{"id":394735,"date":"2026-05-16T01:15:12","date_gmt":"2026-05-16T04:15:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=394735"},"modified":"2026-05-14T11:37:22","modified_gmt":"2026-05-14T14:37:22","slug":"tio-pereira-e-as-veias-abertas-da-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tio-pereira-e-as-veias-abertas-da-america-latina\/","title":{"rendered":"Tio Pereira e as veias abertas da Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"<p>Pensem num sujeito ateu, her\u00e9tico, ac\u00e9tico, niilista, descrente e irreverente. Esse era o tio Pereira. Se estivesse batendo um prego e o martelo escapando atingisse seu dedo, podia-se esperar, al\u00e9m dos previs\u00edveis palavr\u00f5es, uma meia d\u00fazia de blasf\u00eamias contra a moral e a religi\u00e3o. Isso tudo, do meu ponto de vista, n\u00e3o revelava falha de car\u00e1ter, mas sim tra\u00e7os essenciais de sua admir\u00e1vel personalidade.<\/p>\n<p>Antes de continuar, um detalhe sobre o nosso \u201cparentesco\u201d: ele n\u00e3o era meu tio de sangue, como se diz, mas casado h\u00e1 quase 50 anos com uma tia da minha primeira mulher por meio de quem o conheci, no in\u00edcio do relacionamento, e nos simpatizamos mutuamente logo nos primeiros contatos.<\/p>\n<p>Pois ent\u00e3o, era essa figura exc\u00eantrica e singular. Ao mesmo tempo neurast\u00eanico e bem-humorado. Diante de perguntas idiotas, respondia com um misto de esc\u00e1rnio e irrita\u00e7\u00e3o com frases absurdas, emulando aquele antigo personagem humor\u00edstico da televis\u00e3o, repetia seu bord\u00e3o: &#8211; \u201cTenha paci\u00eancia, Pedro B\u00f3\u201d \u2013 e complementava com uma risada discreta, mas sarc\u00e1stica.<\/p>\n<p>Um exemplo emblem\u00e1tico daquela velha m\u00e1xima da \u201catra\u00e7\u00e3o entre os opostos\u201d, eu, ainda bem jovem, meio sem gra\u00e7a, t\u00edmido, com uma razo\u00e1vel forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3, heran\u00e7a de fam\u00edlia, cumpridor dos deveres e dos preceitos morais, em resumo, o arqu\u00e9tipo do bom mo\u00e7o, e ele, a encarna\u00e7\u00e3o do malandro bem vivido, nos tornamos bons companheiros.<\/p>\n<p>O velho Pereira, al\u00e9m do mais, dotado de grande intelig\u00eancia, criatividade, mal\u00edcia e experi\u00eancia, era tamb\u00e9m dono de m\u00faltiplas habilidades: jardineiro, ex\u00edmio cuidador de samambaias e heras, com as quais costumava presentear familiares e amigos; zeloso com os animais, em especial os passarinhos, colecionados em mais de uma d\u00fazia de gaiolas pelo quintal da casa, e de seus dois gatos, animais cuja natureza melhor combinava com seu jeito de ser. Costumava conversar tanto com as plantas como com os bichos de estima\u00e7\u00e3o, fato curioso, pois apesar de sua proverbial descren\u00e7a em quase tudo, acreditava que compreendiam sua linguagem.<\/p>\n<p>Era tamb\u00e9m o popular faz-tudo; eletricista, encanador, pedreiro, pintor, marceneiro, especialista em telhados etc. \u2013 por isso ao in\u00edcio citei o exemplo do \u201cprego e do martelo\u201d, algo que acontecia com certa frequ\u00eancia. Algum parente, amigo, vizinho ou conhecido, precisando de um conserto ou manuten\u00e7\u00e3o, fosse o que fosse, era s\u00f3 chamar, o Pereira estava sempre pronto a resolver o problema, sem cobrar um centavo.<\/p>\n<p>Um grande frasista, repetia sempre em tom filos\u00f3fico: \u201ctodo homem \u00e9 venal, s\u00f3 \u00e9 preciso descobrir seu pre\u00e7o\u201d ou \u201co homem tem direito de tomar um barril de cacha\u00e7a durante toda sua vida, mas eu, quando mo\u00e7o, tomei o meu inteirinho e o de mais algu\u00e9m que bobeou\u201d ou ainda, \u201cn\u00e3o existe neg\u00f3cio muito bom para ambos os lados, quando um sai ganhando muito \u00e9 porque o outro teve preju\u00edzo\u201d e eu, depois de aprender muita coisa com ele, passei a complementar \u201ccaso o neg\u00f3cio seja excelente para os dois, existe sempre um terceiro, um coitado que nem aparece no contrato, mas \u00e9 quem leva a pior\u201d, com o que ele concordava.<\/p>\n<p>Era tamb\u00e9m especialista em dar o troco quando lhe aprontavam alguma. Certa vez a companhia de \u00e1gua lhe cobrou uma import\u00e2ncia absurda, como dez vezes o valor de uma conta normal. Ele tinha certeza, n\u00e3o havia nenhum vazamento na casa, pois se houvesse ele teria descoberto antes de qualquer um e providenciado o reparo, ao mesmo tempo o consumo n\u00e3o variava de um m\u00eas para o outro, moravam somente ele, a mulher, as plantas e os bichos e consumiam sempre praticamente a mesma quantidade de litros. Fez diversas reclama\u00e7\u00f5es, mas a companhia n\u00e3o se convenceu e manteve a cobran\u00e7a.<\/p>\n<p>Diante de tal intransig\u00eancia, acabou pagando, mas n\u00e3o se deu por vencido. Lan\u00e7ando m\u00e3o de seus conhecimentos, desconectou o medidor e fez a liga\u00e7\u00e3o direta, popularmente conhecida como \u201cgato\u201d. Passou a lavar o quintal todos os dias e a cal\u00e7ada em frente \u00e0 casa. N\u00e3o contente, \u00e0s vezes lavava o quintal de outras casas da rua e at\u00e9 o asfalto em frente, uma vez na semana dava uma de lavador dos carros dos vizinhos, j\u00e1 que nunca teve um. Quando avaliou que j\u00e1 havia gastado a quantidade correspondente ao valor pago, desfez a liga\u00e7\u00e3o clandestina. Nos meses seguintes a cobran\u00e7a retornou \u00e0 normalidade e nunca mais o problema se repetiu.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos, a conselho m\u00e9dico, por ter adquirido algumas complica\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, tornou-se abst\u00eamio, ou quase. Vez por outra consumia alguns copos de vinho. N\u00e3o chegava ao ponto de se embriagar totalmente, apenas ficava levemente alterado e, nessas ocasi\u00f5es, se tornava ainda mais ir\u00f4nico e mordaz.<\/p>\n<p>Teve grande participa\u00e7\u00e3o no meu processo de forma\u00e7\u00e3o e amadurecimento com seu m\u00e9todo pedag\u00f3gico \u201csui generis\u201d, e talvez inconsciente, de ensinar por meio de finas ironias e deboches escrachados. Por eu ser, \u00e0 \u00e9poca, frequentador das missas cat\u00f3licas e usar um crucifixo ao pesco\u00e7o, me chamava, por pura goza\u00e7\u00e3o, de \u201ccruzado\u201d ou \u201ccavaleiro templ\u00e1rio\u201d e n\u00e3o perdia oportunidade de me provocar enxovalhando a igreja, a qual chamava jocosamente de \u201csanta madre\u201d, lembrando sempre seu papel opressor, especialmente durante a idade m\u00e9dia e os primeiros s\u00e9culos ap\u00f3s o fim daquela era.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos grande afinidade, \u00e9 certo, mas nem por isso aliviava para o meu lado, por\u00e9m, eu sabia, fazia com a melhor das inten\u00e7\u00f5es, se \u00e9 que boas inten\u00e7\u00f5es tivessem algo a ver com seu perfil. De todo modo, n\u00e3o perdia oportunidade de conviver com ele para desfrutar de sua sabedoria obtida, n\u00e3o s\u00f3 com perspic\u00e1cia e esp\u00edrito aventureiro, bem como por sua erudi\u00e7\u00e3o, pois outra caracter\u00edstica sua era ser leitor fervoroso de livros cl\u00e1ssicos e contempor\u00e2neos de todos os g\u00eaneros e \u00e9pocas, assim como de jornais, inclusive alguns estrangeiros. Consumia desde os pr\u00e9-socr\u00e1ticos at\u00e9 as edi\u00e7\u00f5es semanais de \u201cO Pasquim\u201d.<\/p>\n<p>Aos poucos, me fez entender que no fundo eu era de esquerda, assim como me descobrir n\u00e3o propriamente ateu como ele, mas agn\u00f3stico, e abandonar a religi\u00e3o. Certa vez, como que para testar meu vi\u00e9s ideol\u00f3gico, me trouxe, por empr\u00e9stimo, um livro, rec\u00e9m liberado pela censura da ditadura militar em tempos de abertura \u201clenta, gradual e segura\u201d, presente de seu irm\u00e3o, \u201cAs Veias Abertas da Am\u00e9rica Latina\u201d, de Eduardo Galeano, recomendando-me severamente a devolu\u00e7\u00e3o assim que terminasse a leitura, mostrando orgulhoso e quase emocionado, o que tamb\u00e9m n\u00e3o combinava com ele, a dedicat\u00f3ria em uma das primeiras p\u00e1ginas:<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">\u201cA voc\u00ea, Pereira, libert\u00e1rio comuna, dedico este livro, uma aula de hist\u00f3ria essencial a qualquer um que se considere um revolucion\u00e1rio.<br \/>\nTovarische Chic\u00e3o\u201d<\/p>\n<p>Todos o rotulavam de comunista, eu, no entanto, sempre discordei, na minha opini\u00e3o estava mais para anarquista. Mas ele n\u00e3o se enquadrava em estere\u00f3tipos. Talvez at\u00e9 pudesse ter criado um movimento pr\u00f3prio: o \u201cPereirismo\u201d, mas, pensando bem, isso n\u00e3o lhe interessava, suas ideias e comportamento eram totalmente espont\u00e2neos e n\u00e3o tinha nenhuma pretens\u00e3o de converter ningu\u00e9m e muito menos angariar um s\u00e9quito de disc\u00edpulos, talvez eu tenha sido a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra, e, provavelmente, isso tenha acontecido por mero acaso.<\/p>\n<p>Ler aquele livro, por si s\u00f3, era uma experi\u00eancia fascinante, em primeiro lugar pela distin\u00e7\u00e3o de ter merecido sua confian\u00e7a ao me emprestar aquele verdadeiro tesouro e, em segundo, pela sensa\u00e7\u00e3o de ler algo que havia sido proibido pelo regime de exce\u00e7\u00e3o, me sentindo um \u201ctransgressor\u201d \u00e0 semelhan\u00e7a do meu \u201cguia\u201d. Ao mesmo tempo, encantado com as descobertas e chocado com aquelas terr\u00edveis descri\u00e7\u00f5es, das quais eu tinha um superficial conhecimento, mas os detalhes e as revela\u00e7\u00f5es, nunca mencionados nos livros did\u00e1ticos adotados pela grade curricular do ensino ginasial, me causavam ainda maior revolta e aprofundavam minha repulsa a toda pr\u00e1tica colonialista e imperialista.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pensem num sujeito ateu, her\u00e9tico, ac\u00e9tico, niilista, descrente e irreverente. Esse era o tio Pereira. Se estivesse batendo um prego e o martelo escapando atingisse seu dedo, podia-se esperar, al\u00e9m dos previs\u00edveis palavr\u00f5es, uma meia d\u00fazia de blasf\u00eamias contra a moral e a religi\u00e3o. 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