{"id":394206,"date":"2026-05-10T01:15:58","date_gmt":"2026-05-10T04:15:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394206"},"modified":"2026-05-09T23:22:36","modified_gmt":"2026-05-10T02:22:36","slug":"augusto-dos-anjos-o-magro-do-pau-darco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/augusto-dos-anjos-o-magro-do-pau-darco\/","title":{"rendered":"AUGUSTO DOS ANJOS, O MAGRO DO PAU D\u2019ARCO"},"content":{"rendered":"<p data-start=\"178\" data-end=\"593\">Augusto dos Anjos nasceu num engenho. E talvez isso explique muita coisa, embora, como quase tudo nele, explique sem explicar. Nasceu no Engenho Pau d\u2019Arco, na Para\u00edba, em 20 de abril de 1884, quando o Brasil ainda sa\u00eda, meio zonzo, das velhas estruturas rurais e escravocratas, e quando a literatura brasileira parecia muito satisfeita com seus perfumes, seus m\u00e1rmores, seus cisnes e suas belas mortes decorativas.<\/p>\n<p data-start=\"595\" data-end=\"715\">Pois veio aquele menino magro, de nome comprido \u2014 Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos \u2014 e resolveu estragar o sal\u00e3o.<\/p>\n<p data-start=\"717\" data-end=\"1242\">N\u00e3o de prop\u00f3sito, talvez. Ou talvez sim. Com os poetas, nunca se sabe. Principalmente com os que parecem trazer no rosto, antes mesmo da obra, uma esp\u00e9cie de aviso. \u00d3rris Soares, seu amigo, conterr\u00e2neo e primeiro grande defensor, deixou dele uma descri\u00e7\u00e3o que, lida hoje, ainda parece retirada de um retrato expressionista: Augusto era magro de uma magreza quase dolorosa, com olhos fundos, olheiras, testa descalvada, corpo estreito, andar incerto. N\u00e3o era o poeta dos sal\u00f5es. Era o poeta que parecia ter sa\u00eddo de uma febre.<\/p>\n<p data-start=\"1244\" data-end=\"1854\">E aqui j\u00e1 aparece um desses desvios de parentela que o Lado B tanto aprecia: \u00d3rris Soares, o amigo que ajudou a empurrar Augusto para a posteridade, era tio-av\u00f4 de J\u00f4 Soares. Sim, leitor, h\u00e1 sempre uma fresta brasileira por onde a literatura, o humor, a Para\u00edba, o jornalismo e a televis\u00e3o acabam se encontrando. \u00d3rris, muito antes do menino J\u00f4 aparecer para fazer gra\u00e7a diante das c\u00e2meras, j\u00e1 fazia coisa s\u00e9ria diante dos mortos: cuidava da mem\u00f3ria do amigo, organizava-lhe versos, escrevia pref\u00e1cio, defendia aquela poesia que muita gente boa, naquele tempo, achava estranha demais para ser aceita de pronto.<\/p>\n<p data-start=\"1856\" data-end=\"1891\">Estranha, ali\u00e1s, \u00e9 palavra modesta.<\/p>\n<p data-start=\"1893\" data-end=\"2360\">Augusto dos Anjos n\u00e3o chegou pedindo licen\u00e7a \u00e0 literatura. Chegou falando em verme, micr\u00f3bio, escarro, carbono, mol\u00e9cula, putrefa\u00e7\u00e3o, cad\u00e1ver, sombra, dor, decomposi\u00e7\u00e3o. No meio de uma poesia acostumada a botar luvas nas palavras, ele entrou com as m\u00e3os nuas. E, com essas m\u00e3os, mexeu no que quase ningu\u00e9m queria ver: a mat\u00e9ria pobre do corpo, o fim das ilus\u00f5es, o ego\u00edsmo humano, a mis\u00e9ria da carne, o espanto de existir dentro de um organismo condenado a apodrecer.<\/p>\n<p data-start=\"2362\" data-end=\"2837\">O curioso \u00e9 que Augusto n\u00e3o era um ignorante feroz, desses que quebram a vidra\u00e7a porque n\u00e3o conhecem a casa. Era bacharel em Direito, formado no Recife, leu filosofia, ci\u00eancia, naturalismo, evolucionismo, pessimismo alem\u00e3o, essas coisas todas que \u00e0s vezes ajudam um homem a pensar melhor e, quase sempre, a sofrer com mais m\u00e9todo. Voltou \u00e0 Para\u00edba, deu aulas, casou-se com Esther Fialho, foi tentar a vida no Rio de Janeiro. N\u00e3o consta que a vida tenha tentado muito por ele.<\/p>\n<p data-start=\"2839\" data-end=\"3428\">Era pobre. E era magro. N\u00e3o pobre de folhetim, porque essa pobreza sentimental costuma render belas frases e pouca verdade. Pobre no sentido concreto de quem precisava trabalhar, dar aulas, contar dinheiro, depender de ajuda familiar para publicar livro. O seu <strong data-start=\"3100\" data-end=\"3106\">Eu<\/strong>, lan\u00e7ado em 1912, foi custeado pelo irm\u00e3o Odilon. Teve tiragem de mil exemplares. Mil exemplares para um poeta que, depois, seria um dos mais lidos, citados, decorados, mal compreendidos e repetidos do Brasil. A posteridade, como se sabe, tem dessas grosserias: chega tarde, n\u00e3o paga os rem\u00e9dios e ainda posa de generosa.<\/p>\n<p data-start=\"3430\" data-end=\"3947\">O <strong data-start=\"3432\" data-end=\"3438\">Eu<\/strong> \u00e9 um livro \u00fanico em v\u00e1rios sentidos. \u00danico porque foi o \u00fanico volume publicado por Augusto em vida. \u00danico porque n\u00e3o parece completamente com nada antes dele. \u00danico porque ainda hoje causa uma sensa\u00e7\u00e3o curiosa: o leitor entra pensando encontrar apenas morte e descobre, por baixo daquela lama verbal, uma ansiedade brutal de vida. Augusto falava tanto de decomposi\u00e7\u00e3o porque sabia que tudo pulsa. At\u00e9 o verme, em sua poesia, trabalha. At\u00e9 o cad\u00e1ver \u00e9 movimento. At\u00e9 a mat\u00e9ria morta tem uma biografia secreta.<\/p>\n<p data-start=\"3949\" data-end=\"4479\">N\u00e3o por acaso, \u00e9 perigoso chamar Augusto apenas de \u201cpoeta da morte\u201d. O r\u00f3tulo pegou, \u00e9 pr\u00e1tico, cabe em apostila, resolve palestra de quinze minutos. Mas empobrece o homem. Augusto dos Anjos n\u00e3o era um rapaz rom\u00e2ntico acariciando caveiras \u00e0 luz de vela. Era algo mais inc\u00f4modo: um poeta que viu a vida pelo lado de dentro da carne. Onde outros encontravam rosa, ele via processo qu\u00edmico. Onde outros viam beijo, ele via instinto, ru\u00edna, hereditariedade, febre. Onde outros escreviam \u201calma\u201d, ele punha o corpo inteiro sobre a mesa.<\/p>\n<p data-start=\"4481\" data-end=\"4821\">E, no entanto, havia alma. Muita alma. Talvez por isso sua poesia sobreviva ao vocabul\u00e1rio cient\u00edfico que poderia, em m\u00e3os menores, ter virado apenas bizarria de \u00e9poca. Em Augusto, a palavra \u00e1spera ganha m\u00fasica. O termo t\u00e9cnico vira solu\u00e7o. O verme entra no soneto sem pedir desculpas e, quando se percebe, j\u00e1 est\u00e1 participando da liturgia.<\/p>\n<p data-start=\"4823\" data-end=\"5315\">H\u00e1 nele uma esp\u00e9cie de cristianismo sem conforto, uma metaf\u00edsica sem almofada, uma dor que n\u00e3o se contenta em ser bonita. Augusto n\u00e3o quer consolar ningu\u00e9m. Tamb\u00e9m n\u00e3o quer ser consolado. Parece mais interessado em registrar, com precis\u00e3o cruel, que o ser humano \u00e9 um animal vaidoso metido dentro de um destino org\u00e2nico. Talvez por isso os estudantes gostem tanto dele quando o descobrem fora das obriga\u00e7\u00f5es escolares. A adolesc\u00eancia, esse laborat\u00f3rio de ang\u00fastias, reconhece logo um parente.<\/p>\n<p data-start=\"5317\" data-end=\"5868\">Mas conv\u00e9m n\u00e3o transformar o poeta num fantasma desde o nascimento. Augusto viveu. Amou. Casou. Teve filhos. Deu aulas. Brigou. Pediu demiss\u00e3o. Mudou de cidade. Procurou emprego. Foi diretor de grupo escolar em Leopoldina, Minas Gerais. Andou pelas ruas como qualquer homem magro, talvez carregando dentro de si um barulho maior do que o corpo permitia. N\u00e3o era s\u00f3 uma caveira liter\u00e1ria. Era um professor paraibano tentando sobreviver num pa\u00eds que, ontem como hoje, costuma tratar seus professores e poetas com uma economia de afeto bastante rigorosa.<\/p>\n<p data-start=\"5870\" data-end=\"6217\">Em 1914, foi para Leopoldina. Ali, naquele peda\u00e7o de Minas, a vida lhe reservou o \u00faltimo cap\u00edtulo. Morreu em 12 de novembro daquele ano, aos trinta anos, v\u00edtima de pneumonia. Trinta anos. Idade em que muitos ainda est\u00e3o escolhendo o tom da pr\u00f3pria voz, Augusto j\u00e1 havia deixado a sua inteira, definitiva, inc\u00f4moda, reconhec\u00edvel \u00e0 primeira dentada.<\/p>\n<p data-start=\"6219\" data-end=\"6693\">Morrer jovem ajuda a lenda, \u00e9 verdade. Mas nem toda morte jovem fabrica um autor. O que sustentou Augusto n\u00e3o foi a pneumonia, nem a magreza, nem a pobreza, nem o retrato sombrio. Foi a obra. Uma obra que parecia feia demais para os delicados e filos\u00f3fica demais para os apressados. Da\u00ed a import\u00e2ncia de \u00d3rris Soares. O amigo entendeu que ali havia mais do que extravag\u00e2ncia. Havia t\u00e9cnica, forma, coragem verbal, pensamento. Havia um poeta que o Brasil ainda n\u00e3o sabia ler.<\/p>\n<p data-start=\"6695\" data-end=\"7074\">Depois da morte, como costuma acontecer com os que incomodam bem, Augusto foi sendo adotado por sucessivas gera\u00e7\u00f5es. Uns o leram como pessimista. Outros como cientificista. Outros como pr\u00e9-modernista. Outros como simbolista extraviado, parnasiano contaminado, expressionista antes da hora, fil\u00f3sofo de necrot\u00e9rio, m\u00edstico do carbono. Tudo isso ajuda um pouco. Nada disso resolve.<\/p>\n<p data-start=\"7076\" data-end=\"7499\">Augusto dos Anjos permanece porque continua escapando. Est\u00e1 no livro escolar, mas n\u00e3o cabe na escola. Est\u00e1 nas academias, mas parece desconfiar delas. Est\u00e1 na boca do povo, mas nunca virou f\u00e1cil. H\u00e1 versos seus que muita gente sabe de cor sem talvez saber exatamente por que os sabe. \u00c9 que Augusto tem esse dom raro: suas palavras d\u00e3o a impress\u00e3o de terem sido arrancadas de uma parte do corpo que n\u00e3o aparece nos retratos.<\/p>\n<p data-start=\"7501\" data-end=\"7918\">O velho escriba que vos fala confessa certa simpatia por esses autores que n\u00e3o se deixam pentear. A literatura brasileira precisa deles. De tempos em tempos, quando tudo parece arrumado demais, vem um magro do Pau d\u2019Arco, pobre, nervoso, professor, bacharel, doente de mundo, e lembra que a poesia tamb\u00e9m pode nascer do feio, do lodo, do laborat\u00f3rio, do cemit\u00e9rio, da sala de aula, do micr\u00f3bio, da ang\u00fastia e da fome.<\/p>\n<p data-start=\"7920\" data-end=\"8365\">Augusto morreu em Leopoldina. Mas o seu <strong data-start=\"7960\" data-end=\"7966\">Eu<\/strong>, esse pronome pequeno e imenso, continuou andando. Saiu do engenho, atravessou a Para\u00edba, passou pelo Recife, pelo Rio, por Minas, pelas m\u00e3os de \u00d3rris, pelas edi\u00e7\u00f5es sucessivas, pelos estudantes, pelos professores, pelos leitores de madrugada. E ainda hoje, quando algu\u00e9m abre o livro, l\u00e1 est\u00e1 ele, magro e inteiro, perguntando ao leitor se este tem coragem de olhar para dentro da pr\u00f3pria mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..<\/p>\n<p><strong>Cassiano Cond\u00e9, 82, ga\u00facho, deixou de teclar reportagens nas reda\u00e7\u00f5es por onde passou. Agora finca os p\u00e9s nas areias da Praia do Cassino, em Rio Grande, onde extrai p\u00e9rolas que se transformam em cr\u00f4nicas.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Augusto dos Anjos nasceu num engenho. 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