{"id":394168,"date":"2026-05-11T00:00:09","date_gmt":"2026-05-11T03:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394168"},"modified":"2026-05-09T13:15:23","modified_gmt":"2026-05-09T16:15:23","slug":"quadrilha-moderna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quadrilha-moderna\/","title":{"rendered":"Quadrilha moderna"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00eas conhecem o poema \u201cQuadrilha\u201d, de Carlos Drummond de Andrade? A primeira estrofe \u00e9 a seguinte: Jo\u00e3o amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que n\u00e3o amava ningu\u00e9m.<\/p>\n<p>\u201cQuadrilha\u201d foi publicado em 1930 no primeiro livro de Drummond, <em>Alguma poesia<\/em>. Se ele escrevesse o poeminha umas cinco d\u00e9cadas depois, com base no que ent\u00e3o acontecia em uma cidadezinha do interior ga\u00facho \u2013 e, sem d\u00favida, por todo o Brasil \u2013, a estrofe poderia come\u00e7ar assim: Henrique amava L\u00edvia que amava Edu que amava Nina, L\u00edvia e S\u00edlvia&#8230;<\/p>\n<p>Acharam meio confuso? Vou contar como tudo aconteceu, desde o in\u00edcio, tintim por tintim, para n\u00e3o deixar d\u00favidas.<\/p>\n<p>Estava eu de volta \u00e0 cidadezinha do Rio Grande do Sul onde residia minha fam\u00edlia, quando conheci L\u00edvia.<\/p>\n<p>\u00c9ramos colegas de trabalho e logo ficamos amigas \u00edntimas. Tornei-me sua confidente.<\/p>\n<p>Como trabalh\u00e1vamos em mesas pr\u00f3ximas, as conversas eram inevit\u00e1veis.<\/p>\n<p>Foi durante esses bate-papos informais que ela me contou de seus amantes.<\/p>\n<p>Casada com Henrique, tivera v\u00e1rios amantes, todos casados tamb\u00e9m. Ela os preferia por serem discretos, terem tanto a perder quanto ela.<\/p>\n<p>S\u00f3 que, contrariando os versos de Chico Buarque, que diz que atr\u00e1s de um homem triste h\u00e1 sempre uma mulher feliz, L\u00edvia n\u00e3o o era, ou n\u00e3o parecia s\u00ea-lo. Muito ao contr\u00e1rio, exibia o tempo todo um ar melanc\u00f3lico e desanimado. O que n\u00e3o parecia diminuir em nada a atra\u00e7\u00e3o que exercia sobre os homens.<\/p>\n<p>Voc\u00eas devem estar se perguntando: por que diabos ela contava para mim suas aventuras amorosas?<\/p>\n<p>Ora, porque \u00e9ramos amigas \u00edntimas. Mas ela n\u00e3o contava para aliviar eventuais culpas, n\u00e3o se sentia culpada de nada.<\/p>\n<p>Ela contava porque, qual seria a gra\u00e7a de ser desejada e ter v\u00e1rios homens, se n\u00e3o pudesse contar para ningu\u00e9m? \u00c9 como dizem os caras, melhor do que sair com a Angelina Jolie \u00e9 contar para os amigos depois, no bar: \u201cc\u00eas sabem, t\u00f4 tra\u00e7ando a gostosa da Angelina Jolie!\u201d<\/p>\n<p>Bom, voltando \u00e0 nossa hist\u00f3ria, sem culpas e sem julgamentos: quem era eu para julg\u00e1-la? N\u00f3s nos divert\u00edamos muito, um pouco inconsequentes talvez, mas quem n\u00e3o o \u00e9 aos vinte e poucos anos?<\/p>\n<p>O caso que vou contar aconteceu quando ela estava namorando um colega, o Edu, casado com S\u00edlvia, e amante de Nina.<\/p>\n<p>Deu n\u00f3 na cabe\u00e7a? \u00c9 que o cara era um safado mesmo, tinha duas amantes. A minha amiga e uma outra, ex-estagi\u00e1ria. O pior \u00e9 que ele era baixinho, enfezadinho \u2013 um burrich\u00f3 de campo ruim, como a gente diz no Sul. Mas, segundo L\u00edvia, tinha qualidades ocultas, avantajadas.<\/p>\n<p>Como Nina n\u00e3o trabalhava e era separada, Edu costumava sair durante o hor\u00e1rio de servi\u00e7o para encontr\u00e1-la na casa dela.<\/p>\n<p>As amantes sabiam uma da outra e o ci\u00fames entre elas era rec\u00edproco. S\u00f3 n\u00e3o tinham ci\u00fames da esposa; ela, a matriz, tinha direitos inalien\u00e1veis, assim julgavam as filiais.<\/p>\n<p>Certo dia, l\u00e1 pelas 11, Edu mandou uma geral:<\/p>\n<p>&#8211; Bah, deu pra mim, vou sair para almo\u00e7ar.<\/p>\n<p>L\u00edvia olhou para mim, com uma express\u00e3o furiosa. Sab\u00edamos que seria um almo\u00e7o longo, com direito a sobremesa \u2013 pudim de Nina em molho branco.<\/p>\n<p>Minha amiga tinha o telefone da outra amante, assim, pediu para um colega ligar para l\u00e1.<\/p>\n<p>&#8211; Melhor n\u00e3o, L\u00edvia&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Vem comigo que te conven\u00e7o a ligar \u2013 respondeu a enraivecida filial. E, pegando a m\u00e3o do colega, levou-o at\u00e9 o almoxarifado, que estava vazio, trancando a porta depois de entrar.<\/p>\n<p>Este poderia ser o momento de enriquecer o conto com t\u00f3rridas cenas de sexo dentro do almoxarifado, capazes de derrubar as prateleiras. Mas conto apenas o que vi ou escutei. N\u00e3o sei o que ela fez ou prometeu fazer, se ele ligasse. O fato \u00e9 que, uns 15 minutos depois, o recalcitrante saiu do almoxarifado com a mulher em busca de vingan\u00e7a. Seus olhos brilhavam de determina\u00e7\u00e3o (e talvez contentamento) quando pegou o telefone, discou e exigiu falar com Edu. Quando este atendeu, o rec\u00e9m-convertido ao livismo disfar\u00e7ou a voz e disse apenas tr\u00eas palavras:<\/p>\n<p>&#8211; Tudo descoberto. Fuja!<\/p>\n<p>A cena que vi quando Edu chegou, esbaforido, jamais vou esquecer. O homem, que era moreno, estava p\u00e1lido, olhos arregalados, olhando desconfiado para todos os lados.<\/p>\n<p>Adivinhem se ele perguntou para algu\u00e9m por que tinham ligado para ele?<\/p>\n<p>Deve estar imaginando, pensando at\u00e9 hoje quem sabia&#8230;<\/p>\n<p>Soubemos depois que Edu, que trabalhava no Departamento Financeiro, havia desviado algum dinheiro da empresa. Foi isso que o apavorou, que o fez fugir para n\u00e3o mais voltar. E n\u00e3o era uma quantia grande, que justificasse a perda de um emprego razo\u00e1vel.<\/p>\n<p>Bem feito! Quem mandou trair a amante?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00eas conhecem o poema \u201cQuadrilha\u201d, de Carlos Drummond de Andrade? 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