{"id":394180,"date":"2026-05-11T00:30:43","date_gmt":"2026-05-11T03:30:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394180"},"modified":"2026-05-09T15:51:35","modified_gmt":"2026-05-09T18:51:35","slug":"o-medo-alado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-medo-alado\/","title":{"rendered":"O medo alado"},"content":{"rendered":"<p>A temperatura estava deliciosa. Adoro Cachoeiro de Itapemirim exatamente pelo calor, mas convenhamos que a melhor \u00e9poca \u00e9 entre o final de abril e o m\u00eas de maio, quando o clima fica ameno, mas sem chegar ao frio.<\/p>\n<p>Subo o morro caminhando com tranquilidade, sentindo o frescor, admirando as estrelas e o c\u00e9u limpo. No final da rua, vejo uma mariposa ca\u00edda. Linda! Suas asas brancas, com linhas pretas e desenhos sim\u00e9tricos vermelhos, chamaram-me a aten\u00e7\u00e3o; uma verdadeira obra-prima do Criador. Parei, olhei e segui.<\/p>\n<p>Menos de vinte metros adiante, encontro outra ca\u00edda \u2014 efeitos das l\u00e2mpadas de rua. N\u00e3o resisti e peguei a moribunda. Analisando seus \u00faltimos sinais de vida e as cores de suas asas, em minha paix\u00e3o por borboletas, cogitei at\u00e9 empalhar a bichinha, mas desisti. Coloquei-a de volta ao ch\u00e3o, ainda em agonia, e ri sozinha.<\/p>\n<p>Calma, n\u00e3o ri da sua morte em busca da luz. Ri da lembran\u00e7a que me veio \u00e0 mente.<\/p>\n<p>Minha filha mais velha, quando adolescente, desenvolveu um gosto louco por filmes de terror- algo que eu n\u00e3o aprecio. Aos poucos, minha filha do meio passou a acompanh\u00e1-la nessas sess\u00f5es assustadoras. Os resultados p\u00f3s-filme, algumas vezes, eram hil\u00e1rios. Como, por exemplo, quando ela e um grupo de amigas foram ver *Annabelle* no cinema: uma das amigas levou a B\u00edblia e passou o filme inteiro repreendendo o dem\u00f4nio.<\/p>\n<p>Pois bem, era nove de mar\u00e7o, Festa das Canoas em Marata\u00edzes. Fomos n\u00f3s quatro, mas foi um daqueles finais de semana em que nada d\u00e1 certo. Acordamos cedo para a prociss\u00e3o dos canoeiros e choveu&#8230; choveu uma chuva que n\u00e3o acabava mais. Voltamos para casa todos molhados. Ao passarmos pela casa de uma grande amiga, ela gritou:<\/p>\n<p>\u2014 Sobe a\u00ed!<\/p>\n<p>\u2014 Estamos molhados. Respondi.<\/p>\n<p>\u2014 Daremos um jeito!<\/p>\n<p>Estava frio e precis\u00e1vamos de algo para nos divertir. Subimos, nos secamos e trocamos de roupa. As adultas foram tomar umas cervejas; os adolescentes, ver filme de terror. Foram tr\u00eas filmes. O \u00faltimo chamava-se *Mama*. N\u00e3o sei bem a hist\u00f3ria, mas a m\u00e3e matava o beb\u00ea, ou tentava, sei l\u00e1. O fato \u00e9 que todas as vezes que ela surgia, uma mancha se formava na parede e v\u00e1rias borboletas, ou mariposas, apareciam. Amo borboletas e n\u00e3o entendo por que as usam tanto em obras de suspense ou terror.<\/p>\n<p>Fomos para casa. Chegamos por volta das vinte horas, fui para o fog\u00e3o e o g\u00e1s acabou. A op\u00e7\u00e3o foi o lanche. J\u00e1 na lanchonete, enquanto esper\u00e1vamos o pedido, notei no banco ao meu lado uma grande borboleta se debatendo. Sem saber se ela estava ferida ou morrendo, n\u00e3o conseguia parar de prestar aten\u00e7\u00e3o na coitada. Terminamos de comer, paguei a conta, peguei a borboleta, coloquei-a em um saquinho e levei para casa.<\/p>\n<p>Era tarde. Analisei suas asas, n\u00e3o encontrei nenhum problema aparente, coloquei-a sobre a mesa e fomos dormir. Eu e meu ca\u00e7ula em um quarto; as duas meninas no outro. O quarto delas n\u00e3o tinha porta, e era poss\u00edvel ver a borboleta ali na mesa.<\/p>\n<p>Menos de quinze minutos depois, as duas entram no meu quarto:<\/p>\n<p>Podemos dormir aqui?<\/p>\n<p>Pode, mas por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Estamos com medo da borboleta.<\/p>\n<p>Apenas ri e dormimos todos ali. Na manh\u00e3 seguinte, eu ainda dormia quando meu ca\u00e7ula e a mais velha vieram me acordar, alvoro\u00e7ados:<\/p>\n<p>A borboleta sumiu!<\/p>\n<p>Que bom, sinal de que est\u00e1 bem e voou \u2014 Respondi, ainda sonolenta.<\/p>\n<p>Estamos com medo! E se ela estiver escondida dentro de casa?<\/p>\n<p>N\u00e3o estou entendendo esse medo. \u00c9 s\u00f3 uma borboleta e voc\u00eas sabem que eu gosto delas.<\/p>\n<p>\u00c9, m\u00e3e, mas a senhora viu o filme ontem?<\/p>\n<p>Ri novamente.<\/p>\n<p>Vi, mas voc\u00ea n\u00e3o dizia que amava filmes de terror? Perguntei \u00e0 mais velha.<\/p>\n<p>\u00c9, eu gostava. Desde ontem n\u00e3o gosto mais! Estou com medo, e no filme tinha borboletas&#8230;<\/p>\n<p>E voc\u00eas est\u00e3o com medo de uma borboleta real por causa de um filme, depois de terem assistido a tantos outros? S\u00e3o doidos!<\/p>\n<p>N\u00e3o, m\u00e3e&#8230; \u00e9 que no filme a m\u00e3e era m\u00e1. E m\u00e3es n\u00e3o podem ser m\u00e1s. Nunca mais vou assistir a filmes de terror!<\/p>\n<p><strong>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><strong>M\u00e9rcia Souza \u00e9 escritora, cronista e colunista de jornais e revistas. Com tr\u00eas livros publicados e participa\u00e7\u00e3o em diversas antologias, encontra na escrita o f\u00f4lego para registrar o cotidiano. M\u00e3e e av\u00f3 dedicada, \u00e9 apaixonada pela natureza e divide seu tempo entre a contempla\u00e7\u00e3o do mar e o desafio das montanhas. Atualmente, reside em Cachoeiro de Itapemirim (ES), de onde extrai inspira\u00e7\u00e3o para suas pr\u00f3ximas narrativas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A temperatura estava deliciosa. Adoro Cachoeiro de Itapemirim exatamente pelo calor, mas convenhamos que a melhor \u00e9poca \u00e9 entre o final de abril e o m\u00eas de maio, quando o clima fica ameno, mas sem chegar ao frio. Subo o morro caminhando com tranquilidade, sentindo o frescor, admirando as estrelas e o c\u00e9u limpo. 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