{"id":394279,"date":"2026-05-11T02:00:56","date_gmt":"2026-05-11T05:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394279"},"modified":"2026-05-10T15:50:55","modified_gmt":"2026-05-10T18:50:55","slug":"poesia-interrompida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/poesia-interrompida\/","title":{"rendered":"Poesia interrompida"},"content":{"rendered":"<p>Era um plant\u00e3o tranquilo, tanto \u00e9 que a equipe decidiu dividir os policiais em turnos para o atendimento no balc\u00e3o, que, \u00e0quela hora da madrugada, era nenhum. Tentei apaziguar o t\u00e9dio com a leitura de poesias, mas o telefone tocou. Minha mente dizia que deveria ser algu\u00e9m incomodado com o barulho provocado por um vizinho barulhento ou, ent\u00e3o, querendo saber se um parente estaria preso. Estava errada.<\/p>\n<p>\u2014 34\u00aa Delegacia de Pol\u00edcia, agente Agatha Poirot, boa noite.<\/p>\n<p>\u2014 Boa noite. Preciso informar um feminic\u00eddio.<\/p>\n<p>Pois \u00e9, nada de vizinhos inconvenientes ou algu\u00e9m que quisesse saber se o filho, o marido ou um primo estava atr\u00e1s das grades. A comunicante, que se identificou como Luciana, 16 anos, disse que o autor havia fugido.<\/p>\n<p>\u2014 Mas voc\u00ea presenciou o feminic\u00eddio?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Algu\u00e9m viu?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 E como voc\u00ea sabe que foi um feminic\u00eddio?<\/p>\n<p>\u2014 A minha m\u00e3e est\u00e1 morta, e foi o meu pai que a esfaqueou.<\/p>\n<p>Depois de pegar as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, acordei a equipe e comuniquei o fato ao delegado Rupereta. Ele determinou que o agente Jean Paul e eu f\u00f4ssemos at\u00e9 o local, um luxuoso condom\u00ednio. Ao chegarmos, fomos recebidos por Luciana, cuja express\u00e3o blas\u00e9 me causou certo desconforto. No canto, um rapaz, sentado no meio-fio, chorava copiosamente. Alguns anos mais velho, soube que era o outro filho da v\u00edtima.<\/p>\n<p>Luciana nos levou at\u00e9 o andar de cima, onde estava o corpo de Mirian 41 anos. Vestida com uma camisola, caso n\u00e3o fosse por um filete de sangue entre os seios, algu\u00e9m poderia dizer que estivesse dormindo e, n\u00e3o duvido, sonhando com algum lugar tranquilo, um riacho, uma mata, cantos de passarinhos, talvez at\u00e9 com o Para\u00edso.<\/p>\n<p>Jean Paul puxou o ar de modo que pude sentir que, de alguma forma, ele carregava resqu\u00edcio de culpa. Meu colega \u00e9 um sujeito decente, n\u00e3o sabe exatamente o que n\u00f3s mulheres sentimos, por\u00e9m duvido que seria capaz de algo do tipo. Ele me olhou por alguns instantes, como se querendo dizer algo, depois baixou os olhos.<\/p>\n<p>\u2014 Jean, o Dr. Rupereta pediu para um de n\u00f3s levar a Luciana para ser ouvida. Melhor ir voc\u00ea, vou ficar aqui aguardando a per\u00edcia.<\/p>\n<p>Os peritos chegaram ap\u00f3s quase uma hora, momento em que desci e me dirigi \u00e0 entrada da propriedade. L\u00e1 estava o filho de Mirian, encolhido, como se n\u00e3o acreditasse naquela situa\u00e7\u00e3o. Quanto sofrimento.<\/p>\n<p>Perto do amanhecer, os pais, a irm\u00e3 e o irm\u00e3o da v\u00edtima chegaram. Enquanto o senhor se mantinha firme, os tr\u00eas choraram abra\u00e7ados ao rapaz, que continuava sentado no meio-fio ao lado do port\u00e3o da mans\u00e3o. O idoso, alto, esguio, bigode aparado, aparentava algo entre 75 e 80 anos. Ele se aproximou de mim.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Com um gesto de cabe\u00e7a, l\u00e1bios apertados, concordei. Ele prosseguiu.<\/p>\n<p>\u2014 E eu preciso me manter firme. Algu\u00e9m precisa segurar o leme. Do contr\u00e1rio, minha fam\u00edlia n\u00e3o passar\u00e1 por essa tempestade.<\/p>\n<p>Luiz, esse era o nome daquele homem, ficou ali, de p\u00e9, ao meu lado, sentindo o desespero dos seus, sem poder demonstrar. O sil\u00eancio, aprendi naquele momento, pode ser mais doloroso do que qualquer som produzido por nossa garganta. Foi quando a viatura chegou, a porta do passageiro se abriu, Luciana desceu. Ela caminhou em minha dire\u00e7\u00e3o, quando a tia foi ao seu encontro. A poucos passos, a adolescente desabou nos bra\u00e7os da parenta e urrou como um animal que acabara de perder tudo. Meus olhos se encheram de l\u00e1grimas, fui para o lado do muro e chorei.<\/p>\n<p>Sa\u00ed do plant\u00e3o naquela manh\u00e3 com parcela de dor daquela gente. J\u00e1 no meu apartamento, entrei debaixo do chuveiro, como se desejasse que a \u00e1gua levasse embora toda aquela trag\u00e9dia. Quando j\u00e1 era perto do meio-dia, Jean Paul me ligou.<\/p>\n<p>\u2014 Voc\u00ea t\u00e1 sabendo?<\/p>\n<p>\u2014 O qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 O marido daquela mulher de hoje se matou.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o.<\/p>\n<p>Nem tive curiosidade de saber como o cretino havia tirado a pr\u00f3pria vida, o que n\u00e3o impediu que meu colega me revelasse.<\/p>\n<p>\u2014 Agatha, voc\u00ea acredita que o cara estava na estrada e jogou o carro na frente de um caminh\u00e3o? E o desgra\u00e7ado, al\u00e9m de morrer, acabou matando o motorista do caminh\u00e3o.<\/p>\n<p>Por que essas coisas acontecem? Bem, creio que todos sabemos, mesmo que, n\u00e3o raro, prefiramos fingir. Isso ocorreu h\u00e1 tantos anos, mas ainda hoje o rosto daquela quase menina, antes g\u00e9lido, depois puro vulc\u00e3o, n\u00e3o me sai da mente. E a d\u00favida, a d\u00favida se aquele homem teve a sua hora de chorar.<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era um plant\u00e3o tranquilo, tanto \u00e9 que a equipe decidiu dividir os policiais em turnos para o atendimento no balc\u00e3o, que, \u00e0quela hora da madrugada, era nenhum. Tentei apaziguar o t\u00e9dio com a leitura de poesias, mas o telefone tocou. 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