{"id":394198,"date":"2026-05-13T01:15:35","date_gmt":"2026-05-13T04:15:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394198"},"modified":"2026-05-09T23:00:25","modified_gmt":"2026-05-10T02:00:25","slug":"quando-o-mito-passa-no-supermercado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-o-mito-passa-no-supermercado\/","title":{"rendered":"QUANDO O MITO PASSA NO SUPERMERCADO"},"content":{"rendered":"<p>Acompanhado da esposa, ele havia ido a uma consulta no hospital da rede do plano de sa\u00fade. Na faixa et\u00e1ria deles, o plano j\u00e1 estava bem caro. A sorte \u00e9 que, al\u00e9m de uns apartamentos que comprara na Zona Norte havia muitos anos, cujo aluguel recebia, o sal\u00e1rio da TV ainda ca\u00eda certo todo quinto dia \u00fatil do m\u00eas. Preservava o privil\u00e9gio de pertencer ao cast da emissora que vinha demitindo v\u00e1rios colegas seus, veteranos. Mas ele n\u00e3o. Tinha seu p\u00fablico, dava audi\u00eancia, recebia pr\u00eamios, era tido como um dos maiores atores de sua gera\u00e7\u00e3o. Se bem que, entre o p\u00fablico mais jovem, desses acostumados mais a ver TV on-demand e streaming \u2014 que diabo de express\u00f5es complicadas, pensava \u2014 ele passava bastante despercebido.<\/p>\n<p>Sentara-se ali como um perfeito an\u00f4nimo, com seus \u00f3culos de grau e barba por fazer, e tentou amenizar a espera olhando a televis\u00e3o que exibia um telejornal. O volume estava baixo. As legendas, em closed caption, tinham erros e muito atraso. Entreteve-se com as imagens, que mostravam bairros pobres da cidade, sacos de lixo boiando em \u00e1gua lamacenta, uma chuva, ruas alagadas, uma rep\u00f3rter, vestindo capa de chuva, entrevistando uma autoridade.<\/p>\n<p>Em volta dele, pessoas tossiam. Ele achou que devia ter aceitado a recomenda\u00e7\u00e3o da mulher para ir de m\u00e1scara. Mas, intimamente, outra raz\u00e3o pesava: e se, de m\u00e1scara, ningu\u00e9m notasse que era ele? Nos \u00faltimos tempos, percebera isso com mais frequ\u00eancia. Ainda era respeitado, ainda era citado como refer\u00eancia no teatro e na TV, mas o ass\u00e9dio espont\u00e2neo rareava. As novas celebridades, os tiktokers, os influenciadores digitais \u2014 nada disso ele sabia direito do que se tratava \u2014 haviam dilu\u00eddo a fama de muitos.<\/p>\n<p>Por isso, foi com um misto de curiosidade e espanto que percebeu como a mo\u00e7a que o atendera na recep\u00e7\u00e3o tentava chamar a aten\u00e7\u00e3o das colegas para ele, cochichando, dando risinhos, depois de descobrir quem ele era. Ela estava certa de conhec\u00ea-lo de algum lugar.<\/p>\n<p>Aquela impress\u00e3o de familiaridade confusa, que pode nos invadir at\u00e9 quando cruzamos com um rosto muito comum, embora expressivo, na praia, na rua ou no transporte p\u00fablico. Mas ela investigara no celular e descobrira sua longa carreira de sucessos.<\/p>\n<p>Ele, com seus vener\u00e1veis cabelos brancos, sentado ao lado da esposa, olhou para o monitor de TV onde os pacientes eram chamados tendo seus nomes lidos por uma voz feminina rob\u00f3tica, e at\u00e9 imaginou como era esquisito ver escrito ali seu nome verdadeiro, e n\u00e3o o nome art\u00edstico pelo qual era conhecido havia tantos anos. Estranhou mais ainda quando soou a voz rob\u00f3tica:<\/p>\n<p>\u2014 Cleverson Moreira, consult\u00f3rio seis.<\/p>\n<p>A esposa o olhou, tocou no seu bra\u00e7o rapidamente e disse \u201cvamos\u201d. Antes que terminassem de levantar, a recepcionista, uma outra funcion\u00e1ria do local e duas mo\u00e7as vestidas em uniforme verde, provavelmente t\u00e9cnicas de enfermagem, chegaram at\u00e9 eles, um pouco constrangidas.<\/p>\n<p>\u2014 Desculpe, mas o senhor \u00e9 o Claude Mayer, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Quantas e quantas vezes ele j\u00e1 passara por isso. A vaidade de artista, levemente remanescente em seu ser, encarava essas situa\u00e7\u00f5es entre um sentimento de pequeno inc\u00f4modo e uma \u00edntima satisfa\u00e7\u00e3o pessoal. Afinal, ao longo dos anos, nunca deixara de ser reconhecido em situa\u00e7\u00f5es cotidianas. E deixar de s\u00ea-lo poderia significar que estava completamente liquidado e que restara apenas a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Brincalh\u00e3o, respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Pois \u00e9, acho que sou eu mesmo. Embora, ali no monitor, tenham chamado Cleverson Moreira, que est\u00e1 indo ver o doutor&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Ah, ent\u00e3o \u00e9 o senhor mesmo. Eu nem acreditei quando vi! Fui at\u00e9 ver se o senhor tinha perfil nas redes sociais, s\u00f3 pra confirmar&#8230; Mas n\u00e3o achei.<\/p>\n<p>O velho ator queimou outra c\u00e1psula de vaidade. Olhou a interlocutora, metida num terninho preto, os cabelos cacheados castanhos soltos sobre os ombros, uns olhos verdes, o queixo harm\u00f4nico. Talvez tivesse uns 25 anos. As outras tr\u00eas, menos belas, mas t\u00e3o jovens quanto. Sentiu-se querido a julgar pelos sorrisos que as mo\u00e7as lhe dirigiam. Perguntou-se intimamente se ainda eram seu p\u00fablico. Quando a outra se manifestou:<\/p>\n<p>\u2014 A minha av\u00f3 e minha m\u00e3e amam o senhor! Outro dia estava vendo com elas uma novela antiga que o senhor fez, aquela em que o senhor morava numa vila de pescadores, que colocaram na \u00edntegra no streaming&#8230;<\/p>\n<p>Deu um sorriso amarelo. Sua esposa sorriu discretamente. E teve que intervir.<\/p>\n<p>\u2014 Obrigada, meninas, mas precisamos ir para a consulta.<\/p>\n<p>\u2014 Claro! Desculpem&#8230; Estejam \u00e0 vontade. E, por favor, se precisarem de algo, nos falem.<\/p>\n<p>Saiu da consulta aliviado, apenas com um pedido de exame. Estava bem, na medida do poss\u00edvel. Ao sair, uma outra funcion\u00e1ria do local, mais velha, aproximou-se:<\/p>\n<p>\u2014 Senhor Claude Mayer, permite-me tirar uma foto com o senhor?<\/p>\n<p>Sacou o celular e, sem que a mulher do velho ator fizesse qualquer gesto, entregou-lhe o aparelho e ainda pediu:<\/p>\n<p>\u2014 Da cintura para cima, por favor. Ai, nem acredito que encontrei Claude Mayer!<\/p>\n<p>Ao sair do hospital, Claude \u2014 ou dev\u00edamos cham\u00e1-lo de Cleverson? \u2014 contentava-se intimamente. Ainda que a jovem o houvesse reconhecido somente em fun\u00e7\u00e3o de um trabalho muito antigo, l\u00e1 no in\u00edcio de sua trajet\u00f3ria de gal\u00e3, o pedido de selfie da outra funcion\u00e1ria representou quase dar um aut\u00f3grafo. Pensou em como os tempos eram diferentes.<\/p>\n<p>A esposa olhava discretamente para ele. Podia ler, nos seus olhos azuis-acinzentados, uma satisfa\u00e7\u00e3o \u00edntima, bem peculiar.<\/p>\n<p>Seguiram seu caminho at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4, onde pegariam a condu\u00e7\u00e3o de volta para casa. Antes, a mulher disse que queria passar no mercado. Ele, que nutria uma feroz antipatia por supermercados, mas jamais contrariava sua esposa, entrou com ela. Como ela se adiantou um pouco, ele parou em frente \u00e0 vitrine de uma banca de jornais e revistas que funcionava numa pequena loja na entrada do mercado.<\/p>\n<p>Uma revista estampava, enorme, a foto colorida de Z\u00edngara Salcedo.<\/p>\n<p>Z\u00edngara&#8230; saboreou de novo aquele nome. Tinha d\u00favidas se era art\u00edstico, ou se correspondia ao que a bela atriz trazia em sua carteira de identidade. Acima da foto, em letras vermelhas, lia-se a chamada:<\/p>\n<p>\u201cA nova unanimidade do cinema nacional sofreu colapso nervoso ap\u00f3s as filmagens\u201d.<\/p>\n<p>Z\u00edngara havia protagonizado um filme em que interpretava uma mulher com problemas existenciais e muitos conflitos internos, oprimida psicologicamente por um marido cruel e indiferente. Fizera grande sucesso, recebera indica\u00e7\u00f5es a pr\u00eamios. Claude Mayer \u2014 definitivamente, o chamaremos pelo pseud\u00f4nimo \u2014 fizera uma participa\u00e7\u00e3o especial e \u201cafetiva\u201d no filme.<\/p>\n<p>Afetiva. Nome criativo para inserir um ator veterano num projeto, dar-lhe um papel expressivo, mas curto \u2014 um juiz, um av\u00f4, um patr\u00e3o, algu\u00e9m que faria uma ou duas cenas \u2014 e ainda garantir ao produtor executivo que o cach\u00ea n\u00e3o pesaria tanto no or\u00e7amento. E l\u00e1 se foi Claude, \u00e0s seis horas da manh\u00e3, filmar a externa. Numa inusitada loca\u00e7\u00e3o: o cemit\u00e9rio de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. Ele representaria um padre que aconselhava a protagonista ap\u00f3s o enterro de uma tia.<\/p>\n<p>\u2014 O que ela mais queria era v\u00ea-la feliz, minha filha. Escolhendo um bom marido, realizando-se na vida.<\/p>\n<p>Era mais ou menos isso, f\u00e1cil de decorar e bem r\u00e1pido para filmar.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse o atraso colossal da grande estrela Z\u00edngara Salcedo, e todas as suas exig\u00eancias para come\u00e7ar a cena, que colocaram os produtores e contrarregras em estado de beliger\u00e2ncia, ela ainda chegou sem as falas decoradas e precisou de um tempo para se reconectar \u00e0 personagem.<\/p>\n<p>\u2014 Ai, gente, ontem estava num resort, fotografando a cole\u00e7\u00e3o de uma marca que eu fui contratada para representar. Gra\u00e7as aos milhares de seguidores que eu tenho&#8230; N\u00e3o d\u00e1 pra fazer cara sofrida ainda, n\u00e9? Mas eu valorizo o tempo de voc\u00eas, viu? Vou mandar trazer uma aguinha extra para os figurantes.<\/p>\n<p>Nas filmagens, a estrela tratara-o muito respeitosamente, chamando-o de mestre, de refer\u00eancia, de mito. Fora at\u00e9 muito simp\u00e1tica.<\/p>\n<p>Na primeira reuni\u00e3o de elenco, embora Claude n\u00e3o tivesse entendido direito o sentido de sua presen\u00e7a ali, afinal era s\u00f3 uma ponta, ela se sentara ao seu lado e falara com aquela voz de confid\u00eancia que certas pessoas usam quando sabem que est\u00e3o sendo observadas.<\/p>\n<p>\u2014 Mestre, eu estou arrasada, sabe? J\u00e1 pensando em me internar numa cl\u00ednica, tirar uns dias s\u00f3 pra mim. O senhor me entende, n\u00e9? Eu me entrego muito aos personagens. A dor deles d\u00f3i na minha carne tamb\u00e9m. O ator, pra ser bom, precisa se jogar. Sofrer o que eles sofrem, se alegrar quando eles se alegram&#8230; E o papel tem que ter densidade, precisa ser desafiador. Fazer uma diferen\u00e7a na obra.<\/p>\n<p>Se n\u00e3o for assim, eu nem aceito sair de casa.<\/p>\n<p>Claude quase se enterneceu pelo sofrimento atroz relatado por Z\u00edngara. Achou-a praticamente sincera, mas n\u00e3o lhe deu nenhum conselho. Recordou dos in\u00fameros pap\u00e9is que havia feito no cinema, no teatro e na TV. Mesmo n\u00e3o crendo, agradeceu a Deus que tantos tivessem passado por sua carreira, se entrela\u00e7ado \u00e0 sua vida, sem terem deixado qualquer dano permanente.<\/p>\n<p>Nenhum rei deposto, nenhum advogado corrupto, nenhum marido tra\u00eddo, nenhum criminoso arrependido, nenhum pai vingativo, nenhum poeta b\u00eabado, nenhum gal\u00e3 de camisa aberta morando numa vila de pescadores cenogr\u00e1fica havia ficado morando dentro dele por mais tempo do que o estritamente necess\u00e1rio. Entravam, faziam seu servi\u00e7o, diziam suas falas, recebiam a luz certa, o corte certo, a l\u00e1grima certa, e depois iam embora.<\/p>\n<p>Era assim que devia ser.<\/p>\n<p>Nos dias seguintes come\u00e7avam os estudos para o pr\u00f3ximo trabalho. O ator precisava saber a hora de sair de cena. N\u00e3o apenas do palco, do set, do cap\u00edtulo. Sair de si mesmo tamb\u00e9m. Ou voltar para si mesmo. N\u00e3o sabia explicar com clareza. Mas havia nisso uma t\u00e9cnica, uma higiene, talvez uma forma de sobreviv\u00eancia. De conservar a sanidade.<\/p>\n<p>Z\u00edngara, n\u00e3o. Z\u00edngara parecia gostar de deixar as portas abertas. Dizia isso nas entrevistas, com uns olhos enormes, um modo um pouco rouco de falar, como se cada palavra viesse de um por\u00e3o emocional cheio de ba\u00fas guardando coisas terr\u00edveis. \u201cEu n\u00e3o interpreto, eu atravesso e sou atravessada\u201d, lera Claude certa vez, numa chamada de internet que lhe aparecera por acaso.<\/p>\n<p>\u2014 Atravessar o qu\u00ea?! Espero que ela se conserve sempre atenta ao atravessar a rua&#8230; \u2014 pensou. Atravessar era o que ele fazia quando precisava cruzar a cidade para chegar a uma loca\u00e7\u00e3o, quando enfrentava camarim apertado, figurino malpassado, diretor inseguro, produtor aflito, colega atrasado bancando a <em>prima donna<\/em>. Aquilo, sim, era atravessar. Sua atua\u00e7\u00e3o era mais pr\u00e1tica. Em novela havia cap\u00edtulo no dia seguinte. No teatro, a plateia voltava na pr\u00f3xima sess\u00e3o. No cinema, ningu\u00e9m podia esperar a alma amadurecer enquanto a equipe inteira olhava o rel\u00f3gio. E havia, depois de tudo, casa. Uma rotina tranquila, previs\u00edvel.<\/p>\n<p>A mulher voltou do mercado com mais sacolas do que prometera levar. Comprara frutas, caf\u00e9, queijo, sab\u00e3o em p\u00f3 e um pacote de biscoito que ele n\u00e3o comia havia anos, mas de que sempre gostara. Ao v\u00ea-lo parado diante da revista, perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 aquela mo\u00e7a?<\/p>\n<p>Ele demorou um instante para responder.<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Contracenei com ela. Ou quase isso.<\/p>\n<p>A esposa aproximou-se da vitrine e leu a chamada sobre o colapso nervoso.<\/p>\n<p>\u2014 Parece bonita.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 bonita.<\/p>\n<p>\u2014 Boa atriz?<\/p>\n<p>Claude fez um gesto largo com a m\u00e3o. N\u00e3o era exatamente um desd\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A mulher o conhecia o suficiente para saber que aquele \u201cposs\u00edvel\u201d carregava um discurso inteiro, talvez um julgamento implac\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o insistiu. Entregou-lhe uma das sacolas, a mais pesada, e seguiram para a sa\u00edda do mercado. Era desses pap\u00e9is menores que a vida, de quando em vez, d\u00e1 at\u00e9 aos grandes atores. N\u00e3o reclamou.<\/p>\n<p>Atravessaram a cal\u00e7ada em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 esta\u00e7\u00e3o. Foi ent\u00e3o que ele viu o carro.<\/p>\n<p>Grande, preto, de vidros totalmente escuros. O motorista desceu primeiro, deu a volta, abriu a porta traseira. Z\u00edngara Salcedo saiu de \u00f3culos escuros, cal\u00e7a clara, camisa bege-areia, uma bolsa pequena demais para carregar qualquer coisa \u00fatil, o celular preso entre os dedos compridos.<\/p>\n<p>Era menor e mais delgada do que parecia nas fotografias. Portava uma palidez elegante, talvez natural. Ao seu lado, uma mo\u00e7a falava sem parar. Certamente a assessora, lembrava dela do dia das filmagens. Sempre procurando garantir que Z\u00edngara n\u00e3o precisasse fazer coisas de simples mortais, como abrir uma garrafinha de suco.<\/p>\n<p>Claude ficou parado por um segundo. A esposa percebeu. Seguiu o olhar dele.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 ela?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9.<\/p>\n<p>Z\u00edngara olhou para os lados, como quem procurava algu\u00e9m. Por um instante, seus olhos passaram por Claude. Passaram mesmo. N\u00e3o pousaram. N\u00e3o o reconheceram. Ou reconheceram tarde demais, quando j\u00e1 era necess\u00e1rio seguir adiante.<\/p>\n<p>Ele sentiu um pequeno desconforto, que se apressou em converter em desprezo.<\/p>\n<p>Ali estava a grande artista, a mulher que n\u00e3o sa\u00eda de casa se o papel n\u00e3o tivesse densidade, a sacerdotisa do sofrimento, descendo de carro com chofer para talvez dar uma entrevista sobre humildade, dor e entrega. Ele, Cleverson Moreira, nome lido por uma m\u00e1quina no hospital, carregava uma sacola de mercado antes de pegar o metr\u00f4 com a esposa. Mas Claude Mayer, o ator, o mito, a refer\u00eancia, talvez ainda esperasse que ela viesse em sua dire\u00e7\u00e3o, abrisse os bra\u00e7os, chamasse-o de mestre.<\/p>\n<p>E ela veio.<\/p>\n<p>Talvez o tivesse reconhecido pelo modo como ele sustentava o corpo. Talvez a assessora lhe houvesse apontado. Talvez, por puro instinto profissional, ela houvesse percebido que aquele velho de barba por fazer e sacola na m\u00e3o n\u00e3o era apenas um velho de barba por fazer e sacola na m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Mestre! \u2014 disse ela, aproximando-se com uma alegria que parecia sincera, embora um pouco atrasada. \u2014 Que encontro maravilhoso!<\/p>\n<p>Beijou-o no rosto. O perfume era caro, excessivo, como certas luzes de camarim. Cumprimentou a esposa dele com delicadeza.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s trabalhamos juntos \u2014 disse Z\u00edngara, voltando-se para a mulher. \u2014 Quer dizer, eu tive essa honra de aprender com esse monstro sagrado.<\/p>\n<p>A esposa sorriu.<\/p>\n<p>\u2014 Eu sei.<\/p>\n<p>Claude percebeu que Z\u00edngara olhara rapidamente para a sacola. Foi um olhar m\u00ednimo, quase nada. Um \u00e1timo. Mas, para sua irrita\u00e7\u00e3o, sentiu vontade de explicar que passara no mercado apenas porque a esposa quisera, que n\u00e3o era exatamente uma rotina sua, que havia sa\u00eddo de uma consulta, que estava tudo bem, que continuava sendo Claude Mayer apesar do caf\u00e9, do queijo, do biscoito e do desodorante. Mas n\u00e3o explicou nada.<\/p>\n<p>\u2014 Vi sua entrevista \u2014 disse ele.<\/p>\n<p>\u2014 Ah, n\u00e3o me fale nisso. Eles exageram tudo. Mas foi pesado mesmo. Esse filme me atravessou de um jeito que eu ainda estou tentando entender.<\/p>\n<p>Claude olhou para ela. Teve vontade de dizer que os filmes n\u00e3o atravessavam ningu\u00e9m, no m\u00e1ximo atrasavam o almo\u00e7o, desorganizavam o sono e, quando muito bons, deixavam uma lembran\u00e7a decente. Mas conteve-se.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 preciso cuidado \u2014 respondeu.<\/p>\n<p>Z\u00edngara tirou os \u00f3culos. Seus olhos estavam levemente \u00famidos ou apenas muito bem maquiados.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor acha?<\/p>\n<p>\u2014 Acho.<\/p>\n<p>\u2014 Eu me entrego demais.<\/p>\n<p>\u2014 Percebi.<\/p>\n<p>Ela riu, sem saber se aquilo era elogio ou advert\u00eancia. Talvez as duas coisas. A assessora tocou-lhe o bra\u00e7o. Havia pressa, uma entrevista, uma grava\u00e7\u00e3o, um compromisso qualquer onde algu\u00e9m lhe perguntaria novamente sobre a personagem e ela diria, com palavras um pouco diferentes, a mesma coisa.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor vai \u00e0 entrega do pr\u00eamio, n\u00e3o vai? \u2014 perguntou Z\u00edngara. \u2014 Estamos concorrendo.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos ver.<\/p>\n<p>\u2014 O senhor tem que ir. Todo mundo fala do senhor. \u00c9 uma honra estar na mesma categoria.<\/p>\n<p>\u2014 A mesma categoria?<\/p>\n<p>Aquilo atingiu Claude de um modo inesperado. Ele e Z\u00edngara, lado a lado, disputando o mesmo pr\u00eamio, como se houvesse entre eles uma equival\u00eancia objetiva, uma linha reta ligando cinquenta anos de trabalho a uma carreira que ainda fazia propaganda de resort, perfume e sofrimento ps\u00edquico. Sentiu desprezo por ela, pela categoria, pelo pr\u00eamio, pela ind\u00fastria, por si mesmo. E, no fundo desse desprezo, uma satisfa\u00e7\u00e3o quase infantil. Ainda concorria. Ainda estava ali. Ainda podia vencer.<\/p>\n<p>\u2014 Boa sorte \u2014 disse.<\/p>\n<p>\u2014 Para n\u00f3s, mestre \u2014 respondeu ela, com um sorriso bonito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-394203 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ChatGPT-Image-9-de-mai.-de-2026-22_55_59-300x169.png\" alt=\"\" width=\"690\" height=\"389\" srcset=\"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ChatGPT-Image-9-de-mai.-de-2026-22_55_59-300x169.png 300w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ChatGPT-Image-9-de-mai.-de-2026-22_55_59-1024x577.png 1024w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ChatGPT-Image-9-de-mai.-de-2026-22_55_59-768x432.png 768w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ChatGPT-Image-9-de-mai.-de-2026-22_55_59-1536x865.png 1536w, https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/ChatGPT-Image-9-de-mai.-de-2026-22_55_59.png 1671w\" sizes=\"auto, (max-width: 690px) 100vw, 690px\" \/><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Z\u00edngara foi embora. Entrou num pr\u00e9dio envidra\u00e7ado ao lado da esta\u00e7\u00e3o, onde provavelmente daria a entrevista anunciada por algu\u00e9m que passaria a manh\u00e3 chamando-a de intensa e visceral. O carro preto partiu ou ficou esperando, Claude n\u00e3o reparou. A esposa ajeitou a sacola no bra\u00e7o.<\/p>\n<p>\u2014 Vamos, querido?<\/p>\n<p>Desceram para o metr\u00f4.<\/p>\n<p>Na escada rolante, Claude teve vontade de comentar alguma coisa espirituosa. Dizer que a mo\u00e7a sofria muito, mas sofria com motorista. No seu tempo, era diferente. O ator era um estigmatizado. Ou que os personagens modernos exigiam interna\u00e7\u00e3o, enquanto os antigos se contentavam com chegar cedo e ensaiar bastante. N\u00e3o disse. A esposa talvez risse, talvez n\u00e3o. \u00c0s vezes ela ria por amor, n\u00e3o por achar gra\u00e7a. E ele, que sempre soubera medir o riso da plateia, odiava perceber quando o riso vinha de piedade conjugal.<\/p>\n<p>No vag\u00e3o, sentado entre a esposa e uma mo\u00e7a que via v\u00eddeos no celular sem fone de ouvido, Claude pensou no que dissera a Z\u00edngara. \u201c\u00c9 preciso cuidado.\u201d Parecia conselho de velho. Conselho de quem j\u00e1 n\u00e3o tinha, ou jamais tivera, coragem de se atirar. Talvez fosse isso mesmo. Talvez Z\u00edngara n\u00e3o estivesse inteiramente errada. Talvez, em algum tempo remoto, ele tamb\u00e9m tivesse se entregado assim, ou imaginado se entregar. Mas a vida fora exigindo outra coisa. Havia sempre uma pr\u00f3xima cena, um pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, uma pr\u00f3xima marca no ch\u00e3o, uma pr\u00f3xima fala, uma pr\u00f3xima maquiagem. N\u00e3o se podia enlouquecer sempre.<\/p>\n<p>Chegaram em casa. Ali era o lugar onde ningu\u00e9m o chamava de Claude Mayer, exceto quando queriam brincar. A filha dizia papito. O filho o chamava de v\u00e9io. Os netos diziam v\u00f4. A esposa, quase sempre, dizia Cleverson. Claude Mayer era quem transitava por espa\u00e7os fict\u00edcios. Cleverson Moreira era quem tirava o sapato, procurava os \u00f3culos, reclamava da press\u00e3o da \u00e1gua, cochilava no sof\u00e1, esquecia nomes, fazia exame, segurava sacola de mercado.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabia qual dos dois era mais verdadeiro.<\/p>\n<p>Meses depois, a entrega do pr\u00eamio chegou.<\/p>\n<p>Recebera o convite com pompa, papel bonito, e-mail de assessoria, telefonema de confirma\u00e7\u00e3o. A produtora do filme insistiu. Seria importante a presen\u00e7a dele. Z\u00edngara iria. O diretor iria. Haveria tapete, imprensa, fotos, transmiss\u00e3o, discursos. Ele estava indicado numa categoria de atua\u00e7\u00e3o sem separa\u00e7\u00e3o entre protagonistas e coadjuvantes, homens e mulheres, jovens e velhos, vivos e sobreviventes. Achou a f\u00f3rmula moderna e confusa. Mas gostou de estar nela.<\/p>\n<p>A esposa perguntou se ele queria ir.<\/p>\n<p>Ele disse que n\u00e3o sabia.<\/p>\n<p>Na verdade, sabia. Tinham combinado uma viagem curta para a praia com os filhos e os netos. Nada sofisticado. Uma casa alugada onde ele podia se dividir entre a piscina e a areia. Um restaurante meio r\u00fastico nas redondezas onde sempre iam. O riso solto dos netos que desejavam muito a companhia dos av\u00f3s. A filha insistira. O filho, que raramente pedia qualquer coisa, havia dito:<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e9io, dessa vez vai com a gente. Pr\u00eamio tem todo ano.<\/p>\n<p>Pr\u00eamio n\u00e3o tinha todo ano para ele. N\u00e3o mais. Mas foi.<\/p>\n<p>Na noite da cerim\u00f4nia, estava de bermuda, camisa velha, chinelo, sentado na sacada, ouvindo o mar e o barulho dos netos dentro de casa. A televis\u00e3o da sala transmitia o evento. Ele fingia n\u00e3o acompanhar. De tempos em tempos, entrava para pegar \u00e1gua, uma castanha, um guardanapo, qualquer coisa que lhe permitisse olhar a tela sem admitir que olhava.<\/p>\n<p>Z\u00edngara apareceu algumas vezes. Linda, muito maquiada, cabelo preso, vestido escuro, ombros de fora. Sorria para as c\u00e2meras com aquele ar de quem j\u00e1 ensaiara a espontaneidade do discurso. Quando anunciaram a categoria, ela endireitou o corpo na cadeira.<\/p>\n<p>Claude viu. Todos viram. A esposa, sentada no sof\u00e1, olhou para ele.<\/p>\n<p>\u2014 Vem c\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 J\u00e1 vou.<\/p>\n<p>\u2014 Cleverson!<\/p>\n<p>Ele entrou.<\/p>\n<p>Na tela, surgiram os indicados. A imagem de Z\u00edngara chorando, com fundas olheiras, numa cena do filme. Depois a dele, no cemit\u00e9rio, vestido de padre, dizendo \u00e0 protagonista que a tia queria v\u00ea-la feliz. Achou-se velho demais. Achou-se bom. N\u00e3o saberia dizer em que ordem.<\/p>\n<p>O apresentador abriu o envelope.<\/p>\n<p>\u2014 E o pr\u00eamio vai para&#8230; Claude Mayer.<\/p>\n<p>Houve um segundo de sil\u00eancio dentro da casa. Depois os netos gritaram. A esposa levou as m\u00e3os ao rosto. A filha correu para abra\u00e7\u00e1-lo. O filho bateu palmas como se estivesse num est\u00e1dio. Claude ficou em p\u00e9, meio sem jeito, com um copo de \u00e1gua na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Na televis\u00e3o, a c\u00e2mera procurou Z\u00edngara. Ela sorriu. Sorriu bem. Era atriz. Mas havia, no canto da boca, um pequeno desarranjo, uma decep\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, quase infantil, que nenhuma pesada maquiagem conseguiria obliterar. Talvez tivesse preparado um discurso. Talvez acreditasse mesmo que aquele papel a atravessara tanto que o mundo lhe devia alguma compensa\u00e7\u00e3o. Talvez apenas quisesse ganhar, como todos querem, mesmo os que discursam sobre arte, entrega, generosidade.<\/p>\n<p>Como Claude n\u00e3o estava presente, o diretor recebeu por ele. Disse palavras bonitas. Chamou-o de lenda. Refer\u00eancia. Mestre. Um patrim\u00f4nio afetivo do cinema e da televis\u00e3o. Claude ouviu aquilo de bermuda, na sala quente de uma casinha de praia, com uma neta agarrada \u00e0 sua perna e o barulho de uma panela vindo da cozinha.<\/p>\n<p>\u2014 Vov\u00f4 ganhou! \u00ca vov\u00f4! \u2014 gritou o menor.<\/p>\n<p>Ele sorriu. De canto de boca.<\/p>\n<p>A esposa aproximou-se e ajeitou a gola torta da camisa velha, como se fosse poss\u00edvel prepar\u00e1-lo para subir ao palco dali mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 feliz?<\/p>\n<p>Claude olhou para a televis\u00e3o. Na tela, ainda aparecia seu nome art\u00edstico em letras grandes. CLAUDE MAYER. Abaixo, o nome do filme.<\/p>\n<p>Em algum lugar, talvez nos registros do hospital, nos boletos do plano, nos contratos antigos, nos documentos, ele continuava sendo Cleverson Moreira. Ali, naquela sala, era pai, marido, av\u00f4, distra\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, motivo de orgulho por alguns minutos.<\/p>\n<p>Pensou em Z\u00edngara, sentada na plateia, vencida, obrigada a sorrir para a vit\u00f3ria de um velho ausente. Sentiu uma satisfa\u00e7\u00e3o feia, pequena, humana. Logo depois, sentiu vergonha dela. Mas n\u00e3o muita.<\/p>\n<p>\u2014 Estou. Meu papel poderia ter sido maior \u2014 respondeu.<\/p>\n<p>Do lado de fora, o mar batia nas rochas, no escuro, indiferente a pr\u00eamio, a cinema, aos nomes e aos velhos atores que, depois de uma vida inteira representando, ainda precisavam passar no supermercado antes de voltar para casa.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Daniel Marchi, editor-executivo de Notibras, \u00e9 professor, advogado e escritor carioca.<\/strong><br \/>\n<strong>Autor de \u201cA Verdade nos Seres\u201d (poemas) e \u201cTerrit\u00f3rio do Sonho\u201d (contos, no prelo).<\/strong><br \/>\n<strong>Instagram: @prof.danielmarchi<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acompanhado da esposa, ele havia ido a uma consulta no hospital da rede do plano de sa\u00fade. Na faixa et\u00e1ria deles, o plano j\u00e1 estava bem caro. 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