2014\u00a0mas sempre regressivo, anist\u00f3rico, autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p>S\u00e3o os estranhos\u00a0tempos m\u00f3rbidos, estes\u00a0nossos.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria presente \u2014 um presente mirando o caos, sem ensejar a vis\u00e3o de futuro imediato \u2014 pode ser vista como &#8220;ponto morto&#8221; (tempo sem promessa de avan\u00e7o ou recuo) e j\u00e1 foi descrita como &#8220;intervalo hist\u00f3rico&#8221;. Nada obstante as tens\u00f5es, sua caracter\u00edstica n\u00e3o \u00e9, quase nunca, a\u00a0mobiliza\u00e7\u00e3o social. Trata-se de tempo de espera, indefinido, sem car\u00e1ter. Est\u00e1 aberto a solu\u00e7\u00f5es regressivas (por sinal, \u00e9 este, hoje, o cen\u00e1rio dominante na Am\u00e9rica do Sul), que podem construir a ruptura democr\u00e1tica ou a continuidade autorit\u00e1ria, jamais a revolu\u00e7\u00e3o, projeto que comoveu as grandes massas no s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Este espa\u00e7o em aberto, ainda n\u00e3o identificado nem classificado, \u00e9 rico na proposi\u00e7\u00e3o de impasses. \u00c9 o quadro da ordem internacional na corrida para o imponder\u00e1vel, que pode ser, at\u00e9, a grande guerra na qual apostam \u2014 ou parecem apostar \u2014 os EUA, deixando no seu rastro o avan\u00e7o quase planet\u00e1rio da extrema-direita, causa ou efeito da regress\u00e3o mundial das mobiliza\u00e7\u00f5es populares, filha da crise do trabalho e, como decorr\u00eancia inevit\u00e1vel, filha da crise do sindicalismo e dos partidos de esquerda, nomeadamente dos partidos socialistas e comunistas ocidentais.<\/p>\n<p>E sempre incumbe lembrar a lament\u00e1vel e exemplar exaust\u00e3o do PCI e do PCF, atingidos de morte pela debacle da\u00a0URSS, em cuja sequ\u00eancia os partidos comunistas que detinham o poder no Leste Europeu logo sa\u00edram de cena, e as insurg\u00eancias revolucion\u00e1rias foram aplacadas. Nesse sentido, aproximam-se Europa e Am\u00e9rica do Sul com seus governos de direita, sob a reg\u00eancia dos EUA em guerra pela conquista do mundo.<\/p>\n<p>A aventura nazifascista dos anos 30-40 do s\u00e9culo passado mina qualquer sorte de surpresa.<\/p>\n<p>Atribui-se a Mark Twain a\u00a0<i>boutade<\/i>\u00a0segundo a qual &#8220;a hist\u00f3ria n\u00e3o se repete, mas rima&#8221;. De outra parte, podemos dizer que, no Brasil, ela \u00e9 recorrente. Em qualquer hip\u00f3tese, ser\u00e1 sempre um \u00f3bvio rodrigueano afirmar que o processo pol\u00edtico \u00e9 conduzido pelas altera\u00e7\u00f5es das circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas. Com ele trabalhamos. A cada altera\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u2014 sobre a qual atuam os homens e as institui\u00e7\u00f5es \u2014 corresponde uma nova etapa hist\u00f3rica. \u00c9\u00a0\u00a0consabido.<\/p>\n<p>A etapa de hoje conjuga a crise do capitalismo (um sistema global financeirizado e oligopolista) \u00e0 expans\u00e3o do imperialismo norte-americano. Vivemos o rescaldo da frustra\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea das promessas e esperan\u00e7as dos governos de centro-esquerda e sociais-democratas nestas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo, deca\u00eddos na armadilha do neoliberalismo: ajuste fiscal, regime de metas de infla\u00e7\u00e3o, c\u00e2mbio flutuante (implicando maior exposi\u00e7\u00e3o aos fluxos financeiros internacionais, reduzindo a margem de manobra das pol\u00edticas econ\u00f4micas nacionais), conten\u00e7\u00e3o dos gastos sociais\u00a0indispens\u00e1veis etc.\u00a0Uma pol\u00edtica econ\u00f4mica no contrapelo de promessas e compromissos de campanha. Seu efeito \u00f3bvio, na esteira da desilus\u00e3o social, foi preparar o terreno para a ascens\u00e3o de governos de direita e extrema-direita.<\/p>\n<p>Alguns\u00a0meros indicadores: os governos de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, Michelle Bachelet, sucedidos como foram, e ainda de Fran\u00e7ois Hollande, abrindo o espa\u00e7o que seria ocupado pelo avan\u00e7o de Marine Le Pen; e, nos pouco auspiciosos termos de nosso processo pol\u00edtico, as dificuldades do atual governo Lula e o temor de grave retrocesso pol\u00edtico-hist\u00f3rico nas elei\u00e7\u00f5es de outubro pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Como sempre, a desilus\u00e3o social, agora como nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo passado, na Europa e no mundo, abre um vazio pol\u00edtico prontamente ocupado pela direita, como foi o caso das elei\u00e7\u00f5es de Javier Milei e Jair Bolsonaro, que emergiu da insignific\u00e2ncia pol\u00edtica para a lideran\u00e7a da extrema-direita brasileira.<\/p>\n<p>A crise das experi\u00eancias de centro-esquerda nestas primeiras d\u00e9cadas do nosso s\u00e9culo revela um desvio pol\u00edtico-ideol\u00f3gico. Eleitos sob o signo da mudan\u00e7a, nossos governos submeteram-se (por for\u00e7a das conting\u00eancias ou despreparo estrat\u00e9gico) aos marcos do neoliberalismo. O que se se segue, s\u00e3o suas consequ\u00eancias. E as consequ\u00eancias sempre v\u00eam depois, como lembrava o e\u00e7aniano Conselheiro Ac\u00e1cio.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso registrar que a amea\u00e7a neofascista emerge em um mundo no qual as insurg\u00eancias prolet\u00e1rias, socialistas revolucion\u00e1rias, de um modo geral, est\u00e3o em recesso, e a humanidade\u00a0j\u00e1 n\u00e3o disp\u00f5e, como disp\u00f4s\u00a0no passado (os anos de confronto com o Eixo), do concurso da URSS e\u00a0de uns EUA comprometidos nalguma medida, como estavam naquele ent\u00e3o, com promessas democr\u00e1ticas.\u00a0Ante o colapso da Europa, foram esses pa\u00edses que ganharam para n\u00f3s a guerra. Hoje, as novas circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas nos lembram que a URSS j\u00e1 n\u00e3o existe e que os EUA, na guerra sem limite de meios pela conserva\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a mundial, amea\u00e7ada, s\u00e3o o farol e o motor do novo fascismo.<\/p>\n<p>No Brasil, a extrema-direita cresce ineditamente (anos-luz para al\u00e9m dos sonhos do integralismo nos anos 1930, namorando o Estado Novo e tentando desestabiliz\u00e1-lo, como em 1938) como movimento de massas, oferecendo base popular \u00e0 constru\u00e7\u00e3o do projeto regressista. Nada justifica a alegativa de supressas, pois\u00a0a onda que inundou a praia em 2018 j\u00e1 se vinha anunciando desde o dif\u00edcil processo eleitoral de 2014 e a reelei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, com os desdobramentos conhecidos e a inf\u00e2mia do impeachment\u00a0farsesco.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse limiar que, do baixo ou baix\u00edssimo clero,\u00a0emerge\u00a0e se fortalece o &#8220;bolsonarismo&#8221;, que passa a oferecer base popular para o neofascismo tupiniquim, em marcha, a partir principalmente do governo t\u00edtere do vice perjuro, feito presidente pela tramoia da cassa\u00e7\u00e3o do mandato da presidente.<\/p>\n<p>A regress\u00e3o, fen\u00f4meno pol\u00edtico posto em forma por um sem-n\u00famero de causas e concausas, tanto conhece os efeitos da crise da esquerda de um modo geral, quanto da fal\u00eancia do neoliberalismo, do qual nossos governos n\u00e3o lograram fugir ou resistir, vencido o discurso program\u00e1tico pela\u00a0<i>realpolitik<\/i>, que imp\u00f5e todas as concess\u00f5es necess\u00e1rias como contrapartida da pura e simples conserva\u00e7\u00e3o do governo, ainda quando o poder escapa das m\u00e3os do governante.<\/p>\n<p>A arte de governar se confunde com a arte da concilia\u00e7\u00e3o, regra irrevog\u00e1vel de nossa hist\u00f3ria pol\u00edtica, projeto da classe dominante para se manter no poder. \u00c9 a chave para entender o Brasil e o drama de hoje. Certamente o\u00a0<i>mal de origem<\/i>, para lembrar Manoel Bonfim.<\/p>\n<p>O drama da esquerda reformista, ante o recesso da esquerda socialista, no Brasil e n\u00e3o s\u00f3 aqui, \u00e9 o pre\u00e7o cobrado \u00e0 ado\u00e7\u00e3o\u00a0\u00a0da concilia\u00e7\u00e3o como estrat\u00e9gia, e n\u00e3o como t\u00e1tica, como ela \u00e9 recepcionada no jogo da pol\u00edtica. Autonomizada, elevada ao plano de sujeito, jamais serviu seja para o avan\u00e7o dos interesses das grandes massas, seja para a consolida\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, processo que jamais se conclui em pa\u00eds permanentemente \u00e0 espera de um futuro que, dele, desgra\u00e7adamente, mais se afasta,\u00a0quanto dele mais intenta aproximar-se.<\/p>\n<p>Seja como for, a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o como projeto de na\u00e7\u00e3o parece j\u00e1 ter dado os poucos frutos que poderia\u00a0oferecer\u00a0e se apresenta, hoje, esgotada, devendo ser declarada perempta.<\/p>\n<p>A dif\u00edcil elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2022, a intentona de janeiro de 2023, a dif\u00edcil sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-parlamentar do governo (exposta em sucessivas derrotas na C\u00e2mara e no Senado)\u00a0n\u00e3o devem\u00a0ser vistas como fatos isolados e muito menos como fen\u00f4menos &#8220;fora da curva&#8221;. Nesse contexto \u00e9 que devemos considerar a rejei\u00e7\u00e3o, pelo Senado, ao procurador Jorge Messias, indicado pelo presidente da Rep\u00fablica para uma vaga no STF. Trata-se de fato institucionalmente grave, \u00e9 verdade, no\u00a0entanto, n\u00e3o deve ser visto, isoladamente, como mais uma &#8220;crise&#8221;, sen\u00e3o como estilha\u00e7o da grande crise republicana de nossos dias.<\/p>\n<p>Ponto final de uma trama de for\u00e7as convergentes, nenhuma crise \u00e9 um fato em si, historicamente isol\u00e1vel; jamais \u00e9 um epis\u00f3dio, mas sempre um processo. Conquanto grave do ponto de vista institucional, a m\u00e1 conduta do Senado n\u00e3o configura nem ponto de partida nem ponto de chegada.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria, \u00e1guas passadas movem moinhos.<\/p>\n<p>Vejamos.<\/p>\n<p>Ainda lendo Gramsci, sabemos que o momento cr\u00edtico n\u00e3o inaugura a crise, apenas torna vis\u00edvel aquilo que j\u00e1 se vinha acumulando nas profundezas da estrutura social, muitas vezes impercept\u00edveis aos sonares dos cientistas sociais: tens\u00f5es latentes, fissuras no consenso, deslocamentos silenciosos. Nesse sentido, nenhuma transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se explica por um fator isolado, sen\u00e3o pela lenta e muitas vezes\u00a0\u00a0impercept\u00edvel altera\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes, que redefine os limites do poss\u00edvel.<\/p>\n<p>As rupturas n\u00e3o irrompem como acidentes s\u00fabitos, nem se deixam atribuir a um evento singular, pr\u00f3prio; respondem ao desfecho de um desgaste progressivo e cumulativo das formas de dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, quando a hegemonia (no sentido gramsciano) se\u00a0rarefaz e o comando j\u00e1 n\u00e3o logra organizar, nem intelectual nem politicamente, o conjunto social. \u00c9 quando,\u00a0sem se\u00a0dar por si, o sistema &#8220;envelhece&#8221;, o que, em texto anterior, denominei\u00a0&#8220;fadiga de materiais&#8221;. Nosso discurso e nosso projeto permanecem coerentes com os marcos de sua origem, mas\u00a0as circunstancias politicas se alteraram.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 tempo de a esquerda (e o nosso governo) ter consci\u00eancia \u2014 para da\u00ed agir \u2014 de que as elei\u00e7\u00f5es de outubro podem significar mudan\u00e7as mais profundas do que a simples troca da reg\u00eancia do Planalto.<\/p><\/div>\n<div align=\"justify\">&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/div>\n<div align=\"justify\"><strong>Roberto Amaral foi ministro da Ci\u00eancia e Tecnologia com Lula 1<\/strong><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Com Antonio Gramsci aprendemos que &#8220;a crise [pol\u00edtica] consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo n\u00e3o pode nascer; neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas m\u00f3rbidos&#8221;. 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