{"id":394490,"date":"2026-05-13T02:00:56","date_gmt":"2026-05-13T05:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394490"},"modified":"2026-05-12T21:29:51","modified_gmt":"2026-05-13T00:29:51","slug":"o-torcedor-que-encurralou-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/o-torcedor-que-encurralou-deus\/","title":{"rendered":"O torcedor que encurralou Deus"},"content":{"rendered":"<p>Valdir imaginou que descia a Serra de Petr\u00f3polis, tamanho o nevoeiro que tomava conta da estrada. Todavia, caminhava, como se alheio aos perigos que, porventura, estivesse \u00e0 espreita. O temor n\u00e3o o acompanhava, apesar de nunca ter sido corajoso. De repente, olhos arregalados, estacou ao ouvir uma voz grave.<\/p>\n<p>\u2014 Alto l\u00e1, meu amigo!<\/p>\n<p>Tentou encontrar o dono daquele som, entre bar\u00edtono e baixo. Tentou afastar a n\u00e9voa com as m\u00e3os. A mesma voz prosseguiu.<\/p>\n<p>\u2014 Alto l\u00e1, Valdir!<\/p>\n<p>\u2014 Quem \u00e9? Eu te conhe\u00e7o?<\/p>\n<p>Antes que pudesse ouvir a resposta, a neblina baixou, quando surgiu um homem parrudo, calvo, barba arredonda.<\/p>\n<p>\u2014 Sou Pedro.<\/p>\n<p>\u2014 Pedro?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, j\u00e1 fui chamado de Sim\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Tu t\u00e1 querendo me dizer que tu \u00e9 S\u00e3o Pedro?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, Valdir.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que ele percebeu que aquele homem carregava em uma das m\u00e3os uma enorme chave.<\/p>\n<p>\u2014 Se tu \u00e9 mesmo S\u00e3o Pedro, por favor, v\u00e1 chamar Deus.<\/p>\n<p>\u2014 Deus?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, isso mesmo. Ou ser\u00e1 que ele anda ocupado demais para receber um dos seus filhos?<\/p>\n<p>S\u00e3o Pedro co\u00e7ou o queixo, mediu aquele sujeito petulante de cima a baixo.<\/p>\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o d\u00e1.<\/p>\n<p>\u2014 Como \u00e9 que \u00e9, meu brother? Agora n\u00e3o d\u00e1?<\/p>\n<p>\u2014 Agora n\u00e3o d\u00e1!<\/p>\n<p>\u2014 Eu sabia!<\/p>\n<p>\u2014 Sabia o qu\u00ea?<\/p>\n<p>\u2014 Essa conversa de onipresente \u00e9 conversa fiada.<\/p>\n<p>\u2014 Dobre essa l\u00edngua pra falar de Deus!<\/p>\n<p>\u2014 Hum! Aqui voc\u00eas tamb\u00e9m t\u00eam Congresso Nacional, ou melhor, Celestial? E, pelo visto, n\u00e3o deve ser f\u00e1cil negociar com os deputados e senadores.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2014 Hum&#8230; Quer dizer, ent\u00e3o, que Deus \u00e9 o mandachuva por aqui?<\/p>\n<p>\u2014 Daqui e de todo o universo.<\/p>\n<p>\u2014 Ent\u00e3o, por obs\u00e9quio, quero ter um dedo de prosa com Ele. Pode ser ou t\u00e1 dif\u00edcil?<\/p>\n<p>\u2014 Ah, Valdir, entre e se acomode naquela cadeira ali.<\/p>\n<p>Valdir olhou para tr\u00e1s e, mesmo desconfiado, entrou no Reino dos C\u00e9us e se sentou na cadeira indicada por S\u00e3o Pedro.<\/p>\n<p>\u2014 Ele vai demorar?<\/p>\n<p>\u2014 Ele quem?<\/p>\n<p>\u2014 U\u00e9, Deus!<\/p>\n<p>Sem alternativa e com \u00e2nimo de encher o fanfarr\u00e3o de sopapos, S\u00e3o Pedro ouviu uma voz ainda mais grave do que a sua:<\/p>\n<p>\u2014 Calma, Pedro, olha o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Era Deus, que se aproximava a passos largos. Em seguida, a Divindade se postou diante do Valdir, que logo o reconheceu.<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9 Deus, n\u00e9!?<\/p>\n<p>\u2014 Sim, meu filho. O que voc\u00ea deseja saber?<\/p>\n<p>\u2014 U\u00e9, Tu n\u00e3o \u00e9 onisciente?<\/p>\n<p>\u2014 Me pegou! Pois bem, sou, mas de vez em quando gosto que meus filhos me surpreendam.<\/p>\n<p>Valdir observou as express\u00f5es de Deus, talvez tentando encontrar um vacilo. Nada. Deus parecia sincero.<\/p>\n<p>\u2014 Vejo que voc\u00ea teve uma vida dura l\u00e1 embaixo. Sei que, de vez em quando, perco a m\u00e3o e permito que alguns dos meus filhos sofram al\u00e9m da conta. Voc\u00ea nasceu em Caxias, terra de Gon\u00e7alves Dias, foi entregue pelas m\u00e3os de sua m\u00e3e a uma tia, que o levou de navio para o Rio de Janeiro. Cresceu longe dos seus, chorava todas as noites, at\u00e9 que a dor passou a ser a sua melhor companhia. Casou, teve um filho, depois sua m\u00e3e ficou doente, o que a consci\u00eancia o obrigou a fazer a viagem de volta para sua terra natal. Enquanto cuidava de sua m\u00e3e, soube que sua esposa o traiu com outro homem. Abandonado, acabou se envolvendo com uma mo\u00e7a, com quem teve um filho, mas que s\u00f3 assumiu depois de mais de 40 anos. Tamb\u00e9m conheceu outra mulher em Caxias, com quem se casou, teve tr\u00eas filhos, enfrentou a pobreza com dignidade, foi para Bras\u00edlia tentar a sorte. Teve o azar de ter c\u00e2ncer por duas vezes. Arrancou da pr\u00f3pria carne, passou por tratamentos que o enfraqueceram. Resiliente, a dor continuou ao seu lado, at\u00e9 que ontem respirou pela \u00faltima vez. Longe da fam\u00edlia, a dor finalmente o deixou em paz. E agora est\u00e1 aqui comigo, meu filho.<\/p>\n<p>Valdir escutou o resumo de sua exist\u00eancia na Terra, mas algo o incomodava. Deus percebeu o olhar distante do sujeito e, ent\u00e3o, tocou-lhe o ombro.<\/p>\n<p>\u2014 O que foi, meu filho?<\/p>\n<p>\u2014 E o Vasco?<\/p>\n<p>\u2014 O Vasco?<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9, Deus, e o Vasco?<\/p>\n<p>\u2014 Bem, Valdir, o Vasco continua l\u00e1 em S\u00e3o Janu\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u2014 Hum! Mas estamos sem o Roberto h\u00e1 um tempinho.<\/p>\n<p>\u2014 O Dinamite?<\/p>\n<p>\u2014 E tem outro?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o. Voc\u00ea tem raz\u00e3o. At\u00e9 tentei fazer outro, mas perdi a forma. Deve estar embaixo daquela pilha ali de pernas de pau. Uma hora acho!<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9 Vasco, Deus?<\/p>\n<p>\u2014 Bem, voc\u00ea sabe, n\u00e9? N\u00e3o posso falar assim de bate-pronto&#8230;<\/p>\n<p>\u2014 Num acredito nisso, Deus!<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o acredita no qu\u00ea, meu filho?<\/p>\n<p>\u2014 Tu vai ficar mesmo no muro? Pois diga logo que \u00e9 Botafogo, Flamengo, Fluminense, Palmeiras ou Corinthians.<\/p>\n<p>\u2014 Olha, Valdir, at\u00e9 que criei um tal Anjo das Pernas Tortas a\u00ed, que era a Alegria do Povo&#8230; Bem, confesso que fiquei tentado a ser torcedor do Botafogo, mas n\u00e3o sucumbi.<\/p>\n<p>\u2014 Tu \u00e9 Vasco?<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Bem, quer dizer&#8230;<\/p>\n<p>Valdir, quase se decepcionando com Deus, segurou o choro, quando Ele, com aquele vozeir\u00e3o emprestado do Cauby Peixoto, protestou.<\/p>\n<p>\u2014 Vasco, n\u00e3o! Vasc\u00e3o!!!<\/p>\n<p><strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026<\/strong><\/p>\n<p><strong>Eduardo Cesario-Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201957 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor Muito Velho\u2019 (Vencedor do Pr\u00eamio Liter\u00e1rio Clarice Lispector \u2013 2025 na categoria livro de contos).<\/strong><\/p>\n<p><strong>Compre aqui<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\"><strong>https:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Valdir imaginou que descia a Serra de Petr\u00f3polis, tamanho o nevoeiro que tomava conta da estrada. 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